Category: Diana Souza

BRINDE UNIVERSAL, SELETIVO E ADICIONAL: AO NATAL!

 

ASSESSOR 1: Que maravilha de almoço natalício, Sr. Ministro!

ASSESSOR 2: Sim, sim! Que maravilha!

ASSESSOR 3: Aproveitemos para lhe fazer um brinde, Sr. Ministro!

ASSESSOR 4: Sim, sim! Um brinde ao nosso jovem e genial Ministro!

JOVEM E GENIAL MINISTRO: Ora, ora, não é preciso exagerar… (cofiando a barba com um sorriso) de que outra forma podemos nós celebrar esta época e o elevado sucesso do nosso Ministério, caríssimos?

ASSESSOR 3: Não seja modesto, Sr. Ministro! Olhe que eu estou cá desde 1987. Já muitos outros passaram pelo seu lugar, mas nenhum teve tanto sucesso como o nosso jovem e genial ministro…

ASSESSOR 2: Já muitos, já, Sr. Ministro!

ASSESSOR 1: Ui, um porradão deles desde 87, que eu também sou desse tempo!

ASSESSOR 4: Sim, sim! O Sr. faz História e Jurisprudência!

ASSESSOR 2: Jurisprudência e História, Sr. Ministro!

ASSESSOR 3: É que estamos, finalmente, a mudar a escola portuguesa!

ASSESSOR 1: A imprensa confirma: os alunos estão esgotados, exaustos e fartos dos professores à moda antiga! Precisam de desafios…

ASSESSOR 3: Precisam de usar as tecnologias.

ASSESSOR 2: Precisam de decidir o que querem aprender.

ASSESSOR 1: Precisam de um perfil à sua medida.

ASSESSOR 4: E não esqueçam: precisam de uma educação que os complemente tanto como um Fortnite!

ASSESSORA MUITO PRÓXIMA DO JOVEM E GENIAL MINISTRO: Os colegas têm razão, o Sr. Ministro é bestial, é um portento de criatividade educativa, é uma brasa… (Abana suavemente a mão sobre o roliço rosto ruborizado).

JOVEM E GENIAL MINISTRO: Ai, que exagero, não se esqueçam que metade dessas ideias todas nem foi minha, foi do meu querido amigo Johny. Ter um secretário de Estado desta categoria é um brilharete! É que ele acredita a sério na possibilidade de mudança! E depois tem aquele sorriso que desarma! Não há professor que não goste dele. E viaja mais do que eu, sempre numa roda viva a ouvir as escolinhas todas… que descanso!

ASSESSOR 4: Pode ser, pode ser, mas o Sr. é que manda! Enviar todas estas mudanças ao mesmo tempo para a escola, isso sim é que é um descanso!

ASSESSOR 2: Isso é que foi de génio.

ASSESSOR 1: Cansou bem os professores.

ASSESSOR 3: Sim, sim, andam bem cansadinhos. Foi brilhante: o 54, mais o 55, mais o 75, mais os semestres…, que maravilha! Nunca trabalharam tanto e tão bem!

ASSESSOR 1: E tão bem!

ASSESSOR 2: A escola agora tem futuro!

ASSESSOR 1: Tem futuro, olaré!

ASSESSOR 4: As sondagens confirmam que o Sr. Ministro não dobra, não abana, nem com o Bigodinhos a acenar bandeirinhas debaixo da ponte.

ASSESSOR 1: É só bandeirinhas…!

JOVEM E GENIAL MINISTRO: É que aquele tipo até enerva! Como é que ainda não percebeu que já perdeu a guerra? Os professores estão fartos de o ouvir. Querem é descanso.

ASSESSOR 3: Ui…, e como querem descanso… A inclusão das universais, das seletivas, das adicionadas, mais as flexibilizadas, as semestrais, as autónomas estão a ser milimetricamente cumpridas. Um mimo! Já ninguém quer bandeirinhas.

ASSESSOR 2: Já ninguém quer saber da condensação descongelada!

ASSESSOR 1: Mas não iremos ter alguma celeuma depois do Natal?

ASSESSOR 4: Qual quê? Os professores este Natal até foram todos reposicionados e ultrapassados, um mimo!

ASSESSOR 1: Um mimo!

ASSESSOR 3: Os professores são, na maioria professoras. E são quase todas avós! A única coisa que querem é que ninguém as chateie e que possam passar os próximos dias com os netinhos. Depois do trabalho todo que lhes demos, querem lá saber de bandeirolas na rua…

ASSESSOR 2: Até houve uma que me enviou um mail a perguntar se não podíamos fazer medidas universais, seletivas e adicionais só para professores, diz que acha que parece que também precisam…

JOVEM E GENIAL MINISTRO: Ora aí está uma brilhante ideia para o ano que vem: mande aí um fax à DGE, o Pedrinha Boss que trate do assunto! Então, aqui está mais uma razão para brindar!!!

ASSESSORA MUITO PRÓXIMA DO JOVEM E GENIAL MINISTRO: Brindemos, pois: que o nosso querido jovem e genial Ministro prossiga a construir a escola do futuro mais 9 anos!

ASSESSOR 2: E Mais 4 meses!

ASSESSOR 1: E ainda mais 2 dias!

JOVEM E GENIAL MINISTRO (em surdina para a Assessora muito próxima do jovem e genial Ministro): Ouve lá, é impressão minha ou já ouvi esta contagem em algum lado?…

 

 

QUALQUER COINCIDÊNCIA QUE ESTE TEXTO APRESENTA COM A REALIDADE É… PURA COINCIDÊNCIA.

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Ímpio

 

O Conselho Geral analisou criteriosamente os documentos, fez perguntas difíceis nas entrevistas e até lhes verificou os dentes. Havia que decidir e, postas as coisas em modo simplificado, o caso resumia-se a uma arrepelada, um deprimido e um gajo com mania que era “escritor cibernáutico”. Para assegurar que não se falhava a escolha acertada, um dos presentes tirou a bolinha da sorte do saquinho dos nomes da forma mais profissional possível. Saiu a sorte ao gajo que se julgava “escritor cibernáutico” o que, feitas as contas, não parecia o cenário pior. Porém, o que ninguém imaginava era o resultado seguinte. O gajo que tinha a mania que era “escritor cibernáutico” tinha, também, a mania que era democrata. E, todos sabem que, não há nada pior numa escola do que um democrata com a mania de ter lido Karl Marx e estudado a revolução francesa. A escola precisa de um DI-RE-TOR. De alguém que imponha a ordem, a certeza das incumbências e distribua, sem temor, as incumbências certas. Contudo, mal tomou posse, o sacaninha do arrivista cibernáutico estragou logo a previsão de sossego que se ambicionava. Qualquer decisãozita, lá marca ele uma reuniãozinha enervantemente democrática. Muito gosta o senhor de ver mãozinhas no ar a decidir com ele, ou por ele, depende do ponto de vista. Diretor que é DI-RE-TOR não hesita, não duvida, apenas decide e impõe a sua visão, mesmo que seja pitosga de todo. Mas este ímpio desgraçado tem a mania que governar é isto: ouvir a opinião de quem o rodeia. É para marcar reuniões? Votem nos dias que vos dão mais jeito. É para corrigir exames? Indiquem as vossas preferências. Tem de se decidir a distribuição do tempo letivo? Refiram o que vos dá mais jeito. A coisa é tão ostensivamente ridícula que chegou ao ponto de o gajo com a mania que era “escritor cibernáutico” armado em democrata ter criado um inquérito online para a comunidade escolar votar na cor favorita do papel higiénico a comprar para a escola. Paneleirices. Até parece que o orçamento participativo ganhou uma nova dimensão neste agrupamento, com decisões politicamente corretas, discutidas em equipa, em grupo, em assembleia de professores, de alunos, de funcionários, de pais. Todos têm que dar opinião e partilhar ideias. Onde é que isto já se viu? E andamos nesta treta vai para uns meses com o gajo a sorrir-nos de orelha a orelha mal entramos na escola, bom dia para cá, bom dia para lá, tu isto, tu aquilo, até parece que em vez de mandar o gajo é nosso amigo. Escola que é escola não tem necessidade disto. Dá-me cá uns nervos…

RuDi

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“Somos repórteres!” – quando a escola abre novos horizontes aos seus alunos…

O livro que hoje apresentamos abre espaço a uma reflexão que nós, professores, devemos instigar.

No momento em que se pondera a fusão de disciplinas, o trabalho focado na transdisciplinaridade, nos projetos, assente num perfil de aluno que o prepare verdadeiramente para o século XXI, chega-nos notícia de um livro original.

Original na medida em que todos os seus autores são alunos de uma escola que, através de um trabalho de pesquisa conjunto ou individual, mobilizou a aprendizagem da sala de aula para a escrita com um objetivo específico e palpável: assegurar que aquilo que o discente produz chega a um público concreto, chega a um leitor.

Este projeto partiu, sem dúvida, de um intrincado trabalho de equipa entre professores e alargou-se para além do universo da escola com os jovens a tomarem opções distintas, expressando, através de inúmeras reportagens, os seus próprios pontos de vista.
Pessoalmente, não conheço forma mais bonita de motivar o gosto pela escrita.

Aqui ficam os parabéns do blogue a docentes e alunos do 8º ano do Agrupamento de Escolas 4 de Outubro, exemplo claro de que, na sala de aula, se aprende mais quando implodimos o espartilho de aprendizagens petrificadas…

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APELO SOLIDÁRIO PARA OS BOMBEIROS

APELO SOLIDÁRIO
Face ao esforço sobre-humano e heróico na luta contra o fogo que as corporações de Bombeiros portugueses têm evidenciado, e no âmbito da responsabilidade social que o SINAPE defende, apela-se ao pessoal docente e não docente de todo o país que proceda à oferta de alguns dos seguintes bens junto dos quartéis de bombeiros atualmente envolvidos no combate aos incêndios (mesmo pouca quantidade vale muito!):
Água engarrafada (1,5l)

Fruta (laranjas e fruta facilmente comestível no local)

Barras de cereais 

sumos de pacote (individuais)
Corporações de Bombeiros onde entregar os donativos:

Águeda

Anadia

Arouca

Aveiro

Braga

Caminha

Marco de Canavezes

Mealhada

Mondim Basto

Porto

Sever do Vouga 

Viana do Castelo

Viseu

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Decisões na tábua

É difícil atingir a concórdia com tanta gente junta à mesma mesa. E cada vez era pior, sobretudo, porque o homenzinho das tabelas coloridas insistia em criticar cada decreto-lei produzido, teimava em apontar defeitos em cada lei primorosamente refletida em cada gabinete simpaticamente inspirado à beira Tejo.

Estava farto o excelentíssimo secretário de estado da educação e exigia que se desse exemplo de celeridade e competência dos serviços. Havia dias em que, em coro, lhes apetecia apenas, a todos, mandar o homenzinho das listas coloridas, enervante e intriguista, comer as tripas todas.

Não havia sossego com aquele tipo sempre a imiscuir-se nas tarefas alheias. Por isso, a excelentíssima diretora dos serviços gerais ordenou à respetiva secretária assessora que trouxesse consigo já uma solução definida para acelerar os procedimentos.

Determinada a cumprir o pedido, ponderou numa ideia visionária para resolver os contentos. Largamente dada às espiritualidades, pareceu-lhe, até, bastante óbvio o caminho. Por isso, logo no início da reunião, apresentou uma tábua de ouija que assentou sobre o centro da mesa.

Os presentes entreolhararam-se com uma efervescente curiosidade e escutaram a sua interlocutora que explicou com uma aquática clareza as regras, ponto por ponto.

– Meus senhores, para evitar detenças e assumirmos com eficácia e confiança as decisões aqui tomadas, há que escutar o que nos diz a tábua. Cada um coloca suavemente o dedo sobre o indicador móvel. Repito, suavemente, para não se aldrabarem as respostas. A questão é lida e o indicador seguirá para a resposta mais adequada a cada caso. Não há cá dúvidas, ok? É o que a tábua manda, certo?tabuleiro-tabua-ouija-madeira

Um burburinho de entusiasmo apoderou-se do conselho, que ninguém gosta de chegar tarde a casa, e todos assentiram. Depois, posicionaram-se ordeiramente sobre o tabuleiro e o representante do conselho jurídico começou a ler a listagem de questões com voz bem sonante.

– Então, vamos lá a saber, podem os professores colocados no MI permutar?

E, ligeirinho e célere, o indicador desenhou um simpático sim.

Os presentes sorriram e registou-se a resposta dada para integrar num decretozito seguido de uma notinha informativa que esclarecesse quaisquer dúvidas sobrantes.

– Os permutantes devem ser os de 1ª prioridade?

E, ligeirinho e célere, o indicador desenhou um simpático sim.

– E os de 2ª prioridade também podem permutar?

E, ligeirinho e célere, o indicador desenhou um “depende”. Os presentes entreolharam-se, espantados e o representante jurídico prosseguiu:

– Os de 2ª prioridade que ficaram colocados permutam?

Logo ali surgiu um “sim” esplenderoso.

– E os que não ficaram colocados?

E, ligeirinho e célere, o indicador desenhou um enfático “não”.

A excelentíssima diretora dos serviços gerais engoliu em seco, porém a respetiva secretária assessora, apossada de um poder irrefutável pela hierarquia ali presente, rematou quaisquer dúvidas que subsistissem.

– Pronto, agradeçam e despeçam-se. A tábua nunca falha, nunca se engana.

E, assim, pela primeira vez na história dos serviços administrativos da educação houve consenso absoluto e uma reunião de breves 10 minutos em que tudo se decidiu a contento de todos e todos seguiram para lanchar ainda em casa.

 

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Coisas estranhamente mundanas – minutas de Café

O dia está soalheiro e sinto-me cheia de energia. Entro numa pastelaria que abriu recentemente perto de mim. O espaço é agradável, está, aparentemente, bem organizado, é espaçoso e cheira ainda a novo. Dirijo-me ao balcão e peço um café com um bolo que cobicei na montra dos doces.

O senhor, cordialmente, questiona-me se já pedi a minuta.

Franzo a testa, nunca ouvi falar em semelhante coisa e ele clarifica a óbvia surpresa que o meu silêncio evidencia.

– Aquando do seu pedido tem de nos entregar a respetiva minuta.

Às vezes as coisas óbvias são tão irremediavelmente estranhas que se torna difícil dissimular o espanto que nos causam.

– Mas qual minuta?

– Depende, menina. Se só quiser café, pede ali naquele balcão a minuta 1, 2 e 3. Se também pedir bolo sãos as 3 seguintes.

O homem diz isto com tanta convicção e profissionalismo que é difícil não o levar a sério. Porém, permaneço incrédula. Como ele se apercebe da minha resistência e a fila atrás de mim se começa a impacientar, resume-me a questão:

– Vejamos, na minuta 1 deve referir o tempo de experiência que tem a beber café, em dias. Não se esqueça que deve comprovar esse dado com o seu médico de família.

A minha testa franze-se de tal forma que o meu rosto deve ter recriado uma nova forma humana. Mas ele prossegue impassível:

– Na minuta 2 deve referir o seu nível de envolvimento com a cafeína e a justificação da importância da mesma na sua vida. O médico de família deve também atestar esses dados. Na terceira minuta, por favor, refira o tipo de café em que se tornou especialista e comprove o grau de envolvimento que possui nessa especialidade. O Presidente da Junta de Freguesia da sua área de residência deve atestar a sua declaração.

– Mas eu só queria um café e aquele bolo…coffee_wallpaper_black_and_white_968

– Pois, mas para o bolo já necessita das três minutas seguintes. Na primeira refere qual a experiência em degustação daquele bolo em particular, contabilizada em dias. E para as seguintes o mesmo que referiu para o café, mas relativamente ao bolo que selecionou. Compreendeu? Contudo, cuidado!, porque se optar pelo mil-folhas, deve acrescentar a minuta número 7, por causa do elevado colesterol…

–  Sim, mas não percebo por que razão não basta a primeira minuta que comprova há quanto tempo bebo café, ou porque não posso apresentar esses dados online, na minha ficha de cliente, por exemplo, era mais rápido…

– A menina, por favor, não complique !!!! Além disso, cada minuta tem de vir assinada pelo seu médico de família e pelo Presidente da Junta de Freguesia da sua área de residência. Próximo!!!!!

Retiro-me da fila maldizendo o anseio atroz que me fez arrastar até ali… (#$%&*!!!!). As pessoas atrás de mim têm já várias folhinhas na mão com carimbos e declarações intrincadas que apresentam ao glorioso empregado do café.

Sinto-me cabisbaixa e com o olhar enegrecido de ódio. O dia lá fora escureceu, as nuvens ganharam espaço no céu, estou inexcedivelmente exaurida de fúria.

Subitamente acordo deste inesperado pesadelo que me acometeu em plena noite. Estou alagada num suor fininho que me envolve todo o corpo.

Sorrio ante a minha própria estupefação e respiro de alívio.

Felizmente, na vida real estas coisas não nos acontecem, não é?

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As 60 sombras da minha docência

Começou o tempo das despedidas.

Organizam-se os dossiês, fazem-se vigilâncias, recriam-se turmas, concluem-se relatórios, avaliam-se atividades, inventariam-se materiais, renovam-se matrículas, reúne-se com pais…

Confesso, há um compasso de tristeza nas paredes vazias de livros de ponto, nos corredores mortiços e estagnados de bafo morno.

2Sob os meus passos dobra-se o entrecortado silêncio e sinto o corpo moído. Do calor ácido que se vive dentro destas paredes, da exaustão que as horas contadas provocam, do interminável compasso de espera.

Os rostos cruzam-se brevemente, mas noto, também nos que me rodeiam, a exaustão do fim. Uma ou outra notícia de jornal fala já no início do ano que vem, nos “novos” programas que entram agora em vigor, nos concursos que arrancam outra vez, porém, a única coisa que desejo é que se calem todos, que me deixem em paz, exaurida que fiquei destes corredores curvos.

Ao contrário do que imaginei, não sinto uma alegria desenfreada por partir deste espaço. Apenas um vazio opulento e extremado.

Ao olhar para esta gigantesca casa, esta máquina trituradora de pessoas, só me ocorre o contraste com uma outra onde estive recentemente numa formação. Escola antiga, remodelada, a tecnologia ao dispor de quem entra, os cursos profissionais realmente vocacionados para o mundo que os espera. O seminário, internacional, era composto por professores que iam percorrendo workshops à sua escolha. Quem os recebia e conduzia? Alunos como os meus, mas sem bonés de pala, sem arrotos, sem o cabo das tormentas exposto ao mundo.

Perguntei à responsável do centro, como tinham conseguido tal feito. Respondeu-me que lançara o desafio em turmas diferentes de várias escolas daquele concelho. Turmas profissionais, vocacionais, de eletrotecnia, hotelaria, turismo. E, assim, condensados numa escola que não era a sua, tinham ficado responsáveis por auxiliar a organização do centro de formação.

Dava gosto vê-los poisar os aperitivos com um sorriso recatado, esclarecer a localização de salas como se se estivesse dentro de um respeitável museu, ajudar os formandos e os formadores quando o computador se revelava mais teimoso e inteligente que os dois juntos, servir o almoço, disfarçando a inexperiência e o decalque fino do suor nas mãos nervosas.

O meu espanto adveio do facto de, subitamente, perceber que tudo aquilo fazia sentido, para nós, para eles. O que não faz sentido nenhum é a escola, os pais, tudo o resto não perceberem isso, assumindo, simplesmente, que a sala de aula tem de estar cheia e nós temos de gramar com aquele peso todo às costas…

Não me inibi de dar os parabéns àqueles jovens e à diretora do Centro de Formação (AlmadaForma), pela eficácia do seu gesto que criou tão inusitadas pontes. Os próprios professores estavam estupefactos com o empenho que um convite tão simples suscitou. Pensei apenas que, numa escola assim, eu podia ser feliz. Bastaria o sonho de alguém, bastariam gestos, bastariam as pessoas para tudo mudar.

Aqui. Aqui o mundo é apenas redondo e de uma bestialidade quadrada.

Abraço rapidamente dois ou três colegas que soçobraram no desânimo de dias pusilânimes. Como na encruzilhada de uma estrada, aqui nos separamos.

Do passado sigo despida de saudades. Vá para onde for, a bagagem pesada fica à beira desta estrada.

Quem sabe, no ano que vem, conseguirei, de facto, ser uma professora a sério…

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GOLPE – DA ALEGRIA E DA DOR

Quando recebi a informação, ia já a caminho do cinema. Tinha decidido tirar a tarde. Estava cansada dos papéis, das conversas, da espera. Queria ter apenas um pedacinho de sanidade, de esquecimento.

Decidi deixar o telemóvel no carro, porque sabia que a hora ia chegar e, simplesmente, não me apetecia estragar o momento. Porém, quando a sessão acabou e as luzes iluminaram a sala, percebi que não podia continuar a protelar. E, a cada passo mais perto do carro, senti algo incompreensível. O meu coração ia acelerando, mas os pés colavam-se ao chão. Os sons titubeavam na lonjura, como se eu estivesse quase fechada numa caixa, e cada gesto meu fosse projetado muito lentamente no espaço. Ao olhar em redor, só me ocorria que, dentro de minutos, aquele tempo já não iria existir. Que aquele momento, um segundo prolongado, se desvaneceria para sempre. Tinha a garganta seca, os olhos vidrados e foi com desânimo e esforço que coloquei a chave no carro.

Sentei-me, respirei fundo e agarrei no telefone. 8 mensagens, 15 chamadas. Por breves instantes supus que a alegria fosse alheia e a má notícia costumeira vinha a caminho. Então, abri a primeira mensagem, do meu eterno namorado. E, a custo, li: QZP 7.

Assim. QZP 7. Apenas isto.

Reli, abri outra mensagem e outra, todas com parabéns que começaram, devagarinho, a abrir uma brecha no meu corpo, até ribombarem com uma euforia tal, que um trovão de luz e choro compulsivo me desfizeram em água.

Ali estou eu. Ali estou eu ainda agora. Sentada no carro, um calor demoníaco que sufoca corpos e eu não sinto nada, só um rasgo imparável de lágrimas e soluços descontrolados.

18 anos depois, estou efetiva.

As mãos tremem tanto que nem consigo carregar nas teclas. E, quando tento falar, a voz esganiça-se, esfuma-se e esbate-se num choro sem tino.

Do outro lado, o meu amado ri do meu silêncio entrecortado por soluços e, à distância, dá-me um abraço feito de flores e frutos, tão doce, tão perfumado, que eu inspiro fundo e tenho-o logo ali, respirando-me ao ouvido.

A seguir falo com a minha mãe. Depois, a minha irmã gémea, mais alguns amigos que viveram a minha vida de angústia quando, nos últimos 18 anos, o coração e o medo me emparedavam num sofrimento atroz (e a todos vós desejo que este momento inigualável de felicidade vos seja extensível). Como pode caber tanto carinho num telefone tão minúsculo?

A seguir, um colega, que partilha a minha alegria, “e o que fazemos a seguir?”. Na minha voz entrecortada pela emoção e pela baba de cuspo e suor que me escorre, suspiro: “eu nem sei, nunca li a legislação desse ponto de vista…”

E, depois, finalmente, a primeira chamada de desalento, de dor profunda. A Xaninha, com vinte anos de serviço, que continua, simplesmente, candidata a professora.

E as minhas lágrimas duplicam, porque o meu coração tão feroz, tão destemido, não aguenta mais golpes hoje. Ainda estou no carro parada, as mãos tremendo, um bafo endemoniado à volta, eu e a Xaninha a chorar juntas no vazio que nos rodeia a ambas.

Não, já não choro compulsivamente de felicidade. Choro de raiva, de tristeza, de vergonha pela humilhação a que nos sujeitaram e sujeitam tantos anos. 1

Este golpe político tão elaborado e genial (parabéns a si, senhor Crato, quase lhe beijava a boca em vez de desejar que lhe trucidassem esses minúsculos órgãos genitais), porém, não me fará esquecer que existe um futuro à minha frente. Sim, estou feliz com uma imensidão que só quem passou por tudo isto pode perceber. E sim, também estou furiosa pela injustiça que este concurso representa.

Sentada no silêncio do meu carro, sorrio.

Posso estar embriagada de felicidade, mas, quando votar, não farão de mim parva.

Ligo, finalmente, o motor e sigo caminho.

Parece que o futuro está à minha espera…

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Um brinde ao Arlindo

brindeHá quem chore,

há quem ria

mas, sem dúvida,

o Arlindo

merece brinde

ao fim do dia.

Saca listas e publica

analisa e tudo explica.

Viv’ó colega companheiro

recebe pouco e

trabalha

a tempo inteiro!

 

 

 

 

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As 55 sombras da minha docência

O excelso senhor diretor teve a delicadeza de marcar a reunião para uma sexta-feira, às 19h para que não houvesse desculpa para pais faltosos.

A mim coube-me a incumbência de fazer a ata, sabe-se lá por que razão, sai sempre este bilhete de lotaria aos de Português, cargo que assumi imediatamente levando o meu pequenino Magalhães: “Aos x dias do mês y reuniu-se o Conselho da Turma 7ºG com os respetivos encarregados de educação…”

A DT resolveu iniciar a reunião apresentando os professores. É boa rapariga, a colega, mas quem a veja, pequenina, um pouco franzina e com uma voz líquida, muito serena e ponderada, nem a imagina na sala de aula, a berrar pelos pulmões quando a garotagem lhe começa a trepar as paredes.

Começa, então, por “alertar para o mau comportamento e mau desempenho escolar evidenciados globalmente pela turma, considerando o Conselho de Turma a importância do apoio familiar na alteração de atitudes”, DT dixit.

Prossegue, referindo que “o acompanhamento familiar é aliado do sucesso académico, sendo fulcral que exista uma interação frequente com a escola”, DT dixit.

Continua insistindo que “a presente reunião serve para discutirmos os problemas, encontrarmos soluções”, DT dixit.

E nisto, assim sem mais nem menos, abrem as hostilidades.

 

RUSSIA/

Ao fundo da sala o senhor d’óculos dispara com ar incomodado, enquanto a colega de Inglês, encolhida na cadeira, me sussurra, lastimosa “É o pai do Rui…” (o qual é um dos nossos brilhantes alunos que costuma, com muita frequência, mandar um ou vários professores ao mesmo tempo “apanhar alho”, como se fosse essa a nossa profissão ou incumbência).

Está profundamente incomodado com o facto de os professores terem embirrado com o seu filho, porque é bom garoto, educado em casa, cumpridor das tarefas, mas na escola todos dizem mal dele, ele bem vê que há algum engano, a coisa não é assim, a injustiça é óbvia (e, enquanto penso na forma mais airosa de expor isto na maldita ata, percebo logo que estamos a começar bem).

A DT coloca-se na pontinha dos pés para o ver melhor e clarifica que o “menino” (de 15 anitos apenas) tem 6 faltas disciplinares, todas por injúrias verbais, é violento com os coleguinhas, mas até tem bom fundo, se o senhor encarregado tivesse vindo logo no início do ano ou (…lhe tivesse dado umas “galhetas”???…) acompanhado mais de perto, as coisas não tinham chegado a este ponto…

Um ou outro professor tenta desviar o assunto para evitar casos particulares e falar na turma, mas é óbvio que a coisa já se entortou, porque, logo a seguir, consigo vislumbrar outro paizinho nervoso que sorri e entrevejo o brilho de pistoleiro nos seus dentes frios de marfim. Vai ser rápido, faz um esgar súbito e dispara. Atirou de morte na de Matemática. Chamou-lhe incompetente, desinteressada (que é como quem diz, frígida emocional) e burra (porque corrigiu mal um exercício). Ele que é advogado é que tem de ensinar Matemática à filha???

Uiiiii, a de Matemática responde à letra e, caramba que isto vai descambar, porque o prof. de Ciências Naturais tenta acalmar os ânimos e leva com um bofetão da mãe do Pedro que o acusa de maltratar o filho quando ele alertou na caderneta para o facto de o aluno não fazer TPC’s. Entretanto, a mãe do Bruno desata num pranto comovido, “Q’eu não sei o que hei-de fazer com ele st’or, qu’eu não sei…”, porque o colega de Ed. Física diz que ele nunca vai às aulas “e vai chumbar por faltas, minha senhora; vai chumbar por faltas”, mas, por sorte, veio o pai com ela e responde “Vou-lhe arrear, vou-lhe arrear” e ficamos sem saber muito bem em quem é que ele dizia que arreava, se ao filho, se ao prof… A Dt pede “que se acalmem, que se acalmem”, porque estamos todos ali pr’ó mesmo e, durante um bom bocado, a tensão paira sobre as nossas cabeças, até a DT conseguir amenizar o combate e começar, finalmente a encerrar o cabo dos trabalhos.

Nesse momento, vejo a mãe da Joana aproximar-se de mim com um sorriso amigável. Sinto um leve tremor enquanto remato a ata e disfarço o desconforto observando as horas no relógio de pulso.

–  A Sô doutora sabe q’ a minha Joana se chumbar a Português, chumba d’ano…

– Mas não será só pelo Português… – a senhora mantém o sorriso e revela-se persistente.

– Que chumba, chumba, e já é o segundo ano, ela até gosta tanto de si, sô doutora, veija lá, veija lá…

– Se a senhora puder, converse com ela, convença-a a cumprir os trabalhos de casa, a participar na aula, a colocar dúvidas…

– Ó senhora professora, a gente não tem escolaridade, a gente só trabalha, mas quero o melhor pr’a ela… Afinal, como está este período de nota?

– Pelos vistos,  este ano continua outra vez com negativa…

– Ai, a filha da p**** que não me tinha dito nada!…

?…?

“E nada mais havendo a tratar, deu-se por finda a presente reunião.” Ego dico.

 

 

NOTA: Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

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