O País das Bolhas e a Extinção do Bom Senso

Há quem ainda acredite que as redes sociais vieram aproximar pessoas. A crença é enternecedora, quase tão enternecedora como imaginar que uma caminhada de quinze minutos resolve os estragos de um almoço inteiro de fast food. A realidade que preferimos ignorar é que estas plataformas não fortaleceram os laços sociais e eliminaram muito do que nos fazia comunidade. Roubaram-nos a convivência, a aprendizagem partilhada, o confronto saudável de ideias e a construção lenta e paciente do viver em conjunto.

Troca-se a rua pela timeline, o café pelo feed e a conversa pela notificação. Onde existiam relações, há agora perfis. Onde se debatiam ideias, escrevem-se comentários que parecem mais munições do que argumentos. Onde havia gente de carne e osso, há avatares inflamáveis que se movem como se estivessem acima de qualquer limite. Na crença confortável de que o anonimato nos absolve, agimos como se tudo fosse permitido.

A convivência real, aquela em que aprendíamos uns com os outros, foi dissolvida como se fosse incompatível com o mundo digital. A aprendizagem entre vizinhos, entre amigos, entre gerações, deu lugar a especialistas improvisados que surgem depois de meia dúzia de vídeos e de uma thread mal articulada. A humildade intelectual desapareceu e cedeu espaço ao imediatismo opinativo que dispensa reflexão.

O crescimento pessoal enquanto seres humanos sociáveis ficou reduzido a quase nada. Tornámo-nos uma espécie orgulhosamente solitária, cada um fechado na sua própria bolha digital onde a certeza absoluta reina com autoridade. A comunidade deixou de ser referência e elevou-se o indivíduo isolado, sempre à procura de validação através de um gesto tão vazio como um like.

Chamamos a isto interação. Chamamos também amizade a coleções de desconhecidos que nunca ouviram a nossa voz e debate a trocas de insultos temperadas com dramatismo e emoticons. A sociologia que nos ajudava a compreender a vida em grupo foi empurrada para um canto enquanto as bolhas digitais nos oferecem o conforto enganador de um mundo onde todos pensam como nós.

Perdemos a essência do viver comum e, ainda por cima, acreditamos que ganhámos alguma coisa em troca. Confundimos opinião com pensamento, reação com reflexão e publicação com experiência de vida. As redes sociais não ampliaram o nosso mundo, limitaram-no ao reflexo de nós próprios. E, como sempre, ficamos encantados com o espelho.

O que as redes sociais realmente nos tiraram não foi apenas tempo, atenção ou serenidade. Tiraram-nos a capacidade de existir como sociedade. Enquanto continuarmos convencidos de que um ecrã substitui um rosto, caminharemos juntos rumo a uma solidão partilhada, a mais irónica herança da tecnologia que prometeu unir-nos.

No final, resta-nos a possibilidade de colocar um filtro por cima de tudo, como se isso pudesse disfarçar o vazio onde antes existia vida em comum.

Para as crianças na Austrália, as redes sociais vão ser proibidas, não seria de começar por seguir o exemplo para criarmos uma sociedade mais próxima e saudável?

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3 comentários

    • maria alves on 8 de Dezembro de 2025 at 9:31
    • Responder

    Os únicos que ganham com os smartphones e a IA são as grandes empresas tecnológicas que capturam, viciam e exploram as pessoas. Só há um caminho a seguir, sim. Reduzir ao máximo indispensável o uso de máquinas pelas crianças em idade escolar. Na escola, a inteligência humana (IH) do professor e demais trabalhadores deve ser a única a trabalhar para o ensino e aprendizagem. A IH tem de suplantar a IA para que esta não controle nem destrua a humanidade. Não se pode entregar a educação escolar a máquinas como muitos defendem, não pela crianças, mas pela fortuna que adviria daí. O negócio é muito rentável e duradouro. Veja-se o aumento de número de assinaturas vendidas a professores que ficam enredados nas plataformas e nas aulas já nem interagem com os alunos que ficam, também a conversar, muito entretidos em grupos.

    • Vitor on 8 de Dezembro de 2025 at 13:14
    • Responder

    E no entanto as direções escolares promovem as redes sociais.
    No agrupamento onde estou, em Lisboa, há uma equipa de professores que colocam os “relatos noticiosos” que lhes são dados sobre o que vai sendo feito lá. Incluindo fotos, textos e até vídeos.
    Esta mania estúpida de colocar online tudo, para promover tudo e mais alguma coisa, tem de acabar.
    As redes sociais são cada vez mais um problema. Um vício. E desinformação ou informação pobre e não relevante.
    Nenhuma escola as deveria ter ou promover.

    • Pedro Rodrigues on 9 de Dezembro de 2025 at 9:07
    • Responder

    Na China é que é bom.

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