Não sou eu quem o diz. Quem o disse, implicitamente, foi o próprio Ministro Fernando Alexandre, a propósito do debate sectorial, ocorrido na Assembleia da República no passado dia 1 de Abril:
– “O ministro afirmou que os números anteriormente divulgados estavam “profundamente errados” e garantiu que, após revisão dos dados, o número de horários por preencher é residual. Segundo explicou, existem ainda 488 horários por ocupar, dos quais cerca de 260 correspondem a horários completos, representando entre 0,2% e 0,4% do total.”(Notícias SAPO, em 1 de Abril de 2026).
– “Fernando Alexandre sublinhou também que há escolas com professores em excesso, defendendo uma melhor redistribuição de recursos humanos. “Quando há escolas com professores a mais, estes professores fazem falta noutras escolas”, afirmou.” (Notícias SAPO, em 1 de Abril de 2026).
Note-se que o Ministro que anda há, pelo menos um ano, a empatar e a adiar a divulgação do número oficial de alunos sem aulas, é o mesmo que veio agora assegurar que, afinal, os números anteriormente divulgados estavam profundamente errados, que os horários por preencher são meramenteresiduais e que até há escolas com docentes em excesso.
Depois das declarações anteriormente citadas, não restará ao Ministro outra alternativa que não seja a de comprovar, factualmente, os dados apresentados por si, mostrando a todos as evidências que sustentam a sua alegada razão. A responsabilidade inerente ao facto de ser Titular da Pasta da Educação assim o impõe.
Em particular, aguarda-se pela fundamentação que permitiu afirmar que “os números anteriormente divulgados estavam profundamente errados” e pelo elenco das escolas onde existirá excesso de Professores.
Urge, igualmente, outro esclarecimento da parte do Ministro e que se prende com a atribuição de horas extraordinárias aos Professores.
Em 22 de Dezembro de 2025, numa entrevista concedida ao Jornal ECO, Fernando Alexandre reconheceu a importância da atribuição de horas extraordinárias, para colmatar o problema dos alunos sem aulas:
– “Por ano, estamos a gastar mais de 20 milhões de euros em horas extraordinárias. Isto é um esforço grande dos professores, obviamente, mas também há uma distribuição grande. Ou seja, a maior parte dos professores está a dar três, quatro horas a mais. É isso que está a dar.”
Tomando em consideração o anterior, pergunta-se:
– A contabilidade agora apresentada por Fernando Alexandre considerou ou não a atribuição de horas extraordinárias, a praticamente todos os Professores? Essa atribuição de horas extraordinárias é ou não vista por si como um “novo normal”e, assim sendo, passará a ser algo recorrente e corriqueiro?
Já se perdeu o conto ao número de pessoas que trabalham naÁrea da Educação, mas não só, que nos últimos tempos temvindo a terreiro considerar que a falta de Professores deixou de ser um problema pontual, para passar a ser iminentemente estrutural.
Por um lado, custa acreditar que tantas pessoas possam estar equivocadas; por outro, quem, no dia-a-dia, conhece a realidade das escolas, não poderá deixar de ficar, no mínimo, perplexo, perante os dados agora apresentados pelo Ministro Fernando Alexandre.
Ainda assim, neste momento, parece que existem dois cenários, em termos teóricos:
– Se o Ministro Fernando Alexandre conseguir comprovar cabalmente os dados apresentados por si no dia 1 de Abril passado, isso significará que acabou a falta de Professores ou,até, que a mesma, afinal, nunca existiu. Quem a considerou como uma realidade, estava equivocado.
– Se o Ministro Fernando Alexandre não conseguir comprovar cabalmente os dados apresentados no dia 1 de Abril passado,dará, obviamente azo, a que se questionem a honestidade intelectual, a ética e a transparência da sua acção governativa.
A palavra de um Ministro é muito importante, mas tem que ser coerente com os dados que a realidade providencia.
No caso presente, e dada toda a controvérsia que tem sido suscitada pelas inúmeras discussões à volta da falta de Professores, a palavra do Ministro Fernando Alexandre não poderá deixar de se fazer acompanhar por provas concretasque sustentem as suas mais recentes alegações. A credibilidade da sua acção governativa também dependerádisso.
Espera-se naturalmente que não tenha havido a intenção de, em troca da recuperação do tempo de serviço, pretender queos Professores se mostrem disponíveis para aceitar e suportartudo o que lhes queiram impor, como horas extraordinárias até à exaustão e a continuidade de catadupas de tarefas burocráticas.
A única certeza que neste momento existe é que alguém estará equivocado:
– Ou os que advogam a falta de Professores como um problema estrutural, entre os quais me incluo; ou o Ministro Fernando Alexandre, cujos dados apresentados recentemente alegam o contrário.
Veremos o que a realidade terá a dizer…
E que provas serão apresentadas pelo Ministro…
Paula Dias