De modo particular, os jovens estão a sofrer os efeitos prejudiciais, dificilmente reparáveis, decorrentes do isolamento social e do medo e incerteza quanto ao futuro, impostos pela pandemia, não existirá qualquer dúvida sobre isso…
Mas o problema do isolamento social nos jovens não pode ser visto como uma novidade ou como algo inédito, imputável em exclusivo e em absoluto à pandemia…
Por todos os constrangimentos conhecidos, a pandemia agravou o problema do isolamento social dos jovens, deu-lhe maior visibilidade e tornou a sua existência mais consciente, mas não o criou… Esse problema já existia anteriormente e também já assumia proporções notórias e inquietantes…
Nos jovens, o “gatilho” da pandemia trouxe à ribalta, sobretudo, muitos quadros depressivos e muitas crises de ansiedade, sintomáticos de estados emocionais negativos, frequentemente pautados pela tristeza, pela sensação de abandono e de solidão e pelo descontrole…
Na verdade, muitos jovens parecem estar tristes, sós e abandonados há muito tempo, deixados numa solidão que cada vez mais os aprisiona e os empurra para um mundo irreal, não poucas vezes também surreal…
E um mundo assim, onde facilmente se confunde a realidade com a ficção e a fantasia, pode tornar-se num mundo que condiciona e restringe as capacidades de auto-controle e de gerir a frustração, a ansiedade e a angústia…
É, aliás, no contexto anterior que surge, quase sempre, o fenómeno da violência em contexto escolar que, nos últimos tempos, tem vindo a dar mostras de agravamento…
À luz dos dados até agora conhecidos, também é nesse contexto que se inscreverá o episódio recente do jovem que, alegadamente, teria um plano para atacar indiscriminadamente colegas de Faculdade…
E há tantos “Joões” por aí: jovens vulneráveis, que fogem da realidade, muitas vezes sentida por si como insuportável; jovens que se refugiam em vidas paralelas, imaginárias e fantasiosas; jovens que tendem a viver num mundo muito próprio e obscuro; jovens alheados e desligados das vivências quotidianas e das convenções sociais; jovens “invisíveis” e “silenciosos” em termos sociais, em que poucos reparam…
Lamentavelmente, e no geral, só se costuma reparar neles quando atentam contra si próprios ou quando maltratam terceiros, apesar de existirem jovens com um perfil semelhante ao descrito na maioria das escolas…
É comum, sobretudo nas escolas onde se lecciona o Ensino Secundário, observar-se durante as pausas entre aulas, muitos jovens literalmente agarrados aos telemóveis, ausentes daquilo que deveriam ser as suas vivências diárias, como que desligados do mundo real… E, muitas vezes, o mundo real está ali mesmo ao seu lado ou à sua frente, bastaria que conseguissem desviar o olhar do ecrã para o percepcionarem…
A alienação proporcionada pelos meios tecnológicos é gritante para muitos desses jovens que, diariamente, repetem a mesma prática: não falam com ninguém, não procuram interagir com o grupo de pares, nem se mostram disponíveis para encetar qualquer relação de proximidade social ou afectiva…
O seu mundo está circunscrito a um aparelho tecnológico, começa e acaba num telemóvel, e as interacções, se as houver, serão meramente virtuais… A (falsa) sensação de segurança, proporcionada por tal “zona de conforto”, fá-los remeter-se ao silêncio e torna-os prisioneiros da solidão…
E escusamos de desvalorizar e de escamotear tais comportamentos. A distância que separa o (aparente) inócuo do (efectivo) grave é, por vezes, muito curta…
Muitas vezes, os “amigos” não são reais, nem concretos, nem palpáveis… Cria-se a ilusão de que se está acompanhado, mas não se estabelecem relações interpessoais naturais e genuínas, assentes na interação presencial…
Colecionam-se “amigos” como se fossem troféus, quanto maior o número, maior a aceitação, a influência e a popularidade… Efémeras companhias, ilusórios companheiros: fantasiar ou idealizar relações não é o mesmo que vivê-las e experienciá-las na vida real…
Há quem não consiga passar sem “consumir diariamente uma certa dose” de redes de comunicação virtual como o Facebook, o Instagram, o WhatsApp, o Twitter, o TikTok ou o Youtube, se referirmos apenas as mais “benignas”…
Esse consumo, por vezes compulsivo, pode mesmo transformar-se numa dependência, sobretudo psicológica, e quando, por qualquer motivo, a respectiva privação é forçada ou imposta, podem desencadear-se reacções físicas e psicológicas semelhantes às de um quadro de adição de determinadas substâncias químicas, típicas de uma síndrome de abstinência…
Efectivamente, pode “ficar-se agarrado” ao consumo de determinados produtos tecnológicos, de que são exemplo mais flagrante os jogos online/videojogos…
Cada vez mais, o comportamento dos jovens é o reflexo do que se passa no seio de muitas famílias e a forma como as famílias funcionam vê-se, comummente, nessa conduta… A percentagem significativa de alunos (crianças e jovens) que passa a maior parte do tempo entregue a si próprio, desprovida de apoio e de acompanhamento familiar ilustra, muitas vezes, esse funcionamento…
A ausência de comunicação, de partilha, de negociação e, sobretudo, de vinculação afectiva com as respectivas figuras parentais impele, frequentemente, os jovens a “refugiarem-se” nas ditas redes de comunicação virtual, procurando nas mesmas as recompensas afectivas e a sensação de pertença a um determinado grupo que, de outra forma, não obteriam…
Mas o resultado mais comum disso costuma ser o surgimento de uma certa alienação e da prisão dos jovens a um mundo meramente virtual… As tais redes de comunicação virtual promovem, efectivamente, o isolamento social e o distanciamento físico, apesar de criarem uma expectativa em sentido contrário…
Perturbador, também, é ouvir de parte significativa dos jovens, a afirmação de que, se lhes fosse permitido, dispensariam as aulas presenciais e o inerente contacto diário e directo com os pares e com os adultos…
Em Portugal só se discute e escalpeliza um problema quando se está na iminência de uma tragédia ou quando se está perante uma tragédia consumada… Nesse sentido, parece que nos últimos tempos se descobriu que, afinal, os jovens também têm saúde mental…
A saúde mental costuma ser aquela vertente da saúde que tende a ser olhada com um certo preconceito e um certo desdém, sendo, amiúde, alvo de atitudes estigmatizantes e de discriminação negativa…
Mas a saúde mental diz respeito a todos e a cada um de nós… Urge olhá-la e tratá-la com toda a seriedade e não apenas como um tema que fica sempre muito bem em qualquer discurso político ou de circunstância…
Inevitavelmente, todos os dias nos cruzamos com vários “Joões” e alguns deles poderão estar mesmo à nossa frente… Não pode continuar a ignorar-se a existência de alguns comportamentos atípicos manifestados por um número significativo de jovens em contexto escolar, possíveis preditores de eventuais acções disruptivas…
Sem dramatismos, não ignorar e não desvalorizar, talvez seja a forma mais eficaz de se poderem evitar futuras desgraças ou tragédias…
(Matilde)















