As educadoras de infância deste país avançam para os 66 anos a trabalhar como quem sobe uma colina íngreme carregando às costas vinte e cinco pequenas forças da natureza entre os três e os cinco anos. A cada manhã entram na sala como heroínas silenciosas, mas o corpo já não acompanha a coragem e a cabeça já não caminha à velocidade de um tablet de última geração. Espera-se delas um vigor atlético que nem atletas profissionais mantêm aos cinquenta, quanto mais na casa dos sessenta, e ainda se exige que sorriam com graça enquanto equilibram choros, birras, recortes, plasticinas, reuniões, relatórios, legislação mutante e plataformas digitais que mudam mais depressa do que os cabelos ficam brancos. Diz-se que envelhecer é um privilégio, mas tentar acompanhar vinte e cinco mini-furacões quando o corpo protesta em todas as articulações ultrapassa o privilégio e entra diretamente na categoria de teste de resistência absurda.
É curioso como o sistema educativo finge não ver o óbvio: a partir de certa idade, por mais boa vontade que haja, a reciclagem tecnológica torna-se uma gincana digna de reality show. As novas metodologias chegam embrulhadas em jargões pedagógicos que parecem ter sido escritos por um algoritmo histérico, e muitos esperam que estas profissionais as dominem com a naturalidade com que uma criança domina um ecrã táctil. Mas a verdade é que há um limite biológico, emocional e cognitivo que não desaparece com formações obrigatórias ou com manuais de inovação. Fingir o contrário é apenas uma maneira elegante de não admitir que estamos a pedir o impossível.
Permitir que estas educadoras se reformem mais cedo não seria um luxo nem um capricho, mas um ato elementar de lucidez. Ganharíamos todos: elas recuperariam o direito a envelhecer com dignidade, o sistema deixaria de se apoiar na exaustão disfarçada de vocação e as crianças teriam quem as acompanhasse com energia genuína em vez de esforço hercúleo. Mas continuamos a tratar o desgaste como se fosse parte natural da profissão, uma espécie de taxa inevitável, como se fosse perfeitamente razoável esperar que alguém com mais de seis décadas de vida acompanhe o ritmo de vinte e cinco seres humanos cuja energia desafia as leis da física.
No fundo, empurrar estas profissionais até aos 66 é uma forma particularmente refinada de sarcasmo institucional: exige-se-lhes o impossível, finge-se que é perfeitamente normal e ainda se aplaude como se fosse prova de resiliência nacional. Talvez um dia o país perceba que manter educadoras exaustas em serviço não é poupança, é teimosia disfarçada de gestão. E até lá, elas continuam, heroicas e cansadas, a segurar com as próprias mãos um sistema que insiste em fazer de conta que não está a desmoronar.




28 comentários
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Conheço duas que vão-se reformar e pedir para continuar.
E estão no 10.º escalão.
E porquê? Porque andaram a vida toda a não fazer NADA!
Quem trabalhava eram as funcionárias da escola enquanto as “senhoras” estavam a beber o seu cafezinho na copa ou a folhear a revista Maria.
Agora estão fresquinhas. Nunca fizeram nada. Nunca se preocuparam com os miúdos. Mesmo quando houve um problema gravíssimo com um deles há uns anos, mas que foi prontamente abafado pelo sr, diretor (que parece que andava metido com uma delas).
E agora reformam-se e depois metem os papéis para ficaram a mamar mais um ordenado pelo 1.º escalão. Ou seja, vão mamar 2200 euros de reforma líquida e mais 1400 líquidos de ordenado, o que dá 3600 líquidos para não fazerem nada.
Viva o regabofe!
X não tome os dois casos que referenciou pelo todo. Sou educadora de infância e também poderia relatar casos, pois também estive em apoios. Neste momento, estou de atestado médico e já fui 2 anos seguidos à Caixa geral de Aposentações, enviada pela junta médica da ADSE. O 1o ano por psiquiatria. O 2o ano por doença degenerativa crónica óssea grave. Em 2024 levei um NÃO. Em 2025 levei outro NÃO.
Trabalhei e fiz muita kilometragem até aos 54 anos, que me trouxeram problemas graves. Agora piorei de tudo e não reúno condições para trabalhar. Tenho 65 anos e faço 66A a 3 de Maio. Estou à espera, que a escola me pague pelo oitavo escalão, desde 1 de Setembro de 2024, para depois fazer uma simulação e pedir a reforma. Pois se eu estivesse sempre perto de casa, sem viagens longas e a desfolhar a Maria, também poderia estar melhor e com mais saúde. Passo dias em que me é muito difícil levantar, porque dói tudo. O inverno é pior. E não vou chegar ao 10° escalão graças ao governo deste país “à beira mar plantado.
Não gaste o seu latim com o “x” porque deve ser um acólito do Chega. As melhoras e boa sorte.
Não sou acólito de nenhum chega.
Não suporto é a porcaria que anda nas escolas.
Lamento o seu caso Teresa. Espero que melhore e que lhe dêem a merecida reforma.
Mas que há casos como os que referi, isso há. E a maior parte até nem são na pré.
Compreendo-a perfeitamente, minha querida Teresa. Queria ser Educadora de Infância mas não conseguiu, certo? Pronto. Deixe lá. Não se pode ter tudo.
Ah! E não morda a língua. Pode morrer envenenada…😉
As minhas desculpas. O comentário não era para si. Era para o/a x.
não querem pagar impostos mas depois querem reformas milionárias e cresces gratuitas, o fermento não faz milagres nem os pão se multiplica, vai ficar tudo bem quando a segurança social for privatizada, são outros interesses económicos da mercantilização dos fundos de pensões.
Completamente perfeita esta descrição. O melhor artigo de sempre sobre a problemática da educação de infância.
E aqueles que sofreram enfarte, AVCs, burnout fruto do trabalho excessivo com 7 e 8 turmas de adolescentes de hormona?!
Hoje é a vez das Educadoras, voçês são tão egocêntricos… nós somos generalistas temos de saber de tudo, temos de ter corpo de aço e uma jovialidade que não acaba, mas não é assim somos um comum dos mortais. Não temos 6, 7, turmas , mas temos uma turma, 5 horas diárias, 5 dias da semana e temos de pensar, magicar, criar conteúdo, escutar, integrar. São 25 de 3, 4, 5 e 6 anos experimentem, se ouvissem os barulhinhos daqueles cabecinhas , as birras , a ginástica mental que é necessário fazer para os conquistar. Aquilo não é só brincar… e os papás… os recados , a papelada, o mapa do leite, a falta da auxiliar, a falta de ajuda , de apoios , oh meus amigos. Não é fácil depois de um AVC e após quase 40 anos de serviço, uma barbaridade é o que é.
Sou educadora e sofri tudo isso. Depois de um acidente em serviço e de ter 4 crianças autistas na sala tive de colocar um pacemaker. Já devia estar no nono escalão, mas a direção ainda não me colocou. Tenho este mês, 61 anos. Tenho 38 de serviço. O meu coração é frágil e cada dia me sinto mais precionada. Quando este ano as 4 crianças foram para o primeiro ciclo, e começaram a dar trabalho, não aguentam o que tu e a AO, aguentámos, chamam as mães para os levar.
Se soubessem o que é desgaste mesmo?! não fale do que não sabe. Sou educadora e farto me de trabalhar.
“Precionada”??? Oh, meu Deus!
Já os docentes que carregam as suas turmas do secundário ao longo do seu percurso escolar, esses não há problema nenhum de se reformarem aos 66 anos e 11 meses. Para já.
Que tristeza a minha !!
Meus caros e minhas caras, por favor nivelem-se por cima.
A matéria que foi objeto da escrita, foi o absurdo do que se pede às educadoras.
É evidente que existem muitas outras profissões, incluindo de professores de outros níveis que também têm os seus aspetos negativos. Mas, apedrejar a carreira e as colegas do pré-escolar, não melhora a nossa carreira, apenas nos denigre com ridicularidade por sermos pouco unidos e invejosos.
Boas Rui, o seu texto espelha a pura e dura realidade das educadoras.
Com 30 anos de serviço, já vi muitas situações, há colegas mais dedicadas que outras.
A nossa profissão devia ser considerada de desgaste físico e psicológico.
Deixo uma nota: quando o grupo não tem 25 pulguinhas saltitonas, e tem 20 é porque há uma ou duas crianças com necessidades educativas, que infelizmente têm “peso” de mais que 5. Infelizmente os apoios e terapias são nulos, não há assistentes suficientes e sem formação e sobra para quem? As super educadoras! É caso para dizer – RED BULL-DÁ-NOS ASAS
Parabéns pelo seu texto! Espelha bem a realidade nas nossas escolas e jardins de infancia. Professores saturados e exaustos pela idade e pelo sistema👏👏👏
Apesar de não ser educadora, reconheço toda a pertinência do texto. Porém, sem menoscabar o seu conteúdo, o mesmo texto será válido para todos os níveis de ensino.
Colega, não concordo. A monodocência, regime aplicado aos professores do 1.º Ciclo do Ensino Básico (1.º CEB) e da Educação Pré-Escolar, diferencia-se estruturalmente dos restantes ciclos de ensino (2.º, 3.º Ciclos e Secundário), que operam em regime de pluridocência.
Estas diferenças traduzem-se em desafios significativos e numa percebida subcarga de trabalho superior para os monodocentes.
Diferenças Estruturais: Monodocência vs. Pluridocência
A principal distinção reside no modelo pedagógico e nas responsabilidades do professor. Uma das queixas mais antigas e relevantes prende-se com a carga horária letiva semanal, que é estruturalmente mais elevada no 1.º CEB.
1.º Ciclo (Monodocência): A componente letiva semanal é de 25 horas (em contato direto com os alunos).
Outros Ciclos (Pluridocência): A componente letiva semanal é de 22 horas.
Esta diferença de 3 horas letivas por semana, que se traduz em mais tempo em sala de aula, acrescida à polivalência curricular, contribui diretamente para a maior subcarga sentida pelos monodocentes.
O calendário escolar prevê que os alunos da Educação Pré-Escolar e do 1.º Ciclo terminem as aulas mais tarde no ano letivo do que os alunos dos restantes ciclos (2.º, 3.º e Secundário).
Enquanto os alunos do 3.º Ciclo e Secundário terminam, em regra, no início ou meados de junho (em função dos exames), os alunos do 1.º Ciclo e do Pré-Escolar mantêm-se em aulas até ao final de junho (geralmente, dia 30).
Esta diferença significa que os monodocentes têm um período de interrupção letiva mais curto e são responsáveis pelos alunos numa fase do ano em que a fadiga e o desgaste (tanto dos alunos como dos professores) são mais acentuados, o que é frequentemente instrumentalizado como função social da escola (suporte familiar) em detrimento do benefício pedagógica.
O Artigo 79.º do Estatuto da Carreira Docente (ECD) define o direito à redução da componente letiva por antiguidade. No entanto, o seu regime de aplicação difere significativamente: No 2,° e 3° ciclo, aos 50 anos de idade e 15 anos de serviço docente: Redução de 2 horas.
Aos 55 anos de idade e 20 anos de serviço docente: Redução de mais 2 horas (total de 4 horas).
Aos 60 anos de idade e 25 anos de serviço docente: Redução de mais 4 horas (total de 8 horas).
Os docentes iniciam, assim, o seu alívio da carga letiva aos 50 anos, atingindo uma redução total de 8 horas semanais aos 60 anos.
Monodocência (Pré-Escolar e 1.º Ciclo)
Para os docentes em regime de monodocência, que têm uma carga letiva semanal de 25 horas e são polivalentes, o regime é diferente:
Início Tardio: A única redução permanente da componente letiva semanal (de 5 horas) só é concedida aos 60 anos de idade, ou a partir dos 25 anos de serviço letivo efetivo.
A colega, não vê as diferenças?
Brilhante exposição de uma inegável realidade.
Caro colega cada um fala por si. O que está em causa são as educadoras e o seu trabalho específico. Fisicamente a partir dos sessenta e pouco é pedir muito. Tenho 63 anos, já tive um AVC sou bastante ativa e começo a ter problemas de locomoção, tais como, correr, sentar no chão, saltar, problemas de audição (ah eles falam todos ao mesmo tempo e cada vez pior).
Olá. Informo que a partir dos 60 anos, os educadores de infância podem pedir redução de horário ficando a trabalhar 4 dias por semana. O quinto dia é assegurado por uma educadora que, frequentemente, é contratada com esse objetivo específico, isto é assegurar o trabalho com a turma no dia em que a educadora titular não está, por ter redução de horário.
Só um lembrete: no 2 ° e no 3^ ciclo,a redução de horário é 10 anos antes, ou seja aos 50 anos.
A monodocência está esquecida, tem o calendário escolar mais longo, o artigo 79 apenas aos 60 anos e mais carga horária. É justo? Não, não é!
Somos o pilar da carreira docente, somos quem dá colo, quem abotoa sapatos, quem transmite regras de saber estar e ser….
Não é bem assim. Eu pedi, nas como há falta de educadoras no agrupamento foi me retirado o dia temporariamente. Tive de voltar para a turma. E não neste dia, quando voltar a usufruir do mesmo, não fico em casa vou sempre para a escola. Não fico com a turma, mas estou lá.
Por cá ainda querem apertar mais os trabalhadores. No Reino Unido estão a fazer exatamente o contrário e a situação económica desse país não está nada famos, nem tem crescido ao ritmo de Portugal!
O Reino Unido tem estado a discutir e a implementar várias reformas na legislação laboral que tem como prioridade reforçar os direitos dos trabalhadores.
As principais reformas com o objetivo de proteger mais o trabalhador estão focadas em garantir maior segurança no emprego, aumentar os salários mínimos e melhorar as condições de trabalho e o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal.
Um dos documentos mais relevantes é o projeto de lei de direitos dos trabalhadores (que avançou para discussão na Câmara dos Lordes este ano de 2025, de acordo com as notícias), que propõe mudanças significativas:
Proteção Contra o Despedimento desde o Primeiro Dia:
Anteriormente, um funcionário tinha de ter dois anos de serviço contínuo para poder contestar um despedimento injusto.
A proposta permite que os funcionários possam reivindicar despedimento injusto desde o primeiro dia de trabalho.
Trabalho Flexível por Padrão (Flexible Work by Default):
Os trabalhadores poderão solicitar horários flexíveis desde o primeiro dia de trabalho (em vez de esperar seis meses).
Os empregadores terão de apresentar justificativas comerciais claras e válidas se recusarem o pedido.
Licenças Familiares e por Luto Ampliadas:
Novos contratados terão acesso imediato à licença de paternidade, licença parental não remunerada e licença por luto, acabando com os períodos de carência.
Está também em vigor a Lei de Cuidados Neonatais (Neonatal Care Leave and Pay Act) de 2023, que fornece licença e salário legal específico para pais de bebés que recebem cuidados neonatais (a partir de abril de 2025).
O Salário Mínimo Nacional (National Living Wage/National Minimum Wage) tem vindo a aumentar em 2025/2026 para várias faixas etárias, como por exemplo, o aumento para trabalhadores entre 18 e 20 anos e para menores de 18 anos.
Proteção na Economia Informal (Gig Economy)
Outra área chave de proteção é o alargamento dos direitos aos trabalhadores da chamada “Gig Economy” (economia informal ou de plataformas, como estafetas e motoristas) e com “contratos de zero horas” (zero-hours contracts).
Extensão dos Controlos do Direito ao Trabalho:
O governo propôs alargar as verificações obrigatórias de “Direito ao Trabalho” (Right to Work Checks), que se aplicavam principalmente a contratos tradicionais, para incluir trabalhadores contratados através de acordos de economia informal, contratos de zero horas, trabalho ocasional e subcontratação. Esta medida visa colmatar uma lacuna na prevenção do trabalho ilegal e exploração.
Há também a intenção de acabar com os contratos de zero horas, que não garantem um número mínimo de horas de trabalho, e de reclassificar muitos trabalhadores da “Gig Economy” como “trabalhadores” ou “empregados” para lhes dar acesso a direitos básicos como salário mínimo e pagamento por doença.
Pagamento por Doença Estatutário (Statutory Sick Pay – SSP):
Houve notícias (de março de 2025) sobre propostas para que a licença médica remunerada seja concedida a partir do primeiro dia de afastamento, sem a exigência de um rendimento mínimo.
Lei da Escravidão Moderna (Modern Slavery Act):
Embora seja uma lei anterior (de 2015), continua a ser um foco, exigindo que grandes organizações publiquem uma declaração anual sobre as ações tomadas para prevenir a escravidão moderna e o tráfico de pessoas nas suas operações e cadeias de abastecimento.
Estas reformas representam um esforço notório para modernizar a legislação laboral britânica, adaptá-la aos novos modelos de trabalho e garantir maior dignidade e segurança aos trabalhadores.
Por cá ninguém prevê leis para pôr termo à escravidão moderna e querem nivelar tudo por baixo assumindo de vez que o trabalhador é um alvo a abater!
Parece que o governo está a seguir em contea-mào no que respeita a direitos laborais e também no que respeitz a direitos cívicos basilares.
Só um lembrete: no 2 ° e no 3^ ciclo,a redução de horário é 10 anos antes, ou seja aos 50 anos.
A monodocência está esquecida, tem o calendário escolar mais longo, o artigo 79 apenas aos 60 anos e mais carga horária. É justo? Não, não é!
Somos o pilar da carreira docente, somos quem dá colo, quem abotoa sapatos, quem transmite regras de saber estar e ser….
O que divide são estes textinhos de merda colocados de propósito para suscitar divisão. Dá jeito!
Quem foi para educador por gostar de bebés e nhé nhé que assuma as escolhas feitas! Quem foi aturar adolescentes, que assuma a escolha feita.
Os senhores diretores é que escusam de fazer estas batelas a dividir para reinar!
Cada texto escrito por este artista nunca é para resolver nada, textos politizados medíocres repletos de ideologia woke e que apenas dividem ainda mais os diferentes docentes. Abram a pestana.
E os Professores do 1.º Ciclo? Não falam deles?????