Dezembro 2025 archive

Relatórios que brilham e escolas que sobrevivem – Estado da Educação 2024

Há uma certa poesia involuntária nos relatórios oficiais sobre a educação portuguesa. São densos, polidos, cheios de gráficos bem comportados e frases que soam a compromisso nacional, quase como quem lê um catálogo de luxo sobre um país onde tudo funciona. O Estado da Educação 2024 é mais um desses documentos que, à superfície, parecem anunciar um sistema a caminho da excelência. Mas basta sair do PDF e pisar um corredor de qualquer escola pública para perceber que há um abismo entre aquilo que se escreve e aquilo que realmente se vive.

O relatório fala de progressos na escolarização, na inclusão e no acesso ao ensino, e até concede umas páginas inteiras à ideia da inovação, como se a simples palavra tivesse força para resolver problemas. Destacam-se contratações, aumentos de cobertura e investimentos em medidas de apoio. Tudo muito bem organizado, muito certo, muito alinhado com as melhores expectativas europeias. O problema é que o país real não lê relatórios e continua preso a carências que não cabem em gráficos. Falta pessoal docente e não docente em demasiados sítios, faltam recursos humanos especializados e falta a transparência que permita perceber se as políticas aplicadas têm impacto para além da retórica.

A inclusão, tão celebrada, continua a falhar naquilo que mais importa, que é a qualidade. Há registos de apoios atribuídos, mas não há garantias de que esses apoios sejam eficazes. A desigualdade territorial persiste como uma mancha teimosa e os alunos vindos de meios vulneráveis continuam a ser mais vítimas de estatística do que beneficiários de políticas públicas. A integração de alunos estrangeiros é outro exemplo claro. Diz-se que o sistema está atento, mas o ensino de Português Língua Não Materna continua a ser insuficiente, irregular e incapaz de responder ao aumento real das necessidades.

É um cenário curioso. De um lado temos relatórios impecáveis, com tabelas que dariam orgulho a qualquer gabinete político. Do outro, temos escolas que tentam sobreviver com cortes invisíveis, burocracia crescente e uma falta estrutural de recursos que os relatórios mencionam de forma tímida, como quem pede desculpa por estragar o brilho das páginas bem formatadas. Somos um país que aprendeu a conviver com a distância entre a intenção e a execução e que produz documentos com ambição enquanto mantém práticas que não chegam a materializar essa ambição.

O que falta é o que quase nunca aparece em textos oficiais. Falta monitorização real e independente que avalie o impacto das políticas. Faltam medidas eficazes de apoio humano, desde professores a técnicos especializados e assistentes operacionais. Falta uma estratégia forte para as regiões mais desfavorecidas que eternamente multiplicam dificuldades. Falta estabilidade e valorização para quem trabalha na linha da frente. Falta, sobretudo, a humildade de reconhecer que a inclusão não se garante por decreto, mas por investimento concreto e continuado.

O Estado da Educação 2024 é um excelente ponto de partida, mas não é o destino. É mais um capítulo da nossa eterna habilidade para escrever sobre progresso enquanto adiamos a parte difícil que é concretizá-lo. Quem vive a escola sabe que o país não precisa de mais relatórios brilhantes, precisa de coragem política para transformar dados em dignidade humana. Até lá continuaremos a folhear documentos que prometem o futuro enquanto escolas inteiras continuam a lutar pelo presente.

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/relatorios-que-brilham-e-escolas-que-sobrevivem-estado-da-educacao-2024/

DE BOAS INTENÇÕES ESTÁ O INFERNO CHEIO

E de boas intenções está o inferno cheio, como todos sabem.

O Instituto Camões, em 2011, quando assumiu a tutela do Ensino Português no Estrangeiro, nessa altura com mais de 600 professores e um número de alunos que rondava os 70 mil, também apresentou as melhores intenções, agora é que ia haver um ensino de qualidade, com ótimas condições para professores e alunos, com excelentes manuais e um importantíssimo certificado.

E o que temos hoje? Cerca de 300 professores a nível mundial, mal pagos e explorados, quase 20 mil alunos a menos, cursos à distância para crianças de 1° ciclo, porque dizem que os alunos são poucos, e com o ensino da História e Geografia de Portugal ausente porque o que é importante é aprender o Português como língua estrangeira para obter o tal Certificado.

Das boas intenções nada ficou, e se ainda não chegámos ao inferno, o caos e a exploração estão bem presentes no pouco que resta do sistema.

DE BOAS INTENÇÕES ESTÁ O INFERNO CHEIO

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/de-boas-intencoes-esta-o-inferno-cheio/

Estado da Educação | 2024

“Estado da Educação | 2024”.

“O documento é constituído por duas partes principais. Uma primeira em que é possível ter acesso a uma Panorâmica do Sistema Educativo com base na apresentação e análise de dados estatísticos e uma segunda que integra quatro textos com Reflexões para o Desenvolvimento das Políticas Educativas do país. No início são apresentados o texto Conhecer Para Inovar, Melhorar, Incluir e Enfrentar as Desigualdades, da autoria do Presidente do CNE, Domingos Fernandes, e um Sumário Executivo.”

Consultar o documento, na íntegra, em:

https://www.cnedu.pt/pt/estado-da-educacao-cne/publicacao/estado-da-educacao-2024

 

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/estado-da-educacao-2024/

Uma rápida análise aos resultados dos últimos 10 anos do Ensino Secundário

Com base na análise crítica dos dados do Ensino Secundário, o cenário que se desenha é de uma evolução notável nos últimos dez anos, que está agora sob ameaça. A notícia de que as taxas de conclusão sofreram uma ligeira baixa, quebrando uma tendência positiva de sete anos, serve como um forte sinal de alerta. É inegável o sucesso a longo prazo: os Cursos Científico-Humanísticos (CCH) registaram um avanço de 22 pontos percentuais, enquanto os Cursos Profissionais (CP) evoluíram em 17 pontos percentuais nas taxas de conclusão. Este crescimento consolidado mostra que o sistema tem sido eficaz em qualificar mais jovens e reduzir o abandono escolar. Contudo, esta recente inversão sugere que fatores críticos estão a sobrepor-se aos ganhos alcançados. Os dirigentes escolares apontam o dedo a quatro problemas estruturais que penalizam o sucesso: a escassez crónica de professores, que desestabiliza o ensino e a qualidade das aulas; o modelo de exames, que gera pressão excessiva e pode desviar o foco da aprendizagem integral para o treino de provas; o modelo de financiamento, que pode ser insuficiente para dotar as escolas dos recursos necessários para responder à diversidade de necessidades; e a falta de apoios adequados aos alunos dos cursos profissionais, comprometendo o potencial de uma via essencial para a qualificação. Para reverter esta quebra e retomar a trajetória de sucesso, o foco da política educativa deve ser a estabilização urgente do corpo docente e o reforço da sustentabilidade das vias profissionalizantes, garantindo que os ganhos da última década não sejam perdidos por inação face a estas fragilidades crónicas.

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/uma-rapida-analise-aos-resultados-dos-ultimos-10-anos-do-ensino-secundario/

Taxas de conclusão do Secundário descem ao fim de sete anos a melhorar

Taxas de conclusão do Secundário descem ao fim de sete anos a melhorar

 

As taxas de conclusão no Ensino Secundário baixaram ligeiramente, quebrando uma tendência de melhoria de sete anos. Falta de professores, exames, modelo de financiamento e apoios aos alunos dos cursos profissionais apontados por dirigentes como fatores que penalizam o sucesso escolar.

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/taxas-de-conclusao-do-secundario-descem-ao-fim-de-sete-anos-a-melhorar/

O Natal embrulhado no papel errado

O Natal embrulhado no papel errado

 

 

O Natal tornou-se um ritual superficial. É uma espécie de teatro anual onde os figurinos são mais importantes que o guião.

 

Há quem continue a dizer, com ar compenetrado, que o Natal é a época da família, da paz e da união. Repete-se isto com a mesma convicção como se recita uma receita antiga que já ninguém cozinha. Hoje, o Natal é sobretudo uma coreografia de aparências. Mesa farta, fotografias, luzes que piscam, para compensar casas onde quase já não há brilho. Celebramos mais o que se mostra, do que aquilo que se sente. Se o espírito natalício passasse pelas redes sociais, então sim, estaríamos no auge da espiritualidade.

É verdade, muitas famílias perderam a noção do que se festeja. A troca de presentes, tornou-se uma espécie de transação comercial mal disfarçada. Já ninguém pensa no gesto, mas no valor. Na etiqueta da loja. No estatuto da prenda. As crianças ainda acreditam em magia, mas os adultos acreditam, apenas, no talão de troca. O simbolismo evaporou-se, ficou apenas o consumo embalado em papel brilhante.

Houve tempos em que celebrava-se a família. E o curioso é que não foi há séculos, foi há poucas décadas. O significado era outro, mais íntimo, mais humano, mais familiar. Hoje discute-se o preço do bacalhau e a concorrência das rabanadas, como quem discute a bolsa de valores. Fala-se de paz, mas não se pratica. Fala-se de união, mas não se convida quem realmente precisa. Fala-se de amor, desde que não atrapalhe o jantar. Vestem-se roupas novas para impressionar à mesa, mas, por dentro, muitos continuam alinhados com o cinismo que se instalou na vida quotidiana.

E, enquanto isto embrulha as ilusões, esquece-se a parte filosófica da data. O Natal é herdeiro de celebrações muito anteriores ao cristianismo. Antes da história que domina as festividades, os povos ancestrais celebravam o regresso da luz, o solstício de inverno, a sobrevivência num mundo rude. Era a natureza que se honrava, a esperança de novo ciclo, a consciência de fragilidade humana. Hoje, que somos tão modernos, substituímos esse sentido profundo por centros comerciais e por listas de compras intermináveis. Evoluímos tanto que já nem percebemos o que foi perdido.

O Natal tornou-se um ritual superficial e de pouca profundidade. Queremos ceias perfeitas, fotografias perfeitas, famílias que pareçam perfeitas, durante algumas horas. É uma espécie de teatro anual onde os figurinos são mais importantes que o guião. A preocupação com o que está em cima da mesa, ultrapassa quem está sentado à volta dela. E quando isso acontece, nada do que se diz sobre espírito natalício tem validade.

No fundo, este Natal contemporâneo, é um grande paradoxo. Falamos de amor, mas não o praticamos. Falamos de compaixão, mas não a exercemos. Falamos de tradição, mas ficámos, apenas, com os enfeites. O que antes era a celebração da vida e da comunidade, tornou-se numa festa que tenta tapar vazios com objetos e roturas com decorações.

Talvez fosse bom recuperarmos alguma da sabedoria antiga, dos que celebravam a luz, porque dela precisavam, dos que festejavam a união, porque sabiam que sem ela não se sobrevivia ao inverno. Hoje, sobrevivemos a tudo, exceto à falta de sentido que demos a esta data. Por isso, quando dissermos Feliz Natal, talvez devêssemos primeiro perguntar, se ainda sabemos o que isso quer dizer.

Ou se é só mais uma frase embrulhada no papel errado.

Boas Festas…

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/o-natal-embrulhado-no-papel-errado/

É impressionante como os professores entendem aquilo que explicam…

Escrever sobre o amor é sempre arriscado, porque, como diria Clóvis de Barros, rindo daquela gargalhada filosófica que ilumina as próprias palavras, o amor é uma coisa muito séria para ser levada demasiado a sério. E, como diria outro alguém que conheço, com aquele olhar de quem enrola ironia e ternura na mesma frase, o amor dos professores pelos alunos é tão real, que chega a doer quando se tenta explicá-lo. Mas avancemos, porque três senhores antigos decidiram meter-se nesta conversa: Platão, Aristóteles e Cristo.

Platão acreditava no amor como uma escada, que começa no particular e sobe até ao universal. Para ele, amar é elevar. O professor platónico olha para o aluno e não vê apenas a pessoa que ali está, vê o que ela pode vir a ser. É uma espécie de arquitecto do invisível, que tenta convencer o estudante de que aprender é transformar o mundo de dentro para fora. Só que, na sala de aula real, o aluno está mais interessado no telemóvel do que na Ideia do Belo. É aqui que entra o humor. Um professor platónico, fluente em Clóvis de Barros, diria ao aluno que a Ideia do Belo é tudo aquilo que não está no TikTok. E o aluno ri, e ouve durante um segundo. É nesse segundo que o professor consegue ensinar.

Aristóteles, porém, era mais pé-no-chão. O amor é amizade baseada na virtude, dizia ele. Para o professor aristotélico, amar o aluno é fazê-lo crescer na justa medida, nem mais nem menos. O professor torna-se um jardineiro, que não rega em excesso nem rega de menos. Aprende a olhar para cada aluno como quem lê um mapa meteorológico emocional e intelectual. Aristóteles diria que ensinar é formar bons hábitos, e, por isso, o professor precisa de coerência, clareza e, sobretudo, paciência. Muita paciência. Uma paciência tão grande, que até Clóvis de Barros faria uma piada, dizendo que filósofo, que é filósofo, só se irrita depois de argumentar consigo mesmo.

Depois chega Cristo, com aquele tipo de amor que desinstala. Cristo diria que amar é dar-se. Amar os alunos significa acreditar neles, mesmo quando eles não acreditam em si. Significa olhar para o que falha e ver uma possibilidade. Significa não desistir. E isto não tem nada de romântico. Amar assim dói, cansa e exige sacrifício. Mas também é o único tipo de amor que transforma de verdade. O professor cristão, no sentido filosófico e não confessional, olha para cada aluno como alguém digno de respeito e de possibilidade infinita.

O que é, então, que estes três filósofos têm a ensinar aos professores que querem que os alunos amem aprender?

Primeiro, Platão sugere que o professor precisa de inspirar. Não basta ensinar a matéria: é preciso mostrar que aprender é bonito. O professor tem de ser farol, e não lanterna.

Aristóteles acrescenta que é preciso método. Bons hábitos, boas explicações, boas práticas repetidas. O amor ao saber nasce, também, da ordem.

Por fim, Cristo lembra que nenhum método sobrevive sem humanidade. Ensinar é um acto de encontro. E, em cada encontro, há risco e há graça.

Para que os alunos amem aprender, o professor precisa de unir estes três amores: amor que inspira, amor que estrutura e amor que acolhe. Se conseguir isto, mesmo com falhas, tropeços e ironias pelo caminho, o ensino torna-se bom. E, quando o ensino é bom, o aluno aprende; e, quando o aluno aprende, o professor finalmente entende aquilo que sempre soube, mas nunca tinha conseguido explicar.

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/e-impressionante-como-os-professores-entendem-aquilo-que-explicam/

O País das Bolhas e a Extinção do Bom Senso

Há quem ainda acredite que as redes sociais vieram aproximar pessoas. A crença é enternecedora, quase tão enternecedora como imaginar que uma caminhada de quinze minutos resolve os estragos de um almoço inteiro de fast food. A realidade que preferimos ignorar é que estas plataformas não fortaleceram os laços sociais e eliminaram muito do que nos fazia comunidade. Roubaram-nos a convivência, a aprendizagem partilhada, o confronto saudável de ideias e a construção lenta e paciente do viver em conjunto.

Troca-se a rua pela timeline, o café pelo feed e a conversa pela notificação. Onde existiam relações, há agora perfis. Onde se debatiam ideias, escrevem-se comentários que parecem mais munições do que argumentos. Onde havia gente de carne e osso, há avatares inflamáveis que se movem como se estivessem acima de qualquer limite. Na crença confortável de que o anonimato nos absolve, agimos como se tudo fosse permitido.

A convivência real, aquela em que aprendíamos uns com os outros, foi dissolvida como se fosse incompatível com o mundo digital. A aprendizagem entre vizinhos, entre amigos, entre gerações, deu lugar a especialistas improvisados que surgem depois de meia dúzia de vídeos e de uma thread mal articulada. A humildade intelectual desapareceu e cedeu espaço ao imediatismo opinativo que dispensa reflexão.

O crescimento pessoal enquanto seres humanos sociáveis ficou reduzido a quase nada. Tornámo-nos uma espécie orgulhosamente solitária, cada um fechado na sua própria bolha digital onde a certeza absoluta reina com autoridade. A comunidade deixou de ser referência e elevou-se o indivíduo isolado, sempre à procura de validação através de um gesto tão vazio como um like.

Chamamos a isto interação. Chamamos também amizade a coleções de desconhecidos que nunca ouviram a nossa voz e debate a trocas de insultos temperadas com dramatismo e emoticons. A sociologia que nos ajudava a compreender a vida em grupo foi empurrada para um canto enquanto as bolhas digitais nos oferecem o conforto enganador de um mundo onde todos pensam como nós.

Perdemos a essência do viver comum e, ainda por cima, acreditamos que ganhámos alguma coisa em troca. Confundimos opinião com pensamento, reação com reflexão e publicação com experiência de vida. As redes sociais não ampliaram o nosso mundo, limitaram-no ao reflexo de nós próprios. E, como sempre, ficamos encantados com o espelho.

O que as redes sociais realmente nos tiraram não foi apenas tempo, atenção ou serenidade. Tiraram-nos a capacidade de existir como sociedade. Enquanto continuarmos convencidos de que um ecrã substitui um rosto, caminharemos juntos rumo a uma solidão partilhada, a mais irónica herança da tecnologia que prometeu unir-nos.

No final, resta-nos a possibilidade de colocar um filtro por cima de tudo, como se isso pudesse disfarçar o vazio onde antes existia vida em comum.

Para as crianças na Austrália, as redes sociais vão ser proibidas, não seria de começar por seguir o exemplo para criarmos uma sociedade mais próxima e saudável?

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/o-pais-das-bolhas-e-a-extincao-do-bom-senso/

Adesão à Greve Geral? Sim, sem qualquer dúvida!

As Greves são uma chatice, pois são, todos o sabemos… E todos já fomos afectados por muitas Greves, nos mais variados sectores…

Uma Greve é uma forma de protesto que geralmente só é accionada quando se esgotam outras acções reivindicativas, porventura mais “benignas”, mas que não obtiveram os efeitos esperados… Ninguém, certamente, fará Greve por mero prazer…

Quando se trata da convocatória para uma Greve Geral, como a do próximo dia 11 de Dezembro, subscrita pelas duas maiores confederações sindicais do país, UGT e CGTP, então é porque a coisa ficou séria…

E qual é o problema grave, impossível de ser ignorado, que levou à união sindical e à convocatória de uma Greve Geral?

A resposta à pergunta anterior é, com certeza, conhecida de todos:

– As alterações ao Código do Trabalho, propostas pelo actual Governo.

Os Sindicatos são muitas vezes acusados de terem a sua acçãoreivindicativa condicionada por determinadas agendas e fretes partidários, ou seja, nem sempre se têm mostrado capazes de evidenciar o exigível distanciamento partidário…

Essa incapacidade tem, de resto, contribuído para uma certa descredibilização das próprias estruturas sindicais, muitas vezes criticadas pela ausência de independência partidária, o que tem vindo a minar a confiança nessas instituições

Contudo, no caso presente, saúda-se a convergência alcançada entre a UGT e a CGTP, uma vez que a proposta de alterações ao Código do Trabalho, concebida pelo actual Governo, se constitui, de facto, e em toda a linha, como um verdadeiro atropelo àqueles que trabalham por conta de outrem, tanto no sector público como no privado

Face a tal proposta, justifica-se plenamente a convocação desta Greve Geral.

Se as intenções do Governo não forem contrariadas, teremos um conjunto de medidas que, em nome da flexibilização da legislação laboral, acabarão por: aumentar a precariedade;atentar contra o exercício da parentalidade, conjugado com o trabalho assalariado; e abolir os efeitos de qualquer grevefutura, entre outros…

A propósito desta Greve, há uns dias, o 1º Ministro, Luís Montenegro, veio a público perorar que, a bem da economia do país, esperava dos trabalhadores uma flexibilidade muito maior, o que traduzido de forma sarcástica será mais ou menos isto:

– Espera-se que os trabalhadores não barafustem e que agradeçam por ser despedidos, mostrando, assim, uma imensurável flexibilidade, compreensão e aceitação das medidas propostas pelo Governo…

Por outro lado, afirmar, em simultâneo, que somos muito democratas e que reconhecemos o direito à Greve, mas não aceitar os seus possíveis efeitos, é como considerar, por exemplo, que os Médicos têm direito à Greve, mas que, e ainda assim, se espera que assegurem a realização de todas as consultas, ou outros actos médicos, agendados para o dia em que adiram a determinada paralisação… Ou seja, trata-se de um incontornável absurdo, pleno de contradições e incoerências…

Se a actual proposta do Governo for aprovada na Assembleia da República, a pretendida “regulação do direito à Greve” acabará por significar a imposição de serviços mínimos a torto e a direito, em praticamente todos os sectores…

Na verdade, o que se pretende será o esvaziamento dos efeitos de qualquer Greve, o que, na prática, corresponderá a aboli-la…

Estaremos dispostos a aceitar o anterior?

Claro que para muitos, a Greve ideal seria aquela que não causaria qualquer constrangimento ou perturbação no país…

Mas, nem aqui, nem noutro qualquer lugar do mundo, é possível assumir lutas ou protestos concretos e consequentes sem que existam potenciais “prejudicados” ou “lesados”… E é assim em todas as lutas, independentemente da sua natureza: existirão, inevitavelmente, alguns “danos colaterais”… Mas se não existissem consequências visíveis, que sentido faria decretar uma Greve?

Parece que as políticas liberais/neoliberais estão a tomar conta do actual Governo, o que pouco ou nada terá a ver com a ideologia Social-Democrata, historicamente alicerçada no Socialismo Democrático, inequivocamente de Centro-Esquerda

Este Governo está a tornar-se numa monumental decepção, que levará, certamente, muitas pessoas a aderir à Greve Geral do próximo dia 11 de Dezembro.

Sem qualquer reserva, eu serei uma dessas pessoas.

Acreditar, em certo momento, num Partido Político, pretensamente fundado na SocialDemocracia, que acabou por constituir Governo, não é o mesmo que, a posteriori,aceitar a implementação de políticas liberais ou neoliberaispor esse mesmo Partido

Onde está a coerência entre o teor das propostas agora apresentadas pelo Governo, relativas a alterações (significativas) no Código do Trabalho, a ideologia Social-Democrata e o próprio Programa Eleitoral Aliança Democrática 2025?

Adesão à Greve Geral? Sim, sem qualquer dúvida!

Para aqueles que procuram justificar a sua censura à paralisação agendada para o próximo dia 11 de Dezembro, rotulando-a comouma Greve de Comunistas” ou de “perigosos Esquerdistas”, direi apenas isto:

Quem não luta pelo futuro que quer, tem que aceitar o futuro que vier.

(Roubado da Internet, de autor desconhecido).

Depois não se queixem, é aguentar e cara alegre…

Paula Dias 

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/adesao-a-greve-geral-sim-sem-qualquer-duvida-2/

E Para o Dia 12 Também Existe Pré-Aviso de Greve

Do SITOPAS.

O que se antevê uma próxima semana muito curtinha.

 

Greve geral é para a semana mas já há escolas a avisar que podem não abrir portas (e durante dois dias)

 

É esperada, segundo os sindicatos, grande adesão, pelo que se espera que vários setores e serviços estejam completamente parados. A situação é agravada na educação por outra greve, decretada para dia 12, pelos Sindicato dos Trabalhadores dos Organismos Públicos e Apoio Social – SITOPAS.

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/e-para-o-dia-12-tambem-existe-pre-aviso-de-greve/

Em relação à Greve Geral de dia 11

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/em-relacao-a-greve-geral-de-dia-11/

3 Notícias Sobre a Falta de Vergonha, no Quintal do Paulo

Coisas Que Calculei Serem Possíveis, Mas Que Esperava Que Não Existisse Gente Com A Falta De Vergonha Necessária Para As Aproveitar – 1

 

Diretor, que já ultrapassou a idade da reforma, atribui-se a si próprio uma turma para lecionar e recebe o subsídio de Diretor acumulando os 750€ das medidas contra a falta de professores.

 

 

Coisas Que Calculei Serem Possíveis, Mas Que Esperava Que Não Existisse Gente Com A Falta De Vergonha Necessária Para As Aproveitar – 2

Esta, dizem-me que é por terras de Viriato, mas acredito que não seja caso único, por este ou aquele zunzun que vou ouvindo. Confesso que esta é uma situação que me choca, por razões diferentes, tanto como a anterior, porque é uma dimensão da chico-espertice que acaba por desacreditar os pedidos de serviços moderados.

Professora nas mesmas condições de reforma, em serviços moderados ao abrigo da FAT, que só tem uma turma atribuída mas também aufere o dito suplemento.no âmbito das medidas contra a falta de professores.

 

 

Coisas Que Calculei Serem Possíveis, Mas Que Esperava Que Não Existisse Gente Com A Falta De Vergonha Necessária Para As Aproveitar – 3

Como devem calcular (espero!), eu não invento estas situações. Na sequência das duas anteriores, outr@ director@ fez-me chegar mais uma possibilidade.

Professores que usufruem de Acordo de Cedência de Interesse Público num sindicato, têm um horário ultra reduzido na escola e, por estarem a lecionar após a idade da reforma, usufruem do acréscimo remuneratório. São dezenas…podem ter apenas uma ou duas turmas.

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/3-noticias-sobre-a-falta-de-vergonha-no-quintal-do-paulo/

Professores recebem horas extra com retroativos desde 2018

Ministério instruiu escolas a corrigir forma de cálculo. Professor a meio da carreira que faça duas horas extraordinárias por semana recebe mais 915,48 euros este ano, segundo cálculos do CM.

Professores recebem horas extra com retroativos desde 2018

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/professores-recebem-horas-extra-com-retroativos-desde-2018/

O Admirável Mundo Novo dos Concursos de Professores, Agora em Modo Municipal

Há ideias que parecem ter sido concebidas numa tarde particularmente longa de reunião, quando já ninguém distingue um decreto de uma receita de bacalhau. A mais recente maravilha política, que andam a espalhar, é a possibilidade de entregar às autarquias a contratação de professores, tudo isto num país que ainda tenta perceber o que significa realmente o Decreto-Lei 32-A, essa novela jurídica que prometia justiça nos concursos, mas que acaba por produzir um aroma ligeiramente agridoce de desigualdade.

Imaginar câmaras municipais a gerir concursos de professores é quase tão reconfortante como pedir a um gato para tomar conta de um aquário. Tecnicamente possível, sim, mas o desfecho faz qualquer pessoa, com dois neurónios ativos, suar. O problema é que os concursos docentes, já de si um ritual burocrático de desespero, cairiam num caos tão denso que nem com GPS se encontraria a saída.

O Decreto-Lei 32-A foi pensado para trazer transparência e equidade, mas, agora, querer-se-ia acrescentar um novo elemento, a criatividade municipal, que é como despejar gasolina sobre uma fogueira e dizer, com ar muito sério, que tudo vai correr bem. Basta olhar para o histórico, porque em Portugal os concursos são tão sensíveis como a porcelana chinesa, mas colocados nas mãos das autarquias, correm o risco de se transformar num jogo de cadeiras para adultos desesperados.

Comecemos pelas desigualdades regionais, que já existem e agradecem qualquer oportunidade para crescer com entusiasmo. Um município oferece melhores condições, outro município oferece uma planta em cima da secretária. Resultado, migrações internas forçadas.

Depois temos o festival da influência local. Em teoria, tudo seria rigoroso, transparente, algorítmico. Na prática, haveria sempre o primo do cunhado do vereador que gostaria de dar aulas de História, mesmo que a última vez em que abriu um livro tenha sido pouco antes de nascer.

E claro, a instabilidade anual permaneceria firme e hirta, porque se há coisa que este país venera é a capacidade de manter um professor a saltar de escola em escola como se estivesse numa gincana. Agora, com concursos municipais, teríamos professores que não mudariam só de escola, mudariam de concelho, de freguesia, de presidente de câmara e de prioridades políticas conforme a cor partidária que estivesse mais bem humorada naquele mandato.

Mas o verdadeiro apogeu deste plano residia numa ironia deliciosa. Passar a contratação para as autarquias seria vendido como uma medida de proximidade, eficácia e modernização. O que não se diria é que abriria a porta a um labirinto burocrático com 308 entradas e zero saídas, onde cada município teria o seu mini decreto, a sua interpretação criativa das regras, o seu método original de avaliar mérito… E tudo isto com a serenidade habitual de quem nunca teve de preencher uma plataforma concursal em Portugal.

No fim de contas, entregar às câmaras a contratação de professores seria a versão educativa do velho ditado português, em equipa que já está complicada, mexe-se mais um bocadinho para ver se piora. Mas haverá sempre quem garanta que é um avanço extraordinário, uma revolução sensata, uma modernização inadiável. A verdade, porém, é cristalina, o que hoje é confuso tornar-se-ia incompreensível, o que hoje causa ansiedade, tornar-se-ia pânico e o que hoje é mau, tornar-se-ia verdadeiramente pior.

E o pior de tudo é que, no fim, os professores lá estariam, resilientes, cansados, armados de paciência e ironia, a tentar ensinar crianças com o mesmo empenho de sempre. Porque se há classe que aguenta tudo, até ideias destas, é a classe docente. O país sabe disso, e talvez por isso continue a testar os seus limites com uma paixão quase poética.

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/o-admiravel-mundo-novo-dos-concursos-de-professores-agora-em-modo-municipal/

Escolas pedem mudança na lei e mais apoios para lidar com indisciplina e violência

Uma repotyagem em destque no Público de hoje da página 2 à página 5.

 

Há uma “percepção de insegurança”: escolas pedem mudança na lei e mais apoios para lidar com indisciplina e violência

 

Uma criança com dedos mutilados e vários outros casos puseram o tema em cima da mesa. FNE pede medidas urgentes para escolas onde “indisciplina se encontra fora de controlo”.

 

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/escolas-pedem-mudanca-na-lei-e-mais-apoios-para-lidar-com-indisciplina-e-violencia/

2.027 professores sem habilitação denunciados ao Tribunal de Contas

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/2-027-professores-sem-habilitacao-denunciados-ao-tribunal-de-contas/

A inversão do ónus da prova transforma o professor em réu – Alberto Veronesi

 

Vivemos tempos estranhos. O professor entrou na sala de aula e tornou-se suspeito até prova em contrário. Basta uma queixa, muitas vezes anónima, e lá vai ele ter de se explicar, de se defender, de provar que não fez o que o acusam de ter feito. A lógica virou do avesso. Já não é quem acusa que tem de fundamentar a acusação, é o acusado que tem de demonstrar a sua inocência. E isto, convenhamos, é uma brutalidade jurídica.

A inversão do ónus da prova transforma o professor em réu

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/a-inversao-do-onus-da-prova-transforma-o-professor-em-reu-alberto-veronesi/

NOTA INFORMATIVA Nº 12 / IGeFE / 2025 – Prestação de serviço docente extraordinário

 

NOTA INFORMATIVA Nº 12 / IGeFE / 2025 – Prestação de serviço docente extraordinário

 

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/nota-informativa-no-12-igefe-2025-prestacao-de-servico-docente-extraordinario/

Espero que todos os professores sejam um exemplo de educação e expliquem – Raquel Varela

Espero que todos os professores sejam um exemplo de educação e expliquem, em qualquer grau de ensino, o que são direitos sociais, civis e políticos, e porque está a ser convocada uma greve geral. Isso chama-se cidadania, a conquista de ser cidadão pleno. Claro, podem não fazê-lo em nome da “isenção”, abdicar da sua liberdade de cátedra – prevista em todos os graus de ensino – e continuar a ensinar o programa do Governo para a cidadania que inclui “literacia financeira” (como ser culpado por não conseguir viver com o salário mínimo) ou “empreendedorismo” (porque é que cada um é culpado pelo próprio desemprego). Assim, em vez de um programa que explica e responde às questões sociais de milhões de portugueses, à realidade objectiva, darão o programa escolar do Governo, “isento”, da IL, AD, Chega e claro PS. A escola é um lugar de conhecimento objectivo, mas não de neutralidade ética.

Quando se alega a isenção – que a extrema direita adora – acaba-se a dar o programa que a extrema direita adora. Tenho um familiar a estudar na Universidade de Barcelona, recebeu emails de vários professores a explicar um dia que não ia haver aulas porque eles tinham aderido à greve pela Palestina. Este é o momento de explicar que a greve foi colocada sob a alçada do código penal em 1849 mas que, sempre ilegal, até ao século XX, nunca deixaram de existir greves e cada vez mais. Talvez porque não tenha deixado de existir exploração. E ambos – repressão legislativa de Estado e exploração – são conceitos científicos. Ao contrário de literacia financeira e empreendedorismo, que são comunicação para justificar a desigualdade social, e a luta de uma classe, a da burguesia. Este lutam com a sua classe, explicando que não há já luta de classes, proibindo imigrantes de fazerem greve (são ilegais) e ilegalizam de facto a greve (no pacote laboral), e não chamam a isto a sua luta de classe burguesa, chamam “modernização”. Aí está outra aula de cidadania – na verdade disciplina que não devia existir, deve ser dado em história e filosofia – o que é a modernidade, com o seu séquito de crises, guerras e revoluções.

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/espero-que-todos-os-professores-sejam-um-exemplo-de-educacao-e-expliquem-raquel-varela/

Mas É Preciso Reportar ao MECI???

Se a Estratégia de Cidadania é da ESCOLA e se foram dados os passos corretos para a sua elaboração porque é preciso reportar isso ao MECI?

 

Cidadania. Escolas fecham Estratégias pedidas pelo Ministério sem saber o que acontece após o prazo acabar, mas algumas podem falhar prazo

 

 

Escolas têm até 12 de dezembro para definir Estratégia de Educação para a Cidadania. Mas algumas dizem ainda não ter sido informadas sobre “quando” ou “como” vão reportar ao Ministério da Educação.

 

As escolas têm menos de duas semanas para elaborar e apresentar as suas Estratégias de Educação para a Cidadania. O prazo (12 de dezembro) foi estipulado e anunciado pelo Ministério da Educação em agosto deste ano, mas o processo em causa “é longo”, diz o representante dos diretores, Filinto Lima, salientando que obriga à existência de consenso entre “professores, pais, alunos e até funcionários”.

Em agosto, o Ministério tutelado por Fernando Alexandre publicava a nova Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania (ENEC). O documento surgiu no âmbito da proposta do Governo para a revisão de Cidadania e Desenvolvimento, que gerou polémica em volta do alegado desaparecimento dos conteúdos de educação sexual desta disciplina que não se veio a verificar. A Estratégia assenta em oito dimensões a implementar nas disciplinas dos ensinos básico e secundário: Direitos Humanos, Democracia e Instituições Políticas, Desenvolvimento Sustentável, Literacia Financeira e Empreendedorismo, Saúde, Risco e Segurança Rodoviária, Media e Pluralismo e Diversidade Cultural.

Na nota informativa emitida pelo Ministério da Educação em agosto, lia-se que “os Agrupamentos de Escolas e as Escolas não Agrupadas (AE/EnA) devem elaborar as suas estratégias de Educação para a Cidadania até 12 de dezembro“, sendo que devia constar “o modo de organização do trabalho” e o(s) ano(s) de escolaridade em que serão lecionadas todas as Aprendizagens Essenciais obrigatórias a cumprir. A par disto, na estratégia em causa as escolas devem também definir quais as entidades externas com as quais desejam colaborar.

A Estratégia publicada em Diário da República determina ainda que as escolas definam os critérios de avaliação das aprendizagens dos alunos e o modelo de avaliação da implementação da estratégia da escola, mas tal não é exigido até 12 de dezembro, de acordo com a nota explicativa do Ministério. A Estratégia estabelece que ao Conselho Geral de cada escola, cabe definir orientações e critérios para elaborar a estratégia e a aprovação da mesma; ao Conselho Pedagógico, compete a aprovação dos “critérios de avaliação da componente curricular de Cidadania e Desenvolvimento”.

elaboração deste documento “é um processo longo”, destaca Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos de Escolas Públicas (ANDAEP). “O processo tem várias fases. Primeiro tem de se ouvir os professores, pais, alunos e até funcionários. E só depois tem uma fase de elaboração e aprovação. Há muita gente para se ouvir, é um documento que exige a auscultação de toda a comunidade e demora”, explica.

E admite que “muitas escolas poderão não cumprir o prazo”. Caso isto se verifique, diz, “o Ministério da Educação terá de o alargar”. No entanto, este não será o caso dos três agrupamentos ouvidos pelo Observador, que adotaram ritmos diferentes na elaboração das suas estratégias.

No agrupamento de escolas Agualva Mira Sintra o documento foi aprovado a 22 de outubro, conta o diretor Luís Henriques. “Fizemos a mesma prática dos outros anos, mas desta vez tendo em conta as orientações enviadas pelo Ministério da Educação: pegámos no documento que já tínhamos e atualizámos em função das indicações. O documento foi logo aprovado em [reunião do] Conselho Pedagógico a 22 de outubro.”

Mas não ficou por aqui, uma vez que “o novo normativo prevê que os pais se possam pronunciar”. “Levei o documento, depois, a Conselho Geral, onde também têm assento os pais. E ainda antes disso, nas reuniões de avaliação intercalar, os conselhos de turma (compostos também pelos encarregados de educação) tiveram oportunidade de analisar os temas propostos para cada ano e pronunciar-se”.

“Não sabemos quando nem como vamos reportar este trabalho. Até ao momento não recebemos nenhuma orientação [do Ministério da Educação]”
Luís Henriques, diretor do agrupamento escolas Agualva Mira Sintra

“De forma geral, não houve dúvidas e os pais aceitaram” a estratégia apresentada pela escola, diz Luís Henriques, pelo que, na sua opinião, “o trabalho da escola está feito”.

Na escola secundária do Pinhal Novo, o processo de elaboração desta estratégia também se deu por encerrado no mês de novembro. “Já temos a estratégia definida e já foi aprovada em Conselho Pedagógico em novembro”, conta Carlos Vilas.

O diretor detalha que a estratégia a aplicar no 3.º ciclo “é relativamente fácil” de definir, uma vez que os temas “estão bastante balizados e são obrigatórios”. “No que toca aos temas facultativos, dividimos em termos de peso, de acordo com o que consta nos conteúdos das diferentes disciplinas”, diz Carlos Vilas. Já no ensino secundário, será o “próprio conselho de turma que vai adaptando os temas abordados na disciplina”.

Aqui surge a única diferença entre o agrupamento Agualva Mira Sintra e a secundária do Pinhal Novo: o segundo ainda está a “preparar as reuniões para avaliação” da estratégia da escola, nas quais “os encarregados de educação e os alunos vão poder definir e aprovar o plano de turma”.

 

Escolas desconhecem se estratégias elaboradas devem ser enviadas para o Ministério da Educação

 

Esta escola e o agrupamento Agualva Mira Sintra partilham, no entanto, a mesma dúvida: não sabem se devem enviar a Estratégia elaborada para a Cidadania para o Ministério da Educação.

“Não sei o que o Ministério da Educação nos vai pedir até ao dia 12 [de dezembro]. Não sabemos quando nem como vamos reportar este trabalho. Até ao momento não recebemos nenhuma orientação”, afirma o diretor do agrupamento localizado em Sintra, Luís Henriques. E o mesmo diz Carlos Vilas, responsável pela secundária do Pinhal Novo: “Até agora não temos indicação para enviar o documento para o Ministério da Educação. Vamos apenas submeter online no site.”

Em agosto, o Ministério não referiu o que aconteceria depois de 12 de dezembro. Mencionou, porém, que “após a aprovação deste plano, os pais e encarregados de educação deverão ser informados de todas as atividades a desenvolver no âmbito da concretização dos projetos que envolvam Educação para a Cidadania”, e que os agrupamentos escolares e escolas não agrupadas têm autonomia “para definirem as suas estratégias e as abordagens pedagógicas mais adequadas para os seus contextos específicos”.

A prioridade “neste momento é elaborar o documento”, salienta o representante dos diretores, Filinto Lima. Quanto ao resto, como o decorrer das aulas de Cidadania, tudo “está a decorrer de forma natural”.

“Acontecem uma vez por semana, lecionadas por professores (sendo que não há um grupo de recrutamento para esta disciplina). Estão a funcionar dentro das dimensões das grandes temáticas” delineadas pelo Ministério liderado por Fernando Alexandre.

“Envolvemos os alunos na escolha de algumas atividades: uma tem que ver com ações de voluntariado e outra com literacia financeira”
Rosária Alves, diretora do agrupamento de escolas de Benfica

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/mas-e-preciso-reportar-ao-meci/

434 bibliotecas até parece muito, mas são migalhas para pombos

O Ministro da Educação anunciou com pompa e circunstância a criação de mais 434 bibliotecas escolares até 2026 e o país inteiro parece ter decidido bater palmas como se tivesse acabado de testemunhar uma revolução educativa. A verdade é bem menos épica. Em Portugal existem cerca de 4 700 escolas do 1.º ciclo, espalhadas pelos 308 concelhos do país, e perante estes números as tais 434 bibliotecas são pouco mais do que um aperitivo mal servido.

O anúncio promete beneficiar 50 mil alunos. Parece impressionante até nos lembrarmos de que estamos a falar de um universo muito maior de crianças que continuam em escolas onde a biblioteca é um conceito distante, quase mítico. Se estas 434 novas bibliotecas fossem um passo decisivo, eu seria o primeiro a celebrar, mas quando fazem cócegas à superfície do problema não consigo evitar soltar uma gargalhada amarga.

O mais curioso é ver a velocidade com que toda a gente se apressa a elogiar o feito. Dá a sensação de que basta acenar com umas prateleiras novas e uns livros plastificados para que o país entre em modo festa. A estratégia é velha: dar pouco, apresentar como muito e esperar que o público aplauda obedientemente. E, pelos vistos, funciona. Os portugueses continuam a agradecer migalhas com entusiasmo, tal como os pombos que correm atrás de quem lhes atira meia dúzia de grãos de milho.

Claro que 434 bibliotecas são melhores do que zero. Ninguém discute isso. O problema é quando transformamos um gesto mínimo numa epopeia nacional. Quando olhamos para a realidade, percebemos que isto não é um grande investimento nem uma mudança estrutural. É apenas mais um anúncio reluzente para encher manchetes e distrair-nos do facto de que milhares de escolas continuam sem os recursos essenciais para promover hábitos de leitura dignos.

Em suma, celebramos como se nos tivessem oferecido um banquete quando, na verdade, mal nos deram um prato de amostras. E o mais triste é que ainda agradecemos.

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/434-bibliotecas-ate-parece-muito-mas-sao-migalhas-para-pombos/

Educação em estado terminal. Sintomas de uma biosfera pedagógica em colapso – José Afirmou Baptista

O planeta geme. As veias secam. Secam rios, glaciares, aquíferos. Mas num ápice viram a agulha e transbordam, num desequilíbrio que já não é episódico, mas sistémico. As florestas ardem, os polos desfazem-se em lágrimas geladas, as espécies migram ou desaparecem. O clima enlouqueceu, está tonto. E com ele, tudo o que dependia da estabilidade para florescer. A Terra, que durante milénios foi berço e abrigo, tornou-se um campo de sobrevivência. O seu colapso não é apenas físico, é simbólico, ético, civilizacional. E como todo o organismo em crise, os sintomas espalham-se para os seus sistemas vitais. A educação não escapa. Com ela se evapora e extingue esse órgão sensível que é a cultura. Outrora clareira de abrigo no meio da selva social, a escola tornou-se um terreno instável, onde se multiplicam os sinais de colapso, de doença. O chão já não é firme. As raízes da vocação apodrecem em silêncio, sufocadas por camadas de burocracia e desilusão. O degelo começou há décadas. Primeiro, derreteram-se os vínculos entre gerações, e desapareceram os mestres que transmitiam saberes com a maior delicadeza. Depois, vieram as políticas de contenção, os cortes, os silêncios. A memória pedagógica escorreu pelos corredores como água sem destino, deixando apenas placas de gelo fino onde antes havia chão fértil. Incêndios emocionais devastam os corpos docentes. O burnout alastra como fogo em pinhal seco, alimentado por calendários insensatos e exigências que não reconhecem o humano. Há professores que ardem por dentro, sem que ninguém repare, porque o fumo da exaustão é invisível nos relatórios da burocracia. As enxurradas levam os mais jovens, os mais criativos, os mais inquietos. Fuga em massa. A escola já não os segura. A cada ano, mais uma leva de talentos é arrastada para longe, como se a vocação fosse incompatível com a sobrevivência. Formamo-los para os ver partir. Ficam os resistentes, os que aprenderam a respirar em ambientes tóxicos saturados. A temperatura nas salas sobe. Não por falta de ar condicionado, mas pela tensão acumulada. Relações tóxicas, hierarquias opacas, falta de escuta. O clima pedagógico tornou-se irrespirável. Já não há primavera nas reuniões, nem verão nas aprendizagens. Só um inverno prolongado, onde cada aula é uma travessia na escuridão. E há os deslocados. Os professores nómadas, que percorrem quilómetros entre escolas, como aves migratórias sem estação. Não criam laços, não deixam sementes. São corpos em trânsito, vozes que ecoam no tempo frio e desaparecem no calor do verão. A escola sem rosto, sem alma, sem continuidade. A sociedade e a cidade espalham a desordem e a confusão onde devia haver harmonia. O ódio e o crime vêm ao almoço e ao jantar, como atrações entre a publicidade das televisões. Os clubes e os partidos são os mestres do ódio. Juntamente com as guerras. Tudo com vastos painéis de especialistas que não deixam espaço para o diálogo em família. A biosfera educativa está em colapso. E como em qualquer ecossistema sem equilíbrio, quem mais sofre são os mais frágeis: os alunos. Sentem o cheiro do incêndio, o frio do degelo, o susto da enxurrada. Mas não sabem nomear. Ninguém lhes dá ouvidos

.
04-12-2025 | diário as beiras

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/educacao-em-estado-terminal-sintomas-de-uma-biosfera-pedagogica-em-colapso-jose-afirmou-baptista/

Reserva de Recrutamento 22

Como deixou de haver notas informativas não sabemos se esta é a última reserva do 1.º período ou se para a semana ainda haverá uma ou duas reservas.

Reserva de Recrutamento 22 2025/2026

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/reserva-de-recrutamento-22-5/

03/dez/2024 AJDF na AR, na Comissão de Educação e Ciência

A escola está doente e quem ensina paga a fatura. A Medicina do Trabalho é o remédio tardio que alguns diretores preferem manter proibido.

Há 1 ano, na Comissão de Educação e Ciência, a AJDF denunciou na Assembleia da República as falhas graves na aplicação da Medicina do Trabalho aos professores.

Hoje, depois de duas Notas Informativas do MECI, persistem os incumprimentos de muitos diretores: recusam consultas, ignoram as Fichas de Aptidão para o Trabalho e transformam o poder hierárquico em instrumento de assédio/mobbing para silenciar professores.
É do nosso conhecimento, devidamente documentado, que alguns diretores recorrem a práticas ilegais, atuando pro lubitu suo, como se a legalidade fosse opcional.

IGEC e ACT continuam sem garantir fiscalização eficaz nem responsabilização.
O resultado? Mais assédio/mobbing, mais baixas médicas, mais alunos sem aulas.

É urgente responsabilizar quem escolhe falhar.
A impunidade tem de acabar.

Os professores não podem continuar a ser tratados como peças descartáveis.

Há um discurso que inverte os papéis: o professor é tratado como entrave e a lei como capricho.
Falham os que recusam aplicar a lei e os que transformam um direito num incómodo.

A lei obriga, a dignidade impõe e o dever é de todos: o incumprimento não pode ficar impune.

Delegação da AJDF presente na Audiência:
• Paulo Ribeiro – Presidente
• Sofia Neves – Vice-Presidente
• André Fernandes – Secretário e Tesoureiro
• Carla Gomes – Presidente da Mesa da Assembleia Geral

🎥 Vídeo completo da intervenção na Assembleia da República:

🎥 Vídeo no Canal Parlamento:
https://canal.parlamento.pt/cid/8192/audiencia-a-associacao-juridica-pelos-direitos-fundamentais
📽️ Créditos de vídeo/imagem: @missaoescolapublica

 

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/03-dez-2024-ajdf-na-ar-na-comissao-de-educacao-e-ciencia/

Professores do 1 Ciclo vão poder usufruir de formação em Didática da Leitura e Escrita

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/professores-do-1-ciclo-vao-poder-usufruir-de-formacao-em-didatica-da-leitura-e-escrita/

Ministro da Educação anuncia mais 434 bibliotecas escolares

É de informar que isto já está em andamento nas escolas.

 

Fernando Alexandre garante que até final de 2026 haverá 50 mil alunos de 1.º ciclo que terão biblioteca nas escolas, num investimento de mais de 3 milhões de euros

Ministro da Educação anuncia mais 434 bibliotecas escolares

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/ministro-da-educacao-anuncia-mais-434-bibliotecas-escolares/

A paixão pelas Bibliotecas

O Ministério da Educação, Ciência e Inovação apresenta hoje um conjunto de medidas para o reforço da Leitura no 1.º Ciclo do Ensino Básico, designadamente:
 Expandir a Rede de Bibliotecas Escolares (RBE) no 1.º Ciclo;
 Implementar o Programa de Ensino, Didática e Aprendizagem da Leitura;
 Aplicar novamente o Diagnóstico de Fluência Leitora no 2.º ano em 2025/2026 em todas as escolas;
 Fornecer a escolas e professores materiais adicionais para o Diagnóstico de Fluência Leitora.
A Leitura é a base de uma boa aprendizagem e é determinante para o sucesso escolar dos alunos, sendo ainda fundamental para a construção de competências e para estimular o pensamento crítico e a curiosidade.

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/a-paixao-pelas-bibliotecas/

Concurso Externo Extraordinário 2025/2026 – Aperfeiçoamento da Candidatura

 

Aplicação eletrónica disponível entre o dia 3 de dezembro e as 23:59 horas do dia 5 de dezembro de 2025 (hora de Portugal continental) para efetuar o Aperfeiçoamento da candidatura ao Concurso Externo Extraordinário 2025/2026, destinado a Educadores de Infância e a Professores dos Ensinos Básico e Secundário.

FAQ – Aperfeiçoamento da Candidatura ao Concurso Externo Extraordinário 2025/2026

SIGRHE – Aperfeiçoamento da Candidatura ao Concurso Externo Extraordinário 2025/2026

 

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/concurso-externo-extraordinario-2025-2026-aperfeicoamento-da-candidatura/

O Guernica do Professor e a Urgência da Ação

Por: Lina Fernandes ( Professora de Educação Especial do Agrupamento de Escolas do Paião – Figueira da Foz)

Iniciemos este trabalho, não com uma celebração, mas com uma sensibilização, assumindo a data que nos convoca: o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência. Usamos este termo, muitas vezes camuflado e suavizado por eufemismos, porque a verdadeira mudança e a construção de uma escola inclusiva genuína não se fazem evitando os conceitos, mas confrontando a realidade que eles espelham. É essa realidade complexa e, por vezes, brutalmente caótica que nos remete para o famoso quadro de Pablo Picasso, Guernica .

A tela, com as suas figuras retorcidas, bocas abertas num grito mudo e a sensação de desmembramento, simboliza o estado de angústia e asfixia de muitos alunos e, também de inúmeros professores, perante o novo e nobre paradigma da escola inclusiva. O ideal é luminoso, mas a prática é sombria: queremos e tentamos corresponder às necessidades daqueles que nos são “entregues”, corresponder à imensa diversidade dos alunos, incluindo aqueles com necessidades que o termo “deficiência” tão inequivocamente define, mas mesmo conseguindo recarregar diariamente a bateria da empatia, sentimo-nos esmagados pela falta de apoios e sufocados numa espiral de burocracia que nos impede de ser quem devíamos ser.

A escola, transformada num espaço aberto à “total diversidade”, como defende o jurista Laborinho Lúcio (2018), exige do docente uma postura de permanente reinvenção. O desafio não reside na vontade de incluir – que é inegável – mas nas condições sistémicas para o fazer. Como Laborinho Lúcio alerta: “Aos professores pode pedir-se muito. E pede-se. Mas não pode pedir-se tudo” (2021). O nosso grito de Guernica nasce da exaustão em tentar dar tudo sem ter as ferramentas necessárias. A realidade dos professores, perante este novo paradigma, não é linear. O foco na diferença e na individualidade pressupõe tempo, recursos e autonomia, elementos que escasseiam. A burocracia excessiva faz-nos sentir como as figuras fragmentadas da tela, desprovidas de foco e de força para a ação transformadora.

É neste contexto de complexidade que o professor é urgentemente chamado a adotar uma postura dinâmica e a integrar as mais variadas metodologias ativas. Não podemos continuar a ser meros transmissores de conteúdos; a inclusão exige que sejamos orientadores e facilitadores da aprendizagem.

As metodologias ativas – como o trabalho por projetos, a aprendizagem cooperativa ou a diferenciação pedagógica – são as chaves para responder à diversidade. Contudo, esta mudança de paradigma choca de frente com as restrições impostas e com a dura realidade vivida pela nossa sociedade em geral e pelos nossos alunos em particular.

António Sampaio da Nóvoa alerta precisamente para o perigo do professor ver o seu “espaço vital de ação” diminuído, correndo o risco de se tornar no “professor micro-ondas, ‘aquecendo’ e ‘servindo’ a pedagogia e os conteúdos preparados por outros” (2025). O paradoxo é cruel: somos impelidos a ser dinâmicos e facilitadores, mas o sistema confina-nos a um papel de executantes burocráticos. A energia que deveria ser canalizada para a diferenciação e para o desenho de caminhos ativos para o aluno com deficiência (e para todos os outros) é gasta a preencher relatórios e a lutar por recursos básicos.

O ideal da inclusão, segundo Luís de Miranda Correia, exige que a escola seja um guia para educadores e professores, munindo-os de estratégias para que o aluno se sinta verdadeiramente incluído (2016). Mas como implementar estratégias eficazes de diferenciação sem tempo para planear, refletir e cooperar? Conclusão: Da Denúncia de Guernica à Construção da Paz O quadro Guernica é uma denúncia. O nosso ensaio é uma denúncia. Não podemos construir uma escola inclusiva fingindo que o desafio da deficiência e da diversidade se resolve com a suavização da linguagem ou com normativos sem sustentação real. A verdadeira escola inclusiva passará por reconhecer e valorizar a postura dinâmica do professor enquanto orientador. Passará por investir na formação e na redução da burocracia que nos retorce o espírito. O fim da angústia do professor – o fim do nosso Guernica – só será possível quando o sistema sair da inércia, protegendo o tempo e a autonomia dos docentes para que possam, de facto, ser os arquitetos da inclusão que os nossos alunos merecem.

É tempo de dar forma à paz e à esperança que, mesmo no caos da tela, se insinua. É tempo de transformar a denúncia da dor (o Guernica) na ação concertada que tornará o princípio inclusivo numa realidade escolar sustentável

Lúcio, J. H. L. (2018). O Lugar do Não-Saber: Ensaios sobre a Escola, a Família e a Cidadania. Edições Afrontamento.

Lúcio, J. H. L. (2021). A Escola e a Construção da Confiança. Edições Afrontamento.

Nóvoa, A. S. (2025). Professores: Imagens do Futuro Presente. Edições Educa.

Correia, L. de M. (2016). Inclusão e Necessidades Educativas Específicas: Um Guia para Educadores. Porto Editora.

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/o-guernica-do-professor-e-a-urgencia-da-acao/

Promessas Que Ficaram na Gaveta

Apoio aos diretores de turma ainda não chegou e há quem recuse horários porque não quer assumir o cargo

 

Medida foi anunciada pelo Governo em junho de 2024, como parte do plano “+ Aulas + Sucesso”, mas não saiu do papel. Representante dos diretores escolares alerta para o “cansaço extremo” dos docentes.

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/promessas-que-ficaram-na-gaveta/

Informações-Prova 2025/2026

 

Informação-Prova Geral  – atualizada a 2 de dezembro

 

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/informacoes-prova-2025-2026/

“Portugal é dos países onde os professores mais se queixam da indisciplina”, concluiu a OCDE há uma década e repetiu-o este ano em que a idade da reforma volta a aumentar

 

Por Paulo Prudêncio

“Portugal é dos países onde os professores mais se queixam da indisciplina”, concluiu a OCDE há uma década e repetiu-o este ano em que a idade da reforma volta a aumentar

“A indisciplina reina nas salas de aula e coloca Portugal no primeiro lugar do tempo perdido para começar uma aula. Os seus professores são, na Europa, os mais desgastados e os que mais preenchem burocracia inútil. São vítimas de uma organização de trabalho que os adoece, mas são os melhores a adaptar as aulas às necessidades dos alunos.” Estas conclusões têm cerca de uma década.

Ora, a mesma OCDE conclui em 2025 (“reportado por 62,1% dos professores, sendo muito mais alto, 73,6%, entre quem tem 5 ou menos anos de experiência”): “barulho e interrupções: Portugal é dos países onde os professores mais se queixam da indisciplina. A sua maior fonte de stress é o trabalho administrativo. Em nenhum país a taxa é tão alta.”

E o que mais impressiona nestes 10 anos de intervalo, é o silêncio do MECI e o desprezo do mundo político. Quando muito, a direita, que inclui a extremada, finge que acompanha os protestos dos professores quando a esquerda governa e vice-versa. Logo que se passa para governo ou para suporte parlamentar, assume-se a condição de amnésico. Além disso, um manto de mutismo caracteriza as campanhas eleitorais.

Aliás, ser professor tornou-se, há muito, uma gestão do desgaste, da mágoa, da revolta contida e da possibilidade da baixa médica. Acima de tudo, uma sociedade adoeceu quando mais de metade dos professores relata “agressões físicas ou verbais por parte dos alunos”. Apesar de, e como já escrevi, ser injusto generalizar até pela dificuldade dos estudos empíricos: “cada aluno não é um potencial agressor, nem cada professor um provável agredido.”

E o pior é o vigente cruzar de braços. Mas há soluções e sumarie-se duas ou três.

Mude-se radicalmente (e este radical é no mais sensato registo) o trágico, e populista, “estatuto” que fez do encarregado de educação um “cliente que tem sempre razão” na escola, com a habitual alegação indisciplinadora que os miúdos, as crianças-rei, percebem desde cedo: – Se a professora não se portou bem, diz que eu vou à escola.

Este clima é uma das consequências da burocracia, da autocracia desastrosa nos mega-agrupamentos, da avaliação dos professores e do que converteu em “castigo” as horas de redução por idade e tempo de serviço dos seus horários – é até degradante quando a “pena” cai nas mãos de pequenos tiranetes.

Na verdade, recorde-se que a maioria dos professores viu a idade da reforma passar dos 52 (pré-escolar e primeiro ciclo) ou 57 anos de idade (restantes ciclos), para os recentes 66 anos e 11 meses. E como nunca se criaram equipas educativas para leccionar o primeiro ciclo – o professor da turma finge que lecciona todo o currículo e não tem redução de horário com a idade -, infernizou-se os horários dos restantes ciclos – nivelando por baixo e estimulando a divisão da classe – com inutilidades destinadas aos excessos e aos dogmas na avaliação dos alunos, na interdisciplinaridade e nas articulações horizontal e vertical. Como tudo isto se tornou monstruoso sem sistemas de informação modernos e com avaliações externas inspiradas em meados do século XX, a redução transformou-se num “castigo” e num dos principais contributos para o desgaste que dificulta a liderança em ambientes de indisciplina e para a “fuga” ao exercício.

E, claro: se temos anos a fio de ciberbullying e dos algoritmos do ódio (as crianças crescem, desinformam-se e indisciplinam-se num país deslaçado, agressivo e violento), também temos uma maioria política desinteressada em limitar o acesso a redes sociais com o argumento surreal da censura às crianças e jovens. Aliás, veja-se a indiferença da sociedade com a crescente doença silenciosa dos quadros de mérito académico ou de valor até em crianças do primeiro ciclo e pré-adolescentes (no desporto, já se fazem Campeonatos do Mundo para miúdos de 10 a 12 anos de idade). Para além da tensão relacional entre os miúdos após as primeiras publicações e da violação dos direitos fundamentais, a OMS já inclui o bournout precoce na prevenção da saúde pública (e, no mínimo, reflicta-se com Roy Baumeister ou Michael Sandel). E apesar desta pandemia ainda se sustentar na ditadura portuguesa, a obra fundamental “Nenhuma medalha vale a saúde de uma criança”, de Jacques Personne, descreve a tragédia na União Soviética e na RDA. Os quadros e medalhas, equiparados à exploração do trabalho infantil, destinavam-se à arrepiante promoção de dirigentes, médicos, treinadores, professores e políticos, e, tantas vezes, à “sobrevivência” dos progenitores (e também ao ego).

De facto, e em síntese, a prevalecente imaturidade pedagógica, que estimula a indisciplina nas salas de aula, espelha-se em gritantes irresponsabilidades da seguinte família: publicitar informação crítica, e detalhada, sobre as formas de ciberbullying no mesmo espaço escolar onde se divulga quadros de mérito.

Nota: por falar em silêncio e mutismo, registe-se o apagão mediático quase generalizado da seguinte notícia do Público de 24 de Novembro de 2025: “Tolentino de Mendonça partilha Prémio Eduardo Lourenço com a “classe dos professores em crise”. O cardeal e poeta falou da “precariedade nas condições de trabalho”, da “complexidade sempre maior dos requisitos burocráticos” e de “uma espécie de solidão social” que afectam tantos professores. Diz-se hoje que são uma classe em crise e que perdeu o prestígio social que lhe estava associada. São preocupantes, em muitas partes do mundo, os indicadores do desgaste, desmotivação e burnout entre os professores.(…)”Numa época de acelerada transformação, como a que vivemos, onde se inauguram tantas possibilidades, mas também tantas incógnitas, como o impacto da inteligência artificial, a omnipresença da tecnologia, a crescente incerteza e vulnerabilidade entre os jovens, precisamos de potenciar o papel dos professores como indispensáveis mediadores culturais e humanos.(…)O professor “não é uma profissão do passado, é uma missão indispensável ao futuro”, porque é necessária a existência de “mestres e educadores, não só para encontrar respostas, mas para formular perguntas”.”

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/portugal-e-dos-paises-onde-os-professores-mais-se-queixam-da-indisciplina-concluiu-a-ocde-ha-uma-decada-e-repetiu-o-este-ano-em-que-a-idade-da-reforma-volta-a-aumentar/

A idade das Educadoras de Infância não conta para nada

As educadoras de infância deste país avançam para os 66 anos a trabalhar como quem sobe uma colina íngreme carregando às costas vinte e cinco pequenas forças da natureza entre os três e os cinco anos. A cada manhã entram na sala como heroínas silenciosas, mas o corpo já não acompanha a coragem e a cabeça já não caminha à velocidade de um tablet de última geração. Espera-se delas um vigor atlético que nem atletas profissionais mantêm aos cinquenta, quanto mais na casa dos sessenta, e ainda se exige que sorriam com graça enquanto equilibram choros, birras, recortes, plasticinas, reuniões, relatórios, legislação mutante e plataformas digitais que mudam mais depressa do que os cabelos ficam brancos. Diz-se que envelhecer é um privilégio, mas tentar acompanhar vinte e cinco mini-furacões quando o corpo protesta em todas as articulações ultrapassa o privilégio e entra diretamente na categoria de teste de resistência absurda.

É curioso como o sistema educativo finge não ver o óbvio: a partir de certa idade, por mais boa vontade que haja, a reciclagem tecnológica torna-se uma gincana digna de reality show. As novas metodologias chegam embrulhadas em jargões pedagógicos que parecem ter sido escritos por um algoritmo histérico, e muitos esperam que estas profissionais as dominem com a naturalidade com que uma criança domina um ecrã táctil. Mas a verdade é que há um limite biológico, emocional e cognitivo que não desaparece com formações obrigatórias ou com manuais de inovação. Fingir o contrário é apenas uma maneira elegante de não admitir que estamos a pedir o impossível.

Permitir que estas educadoras se reformem mais cedo não seria um luxo nem um capricho, mas um ato elementar de lucidez. Ganharíamos todos: elas recuperariam o direito a envelhecer com dignidade, o sistema deixaria de se apoiar na exaustão disfarçada de vocação e as crianças teriam quem as acompanhasse com energia genuína em vez de esforço hercúleo. Mas continuamos a tratar o desgaste como se fosse parte natural da profissão, uma espécie de taxa inevitável, como se fosse perfeitamente razoável esperar que alguém com mais de seis décadas de vida acompanhe o ritmo de vinte e cinco seres humanos cuja energia desafia as leis da física.

No fundo, empurrar estas profissionais até aos 66 é uma forma particularmente refinada de sarcasmo institucional: exige-se-lhes o impossível, finge-se que é perfeitamente normal e ainda se aplaude como se fosse prova de resiliência nacional. Talvez um dia o país perceba que manter educadoras exaustas em serviço não é poupança, é teimosia disfarçada de gestão. E até lá, elas continuam, heroicas e cansadas, a segurar com as próprias mãos um sistema que insiste em fazer de conta que não está a desmoronar.

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/a-idade-das-educadoras-de-infancia-nao-conta-para-nada/

Load more