Muitas das decisões sobre educação parecem ser tomadas demasiado longe da vida real das escolas. Quem define orientações, metas, cargas e exigências raramente sente o peso concreto de uma sala cheia, de um aluno em crise, de uma pilha de relatórios e de uma reunião difícil com famílias no fim de um dia já esgotado.

Francamente, custa-me aceitar que se legisle tanto sobre o que não se conhece por dentro. Parece-lhe descabido dizer que qualquer responsável máximo pela educação devia passar um ano inteiro no ensino público, a sério, e em vários níveis de ensino, antes de decidir o destino de quem lá trabalha?

Pela experiência que tenho acumulado como formador e licenciado em Psicologia, e por andar constantemente de escola em escola, há uma ideia que se confirma vezes sem conta: o problema da educação não está apenas no 1.º ciclo e no pré-escolar, embora nesses níveis seja mais fácil vê-lo a olho nu.

O desgaste espalhou-se por todo o sistema.

Do que vou ouvindo no terreno, o professor de hoje já não é apenas alguém que ensina. Organiza turmas, trata de matrículas, responde a exigências administrativas, elabora relatórios, sobretudo quando é diretor de turma, gere conflitos, tenta articular com famílias e ainda segura emocionalmente contextos cada vez mais complexos. Há dias, um professor dizia-me que sente que passa o dia inteiro a apagar fogos e a tentar, no meio deles, dar uma boa aula. E isso resume muita coisa.

Aquilo que me chega, de norte a sul do país, é uma sensação de saturação profunda. Turmas grandes, contextos inclusivos exigentes, alunos com necessidades muito distintas, ritmos diferentes, fragilidades emocionais, dificuldades cognitivas e, demasiadas vezes, pouco apoio concreto. Defendo isto com convicção: há uma enorme diferença entre decretar inclusão e criar condições reais para ela existir. Sem recursos humanos, sem formação verdadeiramente prática e sem tempo, a inclusão corre o risco de se transformar numa palavra bonita a pousar em cima de uma realidade exausta.

Dito isto, também considero importante afirmar algo que nem sempre é cómodo: os professores não são os culpados deste sistema, mas continuam a ter margem para crescer em aspetos decisivos. Podem fortalecer a forma como comunicam sob pressão. Podem trabalhar melhor a firmeza sem agressividade. Podem afinar a gestão emocional para não deixarem que o cansaço lhes roube a clareza. Podem ser mais consistentes nos limites e mais intencionais na cooperação entre colegas. Nem tudo depende deles, evidentemente. Mas há uma parte que ainda depende. E essa parte, quando é cuidada, protege a autoridade, a saúde mental e a qualidade da presença em sala.

Daquilo que observo, as respostas sérias têm de ser muito menos cosméticas. É preciso cortar burocracia de forma corajosa. É preciso reduzir o número de alunos nas turmas mais exigentes. É preciso garantir apoio especializado visível e útil nas salas inclusivas. É preciso dar formação aplicável no dia seguinte, não sessões simpáticas para cumprir calendário. E é preciso aproximar violentamente os decisores da realidade concreta da escola pública.

Recentemente, ouvi um professor dizer-me uma frase dura e honesta: “nós ainda queremos fazer bem, mas estamos cansados de fingir que isto é normal”. E talvez seja esse o ponto central. Isto não é normal. Não devia ser tratado como normal. E um país que habitua os seus professores ao excesso acaba, mais cedo ou mais tarde, por ensinar às crianças/jovens  uma lição perigosa: a de que cuidar do essencial pode sempre esperar.

A minha leitura é simples: muitos professores estão a carregar peso a mais há tempo demais…quando um sistema exige resistência sobre-humana para cumprir o básico, o problema agiganta-se.

Alfredo Leite