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A meteorologia ébria das coisas, por Diana Sousa

 

A meteorologia ébria das coisas

À minha frente um aglomerado de olhos pestanejando, entre o entusiasmado e o ansioso.

Vou gritando cada nome, porque a minha própria voz se torna impercetível no tecido.

Os óculos embaciam-se na chamada, mas tento não perder de vista as setas no chão.

A meteorologia no exterior não facilita, mas é melhor do que a da sala de aula. O ar pesa com 28 bocas a soprar abafadas, os procedimentos rigorosos, o cheiro a álcool e desinfetante nas mesas, as janelas semi cerradas para não deixar entrar a chuva, a porta escancarada para a corrente de ar assegurar a circulação livre de partículas aéreas que os corpos não permitem, a distribuição de cartões, códigos, mais máscaras.

Há uma irrefutável sensação de medo e tristeza, não nego.

A escola continua igual, mas todos nós mudámos e, por isso, isto já não é uma escola. Isto é um armazém de pessoas. O sorriso não se propaga abafado pelas máscaras, o vírus inibe o toque.

Sei que a fisionomia despersonalizada vai impor um custo a todos nós.

Não é apenas a doença a rondar, não é somente o medo, é a desproporção de todas estas coisas que se agigantam dentro de cada um: a falta de tempo para preparar o regresso porque urge impor uma normalidade impossível, a falta de recursos tecnológicos para criar oportunidades iguais para os que são diferentes, os minutos precisos que são 5 para respirar entre o agrilhoar do assento e da teoria, a limpeza rigorosa impossível porque faltam mãos, o incomportável peso do horário irrespirável, o inconcebível número de alunos e tamanho das turmas, a descrença, o cansaço de todo este sistema cada vez mais pesado para nós, professores.

Não, não vai ficar tudo bem. Sejamos realistas, a verdade é esta. Não vai ficar tudo bem. Vamos ter despedidas, sofrimento, luto. Vamos sofrer o inferno na terra até descobrirmos a ínfima luz ao fundo do túnel.

Contudo, somos nós que estamos na linha da frente, assegurando que o mundo prossegue para as nossas crianças e jovens. E é deles a infância e adolescência truncadas nos seus direitos tik tok.

Cabe-nos a nós erguer a candeia aos seus olhos, mostrar que existe um caminho. Assegurar a nossa própria resiliência, a nossa capacidade de encontrar respostas, a nossa criatividade profissional. Questionar e ensinar a questionar. Semear a esperança.

A esperança.

Saibamos nós, professores, gentilmente presenteados com máscaras de nível 3, também aprender a morrer de pé.

 

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Saí de casa e fui caçar

Saí de casa e fui caçar.

Era madrugada, pelo que considerei que a hipótese de ter outros predadores por perto seria menor. Armei-me com luvas, máscara, chapéu, óculos e álcool e coloquei o pé fora da porta.

Porém, mal o fiz, já a minha vizinha me chamava da janela. Encarecidamente, pediu-me que lhe trouxesse umas coisinhas, já que ia às compras. Tive de assentir, percebendo agora a razão da velhaca, que nem sequer está no grupo de risco, me ter oferecido limões na semana passada.

De modo que não tive alternativa a não ser dizer-lhe que me enviasse a lista para o telemóvel.

Mal cheguei ao local avistei apenas outros quatro caçadores e animei-me com a perspetiva de a manhã decorrer tranquila.

Contudo, sorrateiramente, posicionaram-se atrás de mim, matreiros e expectantes, outros dez caçadores ávidos de presas. Para piorar o cenário, recebi a lista de compras da vizinha.

Não eram umas comprinhas, era um tratado de bens que me obrigaria de revirar todas as prateleiras, marca por marca.

Respirei profundamente, tentando memorizar as necessidades que me levavam ali e aguardei pacientemente a abertura de portas, a 3 metros de distância do caçador da minha frente. Na minha imaginação, a coisa resolver-se-ia desde que eu organizasse o percurso sem recuos ou detenças.

Abriram-se, então, as portas e seguimos ordeiramente.

Primeira secção: frutas e legumes. Atiro nas maçãs, pêras, perscruto as mangas encomendadas pela vizinha e eis, então, que um desgraçado se cola a mim para revirar as laranjas uma por uma. Dou um salto para trás com o susto da excessiva proximidade e reposiciono-me na zona das batatas.

Respiro fundo, mantenho-o debaixo de olho, e volto a disparar nas cebolas que caiem certeiramente no meu carrinho.

Inexplicavelmente, uma mulherzinha cola-se em perigosa proximidade ao meu corpo, raios parta isto, nem tem máscara, nem luvas, nem o diabo, sinto-lhe o bafo a menos de um metro, vai dar-me uma síncope cardíaca!

Ai deus do céu, se me fino nos legumes já não chego aos congelados…

Arranco dali disparada com o carrinho, perscrutando os intervalos dos transeuntes para passar incólume, como se isto fosse uma corrida de obstáculos.

E é, porque mal chego aos iogurtes, deparo com um casal entretido a lamber rótulos e a discutir animadamente qual a marca que deve levar. Agarro velozmente os primeiros que o meu olhar alcança e sinto o suor a escorrer fininho pela testa.

Prossigo para as bolachas, a cabrona da vizinha quer umas de chocolate branco da marca “Cupita”. Perscruto à esquerda e à direita das prateleiras: uma selva de bolachas, é o que isto é. Há bolachas da marca branca, marca azul, com pepitas, sem pepitas, com recheio duplo e duplicado, bolachas roscas e bolachas espalmadas. Há tudo, tudo, menos as p#€@s das bolachas da marca “Cupita”.

Aproxima-se um repositor, dou três passos para trás, vai de retro que nem máscara, nem luvas, tens sorte ó desgraçado que és chavalo e de ti não quer o Coronavirus saber. Grito-lhe da outra ponta do corredor se me sabe dizer onde encontro as “Cupitas”. Aponta com um dedo simpático e arranco a toda a brida para as agarrar numa penada, antes que chegue o senhor obeso que tem ar de quem vai açambarcar a prateleira toda.

Sigo para o leite, agarro numa embalagem e perscruto a vizinhança. Está livre, posso passar, avanço para as bebidas alcoólicas. Na lista da outra estão três garrafas de vinho do Douro. Três garrafas de vinho do Douro! Não pode ser alentejano, nem ribatejano, é fina na pinga que toma, a desgraçada. Nova selva de garrafas. Vejo tudo menos o Douro.

Da esquerda, aproxima-se uma mulherzita a tossir. Ainda vem longe, dá tempo de encontrar o Douro, o meu olhar saltita, mas o suor abunda e, agora, fiquei com os óculos todos embaciados. Não vejo nem o norte, nem o sul, apenas um vulto que se acerca a tossir. A tossir, mãe do céu!!!! O Coronavírus a andar sobre pernas, meu Deus, vou morrer aqui e agora toda contaminadinha, é agora que vou encomendar as minhas últimas preces.

Agarro uma garrafa qualquer, álcool é álcool, a p#€@ da vizinha nem sequer pode reclamar que eu estou a arriscar a minha vida nesta caçada, e atiro-a com vigor e de forma certeira no carrinho, acelero, o carro desliza.

Está tudo bem, estamos bem, a gaja que tosse ficou nas minhas costas, tiro os óculos para os desembaciar.

Carago, acabei de mexer na cara.

Acabei de mexer na cara.

ACABEI DE MEXER NA CARA!!!!!!

Perscruto no bolso a micro embalagem de álcool que me há de salvar a vida, besunto as lentes, besunto as luvas… f#€@-se!! A embalagem escorregou-me para o chão: eclipsou-se debaixo da última prateleira. Corro desalmadamente para os produtos de higiene, vasculho o álcool, onde está o álcool? Agarro na última garrafa com vida, despejo-a em cima de mim, mais valia imolar-me aqui e agora, p#€& que pariu esta m#€&@ toda!!!!

Regresso ao carrinho, conduzo-o velozmente para a caixa de pagamento, consigo miraculosamente ficar numa fila veloz, e atiro energeticamente toda a caça para o tapete rolante.

Olho em redor, todos aqueles rostos, com e sem máscara, com e sem luvas, um deles, um deles vai estragar esta gaita toda, um deles, vai tocar, vai tossir, vai conspurcar isto tudo… Benzo-me com mais um pouco de álcool, a menina da caixa sorri, até me enerva com tanta simpatia, esfrega álcool à sua volta como se se estivesse a embrulhar numa bolha e eu fujo dali para fora à velocidade máxima com o carrinho a abarrotar de nervosismo.

Mais álcool no puxador do carro, toca a despejar tudo lá para dentro, sento-me quietinha ao volante, respiro fundo. Lentamente recupero a tranquilidade, cheguei inteira, o vírus ficou do lado de fora, se entrou já o suei em pinga.

É, então, que começo a descalçar as luvas e, estupefacta, reparo: tenho um rasgão na luva direita.

TENHO UM RASGÃO NA LUVA DIREITA!!!!!

Despejo mais álcool nas mãos, meto álcool na embalagem de álcool que também deve estar contaminada, mais álcool outra vez no volante que deve estar contaminado, mais álcool no banco porque a roupa está contaminada, mais álcool nas calças porque toquei com as mãos que tinham luvas rasgadas nas calças, mais álcool… . Não pode ser… acabou-se a embalagem. Caraças, pá!! Que chumbada! Saí de casa, fui caçar e esqueci-me de encher a caçadeira??????

Nota – o presente texto, de caráter irónico não pretende iludir a gravidade dos acontecimentos que vivemos presentemente. Acima de tudo, deseja que o leitor adquira consciência e não saia de casa apenas por um pacote de batatas fritas, avaliando os bens que são supérfluos ou de primeira necessidade.

Fica, igualmente, aqui o profundo agradecimento aos funcionários deste e de todos os serviços que asseguram o nosso bem-estar no presente momento.

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Ficar a ver os tomates crescer

 

Da lastimosa prestação de um ministro zombie à estadia abrupta em casa, tudo me parece subitamente acometido de uma lástima e caos pesarosos, que se instalam dentro de mim de uma forma excessivamente ruidosa e perturbadora.

Confesso, ainda estou, internamente, a tentar organizar tudo isto e a reorganizar-me.

Esta segunda-feira dei com a minha caixa de Mail entupida de mensagens – desde a direção que diz para ficarmos em casa, mas que estamos de sobreaviso caso alguém na frente de batalha precise de apoio para os filhos, às colegas que agradecem ao email de um com todos em cc, aos pais dos alunos que enlouquecem com os filhos a respirar ao pescoço e exigem fichinhas, já!

Depois temos, também, colegas que confessam estar em contra-relógio na formação online para perceber como podem gerir profissionalmente a fisionomia da desgraça súbita. Isto numa terra em que uns nem sequer querem saber, outros não precisam e outros não têm.

Mais alguns telefonemas e outras colegas desabafam o desespero de também serem mães e não se poderem livrar, nem dos filhos, nem dos alunos. Por fim, a última mensagem do dia: parceira de escola e querida amiga, informa que entrou em quarentena porque o colega que assistiu às suas aulas foi, no mesmo dia em que ela celebrava um aniversário com a família, internado.

A voz dela afunda-se e tenta irremediavelmente fazer o percurso dos acontecimentos. A dado momento, desfaz-se num pranto.

Na minha cabeça faço rewind a estes últimos dias. Que loucura absoluta nos acomete enquanto humanidade? No momento em que temos, finalmente, tempo para ser, em que já não temos desculpa para dizer “não tenho tempo”, parece que o próprio tempo nos traiu.

O inimigo está em toda a parte, invisível, lancinante e ferozmente impiedoso. Estamos ainda a definir-lhe o mórbido contorno.

Mas o inimigo também somos nós, de nós próprios. A velocidade abismal e impagável a que tudo isto se processa devia forçar-nos a parar, a reduzir. A respirar fundo, a largar os mails, as redes, a estarmos connosco próprios e com aqueles que amamos sem a exigência de uma velocidade que nos supera. Pela primeira vez, podemos ter tempo. Sem desculpas, sem desvios.

Então questiono-me, porque urge responder a tudo em vez de o fazermos com a plena consciência de nós? Que tempo sobrará para apenas sermos neste caos? Serão horas, minutos, dias até entrar pela porta adentro e nos tolher de foice. Mas também pode acontecer que, a cada passo, apenas o estejamos a convidar a entrar porque o nosso receio é maior do que o próprio rosto da morte.

Há tantas questões ainda por resolver, porque não tentamos fazê-lo com alguma serenidade? Prosseguimos em frente sem detenças porque é a nossa forma de lutar ou pelo esforço desesperado de ocultar o nosso próprio pânico?

Peço-lhe que usufrua dos que ama. Apenas isso. O que tiver acontecido, aconteceu. Não se pode mudar o passado, mas podemos respirar o presente.

“Protege-te. Protege os teus e, olha, lê o Ricardo Reis que é remédio prodigioso para os tempos que correm:

“Este é o dia,

Esta é a hora, este o momento, isto

É quem somos, e é tudo.”

Desligo o telefone. Também eu estou em casa. Isolada com os meus filhos, buscando agora o impossível equilíbrio entre o trabalho que se prolongará no tempo e ser mãe. Mas preciso, também, de ser, ainda, mulher, pessoa, ser humano.

Por isso, este final de tarde, depois de cortar os últimos tomates para a salada, separei as sementes. Um amigo aconselhou-me sabiamente: “semeia as sementes e terás vitamina C”.

Pareceu-me um bom plano: alguns minutos por dia, vou afastar-me dos miúdos, do computador, das redes, da paranoia, do medo, da gritaria, das exigências impagáveis e, enquanto durar o meu cigarro à janela, vou, apenas, ficar a ver os tomates crescer…

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Batalha Terrestre

 

(A presente cena ocorre numa das incontáveis reuniões de conselho de turma de 3º ciclo, de final de 1º período, professores sentados em torno de mesas em circulo, ar cabisbaixo, taciturno e quase desesperado, resmas de papel espalhados, ouvem-se vários suspiros de contrição. Após discussão de vários casos e lançamento de notas, chegou, finalmente, um momento que se antevê animado. É notório algum entusiasmo nos docentes).

Diretor de turma (DT): Bom vejamos, agora quanto às medidas universais destes alunos, basta preencherem a cruzinha, ok? É, assim, digamos, tipo, a batalha naval, certo?

CT: Cerrrrtoooooo!

DT: Vejamos, a Joana, o Martim, a Rita e o André têm 10 negativas a dividir por todos, vão para as universais. Então, alguém tem diferenciação pedagógica?

CT em Coro: Eu!! É um submarino!!

DT: Muito bem! E acomodações curriculares?

Os de Inglês, Francês, Matemática e Geografia: Eu!

DT: Que perspicácia, já vai ao ar um navio de 2 canhões!!

O de Educação Visual que toma Prozac: Mas eles não fazem nada, nada, nada, como é que posso fazer acomodações? Nem trazem material…, não pode ser…

O sensato de Ciências: Cala-te e joga, pá!!! Isso não interessa nada, tu é que tens de fazer o que tu é que tens de fazer, assinala lá a cruz e não lixes o jogo, pá!

DT: Enriquecimento curricular?

O de Físico-Química: Nem me lembrei disso…, água!!!

DT: Promoção do comportamento pró-social, alguém?

A de Inglês (visivelmente perturbada): Caramba, lá se foi o meu navio de 4 canhões… não acredito,… que cena!!!

DT: Muito bem, muito bem, então só falta a intervenção com foco académico ou comportamental em pequenos grupos…

CT em Coro: Porta-aviões foi ao fundo!!!

DT: Brilhante! Está despachado. Vejamos, agora os que eram NEE, mas agora são 54, e têm RTP, quando antes tinham também PEI, além das universais também são seletivas, estes em particular, também estavam institucionalizados, mas agora estão na nossa escola.

A Maria e o Joaquim? Adaptações curriculares não significativas? Apoio psicopedagógico? Antecipação ou reforço das aprendizagens?

A de História que também toma Prozac: Ouve, isto não me parece nada bem. A Maria não faz nada do que lhe peço, a colega de Educação Especial está na sala de aula já assistiu, estipulei metas básicas, bolas, está no 7º ano!! Até lhe repeti o mesmo teste 3 vezes com consulta, nem sequer abriu o livro, um teste de cruzinhas com cores… No outro dia cuspiu-me na cara…

A de Educação Especial: Pois, pois, é verdade, mas a menina tem uma problemática muito problemática, ela ainda não escreve o nome, mas estamos confiantes que há-de conseguir, quanto à cuspidela, bem, o seu discernimento…, já sabemos, coitadinha… Enfim, no outro dia deu-me uma cabeçada e custa um bocadinho, mas depois habituamo-nos, faz parte, enfim, é normal, é mesmo assim.

DT: É pá, ó coisinha, tu já sabes que estes meninos são assim, mete mazé lá as cruzinhas que ainda faltam mais 5 reuniões disto. Não estou para estes filmes…

O sensato de Ciências: Ó colegas, só não estou a perceber onde é que, nessas medidas, a inclusão prevê limpar o rabo. É que no outro dia fui eu que a levei à casa de banho…

DT: Hum, deixa, ver… adaptações curriculares não significativas????

 

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Qualquer semelhança do conteúdo deste texto com a realidade é… pura semelhança.

Diana Souza

 

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Da insanidade e do desprezo (… do penico)

 

Da insanidade e do desprezo

 

O senhor Diretor não sabe dizer que não. E entre a figura política que almeja e a liderança justa, opta sempre pela primeira.

Mas, verdadeiramente, eu nada sei, pois como cheguei agora à escola, descubro de tudo um pouco por portas traseiras. Porém, observar os colegas de Educação Especial passearem nos corredores com as meninas de cadeiras de rodas, fingindo que a inclusão chegou aqui, é, no mínimo, confrangedor.

Não é a missão que guia estes professores, mas o medo da punição profissional. Entre dentes rangem impropérios, mas quais ovelhas mansas, cumprem a determinação mandada. De professores, passaram a tarefeiros, com o cabresto das represálias veladas.

As alunas, de corpo feito, mas condenadas a uma cadeira permanente, deambulam acompanhadas por estes colegas por um espaço amplo de escadarias impossíveis e salas improvisadas, pois a escola, tão moderna na ambição, acolhe pela primeira vez jovens com estas características.

E eu não acho mal, sobretudo porque, em apenas um fim de semana vindouro, terão uma casa de banho feita à medida só para si e plataformas que permitem às cadeiras ascender. A modernidade chega, num ápice imposto, a esta escola secundária.

Mas a sua situação é mais complexa. Ela exige um acompanhamento permanente de um adulto, atuação especializada para tudo, incluindo comer e ir à casa de banho.

Uma das colegas explica-me que, aos 55 anos, nunca se imaginou baby sitter do penico. É que, à falta de funcionárias (que, nas escolas por onde passei, recebem formação específica para estes casos) são os colegas da Educação Especial que lhes dão comida e vão com elas à casa de banho. Isso mesmo: professores que lhes limpam o rabo.

Acho maravilhoso que a sua formação académica seja tão absolutamente abrangente que se reformule numa pedagogia de sanita, higienizante e honrosa para a profissão.

Pasmai e vislumbrai, professores, como toda uma nova realidade se promove neste tão significante gesto.

Não há decreto-lei, nem despacho, nem qualquer Pós-graduação de fim de semana que promova mais ou melhor dignifique a nobre profissão de limpa rabos do que este extraordinário Agrupamento .

Se esta semana uma escola ganhou o selo de Proficiente no ensino de Ciências e Tecnologias, temos aqui uma séria candidata ao Prémio Europeu do Penico da Inclusão.

É caso para considerar que, a esta escola, já ninguém a tira do pódio, certo?

Ou será que temos por este país fora mais higienistas disfarçados de professores que ainda estão por desvendar?…

PS- qualquer semelhança com a realidade é mera ficção.

 

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BRINDE UNIVERSAL, SELETIVO E ADICIONAL: AO NATAL!

 

ASSESSOR 1: Que maravilha de almoço natalício, Sr. Ministro!

ASSESSOR 2: Sim, sim! Que maravilha!

ASSESSOR 3: Aproveitemos para lhe fazer um brinde, Sr. Ministro!

ASSESSOR 4: Sim, sim! Um brinde ao nosso jovem e genial Ministro!

JOVEM E GENIAL MINISTRO: Ora, ora, não é preciso exagerar… (cofiando a barba com um sorriso) de que outra forma podemos nós celebrar esta época e o elevado sucesso do nosso Ministério, caríssimos?

ASSESSOR 3: Não seja modesto, Sr. Ministro! Olhe que eu estou cá desde 1987. Já muitos outros passaram pelo seu lugar, mas nenhum teve tanto sucesso como o nosso jovem e genial ministro…

ASSESSOR 2: Já muitos, já, Sr. Ministro!

ASSESSOR 1: Ui, um porradão deles desde 87, que eu também sou desse tempo!

ASSESSOR 4: Sim, sim! O Sr. faz História e Jurisprudência!

ASSESSOR 2: Jurisprudência e História, Sr. Ministro!

ASSESSOR 3: É que estamos, finalmente, a mudar a escola portuguesa!

ASSESSOR 1: A imprensa confirma: os alunos estão esgotados, exaustos e fartos dos professores à moda antiga! Precisam de desafios…

ASSESSOR 3: Precisam de usar as tecnologias.

ASSESSOR 2: Precisam de decidir o que querem aprender.

ASSESSOR 1: Precisam de um perfil à sua medida.

ASSESSOR 4: E não esqueçam: precisam de uma educação que os complemente tanto como um Fortnite!

ASSESSORA MUITO PRÓXIMA DO JOVEM E GENIAL MINISTRO: Os colegas têm razão, o Sr. Ministro é bestial, é um portento de criatividade educativa, é uma brasa… (Abana suavemente a mão sobre o roliço rosto ruborizado).

JOVEM E GENIAL MINISTRO: Ai, que exagero, não se esqueçam que metade dessas ideias todas nem foi minha, foi do meu querido amigo Johny. Ter um secretário de Estado desta categoria é um brilharete! É que ele acredita a sério na possibilidade de mudança! E depois tem aquele sorriso que desarma! Não há professor que não goste dele. E viaja mais do que eu, sempre numa roda viva a ouvir as escolinhas todas… que descanso!

ASSESSOR 4: Pode ser, pode ser, mas o Sr. é que manda! Enviar todas estas mudanças ao mesmo tempo para a escola, isso sim é que é um descanso!

ASSESSOR 2: Isso é que foi de génio.

ASSESSOR 1: Cansou bem os professores.

ASSESSOR 3: Sim, sim, andam bem cansadinhos. Foi brilhante: o 54, mais o 55, mais o 75, mais os semestres…, que maravilha! Nunca trabalharam tanto e tão bem!

ASSESSOR 1: E tão bem!

ASSESSOR 2: A escola agora tem futuro!

ASSESSOR 1: Tem futuro, olaré!

ASSESSOR 4: As sondagens confirmam que o Sr. Ministro não dobra, não abana, nem com o Bigodinhos a acenar bandeirinhas debaixo da ponte.

ASSESSOR 1: É só bandeirinhas…!

JOVEM E GENIAL MINISTRO: É que aquele tipo até enerva! Como é que ainda não percebeu que já perdeu a guerra? Os professores estão fartos de o ouvir. Querem é descanso.

ASSESSOR 3: Ui…, e como querem descanso… A inclusão das universais, das seletivas, das adicionadas, mais as flexibilizadas, as semestrais, as autónomas estão a ser milimetricamente cumpridas. Um mimo! Já ninguém quer bandeirinhas.

ASSESSOR 2: Já ninguém quer saber da condensação descongelada!

ASSESSOR 1: Mas não iremos ter alguma celeuma depois do Natal?

ASSESSOR 4: Qual quê? Os professores este Natal até foram todos reposicionados e ultrapassados, um mimo!

ASSESSOR 1: Um mimo!

ASSESSOR 3: Os professores são, na maioria professoras. E são quase todas avós! A única coisa que querem é que ninguém as chateie e que possam passar os próximos dias com os netinhos. Depois do trabalho todo que lhes demos, querem lá saber de bandeirolas na rua…

ASSESSOR 2: Até houve uma que me enviou um mail a perguntar se não podíamos fazer medidas universais, seletivas e adicionais só para professores, diz que acha que parece que também precisam…

JOVEM E GENIAL MINISTRO: Ora aí está uma brilhante ideia para o ano que vem: mande aí um fax à DGE, o Pedrinha Boss que trate do assunto! Então, aqui está mais uma razão para brindar!!!

ASSESSORA MUITO PRÓXIMA DO JOVEM E GENIAL MINISTRO: Brindemos, pois: que o nosso querido jovem e genial Ministro prossiga a construir a escola do futuro mais 9 anos!

ASSESSOR 2: E Mais 4 meses!

ASSESSOR 1: E ainda mais 2 dias!

JOVEM E GENIAL MINISTRO (em surdina para a Assessora muito próxima do jovem e genial Ministro): Ouve lá, é impressão minha ou já ouvi esta contagem em algum lado?…

 

 

QUALQUER COINCIDÊNCIA QUE ESTE TEXTO APRESENTA COM A REALIDADE É… PURA COINCIDÊNCIA.

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Ímpio

 

O Conselho Geral analisou criteriosamente os documentos, fez perguntas difíceis nas entrevistas e até lhes verificou os dentes. Havia que decidir e, postas as coisas em modo simplificado, o caso resumia-se a uma arrepelada, um deprimido e um gajo com mania que era “escritor cibernáutico”. Para assegurar que não se falhava a escolha acertada, um dos presentes tirou a bolinha da sorte do saquinho dos nomes da forma mais profissional possível. Saiu a sorte ao gajo que se julgava “escritor cibernáutico” o que, feitas as contas, não parecia o cenário pior. Porém, o que ninguém imaginava era o resultado seguinte. O gajo que tinha a mania que era “escritor cibernáutico” tinha, também, a mania que era democrata. E, todos sabem que, não há nada pior numa escola do que um democrata com a mania de ter lido Karl Marx e estudado a revolução francesa. A escola precisa de um DI-RE-TOR. De alguém que imponha a ordem, a certeza das incumbências e distribua, sem temor, as incumbências certas. Contudo, mal tomou posse, o sacaninha do arrivista cibernáutico estragou logo a previsão de sossego que se ambicionava. Qualquer decisãozita, lá marca ele uma reuniãozinha enervantemente democrática. Muito gosta o senhor de ver mãozinhas no ar a decidir com ele, ou por ele, depende do ponto de vista. Diretor que é DI-RE-TOR não hesita, não duvida, apenas decide e impõe a sua visão, mesmo que seja pitosga de todo. Mas este ímpio desgraçado tem a mania que governar é isto: ouvir a opinião de quem o rodeia. É para marcar reuniões? Votem nos dias que vos dão mais jeito. É para corrigir exames? Indiquem as vossas preferências. Tem de se decidir a distribuição do tempo letivo? Refiram o que vos dá mais jeito. A coisa é tão ostensivamente ridícula que chegou ao ponto de o gajo com a mania que era “escritor cibernáutico” armado em democrata ter criado um inquérito online para a comunidade escolar votar na cor favorita do papel higiénico a comprar para a escola. Paneleirices. Até parece que o orçamento participativo ganhou uma nova dimensão neste agrupamento, com decisões politicamente corretas, discutidas em equipa, em grupo, em assembleia de professores, de alunos, de funcionários, de pais. Todos têm que dar opinião e partilhar ideias. Onde é que isto já se viu? E andamos nesta treta vai para uns meses com o gajo a sorrir-nos de orelha a orelha mal entramos na escola, bom dia para cá, bom dia para lá, tu isto, tu aquilo, até parece que em vez de mandar o gajo é nosso amigo. Escola que é escola não tem necessidade disto. Dá-me cá uns nervos…

RuDi

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“Somos repórteres!” – quando a escola abre novos horizontes aos seus alunos…

O livro que hoje apresentamos abre espaço a uma reflexão que nós, professores, devemos instigar.

No momento em que se pondera a fusão de disciplinas, o trabalho focado na transdisciplinaridade, nos projetos, assente num perfil de aluno que o prepare verdadeiramente para o século XXI, chega-nos notícia de um livro original.

Original na medida em que todos os seus autores são alunos de uma escola que, através de um trabalho de pesquisa conjunto ou individual, mobilizou a aprendizagem da sala de aula para a escrita com um objetivo específico e palpável: assegurar que aquilo que o discente produz chega a um público concreto, chega a um leitor.

Este projeto partiu, sem dúvida, de um intrincado trabalho de equipa entre professores e alargou-se para além do universo da escola com os jovens a tomarem opções distintas, expressando, através de inúmeras reportagens, os seus próprios pontos de vista.
Pessoalmente, não conheço forma mais bonita de motivar o gosto pela escrita.

Aqui ficam os parabéns do blogue a docentes e alunos do 8º ano do Agrupamento de Escolas 4 de Outubro, exemplo claro de que, na sala de aula, se aprende mais quando implodimos o espartilho de aprendizagens petrificadas…

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APELO SOLIDÁRIO PARA OS BOMBEIROS

APELO SOLIDÁRIO
Face ao esforço sobre-humano e heróico na luta contra o fogo que as corporações de Bombeiros portugueses têm evidenciado, e no âmbito da responsabilidade social que o SINAPE defende, apela-se ao pessoal docente e não docente de todo o país que proceda à oferta de alguns dos seguintes bens junto dos quartéis de bombeiros atualmente envolvidos no combate aos incêndios (mesmo pouca quantidade vale muito!):
Água engarrafada (1,5l)

Fruta (laranjas e fruta facilmente comestível no local)

Barras de cereais 

sumos de pacote (individuais)
Corporações de Bombeiros onde entregar os donativos:

Águeda

Anadia

Arouca

Aveiro

Braga

Caminha

Marco de Canavezes

Mealhada

Mondim Basto

Porto

Sever do Vouga 

Viana do Castelo

Viseu

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Decisões na tábua

É difícil atingir a concórdia com tanta gente junta à mesma mesa. E cada vez era pior, sobretudo, porque o homenzinho das tabelas coloridas insistia em criticar cada decreto-lei produzido, teimava em apontar defeitos em cada lei primorosamente refletida em cada gabinete simpaticamente inspirado à beira Tejo.

Estava farto o excelentíssimo secretário de estado da educação e exigia que se desse exemplo de celeridade e competência dos serviços. Havia dias em que, em coro, lhes apetecia apenas, a todos, mandar o homenzinho das listas coloridas, enervante e intriguista, comer as tripas todas.

Não havia sossego com aquele tipo sempre a imiscuir-se nas tarefas alheias. Por isso, a excelentíssima diretora dos serviços gerais ordenou à respetiva secretária assessora que trouxesse consigo já uma solução definida para acelerar os procedimentos.

Determinada a cumprir o pedido, ponderou numa ideia visionária para resolver os contentos. Largamente dada às espiritualidades, pareceu-lhe, até, bastante óbvio o caminho. Por isso, logo no início da reunião, apresentou uma tábua de ouija que assentou sobre o centro da mesa.

Os presentes entreolhararam-se com uma efervescente curiosidade e escutaram a sua interlocutora que explicou com uma aquática clareza as regras, ponto por ponto.

– Meus senhores, para evitar detenças e assumirmos com eficácia e confiança as decisões aqui tomadas, há que escutar o que nos diz a tábua. Cada um coloca suavemente o dedo sobre o indicador móvel. Repito, suavemente, para não se aldrabarem as respostas. A questão é lida e o indicador seguirá para a resposta mais adequada a cada caso. Não há cá dúvidas, ok? É o que a tábua manda, certo?tabuleiro-tabua-ouija-madeira

Um burburinho de entusiasmo apoderou-se do conselho, que ninguém gosta de chegar tarde a casa, e todos assentiram. Depois, posicionaram-se ordeiramente sobre o tabuleiro e o representante do conselho jurídico começou a ler a listagem de questões com voz bem sonante.

– Então, vamos lá a saber, podem os professores colocados no MI permutar?

E, ligeirinho e célere, o indicador desenhou um simpático sim.

Os presentes sorriram e registou-se a resposta dada para integrar num decretozito seguido de uma notinha informativa que esclarecesse quaisquer dúvidas sobrantes.

– Os permutantes devem ser os de 1ª prioridade?

E, ligeirinho e célere, o indicador desenhou um simpático sim.

– E os de 2ª prioridade também podem permutar?

E, ligeirinho e célere, o indicador desenhou um “depende”. Os presentes entreolharam-se, espantados e o representante jurídico prosseguiu:

– Os de 2ª prioridade que ficaram colocados permutam?

Logo ali surgiu um “sim” esplenderoso.

– E os que não ficaram colocados?

E, ligeirinho e célere, o indicador desenhou um enfático “não”.

A excelentíssima diretora dos serviços gerais engoliu em seco, porém a respetiva secretária assessora, apossada de um poder irrefutável pela hierarquia ali presente, rematou quaisquer dúvidas que subsistissem.

– Pronto, agradeçam e despeçam-se. A tábua nunca falha, nunca se engana.

E, assim, pela primeira vez na história dos serviços administrativos da educação houve consenso absoluto e uma reunião de breves 10 minutos em que tudo se decidiu a contento de todos e todos seguiram para lanchar ainda em casa.

 

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Coisas estranhamente mundanas – minutas de Café

O dia está soalheiro e sinto-me cheia de energia. Entro numa pastelaria que abriu recentemente perto de mim. O espaço é agradável, está, aparentemente, bem organizado, é espaçoso e cheira ainda a novo. Dirijo-me ao balcão e peço um café com um bolo que cobicei na montra dos doces.

O senhor, cordialmente, questiona-me se já pedi a minuta.

Franzo a testa, nunca ouvi falar em semelhante coisa e ele clarifica a óbvia surpresa que o meu silêncio evidencia.

– Aquando do seu pedido tem de nos entregar a respetiva minuta.

Às vezes as coisas óbvias são tão irremediavelmente estranhas que se torna difícil dissimular o espanto que nos causam.

– Mas qual minuta?

– Depende, menina. Se só quiser café, pede ali naquele balcão a minuta 1, 2 e 3. Se também pedir bolo sãos as 3 seguintes.

O homem diz isto com tanta convicção e profissionalismo que é difícil não o levar a sério. Porém, permaneço incrédula. Como ele se apercebe da minha resistência e a fila atrás de mim se começa a impacientar, resume-me a questão:

– Vejamos, na minuta 1 deve referir o tempo de experiência que tem a beber café, em dias. Não se esqueça que deve comprovar esse dado com o seu médico de família.

A minha testa franze-se de tal forma que o meu rosto deve ter recriado uma nova forma humana. Mas ele prossegue impassível:

– Na minuta 2 deve referir o seu nível de envolvimento com a cafeína e a justificação da importância da mesma na sua vida. O médico de família deve também atestar esses dados. Na terceira minuta, por favor, refira o tipo de café em que se tornou especialista e comprove o grau de envolvimento que possui nessa especialidade. O Presidente da Junta de Freguesia da sua área de residência deve atestar a sua declaração.

– Mas eu só queria um café e aquele bolo…coffee_wallpaper_black_and_white_968

– Pois, mas para o bolo já necessita das três minutas seguintes. Na primeira refere qual a experiência em degustação daquele bolo em particular, contabilizada em dias. E para as seguintes o mesmo que referiu para o café, mas relativamente ao bolo que selecionou. Compreendeu? Contudo, cuidado!, porque se optar pelo mil-folhas, deve acrescentar a minuta número 7, por causa do elevado colesterol…

–  Sim, mas não percebo por que razão não basta a primeira minuta que comprova há quanto tempo bebo café, ou porque não posso apresentar esses dados online, na minha ficha de cliente, por exemplo, era mais rápido…

– A menina, por favor, não complique !!!! Além disso, cada minuta tem de vir assinada pelo seu médico de família e pelo Presidente da Junta de Freguesia da sua área de residência. Próximo!!!!!

Retiro-me da fila maldizendo o anseio atroz que me fez arrastar até ali… (#$%&*!!!!). As pessoas atrás de mim têm já várias folhinhas na mão com carimbos e declarações intrincadas que apresentam ao glorioso empregado do café.

Sinto-me cabisbaixa e com o olhar enegrecido de ódio. O dia lá fora escureceu, as nuvens ganharam espaço no céu, estou inexcedivelmente exaurida de fúria.

Subitamente acordo deste inesperado pesadelo que me acometeu em plena noite. Estou alagada num suor fininho que me envolve todo o corpo.

Sorrio ante a minha própria estupefação e respiro de alívio.

Felizmente, na vida real estas coisas não nos acontecem, não é?

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As 60 sombras da minha docência

Começou o tempo das despedidas.

Organizam-se os dossiês, fazem-se vigilâncias, recriam-se turmas, concluem-se relatórios, avaliam-se atividades, inventariam-se materiais, renovam-se matrículas, reúne-se com pais…

Confesso, há um compasso de tristeza nas paredes vazias de livros de ponto, nos corredores mortiços e estagnados de bafo morno.

2Sob os meus passos dobra-se o entrecortado silêncio e sinto o corpo moído. Do calor ácido que se vive dentro destas paredes, da exaustão que as horas contadas provocam, do interminável compasso de espera.

Os rostos cruzam-se brevemente, mas noto, também nos que me rodeiam, a exaustão do fim. Uma ou outra notícia de jornal fala já no início do ano que vem, nos “novos” programas que entram agora em vigor, nos concursos que arrancam outra vez, porém, a única coisa que desejo é que se calem todos, que me deixem em paz, exaurida que fiquei destes corredores curvos.

Ao contrário do que imaginei, não sinto uma alegria desenfreada por partir deste espaço. Apenas um vazio opulento e extremado.

Ao olhar para esta gigantesca casa, esta máquina trituradora de pessoas, só me ocorre o contraste com uma outra onde estive recentemente numa formação. Escola antiga, remodelada, a tecnologia ao dispor de quem entra, os cursos profissionais realmente vocacionados para o mundo que os espera. O seminário, internacional, era composto por professores que iam percorrendo workshops à sua escolha. Quem os recebia e conduzia? Alunos como os meus, mas sem bonés de pala, sem arrotos, sem o cabo das tormentas exposto ao mundo.

Perguntei à responsável do centro, como tinham conseguido tal feito. Respondeu-me que lançara o desafio em turmas diferentes de várias escolas daquele concelho. Turmas profissionais, vocacionais, de eletrotecnia, hotelaria, turismo. E, assim, condensados numa escola que não era a sua, tinham ficado responsáveis por auxiliar a organização do centro de formação.

Dava gosto vê-los poisar os aperitivos com um sorriso recatado, esclarecer a localização de salas como se se estivesse dentro de um respeitável museu, ajudar os formandos e os formadores quando o computador se revelava mais teimoso e inteligente que os dois juntos, servir o almoço, disfarçando a inexperiência e o decalque fino do suor nas mãos nervosas.

O meu espanto adveio do facto de, subitamente, perceber que tudo aquilo fazia sentido, para nós, para eles. O que não faz sentido nenhum é a escola, os pais, tudo o resto não perceberem isso, assumindo, simplesmente, que a sala de aula tem de estar cheia e nós temos de gramar com aquele peso todo às costas…

Não me inibi de dar os parabéns àqueles jovens e à diretora do Centro de Formação (AlmadaForma), pela eficácia do seu gesto que criou tão inusitadas pontes. Os próprios professores estavam estupefactos com o empenho que um convite tão simples suscitou. Pensei apenas que, numa escola assim, eu podia ser feliz. Bastaria o sonho de alguém, bastariam gestos, bastariam as pessoas para tudo mudar.

Aqui. Aqui o mundo é apenas redondo e de uma bestialidade quadrada.

Abraço rapidamente dois ou três colegas que soçobraram no desânimo de dias pusilânimes. Como na encruzilhada de uma estrada, aqui nos separamos.

Do passado sigo despida de saudades. Vá para onde for, a bagagem pesada fica à beira desta estrada.

Quem sabe, no ano que vem, conseguirei, de facto, ser uma professora a sério…

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GOLPE – DA ALEGRIA E DA DOR

Quando recebi a informação, ia já a caminho do cinema. Tinha decidido tirar a tarde. Estava cansada dos papéis, das conversas, da espera. Queria ter apenas um pedacinho de sanidade, de esquecimento.

Decidi deixar o telemóvel no carro, porque sabia que a hora ia chegar e, simplesmente, não me apetecia estragar o momento. Porém, quando a sessão acabou e as luzes iluminaram a sala, percebi que não podia continuar a protelar. E, a cada passo mais perto do carro, senti algo incompreensível. O meu coração ia acelerando, mas os pés colavam-se ao chão. Os sons titubeavam na lonjura, como se eu estivesse quase fechada numa caixa, e cada gesto meu fosse projetado muito lentamente no espaço. Ao olhar em redor, só me ocorria que, dentro de minutos, aquele tempo já não iria existir. Que aquele momento, um segundo prolongado, se desvaneceria para sempre. Tinha a garganta seca, os olhos vidrados e foi com desânimo e esforço que coloquei a chave no carro.

Sentei-me, respirei fundo e agarrei no telefone. 8 mensagens, 15 chamadas. Por breves instantes supus que a alegria fosse alheia e a má notícia costumeira vinha a caminho. Então, abri a primeira mensagem, do meu eterno namorado. E, a custo, li: QZP 7.

Assim. QZP 7. Apenas isto.

Reli, abri outra mensagem e outra, todas com parabéns que começaram, devagarinho, a abrir uma brecha no meu corpo, até ribombarem com uma euforia tal, que um trovão de luz e choro compulsivo me desfizeram em água.

Ali estou eu. Ali estou eu ainda agora. Sentada no carro, um calor demoníaco que sufoca corpos e eu não sinto nada, só um rasgo imparável de lágrimas e soluços descontrolados.

18 anos depois, estou efetiva.

As mãos tremem tanto que nem consigo carregar nas teclas. E, quando tento falar, a voz esganiça-se, esfuma-se e esbate-se num choro sem tino.

Do outro lado, o meu amado ri do meu silêncio entrecortado por soluços e, à distância, dá-me um abraço feito de flores e frutos, tão doce, tão perfumado, que eu inspiro fundo e tenho-o logo ali, respirando-me ao ouvido.

A seguir falo com a minha mãe. Depois, a minha irmã gémea, mais alguns amigos que viveram a minha vida de angústia quando, nos últimos 18 anos, o coração e o medo me emparedavam num sofrimento atroz (e a todos vós desejo que este momento inigualável de felicidade vos seja extensível). Como pode caber tanto carinho num telefone tão minúsculo?

A seguir, um colega, que partilha a minha alegria, “e o que fazemos a seguir?”. Na minha voz entrecortada pela emoção e pela baba de cuspo e suor que me escorre, suspiro: “eu nem sei, nunca li a legislação desse ponto de vista…”

E, depois, finalmente, a primeira chamada de desalento, de dor profunda. A Xaninha, com vinte anos de serviço, que continua, simplesmente, candidata a professora.

E as minhas lágrimas duplicam, porque o meu coração tão feroz, tão destemido, não aguenta mais golpes hoje. Ainda estou no carro parada, as mãos tremendo, um bafo endemoniado à volta, eu e a Xaninha a chorar juntas no vazio que nos rodeia a ambas.

Não, já não choro compulsivamente de felicidade. Choro de raiva, de tristeza, de vergonha pela humilhação a que nos sujeitaram e sujeitam tantos anos. 1

Este golpe político tão elaborado e genial (parabéns a si, senhor Crato, quase lhe beijava a boca em vez de desejar que lhe trucidassem esses minúsculos órgãos genitais), porém, não me fará esquecer que existe um futuro à minha frente. Sim, estou feliz com uma imensidão que só quem passou por tudo isto pode perceber. E sim, também estou furiosa pela injustiça que este concurso representa.

Sentada no silêncio do meu carro, sorrio.

Posso estar embriagada de felicidade, mas, quando votar, não farão de mim parva.

Ligo, finalmente, o motor e sigo caminho.

Parece que o futuro está à minha espera…

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Um brinde ao Arlindo

brindeHá quem chore,

há quem ria

mas, sem dúvida,

o Arlindo

merece brinde

ao fim do dia.

Saca listas e publica

analisa e tudo explica.

Viv’ó colega companheiro

recebe pouco e

trabalha

a tempo inteiro!

 

 

 

 

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As 55 sombras da minha docência

O excelso senhor diretor teve a delicadeza de marcar a reunião para uma sexta-feira, às 19h para que não houvesse desculpa para pais faltosos.

A mim coube-me a incumbência de fazer a ata, sabe-se lá por que razão, sai sempre este bilhete de lotaria aos de Português, cargo que assumi imediatamente levando o meu pequenino Magalhães: “Aos x dias do mês y reuniu-se o Conselho da Turma 7ºG com os respetivos encarregados de educação…”

A DT resolveu iniciar a reunião apresentando os professores. É boa rapariga, a colega, mas quem a veja, pequenina, um pouco franzina e com uma voz líquida, muito serena e ponderada, nem a imagina na sala de aula, a berrar pelos pulmões quando a garotagem lhe começa a trepar as paredes.

Começa, então, por “alertar para o mau comportamento e mau desempenho escolar evidenciados globalmente pela turma, considerando o Conselho de Turma a importância do apoio familiar na alteração de atitudes”, DT dixit.

Prossegue, referindo que “o acompanhamento familiar é aliado do sucesso académico, sendo fulcral que exista uma interação frequente com a escola”, DT dixit.

Continua insistindo que “a presente reunião serve para discutirmos os problemas, encontrarmos soluções”, DT dixit.

E nisto, assim sem mais nem menos, abrem as hostilidades.

 

RUSSIA/

Ao fundo da sala o senhor d’óculos dispara com ar incomodado, enquanto a colega de Inglês, encolhida na cadeira, me sussurra, lastimosa “É o pai do Rui…” (o qual é um dos nossos brilhantes alunos que costuma, com muita frequência, mandar um ou vários professores ao mesmo tempo “apanhar alho”, como se fosse essa a nossa profissão ou incumbência).

Está profundamente incomodado com o facto de os professores terem embirrado com o seu filho, porque é bom garoto, educado em casa, cumpridor das tarefas, mas na escola todos dizem mal dele, ele bem vê que há algum engano, a coisa não é assim, a injustiça é óbvia (e, enquanto penso na forma mais airosa de expor isto na maldita ata, percebo logo que estamos a começar bem).

A DT coloca-se na pontinha dos pés para o ver melhor e clarifica que o “menino” (de 15 anitos apenas) tem 6 faltas disciplinares, todas por injúrias verbais, é violento com os coleguinhas, mas até tem bom fundo, se o senhor encarregado tivesse vindo logo no início do ano ou (…lhe tivesse dado umas “galhetas”???…) acompanhado mais de perto, as coisas não tinham chegado a este ponto…

Um ou outro professor tenta desviar o assunto para evitar casos particulares e falar na turma, mas é óbvio que a coisa já se entortou, porque, logo a seguir, consigo vislumbrar outro paizinho nervoso que sorri e entrevejo o brilho de pistoleiro nos seus dentes frios de marfim. Vai ser rápido, faz um esgar súbito e dispara. Atirou de morte na de Matemática. Chamou-lhe incompetente, desinteressada (que é como quem diz, frígida emocional) e burra (porque corrigiu mal um exercício). Ele que é advogado é que tem de ensinar Matemática à filha???

Uiiiii, a de Matemática responde à letra e, caramba que isto vai descambar, porque o prof. de Ciências Naturais tenta acalmar os ânimos e leva com um bofetão da mãe do Pedro que o acusa de maltratar o filho quando ele alertou na caderneta para o facto de o aluno não fazer TPC’s. Entretanto, a mãe do Bruno desata num pranto comovido, “Q’eu não sei o que hei-de fazer com ele st’or, qu’eu não sei…”, porque o colega de Ed. Física diz que ele nunca vai às aulas “e vai chumbar por faltas, minha senhora; vai chumbar por faltas”, mas, por sorte, veio o pai com ela e responde “Vou-lhe arrear, vou-lhe arrear” e ficamos sem saber muito bem em quem é que ele dizia que arreava, se ao filho, se ao prof… A Dt pede “que se acalmem, que se acalmem”, porque estamos todos ali pr’ó mesmo e, durante um bom bocado, a tensão paira sobre as nossas cabeças, até a DT conseguir amenizar o combate e começar, finalmente a encerrar o cabo dos trabalhos.

Nesse momento, vejo a mãe da Joana aproximar-se de mim com um sorriso amigável. Sinto um leve tremor enquanto remato a ata e disfarço o desconforto observando as horas no relógio de pulso.

–  A Sô doutora sabe q’ a minha Joana se chumbar a Português, chumba d’ano…

– Mas não será só pelo Português… – a senhora mantém o sorriso e revela-se persistente.

– Que chumba, chumba, e já é o segundo ano, ela até gosta tanto de si, sô doutora, veija lá, veija lá…

– Se a senhora puder, converse com ela, convença-a a cumprir os trabalhos de casa, a participar na aula, a colocar dúvidas…

– Ó senhora professora, a gente não tem escolaridade, a gente só trabalha, mas quero o melhor pr’a ela… Afinal, como está este período de nota?

– Pelos vistos,  este ano continua outra vez com negativa…

– Ai, a filha da p**** que não me tinha dito nada!…

?…?

“E nada mais havendo a tratar, deu-se por finda a presente reunião.” Ego dico.

 

 

NOTA: Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

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As 50 sombras da minha docência

As minhas agruras com o 7ºG prosseguem. Porém, a verdade é que, por esta altura, confesso que atingi, entretanto, mais metas dos que as esperadas:

  1. Colocar o dedo no ar antes de falar (‘tá quase);
  2. Não se levantar sem mais nem menos, nem deambular pela sala de aula (check!);
  3. Não falar sem ser solicitado (‘tá quase);
  4. Trabalhar com o par ou com o grupo (say what?);
  5. Não trazer assuntos exteriores para a sala de aula (‘tá quase);
  6. Não atirar aos colegas O.V.Es – objetos voadores não especificados (check!);
  7. Trazer o material solicitado – caneta, papel, borracha (’tá quase), manual… (esquece lá isso);
  8. Não escrever nas mesas, não colar pastilhas nas paredes ou nas costas dos colegas (check!);
  9. Não atender telefones / fazer chamadas à socapa, enviar ou receber mensagens (check!);
  10. Fazer, pelo menos, um tpc mensal (check!);
  11. Dar 15 minutos ininterruptos de matéria numa aula de 90 min (YES!!!!!!);
  12. (…)

A última aula, porém, véspera da reunião com os encarregados de educação, finalizou de forma promissora. Depois de lermos e interpretarmos um texto, chegou o momento da análise do mesmo. Apesar de perceber que o Diogo, bem ao fundo da sala, se contorcia na carteira em silenciosos esgares de dor, dobrado sobre a barriga; como o rapaz é um fiteiro de 1,75 com seus catorze anitos, ignorei-o um bom bocado.

– A metáfora é uma comparação, mas sem o “como”, por exemplo; “a torre de marfim” transmite a ideia que a torre era…

– Jandira, dás-me uma folha?

– Pede à Joana!

– “Branca como o marfim”. O “como” já indica que…

(Ao fundo da sala o Diogo parece ensaiar palavras com os lábios a mexerem em surdina…)

– Muito bem, indica uma comparação, quem me dá outro exemplo que distinga a metáfora da comparação?

(O Diogo começa a erguer o braço timidamente no ar, hesitando se o faz ou não.)

– Nelson, trouxeste…? Desde 2ª feira…

– Pedro, és bué de estúpido, não me riscas mais o caderno, ouviste?

– Temos, também, a hipérbole…

– Priscilla cala-te, ‘tás-me a irritar! Nunca mais sou tua amiga…

– Ó Pedro, a Maria gosta de ti…..

– Quem me dá um exemplo de hipérbole?

– Stora, doem-me os tes-tí-cu-los!

Depression (Por amor de deus, eu estou MESMO a ouvir isto???

Ok, respira. RES-PI-RA!!! Pensando bem, é bonito ouvir a língua portuguesa tão bem empregue, não é?)

No início todas as cabeças se voltam para trás, estupefactas. Porém, depressa as gargalhadas mandam a sala abaixo. O Diogo, finalmente, disse o que tinha a dizer para toda a plateia o ouvir. Mas eu tenho mesmo de me manter séria, pois percebo que o seu sofrimento é sincero e que, pela primeira vez, desde que o ano começou, teve o mérito de ponderar as palavras a usar, antes de o fazer. Se pensar em todo o vocabulário que empregou anteriormente e espoletou a sua ida para a rua, parece-me até que temos aqui uma nova meta alcançada. Respiro fundo enquanto me viro dois segundos para o quadro para suster o riso desprevenido e volto a olhar o miúdo nos olhos.

– Diogo, vai um bocadinho lá fora, pode ser que se andares te sintas mais confortável…

(Posso lá eu saber se é essa a solução, mas numa altura de aflição, tem de se pensar em algo rá-pi-do para não aumentar o sofrimento – nem o dele, nem o meu…)

Quando, finalmente, dá o toque e eles saem, sozinha na sala, rebento num riso incontrolável. Não sei se é da situação em si ou se começo mesmo a ceder à pressão do final do ano… Feitas as contas isto tem corrido muito bem até aqui.

Por outro lado, só de pensar que, agora que quase domestiquei estas feras, vamos voltar a separar-nos uma semana inteira, não sei se hei de sentir medo ou alívio. Como se trata de uma turma com horário de manhã, vai ser brindada com cinco dias inteirinhos de férias (sim, porque, para eles, a sexta-feira é, definitivamente, dia em que não trabalham, dê por onde der), enquanto os seus colegas fazem exames. Antevejo já um recomeço muito penoso – mesmo antes de acabar, não haja qualquer dúvida que, para estes alunos, o ano letivo já chegou ao fim.

 

 

NOTA: Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência…

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Ânimo, que o feriado está quase aí!

Som bem alto e olhos presos no ecrã…

As coisas maravilhosas, mas inúteis, que aprendemos com os nossos filhos!

 

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Antropofagia legal

 

Aviso nº 2505-B/2015.

As folhas ainda vêm frescas da impressora. Como um precioso pacotinho volumoso, observo-as silenciosamente. São apenas papéis, então, por que razão tenho o coração na garganta, a pulsação acelerada e um suor prestes a aflorar-me à pele?

“Declaro abertos os concursos interno e externo”. Assim, logo na entrada, começam as palavras a devorar-me como fogo. Cada linha, cada letra é minuciosamente observada à lupa, como se procurasse um pequeno furo por onde seja possível escapulir dali para fora.

Mas em cada página, um nó no estômago, um vómito contido e as lágrimas a susterem-se a custo. A minha vida está aqui plasmada, esventradas as entranhas do meu ser nestas herméticas folhas. De cada linha escorre o sal que me rasga e queima. E o meu futuro, esmagado sob o peso do feroz papel, desespera, sabendo-me perdida.

Então, subitamente, identifico-me com o banal pacote de leite: validade limitada, o meu prazo chegou antecipadamente ao fim. Não a 31 de agosto, como está escrito no contrato, mas desde o preciso momento em que seguro estas folhas na mão.

Não há qualquer fonética de vida num parágrafo. E cada ponto final estrangula-me e sacrifica-me. Como se um veneno, brando e fatal, se imiscuísse nas minhas pálpebras até sangrarem, obrigando-me a cerrar os olhos em agonia.

Morre-se lentamente nestas páginas de cetim.IMG_3938

O rosto dos que sorriem, aqueles a quem, inesperadamente, foi dada a minha vez, cobrem-me de lama. E assim fico, petrificada, comida viva por cada frase, sucumbindo à dor carnívora destas palavras amorfas, como um pulmão apodrecido, que um qualquer sapiente legislador desenhou num dourado escritório com a janela aberta para o sol.

Um tremor gélido percorre-me a coluna. Dezoito anos depois, o que me sobra? Quilómetros, rostos, lugares, chegadas, despedidas, sonhos desfeitos: apenas presságios de um fim atroz. Onde pára o meu futuro?

Onde é possível sonhar-me inteira sem rasteiras oblíquas que me destruam a cada passo? Eu sou a minha profissão e a minha profissão é apenas isto – um monte de folhas a fazer-me perder teto e chão.

Sinto-me extenuada, exausta, despejada dos meus próprios sonhos. Um farrapo de quem outrora fui. Seca-se-me a força secreta e selvagem que tanto tempo transportei no meu peito em flor, e um cansaço absurdo apodera-se de mim.

A vontade de adormecer esta dor é tão grande. Este país magoa-me tanto, tanto que, juro, era capaz de rasgar os pulsos aqui e agora, em cima destas folhas brancas, até a hemoglobina plantar cravos rubros no lugar das carnívoras palavras negras , trazendo-me de volta a vida e o luar.

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As 34 sombras da minha docência 

Bom, eu detestava aula do 7º G até precisar de fotocópias, assim, “tipo”, para ontem… Então, decidi que o 7ºG ganhava o segundo lugar e a Reprografia o primeiro. Tem uma bruxa (Ná! Bruxa até é um nome bem simpático!), aliás um grifo asqueroso (ainda é demasiado injusto) que me trata de modo arrepiante:

– Bom dia, precisava de 55 cópias para amanhã de manhã, se faz favor.

– O quê? Mas julga que eu sou alguma máquina, é impossível! Impossível! Estou aqui sozinha e não tenho tempo para tudo, devia ter deixado isso mais cedo…

(Tento interromper o arrulhar nervoso)

–  Mas são só 55 cópias, não pensei…

– Não pensou, pois, nunca pensam! Chegam aqui e querem tudo feito à medida, como os sapatos! É impossível, eu tenho…, está a ver? (aponta o dedinho irritante para uma pilha de papéis suspeita) Tenho um trabalho para entregar hoje, isto é demais, tenho mais que fazer! (Continua a argumentar escabrosamente, quando estou prestes a desistir)

– Pronto, deixe estar, não imaginei… (rápida reformulação da planificação: net off, datashow não funciona, no copies, o que sobra?…PENSA DEPRESSA, PENSA DEPRESSSA!!!).

Sou interrompida pela voz arrastada e pesarosa do grifo da reprografia:

– Ora, deixe lá, deixe lá, eu é que sei o que sofro com isto, eu é que sei, agora 55 cópias, acha que é assim sem mais nem menos?

Deixo-lhe, temerosamente, os exemplares e preparo-me para vir embora com um obrigado e boa tarde suspensos entre tanta conversa desfiada. Subitamente, esta estranha admoestação é interrompida com a chegada de uma professora, velha na “casa”:

– Olá, boa tarde, doutora! Como foi esse fim-de-semana? E os seus meninos?… 60 cópias para logo? Com certeza, dê-me cá que ficam já feitas!

Sombra

Sinto-me extremamente estúpida. Não, abaixo de estúpida… entupida. É isso, sinto-me entupida pela minha miserável condição de caloira na escola. Confesso à Lurdes a cena que se passou (a Lurdes é a minha colega mais próxima, tem só 12 horas e está de passagem, tal como eu) e ela riposta-me com uma situação similar; a falsa ruiva ouve-nos (outra provisoriazeca) e repete as injúrias que lhe foram dirigidas na semana anterior, o Hércules (contratado de Biologia) confessa-se, igualmente tramado por uma cena do estilo.

Em reunião de grupo, alerto para o sucedido revelando-me “profundamente descontente com a falta de profissionalismo revelada”; que é como quem diz que não se admite que uns sejam primos e outros enteados (mas isso eu só pensei, não repeti).

–  Ó colegaaaa….

(Mau, se começa com este paternalismo…)

–  Ó querida (porque será que percebo logo que isto vai correr mal já a seguir?…), temos de desculpar a D. Conceição…

(o quê? Esse abutre draculesco tem nome?)

– Ela já está cá desde a fundação da escola!

(Uma loira oxigenada interrompe para reforçar o irreforçável)

– É bem verdade, desde a fundação!

– Estima-nos muito e mima-nos, mas, de início, fomos todas tratadas…

(Como merda?)

– … com aspereza! São feitios, é uma questão de feitios!

Olho em redor… . Estou rodeada de cabeças bamboleantes que acenam como zombies, assustadoramente em coro. Enterro-me na cadeira e afogo-me no silêncio. Recordo, apenas, o primeiro dia em que entrei nesta escola, cheia de felicidade por ter ficado colocada, repleta de energia para começar a trabalhar, superada a angústia dos erros e da espera de um concurso desumano e miserável.

Devia ter percebido, logo à entrada, que este lugar era de uma negrura cerrada. Sobretudo, depois de me sentar no local errado, na sala de professores, quando ocupei uma mesa, enquanto organizava a papelada do costume, sem adivinhar que cada cadeira ostentava um nome invisível. Tão invisível como eu, que fui completamente ignorada por quem me rodeou, conversando e rindo – “Cá estamos de regresso, não é? Ficaste com que turma?… Excelentes! De manhã, é claro, de manhã.” Pois, para nós sobram sempre os G’s, os F’s que ninguém quer, mas que dão tanta autonomia e independência a estas escolas.

Recordo-me de ver uma colega mais velha, com um sorriso estupendo e surpreendente, vir na minha direção e proferir ironicamente:

– A colega desculpe, mas vai ter de mudar de lugar, pois esta mesa está ocupada pelo nosso grupo, vê as pastinhas nas cadeiras?

Remeti-me à minha insignificância e, com um sorriso amargo, olhei em redor, dirigindo-me para a segunda área da sala, onde dois sofás absolutamente desconfortáveis acomodavam os outros intrusos recém-chegados e silenciosos.

sombra 1Foi assim que percebi que o ambiente nesta escola não resulta apenas das turmas difíceis, mas também do ar que lá dentro se respira.

Sobreviverei eu à sala de professores, à reprografia, ao 7ºG, ao F, ao H, aos 150 alunos que me calharam na sorte, aos desígnios de mais um concurso injusto que se avizinha?

Provavelmente sim, pois sou de uma casta de professores já velha no mercado. E que não tem alternativa, senão aguentar tudo isto…

A questão final, essa sim, é saber o que sobreviverá dentro mim no final de mais um ano, simplesmente, atroz.

 

To be continued…

 

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Paris aqui tão perto…

Ali aterrou na minha aula quase no final do segundo período.

Não falava uma palavra de português, inglês ou francês. Para que pudesse haver um entendimento mínimo , lembrei-me de pedir ajuda a um outro aluno mais velho, da mesma nacionalidade e que já frequentava a escola há alguns anos. Pedi-lhe que dissesse ao colega para se apresentar e que traduzisse a apresentação da turma. Fê-lo com alguma dificuldade uma vez que, explicou depois, apesar do país comum, o seu dialeto era distinto.

Por razões que não recordo, Ali, de 14 anos, não integrou naquele ano o português língua não materna e passava as aulas circunspeto e distanciado da turma, apesar do esforço de professores e colegas para que houvesse comunicação.

Por opção pessoal, voluntariei-me para lhe dar apoio extraordinário, de modo a que adquirisse o alfabeto, os fonemas, até iniciar, devagarinho, a leitura, a oralidade. Muitas vezes socorri-me de desenhos para pequenos truques de vocabulário e memorização que o faziam sorrir discretamente.

Porém, face ao incremento do trabalho burocrático, vi-me forçada a largar essa hora extraordinária e optei por dar esse apoio na aula de português, enquanto os restantes alunos, cumplicemente, faziam algum trabalho prático.

Certo dia, apercebi-me que ele abandonara a tarefa que eu lhe dera e lia com afinco um pequeno livro de orações. Isto repetiu-se diversas vezes daí em diante.

Outra vez, passando pela Biblioteca, vislumbrei-o a ver, com particular atenção, videos de um líder islâmico que vociferava a sua interpretação do Alcorão.

É claro que só percebi o conteúdo com a ajuda do tal aluno mais velho que, fortemente aculturado no nosso país, me ia ajudando a “ler” o novo aluno. Mas, admito, a coisa tornou-se um pouco assustadora…

Quando o ano acabou, Ali prosseguiu, apesar de tudo, pouco interessado em memorizar a nossa língua e mais empenhado no seu velhinho livro de orações. Eu prossegui a minha vida itinerante e nunca mais o voltei a ver.

Porém, depois disso, muitas vezes me questionei sobre a capacidade de resposta que os professores conseguem dar a estas situações que deixaram de ser tão pontuais na nossa sala de aula, independentemente, das nacionalidades que aí se aconchegam.

Era suposto a escola ser um espaço de liberdade, de aprendizagem, de partilha. Tal como, arrisco, a redação de um jornal.

Onde cabem a liberdade, igualdade e fraternidade, quando não falamos a mesma língua dos que nos são próximos? Quando os seus valores são tão díspares dos nossos que nem a escola se constitui como espaço de partilha e comunicação?

Como podemos combater o medo? O medo do outro…

Quando a pluralidade humana se dilui sobre os tiros de uma metralhadora, disparados porque não se admite brincar com coisas sérias, apesar de o riso ser, afinal, a linguagem que nos aproxima a todos; então, chegou o momento de nos questionarmos enquanto civilização.

Chegou o momento de, tal como a França será obrigada a fazer agora, procurar respostas sobre como lidar com a diversidade.

E essa é, realmente, uma questão para a qual não será, de todo fácil descobrir um caminho. É que a História tem o estranho hábito de se reinventar, mas é dela que depende o futuro.

Pessoalmente, também acredito que “Allahu Akbar”- Deus é grande, porém ele é ainda maior quando o defendemos com um lápis na mão, em vez de uma Kalasnikov nos braços.

E, muito provavelmente, é aí que a escola pode fazer a diferença…

 

 

 

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Futurismo

O seu rosto ilumina-se ao revelar-me a descoberta. Com apenas dois cliques encontrou a solução e apresenta-me o tema que quer trabalhar. Dois outros colegas assinalam que irão juntar-se a ela para obterem nota na disciplina. Noutra secção, outra equipa acabou de me enviar um trabalho representando a sua visão d’Os Maias de um ponto de vista cinematográfico – do tratamento estilístico do vocabulário ao levantamento visual, argumentam uma nova fórmula de interpretação do livro. Dois alunos mais atrasados comunicam que ainda se encontram a pesquisar e questionam-me quais os sites e obras prioritárias como apoio ao seu percurso.

A minha sala de aula é na escola, mas os meus alunos são, em algumas circunstâncias, virtuais. Marcamos aulas presenciais e organizamos a nossa aprendizagem em torno de áreas de interesse comum. A língua portuguesa que dou, já não se limita à gramática num pacote de fichas concentradas, mas à desconstrução prática de diálogos televisivos, à discussão de reuniões parlamentares, à reflexão sobre vocabulário desaparecido que Vieira legou. Com um clique mágico a sala compõe-se e estamos todos juntos aqui.

Sim, ainda estudamos os grandes clássicos, mas eles sentam-se à mesa com o uso interativo da língua, com a concretização de pesquisas que nos devolvem acontecimentos, artes, diálogos feitos de descoberta e amor. Falar o português é viver a portugalidade onde quer que estejamos. Na verdade, a minha escola não é diferente das outras que servem, sobretudo, para criar pontes entre professores e alunos que deambulam livremente por entre várias salas de porta aberta. O conhecimento é uma interseção de vários pontos, um espaço cartesiano onde os professores se movimentam como peças do xadrez, mas são os alunos quem decide como se movimentam as peças, que direção pretendem seguir, onde desejam chegar.

Antigamente, a escola era um espaço estanque. As salas quadradas delimitavam o futuro de cada cadeira e, portanto, de cada jovem que nela se sentasse. Na verdade, as escolas eram fábricas de pessoas. E os professores os maquinistas da engrenagem.

Não vivi nesse tempo, porém. Dizem que éramos outras pessoas, mais infelizes, mais ignorantes. Os professores caminhavam de escola em escola até ocuparem um lugar que diziam ser o dele. Aqui não existe um professor em cada professor. Existem muitos, que são o mesmo e o diverso, que sobem e descem escadas, que se abraçam e desenham futuros de mãos dadas. A cada obstáculo, um sorriso de encorajamento, é para isso que servem as reuniões semanais – ponderar soluções, criar ideias felizes, obter mais direções para o caminho.

Na cúpula educacional o ministro foi substituído pelo conselho educacional – vários professores, de várias escolas, abrem o livro dos sucessos e partilham os objetivos de cada escola com empresários, artistas, cientistas, sonhadores.

Trabalha-se para atingir a felicidade comum, trabalha-se na escola para criar um país mais rico, mais culto, mais soberano, mais transfronteiriço. Trabalha-se para que a felicidade de cada um, jamais atropele a felicidade dos outros. E para que, em caso algum, alguém fique para trás.

Com a mão afasto a página do livro virtual que se projeta tridimensionalmente na sala. «Por mais que da fortuna andem as rodas (…)/  Não vos hão-de faltar, gente famosa, / Honra, valor e fama gloriosa”. Assim sucumbe no escuro a voz da estrofe 74 do canto X e assim se lança o desafio do dia seguinte. Qual dos presentes conseguirá encontrar a sua própria voz na voz de Camões?

Que honra tenho de ter nascido nesta  época distante de outros dias enegrecidos em que os professores, maquinalmente, cruzavam a escola, maquinalmente assinavam sumários, maquinalmente preenchiam folhas de tédio e suor, enterrados em burocracias vazias e deprimentes.

Que sorte tenho de ser professora neste meu presente que lhes seria futuro se o tivessem querido agarrar mais cedo, se a sociedade lhes tivesse dado esse ónus de  ânimo leve.

Demorei 18 anos a chegar aqui, 18 anos de aprendizagem, de trabalho árduo, de domínio de tecnologias anualmente mais aliciantes e desafiadoras. E, no entanto, sinto-me profundamente humilde, curiosa, entusiasmada para continuar a aprender, ainda jovem na minha já experiente caminhada.

A escola regressou ao silêncio da partida. Agarro no meu pequeno conector interativo e guardo-o na mala, como outrora alguém guardava um pau de giz. Na sala silenciosa consigo vislumbrar diluidamente o professor do meu passado. Num gesto maquinal despeço-me dele e questiono-me: saberá ele descobrir no seu escuro presente uma candeia de felicidade e acreditar que, no futuro, também sorrirá assim?

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É urgente mudar a escola…

A medicação de crianças com NEE, refletida por David Rodrigues.

 

Medicalização da Educação

 

Eu, à semelhança de muitos portugueses, tenho excesso de peso.

Este excesso de peso afecta-me em variadas áreas da minha saúde, da minha funcionalidade e, helas, da minha estética. Tenho tentado perder peso mas… por cada meio quilo que perco, logo um quilo inteiro vem apressadamente colmatar a ausência do meio quilo perdido. E assim, os meus esforços não têm sido muito bem-sucedidos. Sou bombardeado com produtos para emagrecer: “perca três quilos numa semana sem dieta nem exercício”, “chega de excesso de peso: perca cinco quilos em duas semanas”. Confesso que são propostas sedutoras. E são sedutoras porque me prometem eliminar as consequências sem ter que intervir nas causas.

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Da equipa DeAr Lindo – Diana Souza

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