Por: Lina Fernandes ( Professora de Educação Especial do Agrupamento de Escolas do Paião – Figueira da Foz)
Iniciemos este trabalho, não com uma celebração, mas com uma sensibilização, assumindo a data que nos convoca: o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência. Usamos este termo, muitas vezes camuflado e suavizado por eufemismos, porque a verdadeira mudança e a construção de uma escola inclusiva genuína não se fazem evitando os conceitos, mas confrontando a realidade que eles espelham. É essa realidade complexa e, por vezes, brutalmente caótica que nos remete para o famoso quadro de Pablo Picasso, Guernica .
A tela, com as suas figuras retorcidas, bocas abertas num grito mudo e a sensação de desmembramento, simboliza o estado de angústia e asfixia de muitos alunos e, também de inúmeros professores, perante o novo e nobre paradigma da escola inclusiva. O ideal é luminoso, mas a prática é sombria: queremos e tentamos corresponder às necessidades daqueles que nos são “entregues”, corresponder à imensa diversidade dos alunos, incluindo aqueles com necessidades que o termo “deficiência” tão inequivocamente define, mas mesmo conseguindo recarregar diariamente a bateria da empatia, sentimo-nos esmagados pela falta de apoios e sufocados numa espiral de burocracia que nos impede de ser quem devíamos ser.
A escola, transformada num espaço aberto à “total diversidade”, como defende o jurista Laborinho Lúcio (2018), exige do docente uma postura de permanente reinvenção. O desafio não reside na vontade de incluir – que é inegável – mas nas condições sistémicas para o fazer. Como Laborinho Lúcio alerta: “Aos professores pode pedir-se muito. E pede-se. Mas não pode pedir-se tudo” (2021). O nosso grito de Guernica nasce da exaustão em tentar dar tudo sem ter as ferramentas necessárias. A realidade dos professores, perante este novo paradigma, não é linear. O foco na diferença e na individualidade pressupõe tempo, recursos e autonomia, elementos que escasseiam. A burocracia excessiva faz-nos sentir como as figuras fragmentadas da tela, desprovidas de foco e de força para a ação transformadora.
É neste contexto de complexidade que o professor é urgentemente chamado a adotar uma postura dinâmica e a integrar as mais variadas metodologias ativas. Não podemos continuar a ser meros transmissores de conteúdos; a inclusão exige que sejamos orientadores e facilitadores da aprendizagem.
As metodologias ativas – como o trabalho por projetos, a aprendizagem cooperativa ou a diferenciação pedagógica – são as chaves para responder à diversidade. Contudo, esta mudança de paradigma choca de frente com as restrições impostas e com a dura realidade vivida pela nossa sociedade em geral e pelos nossos alunos em particular.
António Sampaio da Nóvoa alerta precisamente para o perigo do professor ver o seu “espaço vital de ação” diminuído, correndo o risco de se tornar no “professor micro-ondas, ‘aquecendo’ e ‘servindo’ a pedagogia e os conteúdos preparados por outros” (2025). O paradoxo é cruel: somos impelidos a ser dinâmicos e facilitadores, mas o sistema confina-nos a um papel de executantes burocráticos. A energia que deveria ser canalizada para a diferenciação e para o desenho de caminhos ativos para o aluno com deficiência (e para todos os outros) é gasta a preencher relatórios e a lutar por recursos básicos.
O ideal da inclusão, segundo Luís de Miranda Correia, exige que a escola seja um guia para educadores e professores, munindo-os de estratégias para que o aluno se sinta verdadeiramente incluído (2016). Mas como implementar estratégias eficazes de diferenciação sem tempo para planear, refletir e cooperar? Conclusão: Da Denúncia de Guernica à Construção da Paz O quadro Guernica é uma denúncia. O nosso ensaio é uma denúncia. Não podemos construir uma escola inclusiva fingindo que o desafio da deficiência e da diversidade se resolve com a suavização da linguagem ou com normativos sem sustentação real. A verdadeira escola inclusiva passará por reconhecer e valorizar a postura dinâmica do professor enquanto orientador. Passará por investir na formação e na redução da burocracia que nos retorce o espírito. O fim da angústia do professor – o fim do nosso Guernica – só será possível quando o sistema sair da inércia, protegendo o tempo e a autonomia dos docentes para que possam, de facto, ser os arquitetos da inclusão que os nossos alunos merecem.
É tempo de dar forma à paz e à esperança que, mesmo no caos da tela, se insinua. É tempo de transformar a denúncia da dor (o Guernica) na ação concertada que tornará o princípio inclusivo numa realidade escolar sustentável
Lúcio, J. H. L. (2018). O Lugar do Não-Saber: Ensaios sobre a Escola, a Família e a Cidadania. Edições Afrontamento.
Lúcio, J. H. L. (2021). A Escola e a Construção da Confiança. Edições Afrontamento.
Nóvoa, A. S. (2025). Professores: Imagens do Futuro Presente. Edições Educa.
Correia, L. de M. (2016). Inclusão e Necessidades Educativas Específicas: Um Guia para Educadores. Porto Editora.