O professor chamava-se Álvaro, nome curto para uma longa vida a saltitar de escola em escola e de quarto em quarto, de Norte a Sul, das ilhas até Timor, à procura da redenção de um lugar no quadro, e de preferência ao pé de casa, qualquer casa, e para o professor Álvaro de pouco lhe importa.
O professor Álvaro gostaria de parar.
E aos 53 anos de idade não é pedir muito.
Graças a Deus, a esperança, e a esperança não é a tal luz ao fundo, mas uma aplicação.
Sim, uma aplicação.
Sim, no telemóvel: Prof5estrelas, nome alegre, quase infantil, a prometer prémios ao melhor estilo de uma quermesse, e quando a esmola é grande…
Assim, basta ao professor Álvaro enviar um e-mail aos pais para os mesmos receberem de imediato uma notificação a requerer a avaliação da interação do professor de 1 a 5 estrelas.
O mesmo se telefonar para casa de um aluno para explicar a distração crónica do petiz, telefonema esse seguido daquela voz metálica antes de desligar: “Esta chamada foi útil? Classifique o professor de 1 a 5 estrelas”.
E de 1 a 5 estrelas, na palma da mão e na ponta dos dedos, se faz a avaliação do desempenho de um professor.
O professor Álvaro a falar mais pausadamente enquanto escolhe palavras como quem pisa gelo fino, e debaixo do gelo todas as estatísticas mais a média, a média, a média.
Uma escola feita de gráficos onde antes havia corredores, uma escola de medianas, modas e desvios padrão onde antes existia um pátio e corriam crianças.
As crianças? Ainda lá estão, sim, agora, e a correr!
Mas o professor Álvaro já não as vê.
Porque no fim de cada aula, os alunos, ainda aturdidos depois de uma hora a ouvir o professor, levantam os telemóveis como quem reza e de imediato o questionário, colorido, animado, cheio de estrelas a saltitar no ecrã:
“O professor contou uma história divertida hoje?
Riste pelo menos três vezes durante a aula?
A aula pareceu-te curta ou interminável?
O professor usou memes adequados à tua faixa etária?
Classifica o nível de entretenimento: aborrecido, médio, épico.”
Álvaro ensinava Camões, mas Camões não rendia estrelas. Camões não dançava, não piscava o olho, não fazia “quizzes” com música eletrónica nem tão pouco se servia do quadro interactivo ou da inteligência artificial.
Aliás, a existir uma inteligência, era a sua, única e tantas vezes só na sala de aula.
Álvaro tentou adaptar-se: uma piada aqui, uma analogia ali, um vídeo projetado entre anúncios mais a gargalhada geral e, mesmo assim, os comentários: “Poco ritemu, Paressia canssadu”, ou mais commumente, “🎈🐸😴🤮”.
Os pais, caso entrassem em contacto pela aplicação, avaliavam-no com igual zelo:
“O professor respondeu em menos de duas horas?
Sentiu-se valorizado pela instituição?
O tom da mensagem foi cordial?”
Por telemóvel:
“A voz do professor transmitiu empatia?
O professor resolveu rapidamente o problema?”
Sem esquecer questões cujo enuncio é uma autêntica sentença:
“O professor demonstra entusiasmo e alegria ao explicar a matéria?
Explique por que razão o professor não merece 5 estrelas.
Recomendaria este professor a outros pais?”
E o mesmo em relação às autoavaliações, as quais o professor Álvaro era obrigado a preencher todos os dias na palma da mão, com a ponta dos dedos:
“Hoje fui inspirador?
Hoje fui inovador?
Se fosses pai, quantas estrelas darias ao teu desempenho como professor?”.
Álvaro marcava 2, às vezes 1, não por honestidade, mas por cansaço. Mas a aplicação é impiedosa e não nutre empatia.
As avaliações acumulavam-se como cartas por abrir com contas por pagar: 4,3. 4,1. 3,9.
Cada décima era um prego. A Direção notificava-o pelo telemóvel para a necessidade de melhoria, sublinhando o contrato mais um objectivo mínimo de 5 estrelas em todas as avaliações de desempenho, constantes, contínuas, sorridentes, felizes, ou então ⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️, 👍 e 😎.
Em nome da instituição. Em nome da imagem. Por se querer representar uma escola. Numa aplicação. Com rankings.
Quando, finalmente, foi despedido, despediram-no pelo telemóvel, sim, através da aplicação, a qual, não contente, apresentou a seguinte, e última, questão:
“Avalie a sua experiência global como professor nesta escola.”
Álvaro, já não o professor, mas apenas Álvaro, não respondeu. Guardou os livros, fechou a pasta e saiu da escola, deixando para trás o telemóvel em cima da mesa a vibrar ininterruptamente.
P.S.: Álvaro voltou atrás, pegou no telemóvel ainda a vibrar e apagou a aplicação apenas para olhar em redor e constatar estar a escola ainda de pé. Encheu o peito de ar como se já há muito não soubesse ser possível encher o peito de ar, colocou o telemóvel no bolso, e foi-se embora.
João André Costa









