DISTORÇÃO DAS INTERACÇÕES SOCIAIS NA ORGANIZAÇÃO ESCOLA
A ausência/implementação de políticas e reformas educativas desastrosas para a Educação e Ensino a partir de 2005, com políticos de pacoticha nas últimas duas décadas, e um poder político de mulheres e homens “de Estado” sem estaleca, levou a Escola Pública ao actual estado de caos, à revolta do professorado português por perda da essencialidade docente e à distorção das interacções sociais na organização escola.
E assim vai o estado da Educação em Portugal. A Escola mais parece um “circus” em que os figurantes são os professores. Há um esvaziamento do poder e da Autoridade dos Professores. É preciso devolver a Escola aos professores. É “fac totum” histórico.
A Escola é uma organização onde as relações humanas devem ser privilegiadas. A excelência do contacto humano desenvolve-se no espaço de interacção que é a escola. A condição relacional é assumida e desenvolvida pelos diferentes actores da organização: professores, alunos, psicólogos, técnicos, funcionários, pais e encarregados de educação; cada um interage com o outro, os outros, todos com todos – Comunidade Educativa.
Carlos Calixto
Cada escola está inserida num determinado meio envolvente, havendo interacções com a comunidade educativa. O professor, uma parte do todo, pode e deve assumir o desempenho de um papel dinâmico ao nível das relações humanas na escola e na comunidade. O que cada vez mais justifica a razão de ser do professor enquanto profissional é a relação humana, a empatia e responsabilidade pelo outro, o aluno. “De facto, o professor é, sobretudo, um profissional da relação. Ser professor é ser capaz de interacção com os outros”. (Manuela Teixeira, 1995, p.161). Segundo Teixeira (Op. cit., p. 162), “(…) é relevante que o professor desenvolva o seu Ser profissional como Ser de relação”.
O clima, o contexto, as vivências da organização pelos diferentes actores, resulta de percepções subjectivas. Um relativismo enfatizado e interpretado pela experiência pessoal per si, caso a caso. As imagens, positivas versus negativas variam consoante a realidade intrínseca de cada pessoa humana enquanto sujeito e Eu, situado na organização. Podem ser positivas ou negativas, desmotivantes ou motivadoras. “(…) Nas escolas em que existe um sentido de partilha e de cooperação, hábitos de trabalho em comum, espírito de equipa, existe também, maior motivação dos diversos actores do processo educativo e maior satisfação no trabalho”. (ibidem, p. 166).
Para Teixeira (Op. cit., p. 167), “(…) as imagens que os professores têm da escola apresentam uma relação muito significativa com o modo como afirmam implicar-se na acção colectiva; ou seja, o clima parece influenciar as interacções escolares”. Na organização escolar, os actores ao intervirem estão a interagir com uma intencionalidade contextualizada `a realidade de cada escola. “(…) Intervir numa escola é interagir com pessoas, situadas num contexto determinado, sujeitos a regras de jogo específicas e cujos comportamentos têm de ser referidos à intencionalidade que lhe está subjacente”. (Alves Pinto, 1995, p. 146).
Para Alves Pinto (Op. cit., p. 148), “A escola é um sistema concreto de interacção, de trocas sociais, na medida em que é um sistema de interacção caracterizado pela singularidade”. A escola, ao ser uma organização é um espaço de interacções, de trocas sociais, de relações humanas, socializa intervindo, educando e formando para a vida em sociedade e em cidadania. Sendo o professor, único, determinante e decisivo para concretizar, inovar e transformar.
No jornal Público, no artigo de opinião intitulado: “Obrigado, professores”, António Nóvoa, defende que: “Os professores são decisivos para o nosso presente e para o nosso futuro. Nada os pode substituir. A transformação da Educação começa com os professores. Merecem o nosso respeito e gratidão”. (Nóvoa, in Público, 7/01/23).
Donde, hoje, aqui e agora mesmo, em Portugal, o ME (Ministério da Educação), está em estado de negação da centralidade e da essencialidade docente. Mais, não quer assumir a evidência de que o papel dos educadores e professores portugueses tem a nobre missão de preparar as futuras gerações com responsabilidade, tempo intelectual, competência e exigência. Mais ainda, massacra os profissionais que tutela com uma burocracia ridícula, insane e despropositada de justificação de tudo e mais alguma coisita, “bestialidade” que rouba tempo preciosíssimo de investigação e preparação de aulas, trabalho pedagógico e didáctico personalizado com os alunos e privação da interaccionalidade/interseccionalidade com os educandos, com programas enormes, redução da carga lectiva disciplinar e a não gestão/planificação flexível dos curricula. Se querem ensino experimental deem liberdade profissional/ professoral. E ainda mais, só com a motivação/ganho do professorado é possível alcançar o desiderato da mudança e da transformação. ME tem de confiar nos profissionais que tutela. Os obreiros do processo de ensino-aprendizagem, rumo ao sucesso educativo, são os professores e educadores. Sem parágrafo. Ponto final.
Os professores, têm em absoluto a preocupação da inclusão e sucesso de todos, mas mesmo todos os seus alunos, reflexo do seu trabalho dentro e fora da sala de aula. Mesmo, especial e particularmente dos 20 e tais/30% das crianças e jovens que, por dificuldades várias (sócio-económicas, psicológicas, societais em relação à ideia de escola, pessoal e familiar, sem oportunidade de explicações pagas, cognitivas, etc.), têm dificuldades acrescidas na Escola.
Donde, o professor sabe que o aluno médio é uma abstracção intelectual, distóptica, disruptiva e utópica. Não existe. Cada aluno é uma pessoa humana em concreto, única, diferente, com valor e capacidades que precisam ser exponenciadas ao máximo, com a mais valia do processo de ensino-aprendizagem. O professor, no exercício da docência, deve actuar nas margens do sistema, ter a consciência de uma socialização enriquecedora a nível cognitivo, afectivo e valorativo, dentro de uma liberdade aprisionada. O professor, um actor “mutatis mutandis” no “cenário/drama” da sala de aula, pedagogo/arquitecto criador de cabeças axiologicamente bem feitas, e “modus operandi” direccionado, personalizado.
Perdeu-se a essencialidade docente, ao desviar o foco, a atenção, e ao sonegar tempo precioso da dialéctica do processo de ensino-aprendizagem, com burocracia aberrante. Escola-depósito diariamente e a tempo inteiro dos discentes, (mais um erro paranóico-stressante enclausurar os alunos o tempo todo, provocando ansiedade) e professorado alienado em correrias e viagens ofegantes do professor-estafeta, caixeiro-viajante da intelectualidade/escolaridade apressada, “ambulat”, a caminho da próxima escola. Há uma distorção das interacções sociais na organização Escola, sendo que para haver a essencialidade relacional professor-aluno, é preciso passar tempo juntos, de pessoas humanas em mútua interacção. Haver Estabilidade! É o oposto de perda de tempo com tantas reuniões e medidinhas multiplicantes, relatórios justificativos, actas prolixas, grelhinhas, minudências e práticas burocráticas estupidificantes e infantilizantes, consumadas num pseudo-virtual sucesso educativo do analfabetismo funcional, ao arrepio da intelectualidade crítica científica, pedagógica e didáctica docente. Os professores sabem o que fazer e como actuar sociopsicopedagogicamente. Deixar acontecer o acto pedagógico. Deixar acontecer a sinapse. Deixar acontecer o Educare.
“(…) As políticas públicas têm sido fracas e desinteressantes. A Educação está sem Governo. Os processos de transformação e de metamorfose da Escola não se constroem a partir de novas Leis, reformas ou tecnologias, mas com a criação de condições para partilhar ideias e experiências, com liberdade e apoio dos poderes públicos. (…) Em Portugal, a regra tem sido a indiferença ou mesmo esquecimento, quando não alguma hostilidade, em relação aos professores. (…) Nos últimos sete anos, o melhor que se pode dizer é que houve indiferença em relação aos professores. (…) Medidas de protecção dos professores e do seu bem-estar? Nada. Disposições para facilitar e desburocratizar o dia-a-dia dos professores? Nada. Valorização das carreiras docentes? Nada”. (Nóvoa, idem).
O professorado não admite, a intelectualidade docente proíbe-o, que o Ministério da Educação transforme os educadores e professores portugueses num rebanho/carneirada mé, mé, numa subserviência/obediência “ignobilis”, incompatível com a “dignitas” da função docente. Cenário “horribilis” que rejeitamos. Repetimos que rejeitamos o embrutecimento intelectual e deontológico.
Alegadamente, “Às vezes/há alturas em que é preciso desobedecer”. (Salgueiro Maia, militar de Abril, 1974).
Chega, basta de desconsideração e afronta, espera e humilhação. Vamos acabar de vez com o estado caótico a que chegou a classe docente e a Escola Pública. Tutela e professores. “Guerra” ou paz?! O ME que decida. A Res publica (a coisa do povo/causa pública), assim o exige, em nome da Escola de todos nós, massificada e democrática. Lutar e marchar com a bandeira da justiça, razão, verdade e honra. Gritar e não parar, mesmo que a voz nos doa. Somos pessoas humanas com sentimentos, muito mal tratadas e magoadas pelo ME. Têm-nos intimidado. Têm-nos tirado tudo com iniquícia. Até o medo.
Venha de lá a Manifestação!!! Professorado, Presente!
Até parece que o ME trata o pessoal docente de forma especial, tal é a caricatura de bondade das propostas, (apenas cumpridoras da legalidade de normas europeias, acatadas tardiamente – vinculação), tal é a preocupação diletante em Não fazer. Nem queremos acreditar no “argumentum ad hominem, ad personam”. Será apenas impressão, ou algo mais (…). Fica a conjectura da (in)certeza “ad nauseam”.
Os professores não devem olhar para o que o ME diz.
Os professores devem olhar para o que o ME faz.
ME tem de respeitar a organização, o conteúdo, a duração e os limites do tempo de trabalho docente. É de assinalar a marca e a necessidade de que o trabalho professoral objectivamente se concentre no desenvolvimento da essencialidade dos processos de ensino-aprendizagem. Impõe-se a indispensabilidade de educadores e professores trabalharem a continuidade e aprofundamento das aprendizagens. Mais ainda, é preciso tempo para planificar e os docentes poderem articular a vida profissional com a vida familiar. Simplesmente ser humano e ter visão humanista. Obrigado, os professores agradecem.
“Devem eliminar-se todas as práticas que contribuam para o excesso de carga de trabalho dos docentes, nomeadamente aquelas que puderem ser evitadas em termos de planeamento e dados de avaliação sem carácter de urgência e que não tenham a ver com o desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem, bem como candidaturas e projectos que não tenham carácter inadiável e que não sejam imprescindíveis para a qualidade do processo educativo”. (FNE – Federação Nacional dos Sindicatos da Educação, Organização do Tempo de Trabalho Docente, em 27/07/2021).
Mesmo na visão moderna/contemporânea, do papel do professor, este continua a ser a peça central do mundo escolar. A essencialidade docente passa por ter tempo para a vivência lectiva e axiológica “varius educatio”, realizada na díade dialéctica professor-aluno. A escolarização/leccionação está nas antípodas da burocratização. A Escola enferma na actualidade, de uma burocracia esotérica, em tic tac implosivo, que é utopia, quimera e alquimia. A burocracia “crimina” porque tira essencialidade científica e pedagógico-didáctica à função docente. É preciso tempo para o aluno aprendedor descobrir, ouvindo o mestre. Percorrer o caminho da descoberta, orientado. Sendo que os alunos são a centralidade e o alvo do acto educativo dentro e fora da sala de aula. O professor continua sendo o centro dinâmico/placa giratória de todo o processo de ensino-aprendizagem.
O entendimento do ME da Escola ultra moderna, das pedagogias de vanguarda: avaliação holística (pedagogia participada), inclusão, equidade, integração, a totalidade em que as partes somadas são mais que o todo, são conceitos e semântica que na prática escolar, a realidade mostra não passar de vacuidade.
Há coisas que nunca mudam, pelo que não há nada de novo sobre a terra no “mundus educare”.
É facto lamentável haver casos graves de alunos que estão na Escola Pública e que deveriam estar noutro tipo de instituições, com técnicos especializados e aptos a dar melhor apoio e ajuda de verdade, e não “passar o tempo”.
E também há os alunos que infelizmente não querem trabalhar, estudar. E não há medidas “santosnas”, nem supra sumo da barbatana que o valha. Há é relatórios muito burocratizados que lá conseguem o milagreiro resultado que as medidas fazem acontecer. Surrealizante! (…)
“Se há uma coisa que nunca irá mudar é o protagonismo do professor para o bom aprendizado”. (Qual é o papel do professor no processo de ensino? Sílabe, em 28/02/2019).
“As mudanças da sociedade e o advento da tecnologia trouxeram novos desafios e novas possibilidades para o quotidiano da profissão, mas não mudaram o facto de que o professor continua sendo a peça fundamental para criar gerações mais bem preparadas para lidar com os desafios do mundo”. (idem).
“É preciso não ceder a futurismos que imaginam uma Educação sem escolas e sem professores, com as aprendizagens a realizarem-se em casa através do recurso a tecnologias cada vez mais sofisticadas. A Educação deve ser reforçada como bem público e comum, na linha do último Relatório da UNESCO: Reimaginar Juntos os Nossos Futuros – Um Novo Contrato Social da Educação”. (Nóvoa, ibidem).
As influências de luminárias do ME, com ideias muito à frente, como a “parolice saloia” de uma Educação/escolarização em desmaterialização, em que tudo é uma modernice digital, com plataformas, aplicações, projecções e PowerPoint (em que a aula tantas e tantas vezes é uma simples leitura-cábula), é mais um erro de palmatória, com práxis que nunca, jamais, substituirão o papel único, exclusivo e intemporal da acção pedagógico-didáctica do professor.
Aliás, já assistimos hoje ao facto de alunos que vão de mãos nos bolsos para as aulas, que nem caneta e papel levam e esquecem o PC, tablet. Mais, estão-se a perder hábitos saudáveis de responsabilidade e trabalho, de preocupação de preparar o material escolar para o dia seguinte, de auto-disciplina e auto-responsabilidade. Mais, vai-se perdendo auto crítica e auto reflexão. Mais, está-se a perder a Escola que real e verdadeiramente prepara, ensina e educa. Que apronta para os exames nacionais. Sendo o mais importante o que se aprende pelo caminho e não apenas o resultado final. Mais, seria interessante fazer um estudo/exames com alunos ensinados à moda antiga, escola da velha guarda versus escola ultra-modernaça. Venha de lá o “teste do algodão”. Fica o repto desafiante. O segredo do sucesso educativo está no equilíbrio do conjunto, do todo, e na vontade e disponibilidade do aluno em querer trabalhar. É esta a realidade dos factos. Como é facto que o manual escolar não é mal, nem tem mal nenhum. “Velho do Restelo”, conservadorismo; não, apenas e só bom sensus q.b., prática pedagógica e a experiência do terreno de mais de três décadas. Ouvir os colegas, reuniões nas escolas.
Uma das razões do sucesso do ensino privado, não é apenas o público-alvo dos colégios, mas também o facto da burocracia ser reduzida ao básico elementar e se ensinar “à antiga”. Reduzida expressão de projectos e experimentalismo/experiências “bacôcas/pacóvias”). Depois os resultados falam por si.
Um problema bem plasmado hoje nas escolas e que é transversal a todas, é o da diversidade: “O problema da diversidade ou de como lidar com a diversidade é comum a todas as escolas e eu digo que é «O» problema. Se há um problema é este: como lidar com a diversidade de capacidades, de aptidões”. (João Formosinho, Entrevista, Projecto do Desenvolvimento da Autonomia das Escolas).
A essencialidade docente concretiza-se na interaccionalidade relacional-intencional-dialéctica professor-aluno, e na socialização aprendizante da/na organização Escola.
Concluímos com o testemunho, mensagem no WhatsApp, de um colega e Amigo, grande profissional, que foi Director muitos anos. Sem direito a fim de semana, e que nos faz reflectir que de facto as coisas têm de mudar. Depois de uma semana de trabalho de muito mais de 35 horas, a malhar no trabalho/burocracia escolar, (não na direita, como o inefável Augusto Santos Silva, alegadamente, diz gostar). E já agora, relembrar que nos últimos 18 anos os Governos têm dado malho, malhado e bem, nos educadores e professores portugueses.
Citando (sic). “Bom dia amigo. Só agora, a beber um café em casa, tive oportunidade de ler o teu grande artigo – O Clamor dos Professores. Gostei imenso, pois descreveste tudo sobre a nossa revolta. Ainda ontem entrei às 8 horas na escola e saí às 18.30 minutos. Tenho 61 anos!! Não se aguenta este horário (…) e acta para fazer no fim de semana, um PEI de uma aluna NEE e preparação de uma reunião ainda. Já nem digo preparar aulas. Onde vamos parar?? Esta é a vida normal de qq (qualquer) docente! Não pode (…) É esta a nossa força. Todos cansados, mas lá vamos para Lx (Lisboa) pela 3ª vez. Mais um sábado das nossas vidas. Mas tem q (que) ser”.
Confesso que foi difícil segurar as lágrimas; neste momento emotivo em que escrevo, lacrimejo. Determinados lá estaremos, “invictus”, (nunca vencidos).
OBRIGADO F.C., Grande Abraço.
ABRAÇÃO a todas e a todos os colegas, heroínas e heróis de um tempo determinado que vem chegando.
CCX.




















