Educação em estado terminal. Sintomas de uma biosfera pedagógica em colapso – José Afirmou Baptista

O planeta geme. As veias secam. Secam rios, glaciares, aquíferos. Mas num ápice viram a agulha e transbordam, num desequilíbrio que já não é episódico, mas sistémico. As florestas ardem, os polos desfazem-se em lágrimas geladas, as espécies migram ou desaparecem. O clima enlouqueceu, está tonto. E com ele, tudo o que dependia da estabilidade para florescer. A Terra, que durante milénios foi berço e abrigo, tornou-se um campo de sobrevivência. O seu colapso não é apenas físico, é simbólico, ético, civilizacional. E como todo o organismo em crise, os sintomas espalham-se para os seus sistemas vitais. A educação não escapa. Com ela se evapora e extingue esse órgão sensível que é a cultura. Outrora clareira de abrigo no meio da selva social, a escola tornou-se um terreno instável, onde se multiplicam os sinais de colapso, de doença. O chão já não é firme. As raízes da vocação apodrecem em silêncio, sufocadas por camadas de burocracia e desilusão. O degelo começou há décadas. Primeiro, derreteram-se os vínculos entre gerações, e desapareceram os mestres que transmitiam saberes com a maior delicadeza. Depois, vieram as políticas de contenção, os cortes, os silêncios. A memória pedagógica escorreu pelos corredores como água sem destino, deixando apenas placas de gelo fino onde antes havia chão fértil. Incêndios emocionais devastam os corpos docentes. O burnout alastra como fogo em pinhal seco, alimentado por calendários insensatos e exigências que não reconhecem o humano. Há professores que ardem por dentro, sem que ninguém repare, porque o fumo da exaustão é invisível nos relatórios da burocracia. As enxurradas levam os mais jovens, os mais criativos, os mais inquietos. Fuga em massa. A escola já não os segura. A cada ano, mais uma leva de talentos é arrastada para longe, como se a vocação fosse incompatível com a sobrevivência. Formamo-los para os ver partir. Ficam os resistentes, os que aprenderam a respirar em ambientes tóxicos saturados. A temperatura nas salas sobe. Não por falta de ar condicionado, mas pela tensão acumulada. Relações tóxicas, hierarquias opacas, falta de escuta. O clima pedagógico tornou-se irrespirável. Já não há primavera nas reuniões, nem verão nas aprendizagens. Só um inverno prolongado, onde cada aula é uma travessia na escuridão. E há os deslocados. Os professores nómadas, que percorrem quilómetros entre escolas, como aves migratórias sem estação. Não criam laços, não deixam sementes. São corpos em trânsito, vozes que ecoam no tempo frio e desaparecem no calor do verão. A escola sem rosto, sem alma, sem continuidade. A sociedade e a cidade espalham a desordem e a confusão onde devia haver harmonia. O ódio e o crime vêm ao almoço e ao jantar, como atrações entre a publicidade das televisões. Os clubes e os partidos são os mestres do ódio. Juntamente com as guerras. Tudo com vastos painéis de especialistas que não deixam espaço para o diálogo em família. A biosfera educativa está em colapso. E como em qualquer ecossistema sem equilíbrio, quem mais sofre são os mais frágeis: os alunos. Sentem o cheiro do incêndio, o frio do degelo, o susto da enxurrada. Mas não sabem nomear. Ninguém lhes dá ouvidos

.
04-12-2025 | diário as beiras

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/educacao-em-estado-terminal-sintomas-de-uma-biosfera-pedagogica-em-colapso-jose-afirmou-baptista/

6 comentários

Passar directamente para o formulário dos comentários,

    • Obtuso on 4 de Dezembro de 2025 at 8:08
    • Responder

    A road to perdition

    • Francisco on 4 de Dezembro de 2025 at 10:29
    • Responder

    Absolutamente.

    • Professora do Antigamente on 4 de Dezembro de 2025 at 11:42
    • Responder

    É isto mesmo: As palavras do Colega Rui Cardoso – ” A escola sem rosto, sem alma, sem continuidade. (…) . O ódio e o crime vêm ao almoço e ao jantar, como atrações entre a publicidade das televisões. Os clubes e os partidos são os mestres do ódio. Juntamente com as guerras. (…)”. E assim os Docentes mais velhos murcham as suas boas intenções e adoecem no corpo e na Alma.

    • Luluzinha! on 4 de Dezembro de 2025 at 13:32
    • Responder

    Que texto tão presunçosamente prolixo! Não passei da 2ª linha, confesso.

      • Lilizinha on 4 de Dezembro de 2025 at 21:36
      • Responder

      Isso é porque não sabes ler.
      Vai novamente para o 1.º ciclo.

    • KlarBestoni on 4 de Dezembro de 2025 at 22:15
    • Responder

    Nevjerojatno koliko se u posljednje vrijeme govori o jednoj platformi, pa sam odlučio podijeliti svoje dojmove i možda nekome pomognem da lakše donese odluku. Kada se spomene Allyspin, mnogi odmah pomisle na sportsku ponudu, ali mene je posebno zainteresiralo ono što stoji iza cijelog sustava i kako zapravo funkcionira za prosječnog korisnika https://allyspin-hr.com/ .Zanimljive rasprave često se vode oko toga koje su Najpopularnije igre u kazinu Allyspin, a moram priznati da me iznenadilo koliko je izbor raznolik. Iako sam prvenstveno pratio sportske opcije, brzo sam shvatio da je ponuda dosta bogata i privlačna igračima koji vole različite tipove igara. Stil je jednostavan, moderan i pristupačan, pa se i novi korisnici lako snađu.

Deixe um comentário

Your email address will not be published.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Discover more from Blog DeAr Lindo

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading