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Respeito é só isto – Carlos Santos

Hoje, pela manhã, reencontrei no espelho um jovem, que já não sou, sonhando com uma vida que nunca chegou. Uma vida que foi trazendo tantas rugas e cabelos brancos quantos os sonhos que foram roubados. Esta é a história de uma classe docente envelhecida, que viu a sua juventude esfumar-se à mesma velocidade com que se degradavam as suas condições de trabalho. Toda uma gente unida na mesma amargura e desencanto que, agora, já não tem margem para esperar mais tempo, nem para aceitar, de modo nenhum, mais perda de direitos, de qualidade de vida e de dignidade.
Assim, para se chegar a um acordo que devolva a honorabilidade que permita parar a greve, é forçoso que o governo aceite negociar com seriedade. E isso só será possível se, acima de tudo, começar a olhar para os professores com “Respeito”, o qual se traduz em poucas palavras facilmente elencadas:

-Concurso Interno por graduação profissional, com a disponibilização de vagas que respondam às reais necessidades das escolas;
-Posteriormente, abertura de vagas em Concurso Externo para todos os professores contratados que tenham 1095 dias de serviço até 31 de agosto, concorrendo a qualquer zona do país (sem mais condicionantes);
-Mobilidade Interna por graduação profissional (dando prioridade aos horários-zero para combater a precariedade e abusos sobre os professores), com saída dos resultados até final de julho (para os docentes terem o direito a férias “desligados” da escola), abrangendo as reais vagas existentes nas escolas, horários completos e incompletos (a serem sempre, posteriormente, completados com o imenso trabalho existente nas escolas);
-Reservas de Recrutamento para horários a partir de 8 tempos (a serem sempre completados pelas escolas);
-Atribuição de Mobilidade por Doença a todos os docentes a quem, segundo legislação em vigor, for reconhecida doença incapacitante (investigando-se os casos que levantem suspeitas, mas evitando as injustiças que já levaram professores a morrerem em serviço, com um fim de vida indigno);
-Ajudas de custo para professores, cujas deslocações para a escola, distem mais de 10 quilómetros da sua residência, para todas as deslocações entre escolas do mesmo agrupamento e para alojamento aos professores que tenham de arrendar casa no local de colocação (acabava-se a falta de professores em certas zonas do país);
-Fim das cotas nos 4º e 6º escalões, com reposição do tempo perdido aos docentes que ficaram retidos nesses escalões a aguardar vaga;
-Contagem integral dos 6 anos, 6 meses e 23 dias de serviço, a serem devolvidos nos próximos 6 anos, 6 meses e 23 dias (com a possibilidade de troca por tempo para a aposentação para os docentes que assim o desejarem);
-Redução gradual da idade da aposentação até chegar aos 62 anos de idade (devido ao elevado desgaste profissional), com diferenciação para a monodocência;
-Aumento salarial, pelo menos, igual ao da inflação de 2022 repondo o poder de compra (é imoral continuar a trabalhar para empobrecer, enquanto se distribuem regalias milionárias por quem mais tem);
-Aumento salarial extraordinário de 5% no próximo ano para mitigar a perda de quase 20% do poder de compra perdidos entre 2010 e 2022 (só com reconhecimento salarial se atraem jovens para a profissão);
-Gestão democrática das escolas, com a extinção da figura de “Diretor” substituída por um “Conselho diretivo/executivo” eleito por quem está, efetivamente, nas escolas;
-Fim do processo de municipalização da Educação, passando também o pessoal não docente para a tutela do ME;
-Reforço de técnicos especializados e pessoal não docente nas escolas, para assegurar maior acompanhamento e segurança aos alunos;
-Gratuidade total em todas as ações de formação que os professores frequentam (obrigatórias pela tutela para a progressão na carreira);
-Novo modelo de avaliação dos professores a ser negociado com os sindicatos;
-Disponibilização nas escolas de equipamentos e materiais que permitam aos professores realizarem grande parte do exercício das suas funções na escola, sem terem de recorrer aos meios materiais pessoais;
-Pagamento de trabalho extra e em período pós-laboral (ex. visitas de estudo, reuniões…) como horas extraordinárias;
-Auscultar os professores sobre o que querem ver eliminado/reestruturado para pôr fim a tanta burocracia, sobrando mais tempo para estar com os alunos a ensinar (a começar pelo fim do Projeto MAIA);
-Centralizar no aluno a responsabilidade pelos resultados escolares, com corresponsabilização das famílias;
-Reposição da verdade na avaliação mediante o aumento da exigência e do fim do facilitismo;
-Responsabilização dos alunos (e dos pais) nos casos de indisciplina e sansões pesadas para ambos em caso de agressão ou ameaças à integridade física e psicológica de todos os profissionais que trabalham nas escolas (a educação e os valores, se não vêm de casa, têm obrigatoriamente de ser respeitados no farol da sociedade – a escola);
-Redução do número de alunos por turma para um máximo de 24 e redução efetiva para 18 nas turmas com alunos com NEE (para possibilitar, verdadeiramente, a inclusão);
-Oferta formativa mais diversificada (com maior oferta de percursos profissionais bem estruturados, com condições materiais e parcerias, logo a partir do 7º ano de escolaridade e maior oferta no ensino politécnico);

(algumas medidas seriam implementadas faseadamente)

Como se pode ver, na verdade, tudo isto é tão fácil, sendo que a maioria das medidas tem custo zero para o Estado.
Por isso, fica a pergunta de retórica – A quem interessa, realmente, que a Escola Pública continue precária?
Redirecionando as prioridades erradas que desviam fundos, controlando ajustes diretos, derrapagens orçamentais e cortando nas verdadeiras gorduras do Estado (mordomias, o abusivo direito a motoristas e ajudas de custo, subvenções, indemnizações, prémios e bónus milionários), haveria dinheiro suficiente para a Educação, Saúde, Segurança e Justiça, pilares essenciais para uma sociedade democrática.
A profissão tornava-se atrativa para os jovens e acabaria a preocupante falta de professores que já está a acontecer.
Os professores, finalmente, teriam estabilidade, seriam valorizados e teriam condições condignas para trabalhar.
Os alunos teriam uma educação/formação de qualidade.
Os pais asseguravam o melhor para os filhos com a garantia destes nunca virem a ter falta de professores.
Traria paz social, ganhava a população e o país em qualidade de vida, progresso, produção de riqueza, cultura e civilidade. Ganhava a democracia.

Tomando em consideração ser tão fácil, então, porquê que não se consegue chegar a um acordo?
Falta o principal, boa-vontade e seriedade – duas características que, por natureza, são raras de encontrar na classe política –, aliado ao pequeno incómodo de terem a coragem de mexer num vasto número de interesses instalados.
Embora, a aceitação destes requisitos, não devolvesse os anos de sacrifícios selvagens exigidos a professores que viram os seus filhos crescerem à distância e o sofrimento trazido pelo desrespeito e agressões enquanto trabalhavam, pelo menos, repunham condições de trabalho e de vida dignas.
“Respeito” é só isto e, como se pode constatar, custa tão pouco.
Por tudo isto é que eu me recuso a parar de lutar; luto pelo “Respeito” que devo àquele jovem que, do outro lado do espelho, ainda me olha do passado sonhando com uma vida que acabou por nunca chegar.
Carlos Santos

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18 comentários

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    • Ana Duarte on 8 de Fevereiro de 2023 at 9:11
    • Responder

    Concordo na generalidade. Mas ajudas de custo de deslocações a partir de 10 Km, parece-me exagerado. Será que quis dizer 100! A colocar propostas assim, ninguém nos leva a sério. Ajudas de custo a partir de 30/40 km.

      • Micas on 8 de Fevereiro de 2023 at 9:42
      • Responder

      Quem anda 25km ou 20km já não merece ?

        • Ana Duarte on 8 de Fevereiro de 2023 at 17:52
        • Responder

        Não vamos entrar na discussão de km mais km… Outras profissões há que tb se deslocam sem apoio. O razoável seria ajudas de custo para deslocações fora do qzp de residência. Há colegas que até preferem ficar em escolas que ficam a 30 km do que aquela que fica mais perto, por diversas razões. Não se pode ter uma escola, um hospital, uma empresa na rua onde moramos…
        Razoável :fora do qzp.

    • Lucinda Pereira on 8 de Fevereiro de 2023 at 9:16
    • Responder

    Acabe-se com uma escola precária. Devolva-se um ensino de qualidade. Dignifique-se a carreira docente.
    RESPEITE-SE OS DOCENTES DESTE PAÍS!

    • Ricky on 8 de Fevereiro de 2023 at 12:28
    • Responder

    Está tudo dito….

    • Carlos Moreira on 8 de Fevereiro de 2023 at 13:34
    • Responder

    Parabéns!! Estão aí os pontos todos, todos que têm que ser resolvidos!! não falta nenhum, nem a referência à indisciplina que ninguém fala, parece tema tabu!

      • Marco Freitas on 8 de Fevereiro de 2023 at 16:37
      • Responder

      Talvez não! Então e as ultrapassagens no reposicionamento na carreira que permite ultrapassagens de quem já estava na carreira com mais tempo de serviço, maior graduação e inclusive melhor avaliação de desempenho.

    • Carlos Moreira on 8 de Fevereiro de 2023 at 13:39
    • Responder

    Entreguem estes pontos à Fenprof e Fne e aos restantes 20 sindicatos! Eles precisam, não sabem quais são!

    • Hugo on 8 de Fevereiro de 2023 at 14:47
    • Responder

    Discordo de alguns pontos. Se a graduação profissional deverá ser a base de colocação, por que razão deverá haver primeiro um concurso interno e só depois abertura de vagas em concurso externo? Deverão ter prioridade simplesmente porque têm um vínculo? Quantos contratados têm mais tempo de serviço que alguns dos colegas de quadro, que por exemplo beneficiaram da norma travão? Não nos podemos esquecer que existem muitos contratados que foram ultrapassados devido a este critério. Não se sujeitaram a ir para longe? Depende. Provavelmente sujeitaram-se… mas antes da implementação da norma, que aliás, em algumas zonas do país é extremamante complexa de satisfazer. Não faz sentido que alguem muito menos graduado vá para Lisboa três anos, vincule e depois peça destacamento para outro sitio, ultrapassando quem andou a “amealhar” tempo de serviço, anos e anos a fio, sem contudo prefazer as condições da norma travão. Deverão ter prioridade no concurso? Não.

    • Rio Mondego on 8 de Fevereiro de 2023 at 14:50
    • Responder

    Enviei este texto a um dirigente da Frenprof. Acrescentei o fim da avaliação por ponderação Conclusão meteu os pés pelas mãos, nada me soube dizer. Metem mesmo pena. Façam como eu … enviem uma carta a pedir a sessação de associado. Se quiserem até envio a minuta . Basta pedirem para o email coimbrinha59@gmail.com

      • maria on 8 de Fevereiro de 2023 at 17:57
      • Responder

      “sessação” ou cessação?

    • longedecasa on 8 de Fevereiro de 2023 at 14:59
    • Responder

    E sobre as ultrapassagens (colegas com menos graduação 2 escalões à frente) ninguém fala? Injustiças que revoltam cerca de 50 mil professores que já estavam na carreira e vêm outros a passarem à frente…
    Ninguém fala porque, apesar de perceberem que isto iria acontecer, nada fizeram para acautelar estas situações. Agora estão calados….

      • Izidro Marquês on 8 de Fevereiro de 2023 at 17:03
      • Responder

      Estuda mais um pouco e és capaz de entender porquê! Já agora 20 anos de magistério ou bacharelato valem mais do que um doutoramento. Querias.

    • Manuel Santos on 8 de Fevereiro de 2023 at 16:26
    • Responder

    Meus Senhores, um dos problemas mais graves existe nas ultrapassagens que ocorrem no reposicionamento na carreira. Este problema faz com que colegas menos graduados, com menos tempo de serviço e com avaliação inferior sejam posicionados 1 ou 2 escalões à frente.
    Existem Docentes com 20 anos de serviço no 2 escalão e com 28 de serviço no 4.
    Muito grave num país justo…

    • Abel Luis on 8 de Fevereiro de 2023 at 16:54
    • Responder

    É por “exigências” deste tipo que nenhum governo leva a serio os professores. Ajudas de custo para 10, 25 ou 30 kms? Isto só cabe na cabeça de quem não tem cabeça.
    Já agora, um prémio de produtividade, uma escola por baixo do prédio onde mora cada professor e pagamento de ajudas de custos por ser professor, só por isso.
    Depois querem respeito.

    • Su on 8 de Fevereiro de 2023 at 18:14
    • Responder

    Criação de norma travão para os QZP, possibilitando assim a mudança de QZP. Se um QZP está colocado num outro que não o seu de provimento há mais de 3 anos, então é porque também faz falta nesse QZP.

    • RC@ on 8 de Fevereiro de 2023 at 22:32
    • Responder

    Novo diploma de gestão democrática: Conselho Diretivo/Executivo. Um órgão colegial, onde todos contam.
    ABAIXO OS BOKASSAS DESTA VIDA (diretores), que em muitos casos personificam a figura do ditador absoluto da República Centro-Africana.

    • Alex704 on 8 de Fevereiro de 2023 at 23:25
    • Responder

    Neste texto estão identificadas as causas que alguns de nós anda a denunciar nas redes sociais desde 2018. Mas ainda bem que alguns de nós somos influenciadores numa classe que tem de ser mais ética e deontológica.

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