98% dos professores do 1.º ciclo e educadores de infância estão exaustos?? – Alfredo Leite

Quando aparece uma notícia a dizer que 98% dos professores do 1.º ciclo e educadores de infância estão exaustos, indignados e sobrecarregados, a reação das pessoas costuma dividir-se.

E isso, por si só, já diz muito sobre o problema.

Há quem olhe para esta realidade e pense imediatamente: claro.

Basta entrar numa escola, observar a intensidade do trabalho diário e perceber que estes profissionais vivem no cruzamento de quase todas as pressões do sistema. Ensinam, regulam comportamentos, acolhem emoções, lidam com conflitos, adaptam estratégias, preenchem relatórios, falam com famílias, respondem a exigências institucionais e ainda tentam manter humanidade no meio disto tudo…

Para muitas pessoas, a exaustão destes profissionais não surpreende.

Mas existe também um segundo grupo, muito comum, que concorda com a ideia, embora a relativize. São aquelas pessoas que dizem: sim, estão cansados, mas hoje toda a gente está cansada.

É uma resposta meio empática, meio defensiva. Reconhece o problema, mas dilui-o. Como se o facto de haver cansaço em muitas profissões reduzisse a gravidade do que se passa na educação. Não reduz.

Porque no pré-escolar e no 1.º ciclo o desgaste tem uma particularidade: acontece precisamente nos contextos onde se constrói a base emocional, relacional e cognitiva !

Quando quem está a segurar essa base está no limite, o problema deixa de ser “apenas laboral”, passa  a ser social.

Depois há quem reaja com desconfiança ou até irritação, sabia?!

Este grupo tende a achar que os professores se queixam demais, que têm regalias, que têm horários melhores do que outras profissões ou que a profissão sempre foi exigente.

O erro aqui, a meu ver,  é olhar de fora para a escola, com memória de outros tempos.

A profissão mudou muito. Hoje, um docente é também regulador emocional, gestor de conflitos, mediador familiar, técnico de adaptação pedagógica, intérprete de comportamentos difíceis e, muitas vezes, alvo direto da frustração de um sistema que pede cada vez mais e organiza cada vez pior.

Olhar para esta profissão com categorias de há trinta anos é como avaliar um “telemóvel” atual como se ainda servisse só para telefonar.

Há ainda um grupo que vê nisto um sintoma de uma degradação mais ampla da sociedade. Estas pessoas não pensam que o problema esteja apenas na escola. Pensam que a escola está a pagar a fatura de várias falhas acumuladas: menos tempo de qualidade em família, menos consistência nos limites, mais ecrãs, menos tolerância à frustração, mais exigência emocional sobre os adultos, mais burocracia institucional e uma cultura geral onde tudo é urgente, tudo é sensível e quase nada é profundamente resolvido. Neste olhar, o professor e o educador aparecem como uma espécie de parede final contra a qual batem as insuficiências de todos os outros setores.

E depois há uma reação mais silenciosa…a de quem percebe que, se os profissionais que trabalham com crianças estão exaustos, isso é um sinal de alarme!

Porque no pré-escolar e no 1.º ciclo não se está apenas a ensinar letras, números ou rotinas…está-se a modelar atenção, linguagem, autorregulação, convivência, confiança e relação com o aprender.

Quando os adultos responsáveis por esse processo estão esmagados por tarefas, ruído e desgaste, a qualidade invisível da educação começa a cair. E a tragédia é que essa queda nem sempre aparece logo nas estatísticas. Aparece primeiro no clima. No tom. Na paciência. Na criatividade que desaparece. Na energia que já não chega para reparar, inspirar ou observar bem.

É por isso que a opinião pública fica dividida. Porque uma parte das pessoas vê o sofrimento destes profissionais e entende-o. Outra parte vê-o, mas banaliza-o. Outra desconfia. Outra usa-o como espelho de um problema maior. No fundo, a sociedade oscila entre empatia, incompreensão e resignação.

E esse é talvez, a meu ver, o aspeto mais inquietante: muita gente já aceita como normal que quem educa esteja profundamente cansado.

Ora, quando o esgotamento dos adultos que sustentam a infância começa a parecer normal, o problema fica dramático.

E você? De que lado se coloca?

PS: Parabéns à jornalista Manuela Micael, pelo artigo.

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Por trinta euros – João André Costa

 

Havia uma criança, mas isso é de somenos importância, como se as crianças fossem uma espécie de poeira pousada ao de leve algures na vã memória dos adultos, e visível apenas quando a luz incide com um certo e determinado ângulo.

Trinta euros, indagaram, com a indiferença de quem põe de lado outras tantas migalhas, e a palavra “prazo” tombada sobre a mesa desde a Sexta-feira passada, a data limite para requerer duas semanas de refeições gratuitas durante as férias escolares para esta família em apuros.

A Direção da escola, composta por vozes amestradas a falar em conjunto sem dizer nada, alinhou argumentos como quem alinha talheres.

Falaram de regras, de processos, formalidades, de rigor financeiro, como se o orçamento fosse uma flor delicada e, ao mesmo tempo, exigente, para de seguida falarem de desvios mais o pecado original das exceções.

E no papel, nas linhas, nos números organizados num orgulho silencioso, nada para encher o estômago vazio de uma criança.

Primeiro a escola, afirmaram sem precisar de afirmar, primeiro a estrutura invisível responsável por sustentar a ordem, depois, e só depois, se houver margem, se houver folga, se houver um milagre capaz de permitir um gesto, a criança.

Mas a escola, essa estrutura de paredes e papéis, não respira sem os corpos pequenos de quem por ela entra todos os dias.

A escola não existe sem estes passos incertos nos corredores mais os olhares de quem ainda não aprendeu a disfarçar a necessidade.

E, no entanto, ali estava ela, a criança, reduzida a um pedido fora de prazo, a um erro administrativo, a uma linha não coincidente com a data certa.

A criança em casa, durante as férias, diante de um prato inexistente, a abrir armários como quem repete um gesto inútil, na esperança de alguma coisa, e alguma coisa é, invariavelmente, nada.

Nada mudou durante a noite e não aconteceu nada.

E a escola de portas fechadas duas semanas inteiras sabendo estar do lado de lá um corpo pequeno entregue ao intervalo da fome, e as férias são para desfrutar e não para incómodos e aborrecimentos de pouca relevância.

Porque a escola não se pode dar ao luxo de parecer flexível, de falhar perante quem avalia de cima, de abrir uma brecha impossível de fechar.
A palavra “precedente” circula como um fantasma, um fantasma mil vezes mais assustador se comparado com a fome de um petiz apenas.

E por um petiz não pára o mundo.

Mas devia.

E se uma criança não é uma ameaça, as vozes a gritar de cima são uma ameaça, e uma ameaça concreta.

Por conseguinte, escolhe-se o caminho mais fácil e mais seguro: recusar, arquivar, e seguir em frente com a consciência tranquila de quem cumpriu o seu dever burocrático.

Não sei como é possível dormir à noite depois disto.

Trinta euros, repito, como quem testa a solidez de uma palavra, como quem espera ver o número crescer, engordar ao ponto de uma gravidade capaz de justificar a recusa.

Mas não, mantém-se mínimo, risível, uma quantia capaz de se evaporar no dia a dia de qualquer adulto, um almoço a correr, uma despesa sem memória.

E ainda assim, naquele momento, transformou-se numa fronteira, uma trincheira, uma guerra perdida à partida.

Imagino as férias desta criança, quatorze “não-dias”, quatorze repetições, manhãs iguais onde a carência se instala devagar. E do outro lado, adultos com discursos anafados, a ruminar regulamentos numa convicção tranquila, certos de como proteger o sistema é uma espécie de virtude.

E quando a escola se esvazia, quando as luzes se apagam e os corredores devolvem apenas o eco dos passos ausentes, sobra uma instituição impecável, sem falhas no relatório, sem desvios no orçamento.

Do lado de fora do portão sobra uma criança fora do prazo.

E ninguém parece escutar esta aritmética simples: sem a criança, sem esta e outras crianças, a escola é apenas um conjunto de quatro paredes inúteis, assim como inúteis são os nossos empregos e respectivos salários.

Sem crianças, ninguém precisa de professores e os professores são dispensáveis.

São pormenores administrativos.

No fim, pagaste os trinta euros do teu bolso. Esta não é a escola com a qual sonhaste.

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Professor e PowerPoint

Nas escolas, durante anos, fomos dando demasiado poder ao suporte e demasiado pouco à substância…

A meu ver, confundiu-se muitas vezes apresentação com aprendizagem, slide com pensamento e aspeto visual com qualidade pedagógica.

E o resultado ainda se vê com frequência: sessões longas, excesso de informação no ecrã, pouca arquitetura da mensagem, pouca ligação humana e quase nenhuma memória do que realmente interessava.

Uma boa apresentação em contexto escolar não se mede primeiro pelo design.

Mede-se pela clareza da ideia, pela ordem do raciocínio, pela escolha dos exemplos, pela força da narrativa e pela presença de quem fala. O centro não está no ecrã. Está na capacidade de tornar uma mensagem compreensível, viva e útil.

Ainda há dias, numa palestra para pais em Abrantes, pensei exatamente nisto.

No fim, o que fica nas pessoas raramente é o diapositivo bonito. O que fica é a ideia que entrou, o exemplo que fez sentido, a frase que organizou o pensamento. É isso que interessa.

Primeiro pensa-se. Primeiro arruma-se a ideia. Primeiro decide-se o que vale mesmo a pena dizer. Só depois faz sentido desenhar seja o que for.

Na minha opinião, a escola não precisa de apresentações mais vistosas.

Precisa de comunicação mais clara, mais viva e mais respeitadora da inteligência de quem ouve. Precisa de menos dependência do ecrã e de mais confiança na força de uma ideia bem construída.

Há pouco tempo, numa formação de professores online, voltei a encontrar o mesmo padrão: quanto mais carregada estava a apresentação, menos espaço havia para pensar.

O problema nunca foi o PowerPoint. O problema começa quando os slides deixam de servir a mensagem e passam a substituí-la. Nessa altura, a comunicação perde oxigénio. A sala continua presente fisicamente, mas a atenção já saiu pela porta.

Ao longo dos anos, em contextos muito diferentes, tenho visto a mesma verdade: uma mensagem clara, bem encadeada e bem entregue prende muito mais do que cinquenta slides cheios de texto.

Um bom professor, com uma folha em branco e pensamento organizado, continua a valer mais do que um mau comunicador armado com animações, esquemas e efeitos.

O resto, muitas vezes, é só pretensão de profundidade.

Há dias, numa formação para professores no Gavião, dizia precisamente isso: quando o pensamento está limpo, o suporte ajuda. Quando o pensamento está confuso, o suporte apenas disfarça. E disfarça mal.

E há ainda outro ponto, que digo com todo o respeito por quem organiza encontros, formações e seminários: também cansa ver contextos que gastam demasiado tempo antes de chegar ao essencial.

Apresentações intermináveis de oradores, currículos lidos como se fossem atas notariais, listas de cargos, agradecimentos em excesso, introduções que se arrastam e roubam energia à sala.

Tudo isso desgasta. Tudo isso afasta.

Tudo isso enfraquece a mensagem antes de ela começar.

Comunicar bem também é saber poupar o tempo dos outros!

Em educação, isso é  uma forma de respeito. Porque quando a forma começa a ocupar o lugar da substância, já não estamos a ajudar ninguém a pensar melhor. Estamos apenas a encher o tempo com uma aparência de importância.

A boa comunicação não serve para impressionar a sala por uns minutos. Serve para deixar uma ideia viva o suficiente para continuar a trabalhar dentro da pessoa depois de tudo acabar.

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Fórum FNE 2026 – “Valorizar a carreira é investir na Educação”

A Federação Nacional da Educação (FNE) promove no próximo dia 20 de março de 2026, no Auditório do SPZN, no Porto, a edição 2026 do Fórum FNE, que vai decorrer sob o lema “Valorizar a carreira é investir na Educação”.

Este será um espaço para debate e procura de mais respostas que permitam alcançar a valorização, desenvolvimento profissional e reconhecimento do trabalho docente durante o processo de Revisão do Estatuto da Carreira Docente (ECD), que decorre entre FNE e Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI).

Esta iniciativa pretende reforçar uma ação sindical transformadora, centrada numa intervenção participativa e inovadora, capaz de integrar as novas realidades da Educação e de promover um quadro legal mais justo, inclusivo e valorizador das carreiras.

A sessão de abertura decorrerá às 10h00 e estará a cargo de Pedro Barreiros, Secretário-Geral da FNE e da Vereadora do Pelouro da Educação e do Pelouro do Talento e Conhecimento, Dra. Matilde Gouveia Rocha seguindo-se às 10h30 o Painel I – O Estatuto da Carreira Docente: ponto de situação, com as participações de Paulo Fernandes, Secretário-Geral Adjunto da FNE, Pedro Brandão, Secretário Nacional FNE e Manuel Teodósio, Vice Secretário-Geral da FNE.

Pelas 11h30 acontece um espaço de debate, moderado por Maria João Cardoso, Vice-Presidente do Conselho Geral da FNE, antecendendo a paragem para almoço.

O regresso dá-se pelas 14h30 com o Painel II – Desenvolvimento profissional e valorização da carreira,com Rui Cardoso, Diretor Escolar, Alberto Veronesi, Diretor Escolar e Josefa Lopes, Vice Secretária-Geral da FNE, como oradores convidados seguindo-se um período de debate com moderação de Artur Silva,Secretário Nacional da FNE.

A “Sessão Final – Caminhos para a revisão do Estatuto” fecha os painéis de conversa e terá como oradores João Dias da Silva, Presidente da AFIET, José Ricardo, Secretário-Geral Adjunto da FNE e Joaquim Santos, Secretário Nacional FNE.

António Jorge Pinto, Vice Secretário-Geral da FNE e Gabriel Constantino, Presidente da Mesa do Congresso e do Conselho Geral da FNE, terão a seu cargo o encerramento desta iniciativa.

O Fórum FNE 2026 afirma-se, assim, como um espaço privilegiado de reflexão e construção de propostas, num momento em que se impõe pensar a Escola e a Educação do futuro, garantindo melhores condições de trabalho e de valorização profissional para todos os que contribuem diariamente para o sucesso educativo.

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Pai,

Pai,

não sei bem onde começa a saudade
nem onde termina aquilo que ainda és em mim.
Sei apenas que não partiste por inteiro 
há passos teus nos meus caminhos,
há gestos teus nas minhas mãos,
há silêncio teu nas decisões que tomo.

Foste filho antes de seres tudo o resto,
e fizeste-te homem na dureza dos dias,
com a coragem de quem não escolhe o caminho fácil
mas escolhe, sempre, o caminho certo.
Depois foste marido,
e foste porto seguro,
e foste casa.

E foste Pai 
assim, com letra grande,
grande demais para caber numa palavra
e ainda maior para caber no meu peito.

E mesmo assim, cabes.

Cabes na forma como olho os meus filhos,
na forma como me levanto quando custa,
na forma como não desisto,
mesmo quando o mundo parece pesado demais.

Eu digo que te perdi,
mas é mentira que conto ao corpo,
porque a alma sabe:
eu tenho-te.
Tenho-te em cada escolha honesta,
em cada verdade que não nego,
em cada vez que tento ser melhor do que ontem.

E prometo-te, Pai,
não com palavras vazias
mas com a vida inteira 
que hei de honrar o homem que foste.

Serei justo, como me ensinaste.
Serei firme, quando for preciso.
Serei abrigo, como foste para mim.

E quando me faltar a força,
sei que não estou sozinho:
há uma parte de ti que se levanta comigo.

Porque não te foste.
Transformaste-te.

Agora és caminho.
Agora és raiz.
Agora és voz dentro de mim.

E eu sigo,
com saudade, sim 
mas também com orgulho.

Porque tive um Pai.
Porque tenho um Pai.

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Lidar com alunos em desregulação emocional – Alfredo Leite

Numa escola, lidar com uma criança em forte desregulação emocional não é apenas um desafio técnico.

É um desafio neurobiológico, relacional e organizacional. E sim, é altamente desgastante para os adultos.

Muito mais do que muita gente admite, porque há uma tendência irritante para romantizar a inclusão sem falar do preço emocional pago, todos os dias, por quem está no terreno.

Em situações de meltdown e/ou shutdown, sobretudo em crianças com autismo, não basta boa vontade…

É preciso compreender o que está a acontecer. Um meltdown não é “má educação”, “manipulação” ou “birra sofisticada”.

É uma perda de regulação em que o sistema nervoso da criança entra em sobrecarga. Um shutdown é quase o inverso visível: em vez de explosão, há retraimento, bloqueio, desligamento, colapso funcional.

Nos dois casos, o cérebro está sob stress e a capacidade de linguagem, flexibilidade, raciocínio e autocontrolo fica diminuída.

É por isso que conhecer a teoria importa.

E importa muito. As boas práticas passam, por exemplo, por reduzir estímulos, frases muito curtas e concretas, não dar sermões em pico de desregulação, manter previsibilidade, antecipar transições, identificar gatilhos, validar sem reforçar desorganização, criar planos individualizados de regulação, treinar rotinas de co-regulação, respeitar sinais precoces de saturação e organizar o ambiente para prevenir em vez de apenas reagir.

Isto é ciência aplicada ao comportamento, à autorregulação e à neurodiversidade. Não é decoração pedagógica.

Mas aqui entra uma verdade essencial: saber a teoria não resolve automaticamente a realidade!

Há pessoas que confundem conhecimento com transformação. “Eu sei o que devia ser feito” não é o mesmo que “eu consigo fazer bem, de forma consistente, sob pressão, às 11h40, com barulho, com mais 25 alunos, depois de uma manhã inteira de desgaste”. A teoria é mapa. Não é milagre.

E mesmo quando o mapa é bom, a viagem continua cheia de curvas.

Além disso, aplicar corretamente boas práticas não significa que o comportamento do aluno vá mudar depressa. Este é um erro muito comum e muito humano.

Faz-se uma ou duas intervenções adequadas e espera-se alívio imediato. Mas regulação emocional, sobretudo em perfis com neurodesenvolvimento atípico, não funciona como se existisse um botão.

Funciona mais como “fisioterapia do sistema nervoso”: repetição, consistência, ajustamento fino, recaídas, pequenas melhorias, regressões e muito treino invisível.

Quem espera resultados lineares numa criança em sofrimento está a pedir ao cérebro uma obediência que o cérebro, naquele momento, não consegue dar.

É aqui que a equipa se torna decisiva.

Professores, auxiliares e técnicos têm de remar para o mesmo lado. Não basta cada um “fazer a sua parte” de forma isolada. É preciso que cada um saiba qual é a sua função, qual é a resposta combinada, quem intervém primeiro, quem reduz estímulos, quem protege o grupo, quem acompanha a criança, quem regista padrões, quem comunica com a família e como se faz o pós-incidente.

Quando isto não está alinhado, a escola transforma-se num barco em que cada um puxa o remo para um lado e depois todos se espantam por não sair do sítio. Um clássico da condição humana.

Também sinto que é preciso dizer isto: o cansaço altera a leitura moral que os adultos fazem uns dos outros. Sob stress crónico, o cérebro fica mais reativo, menos flexível, menos empático e mais defensivo.

A fadiga compromete atenção, controlo inibitório, memória de trabalho e capacidade de perspetiva.

Ou seja, como bem sabe, pessoas cansadas pensam pior, interpretam pior e cooperam pior.

Nessa fase, torna-se muito mais fácil ver a falha do outro do que a complexidade da situação.

Por isso surgem dinâmicas muito previsíveis…

O professor sabe a teoria, mas naquele momento não a consegue aplicar com qualidade.

A auxiliar até podia ajudar mais, mas tem medo e retrai-se…

O técnico percebe o quadro global, mas nem sempre está presente no minuto crítico.

E, como todos estão cansados, em vez de leitura sistémica aparece a circulação da culpa.

Uns culpam a professora. Outros culpam a auxiliar. Outros culpam a técnica. Outros culpam a família. E quase ninguém tem energia mental para dizer a frase mais científica de todas: “o sistema está sob pressão e precisa de mais coordenação, mais treino e mais apoio”.

O ponto central é este: numa escola, lidar bem com desregulação emocional grave exige três níveis ao mesmo tempo.

Primeiro, teoria sólida.

Segundo, prática consistente.

Terceiro, humildade para aceitar que mesmo boa prática não elimina a complexidade. Não estamos a falar de receita de culinária. Estamos a falar de cérebros humanos, stress, desenvolvimento, vínculo, ambiente e limites reais dos adultos.

O que mais ajuda, na prática, é simples de dizer e difícil de sustentar: plano comum, linguagem comum, papéis claros, treino repetido, entreajuda real, debriefing após incidentes e menos caça ao culpado.

Quando a equipa deixa de perguntar “de quem foi a falha?” e começa a perguntar “o que é que o sistema precisa para responder melhor da próxima vez?”, a escola sobe de nível.

A grande ironia é esta: para ajudar uma criança a regular-se, os adultos precisam primeiro de construir regulação entre si. Sólida.

Sem isso, cada crise da criança acorda a crise latente dos crescidos. E uma equipa cansada sem coordenação não educa, apenas sobrevive. E até as melhores equipas podem melhorar! E até as equipas de excelência necessitam de reforço e reciclagem (por isso, são de excelência).

Estão de parabéns aqueles que, muitas vezes sem reconhecimento, se expõe, tentam aprender mais e fazem por melhorar a sua prática. Os pais destes alunos (e dos outros) que se cruzam com estas equipas, são abençoados. Que eles também estejam à altura.

Alfredo Leite

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Maior inquérito nacional sobre monodocência revela desgaste profundo entre educadores de infância e professores do 1.º Ciclo

O Inquérito nacional, promovido pelo Movimento de Professores em Monodocência (MPM) e pela plataforma MetaPROF, recolheu 7072 respostas e traça um retrato preocupante de exaustão, falta de reconhecimento e desigualdade estrutural no regime de trabalho.

O Movimento de Professores em Monodocência (MPM), em colaboração com a plataforma MetaPROF, apresenta hoje o Relatório Nacional sobre Monodocência 2026, o maior levantamento realizado em Portugal sobre as condições de trabalho dos educadores de infância e professores do 1.o Ciclo do Ensino Básico.

O estudo reuniu 7072 respostas válidas de docentes dos grupos de recrutamento 100 (Educação Pré-Escolar) e 110 (1.o Ciclo do Ensino Básico), recolhidas entre 27 de fevereiro e 4 de março de 2026, revelando um retrato consistente de desgaste profissional, falta de reconhecimento e desigualdade estrutural no regime de monodocência.

Entre os dados mais marcantes, 86% dos participantes afirmam que a monodocência é vivida como uma profissão de desgaste rápido, enquanto 72% consideram insuficientes os recursos humanos disponíveis nas escolas. O estudo revela ainda que os docentes acumulam, em média, 6,8 horas semanais de trabalho extra não reconhecido nem remunerado e quase metade dos inquiridos admite ponderar abandonar a profissão “algumas vezes” ou “frequentemente”.

Segundo Luísa Brandão, administradora do MPM, “este relatório dá voz a milhares de profissionais que enfrentam uma sobrecarga muito acima do razoável, acumulando funções pedagógicas, emocionais, administrativas e assistenciais. A monodocência continua invisível e em profunda desigualdade face aos restantes ciclos de ensino.”

Também Paula Costa Gomes, do mesmo Movimento, alerta para a total falta de atratividade destes grupos de recrutamento: “não existe atualmente qualquer atratividade para captar novos candidatos para a educação pré-escolar e para o 1.o ciclo. Esta realidade, somada à rutura no número de docentes, já visível de norte a sul do país, deve constituir uma prioridade política urgente, sob pena de a muito curto prazo não existirem educadores e professores em número suficiente para assegurar as aprendizagens das
crianças.”

O relatório evidencia igualmente o envelhecimento da profissão, com 73,5% dos inquiridos a terem mais de 20 anos de serviço. Entre os principais fatores de desgaste apontados destacam-se a acumulação de múltiplas funções pedagógicas e assistenciais, o aumento da burocracia e a indisciplina em contexto escolar.
A análise de sentimento das respostas abertas reforça este diagnóstico: 98% dos comentários relativos aos problemas da profissão apresentam tom negativo, confirmando um clima generalizado de insatisfação e exaustão.

Face aos resultados, o relatório apresenta um conjunto de recomendações, entre as quais se destacam:
● Revisão urgente do Estatuto da Carreira Docente, garantindo equidade para os grupos 100 e 110;
● Equiparação da componente letiva e reduções letivas aos restantes ciclos de ensino ou, em alternativa, criação de um regime especial de aposentação que reconheça o elevado desgaste associado à monodocência;
● Redução do número de alunos por turma;
● Constituição de um grupo de trabalho nacional com o objetivo de simplificar processos burocráticos e repensar o atual modelo organizacional das escolas.

O Relatório Nacional sobre Monodocência 2026, que inclui gráficos, análise qualitativa e
propostas de intervenção, encontra-se disponível em: www.metaprof.pt

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Mais uma competência (escondida)

Os candidatos deverão proceder à submissão da respetiva declaração em Certificação de Tempo de Serviço – EPC no SIGRHE, para efeitos de contagem do tempo de serviço relevante para o concurso.

No momento da validação da candidatura, as declarações submetidas pelos candidatos integrarão diretamente o respetivo processo.

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Reserva de Recrutamento 44 / Reserva de Recrutamento Concurso Externo Extraordinário 6 – 2025/2026

Aplicação da aceitação disponível das 0:00 horas de quinta-feira, dia 19 de março, até às 23:59 horas de sexta-feira, dia 20 de março de 2026 (hora de Portugal continental).

SIGRHE – Aceitação da colocação pelo candidato

Listas – Reserva de Recrutamento n.º 44

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E se um professor, em certos momentos, não gosta de um aluno? – Alfredo Leite

E, se isso acontecer, é profissionalmente legítimo é transformar esse sentimento em tratamento desigual, humilhação, desistência pedagógica ou profecia de fracasso?

Esta distinção, a meu ver, é a mais importante: sentir não é o mesmo que agir…

Ensinar é uma profissão emocionalmente exigente, e a investigação mostra precisamente isso: os professores gerem emoções reais todos os dias, sobretudo em contextos de conflito, desengajamento e desgaste.

Fingir que um professor “deve gostar genuinamente muito de todos, sempre” não é uma espécie de “moralismo mal desenhado”.

Do ponto de vista psicológico, um professor pode não gostar de um aluno por várias razões: porque o aluno interrompe constantemente, desafia a autoridade, mente, provoca colegas, entra num jogo relacional desgastante, lembra alguém difícil da sua própria história, ou ativa preconceitos implícitos de que o professor nem tem plena consciência.

Vieses implícitos e expectativas dos professores podem influenciar perceções, atitudes e comportamentos em relação a certos alunos ou grupos, mesmo quando o adulto acredita estar a ser justo.

Por isso, a pergunta correta, na minha visão, não é “um professor pode sentir antipatia?”. Pode.

A pergunta correta é: “o que faz com isso?”.

Porque a qualidade da relação professor-aluno está associada a envolvimento escolar, rendimento, adaptação social, bem-estar subjetivo e clima de sala.

Relações mais próximas e menos conflituosas tendem a estar ligadas a melhores resultados; mais conflito tende a associar-se a mais problemas emocionais, sociais e académicos.

Imagine três exemplos.

Primeiro: um aluno do 7.º ano interrompe, faz comentários sarcásticos e testa limites sempre que a aula exige silêncio. É perfeitamente plausível que o professor sinta irritação e até rejeição. Isso é uma reação emocional. Mas, se começar a dar-lhe menos tempo de resposta, a corrigi-lo com dureza especial, a interpretar tudo o que ele faz como má intenção, ou a nunca lhe reconhecer progresso, já saiu da esfera do sentimento e entrou na esfera da injustiça. Aí o problema já não é “não gostar”. É discriminar pelo afeto negativo.

Segundo exemplo: uma aluna muito passiva, desligada e aparentemente “fria” nunca responde, evita olhar e parece desinteressada. O professor pode sentir antipatia porque lê aquela postura como arrogância ou desrespeito. Mais tarde descobre que a aluna está em sofrimento, com ansiedade social ou contexto familiar duro. Isto acontece muitas vezes: o adulto reage à superfície comportamental e falha o diagnóstico funcional.

A ciência das relações educativas mostra precisamente que as perceções do professor moldam a relação, e essa relação molda depois o comportamento e os resultados do aluno… espero não ter perdido o/ caro/a leitor/a… estes temas são importantes, parabéns por querer ir mais fundo.

Terceiro exemplo: um aluno é brilhante, rápido e até simpático, mas confronta o professor de forma subtil, corrigindo-o e tentando ganhar palco. O professor pode sentir antipatia porque a relação toca em orgulho, autoridade e estatuto. Isso também é humano. O critério profissional não é “nunca sentir isso”; é não retaliar pedagogicamente.

Um professor maduro transforma o desconforto em gestão de enquadramento: valida a participação, define regras de intervenção e recentra a relação no trabalho. Não é fácil. Eu sei. Não sou só o “psicólogo teórico”, felizmente, também faço ações de sensibilização para alunos e também dou aulas.

Em termos éticos, há uma formulação muito clara: o professor não tem obrigação de sentir ternura universal; tem obrigação de garantir equidade relacional mínima, segurança psicológica e acesso real à aprendizagem.

Não é obrigatório gostar, mas é “obrigatório” não perseguir, não desistir e não reduzir o aluno ao pior comportamento dele. Porque quando expectativas negativas e vieses entram no quotidiano, podem alterar o clima socioemocional da turma e o percurso do próprio aluno.

(Estou a precisar de reler a frase acima, a propósito de uma turma).

Também importa dizer isto: por vezes o problema não está apenas no professor!

Há alunos objetivamente “difíceis”….

Mas eu não me refugio nas aspas…

… há alunos agressivos, manipuladores, cronicamente opositores ou emocionalmente exaustivos. A relação pedagógica não é uma dança angelical. É uma relação assimétrica, intensa e repetida, dentro de uma profissão com forte carga de stress e burnout.

A investigação sobre trabalho emocional docente mostra que esta gestão contínua entre emoção sentida e emoção expressa tem custos.

Mas exatamente por isso a competência superior do professor não é “sentir bonito”. É pensar melhor sobre o que sente. Em termos práticos, quando um professor nota que não gosta de um aluno, deve fazer pelo menos quatro movimentos mentais. Primeiro, separar comportamento de identidade: “este aluno tem comportamentos que me irritam” não é o mesmo que “este aluno é insuportável”.

Segundo, procurar função antes de fazer julgamento: isto é desafio, defesa, procura de estatuto, insegurança, atraso autorregulatório?

Terceiro, monitorizar microcomportamentos próprios: tom de voz, ironia, proximidade, tempo de espera, feedback, contacto ocular.

A literatura mostra que o viés docente aparece precisamente nestas microinterações, às vezes invisíveis para o próprio adulto.

Quarto, criar uma rotina mínima de reparação relacional: um comentário neutro, uma pergunta sincera, uma oportunidade de sucesso, uma correção sem humilhação.

Há até uma formulação útil para formação de professores: não gostar de um aluno pode ser um dado emocional; tratar pior esse aluno é uma falha profissional; usar essa antipatia como pista para pensar melhor a relação é maturidade pedagógica.

Ninguém (são)   pede ao professor que seja santo!

Pede-lhe algo mais difícil e mais sério: consciência, autorregulação e justiça.

Porque, numa sala de aula, a antipatia sentida em privado pode ser suportável.

A antipatia transformada em padrão relacional pode marcar um adolescente durante anos. E esse é o tipo de poder que exige carácter, não teatro emocional.

O professor verdadeiramente forte não é o que gosta espontaneamente dos alunos fáceis. É o que consegue não abandonar internamente os difíceis. É o que leu até aqui de mente aberta. Parabéns.

 

Alfredo Leite

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Mais umas delegação de competências nos diretores

Despacho (extrato) n.º 3423-B/2026

 

Nos termos do disposto na alínea a) n.º 2 do artigo 6.º da Lei n.º 3/2004, de 15 de janeiro, na sua
redação atual, nos artigos 44.º a 50.º do Código do Procedimento Administrativo, aprovado em anexo
pelo Decreto-Lei n.º 4/2015, de 7 de janeiro, na sua redação atual, e no n.º 6 do artigo 20.º do Decreto-
Lei n.º 75/2008, de 22 de abril, na sua redação atual, determino o seguinte:
1 — Delego nos diretores dos Agrupamentos de Escolas e Escolas não Agrupadas, bem como nos
presidentes das Comissões Administrativas Provisórias, a competência para a prática dos seguintes atos:
a) Autorizar a acumulação de funções e atividades públicas ou privadas por parte do pessoal
docente e não docente em exercício de funções no respetivo agrupamento de escolas ou escola não
agrupada, nos termos da legislação aplicável, sendo as respetivas decisões tramitadas através da
aplicação informática disponibilizada pela Agência para a Gestão do Sistema Educativo (AGSE);
b) Autorizar a realização de visitas de estudo, intercâmbios escolares, atividades de geminação ou
outras atividades pedagógicas externas, no território nacional ou no estrangeiro, incluindo a deslocação
dos discentes participantes e dos docentes acompanhantes, independentemente da respetiva duração,
nos termos legalmente previstos;
c) Autorizar permutas entre docentes colocados em Agrupamentos de Escolas ou Escolas não
Agrupadas, desde que salvaguardadas as necessidades permanentes do serviço educativo e observados
os requisitos legais aplicáveis;
d) Autorizar a concessão de equiparação a bolseiro ao pessoal docente e não docente em exercício
de funções no respetivo Agrupamento de Escolas ou Escola não Agrupada, nos termos da legislação
aplicável, quando tal não implique encargos adicionais para o serviço, sem prejuízo das competências
legalmente atribuídas ao município.
2 — O presente despacho produz efeitos no dia seguinte ao da sua publicação.
16 de março de 2026. — O Presidente da Agência para a Gestão do Sistema Educativo, I. P., António
Raul da Costa Torres Capaz Coelho

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Sete adolescentes identificados por usar artigos pirotécnicos em escola de Aveiro

A PSP identificou sete jovens, com idades entre os 12 e 15 anos, suspeitos de terem deflagrado cinco artigos pirotécnicos no interior de uma escola em Aveiro, informou aquela força policial.

Sete adolescentes identificados por usar artigos pirotécnicos em escola de Aveiro

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Jovem mexia em faca durante aula nos Olivais. PSP apreendeu a arma

Um aluno foi ‘apanhado’ a mexer numa faca durante uma aula numa escola nos Olivais, em Lisboa. A coordenação da escola alertou a PSP para a situação que se deslocou ao local e apreendeu a arma branca. O caso foi remetido à CCPJ e ao Tribunal de Família e Menores de Lisboa.

Jovem mexia em faca durante aula nos Olivais. PSP apreendeu a arma

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Treinadores (amargos) de bancada – Alfredo Leite

Na escola, como na vida em geral, há uma diferença decisiva entre os que constroem e os que comentam a construção. É uma das verdades mais antigas da convivência humana. Uns entram em campo. Outros ficam na bancada. E, como quase sempre acontece, quem está sentado vê muito erro em quem está a correr.

Os que fazem são fáceis de reconhecer. Não porque sejam perfeitos, mas porque deixam rasto. São os diretores que não se limitam a gerir incêndios e burocracias, mas criam cultura de escola. São aqueles que decidem, por exemplo, lançar um projeto de leitura quando seria mais cómodo dizer que “os miúdos já não gostam de ler”. São os que organizam semanas temáticas sobre bem-estar, cidadania ou ciência, mesmo sabendo que isso dá trabalho, exige articulação e nunca agrada a toda a gente.

São também as professoras com iniciativa. Aquelas que não ficam à espera que alguém lhes diga tudo. As que montam uma feira do livro, criam um mural de elogios entre alunos, organizam uma campanha solidária, preparam uma sessão com pais sobre limites e ecrãs, ou inventam maneiras novas de ensinar quando o manual, sozinho, já não chega. São as que percebem que educar não é apenas cumprir um programa. É mexer no ambiente. É elevar o contexto. É puxar a escola um pouco mais para cima do que ela estava ontem.

Há ainda os pais que lidam com a escola pela positiva. Não são pais submissos, nem ingénuos. São pais colaborativos. Pais que, quando há um problema, procuram perceber antes de atacar. Pais que dizem “como podemos resolver isto em conjunto?” em vez de começarem logo com o tribunal da indignação. Pais que reconhecem o esforço dos docentes, que aparecem quando são chamados, que educam os filhos para respeitar regras e pessoas. Esses pais não fazem barulho desnecessário, mas fazem uma diferença imensa. São uma espécie de cimento invisível da comunidade educativa.

E há os técnicos atualizados. Psicólogos, mediadores, animadores, terapeutas, formadores, assistentes, profissionais que estudam, que se revêm criticamente, que não ficaram parados em ideias gastas como se o mundo tivesse congelado em 2004. São pessoas que percebem que a realidade mudou, que os alunos mudaram, que as famílias mudaram, e que responder aos desafios atuais exige mais ciência, mais lucidez e menos frases feitas. Esses profissionais ajudam a escola a não envelhecer.

São estas pessoas que levam o mundo para a frente. Não porque sejam heróis de filme, mas porque aceitam a parte menos glamorosa da responsabilidade. Fazer implica expor-se. Implica decidir. Implica ouvir críticas. Implica, às vezes, falhar. Quem cria um projeto pode ver pouca adesão. Quem organiza uma atividade pode esquecer um detalhe. Quem tenta inovar pode não acertar logo. Mas há aqui uma diferença moral importante: falhar a fazer não é o mesmo que nunca fazer nada. O erro de quem tenta tem dignidade. O conforto de quem nunca arrisca costuma vir disfarçado de superioridade.

Depois há os que não fazem. E dentro desses, felizmente, há muita gente decente. Pessoas que não lideram projetos, não puxam processos, não têm perfil para organizar, mas também não atrapalham. Cumprem, respeitam, ajudam quando podem, não vão a palco nem aguentam. Essas pessoas merecem todo o respeito. Nem todos nasceram para abrir caminho, mas o mundo também precisa de quem saiba não destruir a estrada.

O problema não está nesses.

O problema está naquela minoria ruidosa que nada constrói, mas quer sempre parecer árbitro universal do esforço alheio. São os eternos comentadores da bancada. Os tais “velhos do Restelo” em versão contemporânea, agora com internet, perfil sem rosto e convicção a mais para obra a menos. Nunca lançaram um projeto. Nunca mobilizaram uma equipa. Nunca seguraram o peso real de decidir por outros. Mas aparecem sempre prontos para dizer mal de quem fez, de quem tentou, de quem ousou.

Vê-se isso muito nas escolas e nas redes sociais. Uma diretora cria uma iniciativa para aproximar famílias da escola e logo aparece alguém a dizer que “isto é só para aparecer”. Um professor organiza um encontro intergeracional e há logo quem desvalorize com um comentário azedo. Um técnico propõe uma abordagem nova e surge logo a crítica fácil de quem confunde cinismo com inteligência. É curioso como tantas vezes os mais ferozes na acusação são os mais estéreis na ação. Há pessoas que nunca plantaram nada, mas tornaram-se especialistas em avaliar colheitas.

Também é verdade que alguns desses perfis vivem presos a uma visão amarga da autoridade, da mudança e do mérito dos outros. Nem sempre por maldade pura. Por vezes por frustração, ressentimento, rigidez mental, hábito crónico de suspeitar de tudo, ou incapacidade de suportar ver alguém fazer o que eles próprios nunca tiveram coragem de tentar. O ser humano é assim, uma máquina estranha: aplaude o discurso da mudança, mas muitas vezes ataca quem mexe realmente nas peças.

E há outro dado da realidade que quase toda a gente reconhece, mesmo que nem sempre o diga: alunos, colegas e comunidades tendem a confiar mais em quem é genuinamente útil do que em quem é sistematicamente corrosivo. Pode haver medo momentâneo do crítico barulhento, mas raramente há admiração profunda. As pessoas podem ouvir o ruidoso, mas seguem o confiável. No fim, quem marca uma escola não é quem comenta mais. É quem melhora o ambiente, resolve problemas, cria pontes e inspira trabalho sério.

Convém, por isso, fazer uma distinção justa. Nem toda a crítica é má. Uma escola saudável precisa de contraditório, precisa de perguntas difíceis, precisa de gente que chame a atenção para erros reais. Mas crítica séria é diferente de ruído. Crítica séria ajuda a corrigir. Ruído tenta humilhar. Crítica séria assume responsabilidade. Ruído refugia-se no sarcasmo e na distância. Crítica séria quer melhorar a realidade. Ruído quer apenas parecer mais esperto do que quem está a trabalhar.

A conclusão nobre é esta: o mundo avança por causa dos que fazem. Dos que arriscam, propõem, organizam, corrigem, caem e voltam a levantar-se. São eles que mantêm viva a escola, a comunidade e a esperança prática. Merecem respeito, proteção e coragem renovada. Não precisam de ser perfeitos. Precisam de continuar.

Mas também merece reconhecimento quem, não sendo da linha da frente, sabe estar com dignidade. Quem não lidera, mas não sabota. Quem não cria projetos, mas não apaga a chama dos outros. Quem percebe uma verdade simples e rara: já é uma forma de grandeza humana não atrapalhar quem está a tentar construir.

Numa escola madura, como na sociedade, há lugar para os que lideram e para os que apoiam.

O que mais prejudica crianças e jovens é a pequena tirania dos que nada fazem e ainda se sentem autorizados a tentar enfraquecer quem faz.

Alfredo Leite

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Da (grande farsa da) liderança escolar à impunidade: ainda as 79 escolas visitadas pelos influenciadores digitais

O PÚBLICO expôs este caso, agora mediático, que veio revelar fragilidades nos órgãos de direção, administração e gestão das escolas. Urge investigar com lisura e imparcialidade.

Da (grande farsa da) liderança escolar à impunidade: ainda as 79 escolas visitadas pelos influenciadores digitais

Sofia Neves

 

 

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O que implicam as novas competências do diretores?

A explicação de cada ato, riscos e regras procedimentais…

Alínea a) — Matrícula repetida no mesmo ano e curso

O diretor pode autorizar que um aluno se matricule num ano de escolaridade em que já esteve matriculado anteriormente, quando a lei o admite (cf. regime de retenção e progressão, DL n.º 55/2018 e legislação conexa). A decisão deve ser fundamentada, identificando a norma habilitante, a situação concreta do aluno e a justificação pedagógica ou legal. Não se trata de um ato discricionário puro — o diretor não pode autorizar o que a lei proíbe; a delegação só opera dentro dos casos legalmente permitidos.

Alínea b) — Antecipação ou adiamento da matrícula no 1.º ciclo

A matrícula no 1.º ano pode ser antecipada (crianças que completem 6 anos entre setembro e dezembro) ou adiada (situações de imaturidade ou condição de saúde), nos termos do Despacho Normativo n.º 10-B/2021 e legislação aplicável. A alínea exige fundamentação qualificada — o diretor não pode deferir sem elementos objetivos que documentem a situação excecional (relatório médico, parecer do psicólogo, etc.). A decisão deve constar de despacho escrito com identificação dos factos e da norma habilitante.

Alínea c) — Revalidação de matrícula anulada por falta de pagamento

Aplica-se sobretudo ao ensino secundário particular e cooperativo com paralelismo pedagógico, onde a propina é devida, e ao seguro escolar. O diretor pode reativar a matrícula anulada, mediante comprovativo de pagamento ou acordo de regularização. Sugere-se que o procedimento contemple: pedido escrito do encarregado de educação, comprovativo de pagamento ou acordo, despacho de revalidação com data de produção de efeitos.

Alínea d) — Transferências e matrículas/inscrições fora de prazo

Esta é provavelmente a alínea de maior impacto operacional. Abrange:

  • Transferências internas e externas, com ou sem mudança de percurso formativo (p. ex., de Ciências para Humanidades)
  • Matrículas e inscrições requeridas após o termo dos prazos legalmente estabelecidos

O âmbito é explicitamente amplo: ensino básico e secundário, público e privado. No que respeita ao ensino privado, a competência do diretor de agrupamento público aplica-se quando o processo tem origem ou destino na sua escola.

A decisão de autorizar transferência com mudança de percurso deve considerar a viabilidade de integração curricular, os módulos ou disciplinas em causa e o interesse do aluno — são elementos de instrução do processo que devem constar do dossier administrativo.

Alínea e) — Qualificação de acidentes em serviço (DL n.º 503/99)

Esta é a alínea de maior complexidade jurídica e de maior risco para o diretor. Delega três competências distintas:

  1. Qualificar o acidente como acidente em serviço — ato constitutivo de direitos, com efeitos na proteção social do trabalhador. Exige instrução rigorosa: participação do acidente, relatório das circunstâncias, testemunhos se possível, confirmação de que o acidente ocorreu no exercício de funções ou a caminho do serviço (acidente in itinere).
  2. Autorizar o processamento das despesas — ato com impacto financeiro direto. O diretor deve verificar a documentação de suporte (faturas, recibos médicos) e autorizar o pagamento dentro das condições do DL 503/99.
  3. Autorizar a reabertura por recidiva, agravamento ou recaída — implica análise técnica do nexo de causalidade entre o evento inicial e a nova situação clínica. É prudente solicitar parecer médico formal antes de decidir.

Cautela prática: o diretor deve registar sistematicamente todos os processos em SIGRHE e manter dossier completo, dado o potencial de litígio nestas matérias (ação judicial, queixa à Inspeção-Geral de Educação e Ciência).

Alínea f) — Protocolos, parcerias e acordos de cooperação

Competência de enorme utilidade para a vida dos agrupamentos, mas com condição expressa: não podem implicar encargos financeiros permanentes. A interpretação desta condição é crucial:

  • São admissíveis encargos pontuais ou transitórios (p. ex., uma contribuição para uma atividade específica)
  • São excluídos encargos que se prolonguem no tempo de forma sistemática ou que criem obrigações financeiras de execução continuada

O despacho não exige a publicação dos protocolos no Diário da República, mas recomenda-se que os mesmos sejam submetidos a aprovação do Conselho Geral quando envolvam contrapartidas relevantes para a escola, por força das competências de acompanhamento daquele órgão (DL 75/2008, art. 13.º).

Alínea g) — Autorização de estudos científicos

Competência simples na forma, exigente na instrução. O diretor deve avaliar: impacto no funcionamento normal das atividades; tratamento de dados pessoais de alunos (RGPD — obrigatoriedade de consentimento dos encarregados de educação); eventual parecer da Comissão Nacional de Proteção de Dados se envolver dados sensíveis; e idoneidade científica da entidade proponente.

Alínea h) — Permutas de disciplina opcional e de língua estrangeira no ensino básico

Competência de natureza pedagógico-administrativa: permite ao diretor autorizar que um aluno frequente, por exemplo, uma segunda língua estrangeira diferente da atribuída à turma, ou uma disciplina opcional distinta da sua turma, quando haja vaga e compatibilidade de horário. A decisão deve ser registada no sistema de gestão escolar e comunicada aos serviços de ação educativa.

Como devem ser praticados estes atos — regras procedimentais comuns

1. Forma escrita obrigatória. Todos os atos delegados são atos administrativos e estão sujeitos ao regime do CPA. Devem ser praticados por escrito, com identificação do decisor, da norma habilitante (incluindo referência ao Despacho 3423-A/2026 e à alínea correspondente), dos factos relevantes e da decisão.

2. Fundamentação. Nos termos do artigo 152.º do CPA, os atos administrativos estão sujeitos a dever de fundamentação, especialmente quando sejam desfavoráveis ou discricionários. Mesmo os atos favoráveis devem identificar a base legal e os elementos de instrução que os sustentam.

3. Tramitação preferencial em SIGRHE. O despacho estabelece expressamente que, sempre que possível, os procedimentos devem ser tramitados através do SIGRHE, dispensando comunicações adicionais aos serviços centrais. Esta indicação serve dois propósitos: rastreabilidade e dispensa de procedimentos burocráticos paralelos.

4. Impugnabilidade. Os atos praticados ao abrigo desta delegação são impugnáveis pelos interessados perante o próprio diretor (reclamação) ou hierarquicamente perante o membro do Governo competente (recurso hierárquico), nos termos gerais do CPA. O diretor deve estar preparado para responder a estas impugnações.

5. Responsabilidade. A delegação transfere para o diretor a responsabilidade pela legalidade e mérito dos atos praticados. Em caso de ilegalidade, o ministro pode avocar e revogar, mas a responsabilidade disciplinar e eventualmente financeira permanece na esfera do delegado.

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Confronto à porta de escola de Lisboa envolve vários jovens, uma faca e um machado

A TVI e CNN Portugal sabem que um jovem de 18 anos foi detido na posse de um machado. Dois menores de 16 anos foram identificados e entregues aos respetivos responsáveis legais. Durante a ocorrência, também foi apreendida uma faca.

Confronto à porta de escola de Lisboa envolve vários jovens, uma faca e um machado

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A delegação de competências nos diretores já foi publicada

Mas continuo no 5.º escalão…

Delegação de competências nos diretores dos agrupamentos de escolas e escolas não agrupadas e presidentes das comissões administrativas provisórias.

Despacho n.º 3423-A/2026, de 16 de março

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Concurso Pessoal Docente 2026/2027 – Região Autónoma dos Açores

Através da presente plataforma, a Direção Regional da Educação e Administração Educativa disponibiliza aos interessados a informação relativa aos Concursos de Pessoal Docente na Região Autónoma dos Açores.

Próximas datas (previsão)
13 de março
Concurso Interno/Externo de Provimento – Publicação do Aviso de Abertura e Vagas

De 16 a 25 de março
Concurso Interno/Externo de Provimento
Registo e Apresentação de candidaturas (das 09h de 16/03 até às 18h de 25/03)

De 16 a 27 de março
Concurso Interno/Externo de Provimento
Apresentação de documentos (das 09h de 16/03 até às 18h de 27/03)

Concurso Interno de Provimento
e
Concurso Externo de Provimento 
 
Legislação

Regulamento do Concurso

Estatuto da Carreira Docente

Habilitação profissional para a docência

Habilitação própria para a docência no GR 550 – Informática

Sistemas de quotas de emprego para pessoas com deficiência – DL n.º 29/2001

Adapta à R.A.A. o sistema de quotas de emprego para pessoas com deficiência – DLR n.º 4/2002/A

Doenças incapacitantes – Concurso Interno de Afetação

Dotação dos Lugares de Quadro 2026/202

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A geração que conversa com máquinas: quando os pais desaparecem do diálogo

Há um dado que devia inquietar muitas famílias portuguesas, embora provavelmente passe despercebido entre notificações e ecrãs ligados à mesa de jantar. Um estudo recente indica que quase nove em cada dez crianças e jovens entre os 9 e os 17 anos em Portugal já utilizaram ferramentas de inteligência artificial, e que 85% recorreram a estas tecnologias apenas no último mês.

À primeira vista, a notícia pode parecer motivo de orgulho tecnológico. Jovens curiosos, ferramentas avançadas, criatividade digital. O discurso otimista é conhecido: a inteligência artificial pode apoiar o estudo, ajudar a organizar ideias, estimular a aprendizagem. Tudo verdade. O problema começa quando se olha um pouco mais fundo e um pouco mais para dentro das casas.

A empresa de cibersegurança ESET chama a atenção para algo menos confortável: muitos jovens não usam apenas estes sistemas para estudar ou pesquisar. Em vários casos, começam a tratá-los como interlocutores pessoais. Pedem conselhos, desabafam, partilham preocupações. Em suma, conversam com eles como se fossem alguém.

O fenómeno é fascinante do ponto de vista psicológico, e profundamente revelador do ponto de vista social.

Porque uma criança não procura um “companheiro digital” apenas porque a tecnologia existe. Procura-o porque há um vazio que precisa de ser preenchido.

Durante a infância e a adolescência, o cérebro humano constrói as suas competências emocionais através da relação com outras pessoas: ouvir, discutir, discordar, negociar, sentir empatia. Esse processo exige tempo, atenção e disponibilidade adulta. Não algoritmos.

No entanto, em muitas famílias contemporâneas, o tempo de conversa tornou-se um recurso escasso. Pais cansados, agendas cheias, telemóveis sempre presentes. O resultado é um paradoxo curioso: nunca houve tantos meios de comunicação e nunca tantas crianças se habituaram a falar sozinhas diante de um ecrã.

Quando um jovem recorre a um chatbot para pedir conselhos sobre amizades, ansiedade ou problemas escolares, o fenómeno não é apenas tecnológico. É relacional.

A inteligência artificial, nesse momento, está apenas a ocupar um lugar vazio à mesa.

Naturalmente, há riscos evidentes. Sistemas automatizados não compreendem emoções humanas no sentido real do termo; simulam respostas com base em padrões linguísticos. Para um adolescente vulnerável, essa simulação pode criar uma ilusão de compreensão que não corresponde a uma relação verdadeira. Ao longo do tempo, a preferência por interações previsíveis, educadas, disponíveis, sem conflito, pode tornar o contacto humano mais difícil e menos tolerável.

É precisamente isso que preocupa especialistas em comportamento: a possibilidade de alguns jovens começarem a privilegiar conversas com máquinas em detrimento das relações humanas, favorecendo formas subtis de isolamento social.

Mas talvez a questão mais incómoda seja outra.

A inteligência artificial não invadiu a infância portuguesa. Foi convidada a entrar.

Entrou nas mochilas digitais, nos quartos, nos telemóveis oferecidos cada vez mais cedo. Entrou muitas vezes sem regras, sem orientação e, sobretudo, sem adultos por perto para contextualizar aquilo que estas ferramentas são ou não são.

É fácil culpar a tecnologia. Mais difícil é admitir que, para muitas crianças, um chatbot tem uma vantagem competitiva clara em relação aos adultos da casa: está sempre disponível para ouvir.

A ironia é quase perfeita. Pais preocupam-se com o tempo que os filhos passam a falar com máquinas, quando a pergunta talvez devesse ser outra: quanto tempo passam os filhos a falar com eles?

Enquanto essa resposta continuar a ser desconfortável, a inteligência artificial continuará a prosperar no território mais silencioso da vida familiar, aquele onde deveria existir conversa.

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Reforma do MECI: simplificação administrativa ou concentração de poder?

A reorganização do Ministério da Educação, Ciência e Inovação, conduzida pelo governo liderado por Luís Montenegro e tutelada pelo ministro Fernando Alexandre, tem sido apresentada como um “virar de página” na administração educativa. O discurso oficial fala em simplificação, eficiência e redução da burocracia. Mas, olhando para a arquitetura da reforma, a questão que se impõe é outra: estamos perante uma modernização do Estado ou uma centralização silenciosa do poder administrativo?

A reforma parte de um diagnóstico recorrente na administração pública portuguesa: a proliferação de organismos, direções-gerais e institutos que fragmentam responsabilidades e tornam os processos lentos e opacos. Para resolver o problema, o executivo decidiu reduzir drasticamente o número de entidades do sistema educativo, concentrando funções que antes estavam dispersas. No papel, a medida parece lógica. Menos estruturas significariam decisões mais rápidas e maior coordenação.

Contudo, o modo como essa simplificação foi desenhada levanta dúvidas. A reforma extingue ou absorve organismos históricos da administração educativa, como a Direção-Geral da Administração Escolar, a Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares e o Instituto de Gestão Financeira da Educação,  concentrando grande parte das suas funções numa nova entidade: a Agência para a Gestão do Sistema Educativo. A lógica é clara: centralizar a gestão administrativa do sistema numa estrutura única.

Ao mesmo tempo, outra entidade recém-criada, o Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação, reúne funções de avaliação, currículo e programas estratégicos que estavam espalhadas por diferentes organismos. O ministério passa assim a funcionar em torno de dois grandes polos: um dedicado à gestão administrativa e outro à definição e monitorização das políticas educativas.

A questão não está tanto no princípio da reorganização,  que dificilmente alguém contestará, mas na escala da concentração. Ao fundir estruturas com culturas administrativas distintas, o Governo aposta numa espécie de “super-agência” educativa. O risco é que a simplificação se transforme numa máquina pesada, distante das escolas e dependente de cadeias hierárquicas ainda mais rígidas.

Os sindicatos de professores já apontaram esse perigo. Temem que a reforma reduza a capacidade de mediação institucional que antes existia entre escolas e administração central. A extinção de organismos intermédios pode significar, na prática, menos canais de diálogo e mais decisões tomadas à distância.

Há também uma dimensão política que merece atenção. A reorganização administrativa coincide com um processo mais amplo de descentralização de competências educativas para os municípios. Em teoria, o Estado simplifica-se e as autarquias ganham protagonismo. Na prática, corre-se o risco de criar um sistema híbrido: um centro administrativo mais concentrado e um território com responsabilidades crescentes, mas nem sempre acompanhado dos meios necessários.

Em reformas do Estado, a promessa de eficiência costuma ser sedutora. Mas a história administrativa portuguesa mostra que muitas reorganizações acabam por trocar um tipo de complexidade por outro. O teste da reforma do MECI não será o desenho institucional — sempre elegante nos diplomas legais,  mas a forma como funcionará no quotidiano das escolas.

Se a nova estrutura conseguir reduzir a burocracia e responder mais rapidamente aos problemas do sistema educativo, o Governo poderá reclamar vitória. Se, pelo contrário, as “super-estruturas” gerarem novos bloqueios administrativos, a reforma arrisca juntar-se à longa lista de reorganizações do Estado que prometiam simplificar, e acabaram por complicar.

Por agora, a mudança está em marcha. O veredicto, como tantas vezes na educação portuguesa, será dado não pelos organigramas, mas pelas escolas.

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É preciso ter paciência para uma reforma desta dimensão

Problemas na reforma dos serviços leva Fernando Alexandre a pedir paciência em reunião online com os diretores do país.

Pediu paciência e disse que temos de entender que é uma transição muito grande e que os serviços estão a esforçar-se para dar resposta”, disse ao CM Rui Cardoso, diretor do Agrupamento de Viso, em Viseu.

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𝗚𝗼𝘃𝗲𝗿𝗻𝗼 𝗱𝗼𝘀 𝗔𝗰̧𝗼𝗿𝗲𝘀 𝗮𝘂𝗺𝗲𝗻𝘁𝗮 𝗶𝗻𝗰𝗲𝗻𝘁𝗶𝘃𝗼𝘀 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗽𝗿𝗼𝗳𝗲𝘀𝘀𝗼𝗿𝗲𝘀 𝗲𝗺 𝗶𝗹𝗵𝗮𝘀 𝗲 𝗲𝘀𝗰𝗼𝗹𝗮𝘀 𝗰𝗮𝗿𝗲𝗻𝗰𝗶𝗮𝗱𝗮𝘀

 

Açores reforçam incentivos para fixar professores com medidas para atrair e fixar docentes nas ilhas mais carenciadas

500 € mensais de apoio à habitação

Até 6.000 € por ano letivo por docente

1 viagem aérea anual de ida e volta em território nacional

Compromisso mínimo de 3 anos na escola colocada

 

 

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Versão final da proposta sobre o 2º Tema da revisão do ECD

 

Nova proposta sobre o 2º Tema da revisão do ECD

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O problema do saldo demográfico dos Professores com uma projeção 2025–2035

Portugal vive uma transição demográfica silenciosa mas acelerada no seu corpo docente. Em 2025, reformaram-se 3.620 professores, o segundo valor mais alto da última década , e só entre Janeiro e Agosto desse ano saíram 2.054 docentes do sistema. Dois terços dos que hoje ensinam têm 50 ou mais anos , numa pirâmide etária invertida que torna inevitável uma vaga de aposentações sem precedente na próxima década.
O modelo aqui apresentado projecta entre 40.000 e 53.000 saídas até 2035, com pico entre 2028 e 2029. Do universo de 122.000 docentes activos em 2024/25, apenas 76.000 deverão permanecer em funções em 2034/35, uma perda de mais de um terço do corpo docente em dez anos. O problema agrava-se pelo lado da reposição: a escassez de professores acentuar-se-á entre 2026 e 2030, período em que as reservas de recrutamento ficarão em risco de se esgotar, e em 2031 praticamente todos os grupos de recrutamento estarão em défice estrutural. Este painel analisa a série histórica, os três cenários de projecção, o saldo demográfico e o efeito moderador, mas não resolutivo,  do suplemento de 750€ sobre o ritmo das saídas.​​​​​​​​​​​​​​​​

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Um stand do Chega na feira da educação – João André Costa

 

A Futurália, feira da educação a decorrer na FIL, é uma mistura entre o plástico das canetas promocionais e a ansiedade adolescente, como se cada stand fosse uma pequena promessa de futuro.

E basta olhar em redor para ter a engenharia aqui, a enfermagem ali, um curso de videojogos mais adiante, e os rapazes e raparigas a passearem entre as bancas com sacos cheios de prospectos como quem recolhe mapas de países para sempre por visitar.

E de repente, entre universidades, escolas profissionais e cursos de línguas, um stand do Chega.

Um partido político numa feira de educação é como um vendedor de tempestades numa feira agrícola.

Não é totalmente estranho, dirão alguns, a política também educa, também ensina, também promete e promove futuros.

Não obstante, no balcão, entre bandeiras e panfletos, aqui estão os cartazes contra a imigração mais a “grande substituição”, essa teoria conspirativa segundo a qual as elites pretendem substituir a população europeia por imigrantes vindos de outros países.

Mas eles são a elite…

A ideia, popularizada por Camus, é um dos pilares retóricos da extrema-direita europeia.

Imagino um rapaz de dezassete anos a parar ali, não porque acredita em teorias conspirativas, mas porque a frase é simples, directa, individual: alguém está a roubar-te o lugar. É uma explicação rápida para quem cresce num mundo onde as casas são caras, os salários são baixos, o custo de vida vai para além do impossível e o futuro não é senão um espelho embaciado.

Os jovens gostam de frases curtas.

Os adultos gostam cada vez mais de frases curtas.

A política tradicional oferece relatórios, estatísticas, planos estratégicos para 2040. A nova política oferece slogans capazes de caber num TikTok. Entre um gráfico e a indignação, o cérebro, extenuado, escolhe a indignação.

Assim, este stand numa feira de educação não é apenas uma curiosidade, é um sintoma.

E a feira da educação já não é um mercado de futuros, mas um mercado de medos.

E se a escola ensinou aqueles miúdos a resolver equações, a distinguir um advérbio de um predicado, ao mesmo tempo olvidou algo igualmente essencial: como lidar com o medo de quem se vê num repente dispensável.

E quando aparece alguém a dizer “a culpa não é tua, a culpa é deles”, a frase entra na cabeça como uma chave mestra numa fechadura.

Porque no populismo a pertença, e digam lá vocês qual o jovem a querer priorizar o conhecimento quando pertencer é tão ou mais importante.

É mais importante.

E um stand de um partido político não é uma licenciatura, é uma tribo.

As universidades prometem carreiras, a política promete identidade. Entre a incerteza e a certeza emocional, votamos nas emoções e pelas emoções.

Porque um discurso feito de simplificações numa feira de educação, é como um megafone numa biblioteca.

Faz barulho.

E os jovens, ainda a aprender a distinguir entre ruído e argumento, ficam ali a ouvir.

Talvez passem e riam, talvez ignorem, talvez um ou dois levem um folheto para casa.

Não há problema: a política habituou-se a trabalhar com pequenas probabilidades, bastando um punhado de conversões por dia para moldar uma geração inteira.

E assim nascem as sociedades. Esta sociedade.

Não com grandes revoluções, súbitas e sangrentas, mas com pequenas infiltrações, uma banca aqui, um discurso ali mais esta ideia a crescer como uma erva daninha entre as pedras da calçada.

E quando estes jovens chegarem aos trintas com as duas mãos cheias de nada, lembrar-se-ão daqueles cartazes e de quem, supostamente, roubou-lhes o futuro.

Resta uma pergunta: quem autorizou um stand do Chega numa feira da educação?

E neste texto a armadilha de sempre quando um partido político é mestre em propaganda: não interessa falar bem ou mal do Chega, conquanto se fale.

Mas quando o silêncio rima com consentimento, as palavras não são apenas canções, são armas, e é urgente lutar.

https://www.publico.pt/2026/03/12/sociedade/noticia/feira-educacao-acolhe-stand-chega-cartazes-antiimigracao-associados-teoria-substituicao-2167609

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Reserva de Recrutamento 43 / Reserva de Recrutamento Concurso Externo Extraordinário 5 – 2025/2026

Aplicação da aceitação disponível das 0:00 horas de segunda-feira, dia 16 de março, até às 23:59 horas de terça-feira, dia 17 de março de 2026 (hora de Portugal continental).

SIGRHE – Aceitação da colocação pelo candidato

Listas – Reserva de Recrutamento n.º 43

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Mais competências, o mesmo ordenado…

 

Acrescentarão às competências dos diretores:

Autorização de matrícula no mesmo ano de escolaridade e curso;
Autorização de antecipação ou adiamento da matrícula no 1.º ciclo do ensino básico em situações excecionais devidamente fundamentadas;
Autorização de acumulação de funções por parte de pessoal docente e não docente;
Autorização da realização de visitas de estudo, intercâmbios e outras atividades pedagógicas externas;
Autorização de permutas entre docentes, nos termos legalmente previstos;
Concessão de equiparação a bolseiro;
Autorização da revalidação de matrículas anuladas por falta de pagamento de propina ou de prémio de seguro escolar;
Autorização de transferências e matrículas após o termo dos prazos legalmente estabelecidos;
Qualificação de acidentes em serviço, nos termos legalmente previstos;
Autorização para a celebração de protocolos e parcerias com entidades externas que contribuam para os fins educativos, nos termos legalmente aplicáveis.

E ainda poderão surgir mais…

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Das Promessas

… que sistemáticamente ficam adiadas.

 

Promessas para requalificar escolas existem desde 2023. Próximo ano arrancará sem obras

 

 

Escolas de várias zonas do país esperam obras de requalificação desde 2023. A este atraso soma-se a demora do investimento anunciado pelo atual Governo. Resultado: o próximo ano letivo será mais um sem as escolas estarem requalificadas . Diretores e corpo docente argumentam que é necessário preparar os estabelecimentos para as alterações climáticas, além das obras já consideradas urgentes.

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PARECER N.º 01/2026 – DELEGAÇÃO DE COMPETÊNCIAS NOS DIRETORES

 

PARECER N.º 01/2026
DELEGAÇÃO DE COMPETÊNCIAS NOS DIRETORES

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O Concurso de 2027 Terá Início Logo em Janeiro

Em reunião do MECI com os diretores o Ministro da Educação anunciou que o concurso de 2027 terá início logo em Janeiro desse ano de acordo com novo modelo.

Também refereiu que muito em breve serão atribuídas por despacho novas competências aos Diretores, que passavam por pedidos de autorização à DGEstE  ou à DGAE, nomedamente em dar autorizações das visitas de estudo, qualificações de acidentes em serviço, contratos sem implicações financeiras, equiparações a Bolseiro…

Mas se o compromisso do concurso em Janeiro de 2027 seguir o mesmo procedimento da reunião de hoje então ficamos já a saber que só lá para Abril é que vai abrir o concuro. Pois ter começado a reunião com uma hora de atraso por problemas técnicos…

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Grupo de Trabalho «Proibição do desenvolvimento de atividades contrárias aos fins visados pelas instituições educativas»

Cria o Grupo de Trabalho «Proibição do desenvolvimento de atividades contrárias aos fins visados pelas instituições educativas» para elaborar orientações aos diretores e aos restantes órgãos de direção, administração e gestão das escolas sobre a inadmissibilidade de atividades que colidam com a ética e os valores de uma cidadania democrática.

Despacho n.º 3317/2026, de 13 de março

 

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IA nos concursos de docentes…

O ministro da Educação defendeu hoje que o recurso à inteligência artificial na administração escolar vai permitir otimizar processos e “eliminar as desvantagens de um sistema altamente centralizado”, uma reforma que pretende concluir até final de 2027.

Ministro da Educação: IA ajudará a otimizar gestão do sistema educativo

Fazendo uma espécie de diagnóstico do sistema de administração escolar, que considerou “‘super’ ineficiente”, o governante entende que existe margem para ultrapassar as várias desvantagens que identifica num sistema centralizado, em particular no que respeita aos concursos de colocação de professores.

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O SIGRHE Apareceu Hoje de Cara Lavada

Hoje a plataforma SIGRHE apareceu com um novo layout, mais limpo e menos verde.

Quanto às funcionalidades elas parecem ser iguais e nada mais parece ter mudado do que a aparência visual.

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Estudante abusa de colega de 12 anos junto da escola

Não se ponham a rever o Estatuto do aluno, não…

 

Um jovem, de 18 anos, foi detido por suspeitas de abusar sexualmente e ameaçar uma colega, de 12 anos, nas imediações da escola que ambos frequentavam, em Portimão. O suspeito e a vítima conheceram-se no estabelecimento de ensino e começaram a trocar mensagens através das redes sociais.

Estudante abusa de colega de 12 anos junto da escola

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Os Serviços Mínimos nas Escolas Caíram na Negociação com a UGT

Governo deixou cair alargamento de serviços mínimos obrigatórios às escolas nas negociações do pacote laboral

 

Quando apresentou o pacote laboral, Governo não esclareceu a que estabelecimentos se aplicariam serviços mínimos obrigatórios propostos para o “cuidado de crianças”. Cedeu neste ponto nas negociações.

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A verdadeira história sobre o estado da educação

Esta é uma história sobre quatro pessoas: Toda a gente, Alguém, Qualquer um e Ninguém.

Havia um trabalho importante a ser feito e toda a gente foi convidada a fazê-lo. Toda a gente tinha a certeza de que alguém o faria. E qualquer um poderia tê-lo feito, mas ninguém o fez.

Alguém ficou zangado com isso porque era trabalho de toda a gente. Toda a gente pensou que qualquer um o podia fazer, e ninguém percebeu que toda a gente não o iria fazer.

No fim, toda a gente culpou alguém, quando na verdade ninguém pediu a qualquer um para o fazer.

A parte mais importante desta história não é toda a gente, alguém, qualquer um ou ninguém. É o trabalho que era suposto ter sido feito.

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Hoje Saíram Dois Ofícios Sob o Tema dos Influencers nas Escolas

Este primeiro da IGEC , feito com base neste parecer e este segundo do Conselho das Escolas.

Parece-me que se anda a perder demasiado tempo com este tema e que o enfoque dos problemas nas escolas deviam ser outros e não estes.

Um dos problemas nesta altura do ano letivo é a entrada no nosso sistema de ensino de muitos alunos provenientes do estrangeiro, que segundo as leis de quem as fazem, têm direito a estar matriculados numa escola e muitas vezes são colocados administrativamente em salas onde nem lugares para se sentarem têm. E as novas regras da portaria 29/2025/1 que alteram a Portaria n.º 223-A/2018 colocam os alunos numa posição mais vantajosa para transitarem de ano com um ou dois meses de aulas e coloca todo o trabalho nos professores e nas escolas para criar este sucesso artificial.

Vejamos:

A Portaria 223-A/2018 dizia:

Artigo 34.º

Situações especiais de classificação

11 – Sempre que, por ingresso tardio no sistema de ensino português, apenas existirem em qualquer disciplina não sujeita a prova final do ensino básico elementos de avaliação respeitantes ao terceiro período letivo, o professor titular, ouvido o conselho de docentes, no 2.º, 3.º e 4.º anos do 1.º ciclo, e o conselho de turma, nos 2.º e 3.º ciclos, decide pela:

a) Retenção do aluno;

b) Atribuição de classificação e realização da PEA.

 

Agora a Portaria 29/2025/1 diz:

 

Artigo 34.º

Situações especiais de classificação

12 – Sempre que, por ingresso tardio no sistema de ensino português, apenas existirem em qualquer disciplina não sujeita a prova final do ensino básico elementos de avaliação respeitantes ao terceiro período letivo, o professor titular, ouvido o conselho de docentes, no 2.º, no 3.º e no 4.º anos do 1.º ciclo, e o conselho de turma, no 2.º e no 3.º ciclos, decide pela:

a) Atribuição de classificação e realização da PEA;

b) Transição do aluno, nos anos intermédios de ciclo, desde que este revele competências e capacidades que lhe permitam a continuidade do seu percurso educativo, devendo a escola diligenciar no sentido de implementar respostas adequadas para que os alunos possam desenvolver as aprendizagens não realizadas.

 

Se até aqui o conselho de turma retia o aluno que tivesse um ou dois meses de aulas agora para o reter quase é preciso justificar o injustificável e se calhar fazer uma PEA a todas as disciplinas que comprove que o aluno não tem condições para transitar.

 

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Os focos de incendio que por aí andam…

Nas últimas semanas tem-se assistido, em algumas escolas e espaços informais de debate, a uma circulação de informações que geram mais ansiedade do que esclarecimento entre docentes. Fala-se de “carreira única”, de avaliação pelo SIADAP e até de um modelo em que o recrutamento passaria para diretores e municípios.

O problema não é discutir cenários, isso faz parte de qualquer processo de reforma. O problema é quando essas hipóteses são apresentadas como factos consumados, alimentando uma narrativa quase distópica que pouco tem a ver com o que, de facto, consta nos documentos já negociados e assinados.

Num contexto profissional já marcado por desgaste, burocracia e instabilidade, espalhar interpretações alarmistas sem verificação só contribui para dividir a classe e aumentar a desconfiança. Os professores precisam de debate sério, baseado em documentos, enquadramento legal e análise informada, não de rumores amplificados em reuniões apressadas ou nas redes.

A profissão docente merece mais rigor no discurso público. Antes de “incendiar” colegas com cenários extremos, convém ler os acordos, analisar as propostas e distinguir entre o que está em discussão e o que já foi efetivamente decidido.

Num momento em que a escola pública enfrenta desafios estruturais, a clareza e a responsabilidade na informação são tão importantes como a mobilização. Porque uma classe bem informada é sempre mais forte do que uma classe mobilizada pelo medo.

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Quem é que trouxe estes ídolos para o centro da vida dos adolescentes? – Alfredo Leite

Parece-me que há aqui uma pergunta central que muita gente evita porque dá mais jeito ter um alvo humano do que pensar com seriedade: uma diretora que fala de forma informal, com boa-fé, a sorrir como parte do seu modo de ser, deve ser crucificada em praça pública? Não. Isso não é justiça.

O caso dos influenciadores nas escolas é muito grave. A investigação tornada pública no início de março mostrou que, nos últimos dois anos letivos, dezenas de escolas receberam influenciadores associados a conteúdos sexualizados ou misóginos, no contexto de campanhas de associações de estudantes.

Depois disso, a Inspeção-Geral da Educação e Ciência abriu inquérito a diretores citados, e o Ministério anunciou um grupo de trabalho para definir orientações mais claras para a entrada de entidades externas nas escolas.

O problema existe e que não é pequeno.

Mas uma coisa é reconhecer a gravidade do problema. Outra, muito diferente, é transformar alguém no bode expiatório perfeito para alguns que  adoram lavar as mãos depois de deixar a porta aberta durante anos.

Pergunto:
Quem é que trouxe estes ídolos para o centro da vida dos adolescentes?

Foi a diretora?

Foi ela que lhes ofereceu o primeiro smartphone sem preparação, sem filtro, sem literacia digital, sem supervisão?

Foi ela que construiu plataformas que recompensam choque, sexualização, provocação e estupidez rentável?

Foi ela que meteu a internet inteira no bolso de crianças e jovens e depois fingiu espanto quando esse mundo entrou pela escola dentro?

Não nos enganemos. Os jovens não começaram a consumir estes conteúdos no portão da escola. Chegam já impregnados deles, moldados por algoritmos, por cultura digital agressiva e por um mercado que lucra com atenção capturada cedo demais.

A escola, muitas vezes, não tem ferramentas suficientes para acompanhar a velocidade com que surgem novos “ídolos” digitais…

E isso não absolve erros de verificação!!

Mas ajuda a pensar como adultos em vez de reagir como uma multidão excitada.

Outra pergunta:

Uma conversa informal, fora do registo solene, deve ser tratada como confissão pública de culpa?

Uma pessoa que sorri enquanto fala deve ser lida como cúmplice entusiasmada?

Desde quando um sorriso habitual passou a ser prova de perversidade?

E há ainda uma questão ética que merece ser enfrentada: se alguém entrou numa escola, ganhou confiança numa conversa informal e depois usou gravações ou excertos fora desse contexto para fabricar escândalo público, isso é jornalismo de elevação? Ou, no mínimo, um método que levanta sérias dúvidas de ética profissional?

Usar boa-fé relacional como armadilha não dignifica quem informa. Rebaixa-o. E rebaixa ainda mais quando se escolhe uma pessoa concreta para concentrar uma culpa que é estrutural.

Porque o sistema inteiro falhou.

Falharam famílias que entregaram acesso total ao mundo digital demasiado cedo.

Falharam plataformas que monetizam degradação.

Falhou uma cultura que trocou autoridade adulta por medo de desagradar.

Falhou o Estado ao não antecipar, com orientações claras, um fenómeno que já andava à vista de todos.

Falharam também escolas, algumas delas, por não escrutinarem suficientemente quem entra.

Mas quando todos falham, é intelectualmente preguiçoso esmagar apenas a cara mais visível do momento.

Defender a Diretora  não é dizer que nas escolas deve entrar qualquer pessoa. Não é relativizar a proteção das crianças e dos jovens. Não é desculpar ingenuidades institucionais. É recusar a selvajaria mental de confundir erro, contexto, informalidade ou até eventual excesso de confiança com malícia ou indignidade pessoal.

Uma diretora é hoje uma figura quase masoquista, como foi bem dito: responde por tudo, carrega a pressão toda, faz triagem, resolve conflitos, apaga fogos, tenta proteger a escola, e muitas vezes só descobre a total dimensão do problema depois de ele rebentar cá fora. Exigir rigor faz sentido. Exigir omnisciência é delírio.

Queremos mesmo proteger os alunos?

Então paremos de fingir que isto começou numa conversa de corredor.

Começou muito antes. Começou no momento em que uma geração recebeu um ecrã antes de receber critério. Começou quando a sexualização passou a circular disfarçada de humor, sucesso e influência. Começou quando demasiados adultos desistiram de estudar a cultura digital dos filhos e dos alunos,

Se alguns entregam a formação afetiva e sexual dos jovens aos algoritmos, depois têm o direito de fingir surpresa quando o caos aparece na escola?

Alfredo Leite

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