4 de Dezembro de 2025 archive

Mas É Preciso Reportar ao MECI???

Se a Estratégia de Cidadania é da ESCOLA e se foram dados os passos corretos para a sua elaboração porque é preciso reportar isso ao MECI?

 

Cidadania. Escolas fecham Estratégias pedidas pelo Ministério sem saber o que acontece após o prazo acabar, mas algumas podem falhar prazo

 

 

Escolas têm até 12 de dezembro para definir Estratégia de Educação para a Cidadania. Mas algumas dizem ainda não ter sido informadas sobre “quando” ou “como” vão reportar ao Ministério da Educação.

 

As escolas têm menos de duas semanas para elaborar e apresentar as suas Estratégias de Educação para a Cidadania. O prazo (12 de dezembro) foi estipulado e anunciado pelo Ministério da Educação em agosto deste ano, mas o processo em causa “é longo”, diz o representante dos diretores, Filinto Lima, salientando que obriga à existência de consenso entre “professores, pais, alunos e até funcionários”.

Em agosto, o Ministério tutelado por Fernando Alexandre publicava a nova Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania (ENEC). O documento surgiu no âmbito da proposta do Governo para a revisão de Cidadania e Desenvolvimento, que gerou polémica em volta do alegado desaparecimento dos conteúdos de educação sexual desta disciplina que não se veio a verificar. A Estratégia assenta em oito dimensões a implementar nas disciplinas dos ensinos básico e secundário: Direitos Humanos, Democracia e Instituições Políticas, Desenvolvimento Sustentável, Literacia Financeira e Empreendedorismo, Saúde, Risco e Segurança Rodoviária, Media e Pluralismo e Diversidade Cultural.

Na nota informativa emitida pelo Ministério da Educação em agosto, lia-se que “os Agrupamentos de Escolas e as Escolas não Agrupadas (AE/EnA) devem elaborar as suas estratégias de Educação para a Cidadania até 12 de dezembro“, sendo que devia constar “o modo de organização do trabalho” e o(s) ano(s) de escolaridade em que serão lecionadas todas as Aprendizagens Essenciais obrigatórias a cumprir. A par disto, na estratégia em causa as escolas devem também definir quais as entidades externas com as quais desejam colaborar.

A Estratégia publicada em Diário da República determina ainda que as escolas definam os critérios de avaliação das aprendizagens dos alunos e o modelo de avaliação da implementação da estratégia da escola, mas tal não é exigido até 12 de dezembro, de acordo com a nota explicativa do Ministério. A Estratégia estabelece que ao Conselho Geral de cada escola, cabe definir orientações e critérios para elaborar a estratégia e a aprovação da mesma; ao Conselho Pedagógico, compete a aprovação dos “critérios de avaliação da componente curricular de Cidadania e Desenvolvimento”.

elaboração deste documento “é um processo longo”, destaca Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos de Escolas Públicas (ANDAEP). “O processo tem várias fases. Primeiro tem de se ouvir os professores, pais, alunos e até funcionários. E só depois tem uma fase de elaboração e aprovação. Há muita gente para se ouvir, é um documento que exige a auscultação de toda a comunidade e demora”, explica.

E admite que “muitas escolas poderão não cumprir o prazo”. Caso isto se verifique, diz, “o Ministério da Educação terá de o alargar”. No entanto, este não será o caso dos três agrupamentos ouvidos pelo Observador, que adotaram ritmos diferentes na elaboração das suas estratégias.

No agrupamento de escolas Agualva Mira Sintra o documento foi aprovado a 22 de outubro, conta o diretor Luís Henriques. “Fizemos a mesma prática dos outros anos, mas desta vez tendo em conta as orientações enviadas pelo Ministério da Educação: pegámos no documento que já tínhamos e atualizámos em função das indicações. O documento foi logo aprovado em [reunião do] Conselho Pedagógico a 22 de outubro.”

Mas não ficou por aqui, uma vez que “o novo normativo prevê que os pais se possam pronunciar”. “Levei o documento, depois, a Conselho Geral, onde também têm assento os pais. E ainda antes disso, nas reuniões de avaliação intercalar, os conselhos de turma (compostos também pelos encarregados de educação) tiveram oportunidade de analisar os temas propostos para cada ano e pronunciar-se”.

“Não sabemos quando nem como vamos reportar este trabalho. Até ao momento não recebemos nenhuma orientação [do Ministério da Educação]”
Luís Henriques, diretor do agrupamento escolas Agualva Mira Sintra

“De forma geral, não houve dúvidas e os pais aceitaram” a estratégia apresentada pela escola, diz Luís Henriques, pelo que, na sua opinião, “o trabalho da escola está feito”.

Na escola secundária do Pinhal Novo, o processo de elaboração desta estratégia também se deu por encerrado no mês de novembro. “Já temos a estratégia definida e já foi aprovada em Conselho Pedagógico em novembro”, conta Carlos Vilas.

O diretor detalha que a estratégia a aplicar no 3.º ciclo “é relativamente fácil” de definir, uma vez que os temas “estão bastante balizados e são obrigatórios”. “No que toca aos temas facultativos, dividimos em termos de peso, de acordo com o que consta nos conteúdos das diferentes disciplinas”, diz Carlos Vilas. Já no ensino secundário, será o “próprio conselho de turma que vai adaptando os temas abordados na disciplina”.

Aqui surge a única diferença entre o agrupamento Agualva Mira Sintra e a secundária do Pinhal Novo: o segundo ainda está a “preparar as reuniões para avaliação” da estratégia da escola, nas quais “os encarregados de educação e os alunos vão poder definir e aprovar o plano de turma”.

 

Escolas desconhecem se estratégias elaboradas devem ser enviadas para o Ministério da Educação

 

Esta escola e o agrupamento Agualva Mira Sintra partilham, no entanto, a mesma dúvida: não sabem se devem enviar a Estratégia elaborada para a Cidadania para o Ministério da Educação.

“Não sei o que o Ministério da Educação nos vai pedir até ao dia 12 [de dezembro]. Não sabemos quando nem como vamos reportar este trabalho. Até ao momento não recebemos nenhuma orientação”, afirma o diretor do agrupamento localizado em Sintra, Luís Henriques. E o mesmo diz Carlos Vilas, responsável pela secundária do Pinhal Novo: “Até agora não temos indicação para enviar o documento para o Ministério da Educação. Vamos apenas submeter online no site.”

Em agosto, o Ministério não referiu o que aconteceria depois de 12 de dezembro. Mencionou, porém, que “após a aprovação deste plano, os pais e encarregados de educação deverão ser informados de todas as atividades a desenvolver no âmbito da concretização dos projetos que envolvam Educação para a Cidadania”, e que os agrupamentos escolares e escolas não agrupadas têm autonomia “para definirem as suas estratégias e as abordagens pedagógicas mais adequadas para os seus contextos específicos”.

A prioridade “neste momento é elaborar o documento”, salienta o representante dos diretores, Filinto Lima. Quanto ao resto, como o decorrer das aulas de Cidadania, tudo “está a decorrer de forma natural”.

“Acontecem uma vez por semana, lecionadas por professores (sendo que não há um grupo de recrutamento para esta disciplina). Estão a funcionar dentro das dimensões das grandes temáticas” delineadas pelo Ministério liderado por Fernando Alexandre.

“Envolvemos os alunos na escolha de algumas atividades: uma tem que ver com ações de voluntariado e outra com literacia financeira”
Rosária Alves, diretora do agrupamento de escolas de Benfica

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434 bibliotecas até parece muito, mas são migalhas para pombos

O Ministro da Educação anunciou com pompa e circunstância a criação de mais 434 bibliotecas escolares até 2026 e o país inteiro parece ter decidido bater palmas como se tivesse acabado de testemunhar uma revolução educativa. A verdade é bem menos épica. Em Portugal existem cerca de 4 700 escolas do 1.º ciclo, espalhadas pelos 308 concelhos do país, e perante estes números as tais 434 bibliotecas são pouco mais do que um aperitivo mal servido.

O anúncio promete beneficiar 50 mil alunos. Parece impressionante até nos lembrarmos de que estamos a falar de um universo muito maior de crianças que continuam em escolas onde a biblioteca é um conceito distante, quase mítico. Se estas 434 novas bibliotecas fossem um passo decisivo, eu seria o primeiro a celebrar, mas quando fazem cócegas à superfície do problema não consigo evitar soltar uma gargalhada amarga.

O mais curioso é ver a velocidade com que toda a gente se apressa a elogiar o feito. Dá a sensação de que basta acenar com umas prateleiras novas e uns livros plastificados para que o país entre em modo festa. A estratégia é velha: dar pouco, apresentar como muito e esperar que o público aplauda obedientemente. E, pelos vistos, funciona. Os portugueses continuam a agradecer migalhas com entusiasmo, tal como os pombos que correm atrás de quem lhes atira meia dúzia de grãos de milho.

Claro que 434 bibliotecas são melhores do que zero. Ninguém discute isso. O problema é quando transformamos um gesto mínimo numa epopeia nacional. Quando olhamos para a realidade, percebemos que isto não é um grande investimento nem uma mudança estrutural. É apenas mais um anúncio reluzente para encher manchetes e distrair-nos do facto de que milhares de escolas continuam sem os recursos essenciais para promover hábitos de leitura dignos.

Em suma, celebramos como se nos tivessem oferecido um banquete quando, na verdade, mal nos deram um prato de amostras. E o mais triste é que ainda agradecemos.

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Educação em estado terminal. Sintomas de uma biosfera pedagógica em colapso – José Afirmou Baptista

O planeta geme. As veias secam. Secam rios, glaciares, aquíferos. Mas num ápice viram a agulha e transbordam, num desequilíbrio que já não é episódico, mas sistémico. As florestas ardem, os polos desfazem-se em lágrimas geladas, as espécies migram ou desaparecem. O clima enlouqueceu, está tonto. E com ele, tudo o que dependia da estabilidade para florescer. A Terra, que durante milénios foi berço e abrigo, tornou-se um campo de sobrevivência. O seu colapso não é apenas físico, é simbólico, ético, civilizacional. E como todo o organismo em crise, os sintomas espalham-se para os seus sistemas vitais. A educação não escapa. Com ela se evapora e extingue esse órgão sensível que é a cultura. Outrora clareira de abrigo no meio da selva social, a escola tornou-se um terreno instável, onde se multiplicam os sinais de colapso, de doença. O chão já não é firme. As raízes da vocação apodrecem em silêncio, sufocadas por camadas de burocracia e desilusão. O degelo começou há décadas. Primeiro, derreteram-se os vínculos entre gerações, e desapareceram os mestres que transmitiam saberes com a maior delicadeza. Depois, vieram as políticas de contenção, os cortes, os silêncios. A memória pedagógica escorreu pelos corredores como água sem destino, deixando apenas placas de gelo fino onde antes havia chão fértil. Incêndios emocionais devastam os corpos docentes. O burnout alastra como fogo em pinhal seco, alimentado por calendários insensatos e exigências que não reconhecem o humano. Há professores que ardem por dentro, sem que ninguém repare, porque o fumo da exaustão é invisível nos relatórios da burocracia. As enxurradas levam os mais jovens, os mais criativos, os mais inquietos. Fuga em massa. A escola já não os segura. A cada ano, mais uma leva de talentos é arrastada para longe, como se a vocação fosse incompatível com a sobrevivência. Formamo-los para os ver partir. Ficam os resistentes, os que aprenderam a respirar em ambientes tóxicos saturados. A temperatura nas salas sobe. Não por falta de ar condicionado, mas pela tensão acumulada. Relações tóxicas, hierarquias opacas, falta de escuta. O clima pedagógico tornou-se irrespirável. Já não há primavera nas reuniões, nem verão nas aprendizagens. Só um inverno prolongado, onde cada aula é uma travessia na escuridão. E há os deslocados. Os professores nómadas, que percorrem quilómetros entre escolas, como aves migratórias sem estação. Não criam laços, não deixam sementes. São corpos em trânsito, vozes que ecoam no tempo frio e desaparecem no calor do verão. A escola sem rosto, sem alma, sem continuidade. A sociedade e a cidade espalham a desordem e a confusão onde devia haver harmonia. O ódio e o crime vêm ao almoço e ao jantar, como atrações entre a publicidade das televisões. Os clubes e os partidos são os mestres do ódio. Juntamente com as guerras. Tudo com vastos painéis de especialistas que não deixam espaço para o diálogo em família. A biosfera educativa está em colapso. E como em qualquer ecossistema sem equilíbrio, quem mais sofre são os mais frágeis: os alunos. Sentem o cheiro do incêndio, o frio do degelo, o susto da enxurrada. Mas não sabem nomear. Ninguém lhes dá ouvidos

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04-12-2025 | diário as beiras

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