Há ideias que parecem ter sido concebidas numa tarde particularmente longa de reunião, quando já ninguém distingue um decreto de uma receita de bacalhau. A mais recente maravilha política, que andam a espalhar, é a possibilidade de entregar às autarquias a contratação de professores, tudo isto num país que ainda tenta perceber o que significa realmente o Decreto-Lei 32-A, essa novela jurídica que prometia justiça nos concursos, mas que acaba por produzir um aroma ligeiramente agridoce de desigualdade.
Imaginar câmaras municipais a gerir concursos de professores é quase tão reconfortante como pedir a um gato para tomar conta de um aquário. Tecnicamente possível, sim, mas o desfecho faz qualquer pessoa, com dois neurónios ativos, suar. O problema é que os concursos docentes, já de si um ritual burocrático de desespero, cairiam num caos tão denso que nem com GPS se encontraria a saída.
O Decreto-Lei 32-A foi pensado para trazer transparência e equidade, mas, agora, querer-se-ia acrescentar um novo elemento, a criatividade municipal, que é como despejar gasolina sobre uma fogueira e dizer, com ar muito sério, que tudo vai correr bem. Basta olhar para o histórico, porque em Portugal os concursos são tão sensíveis como a porcelana chinesa, mas colocados nas mãos das autarquias, correm o risco de se transformar num jogo de cadeiras para adultos desesperados.
Comecemos pelas desigualdades regionais, que já existem e agradecem qualquer oportunidade para crescer com entusiasmo. Um município oferece melhores condições, outro município oferece uma planta em cima da secretária. Resultado, migrações internas forçadas.
Depois temos o festival da influência local. Em teoria, tudo seria rigoroso, transparente, algorítmico. Na prática, haveria sempre o primo do cunhado do vereador que gostaria de dar aulas de História, mesmo que a última vez em que abriu um livro tenha sido pouco antes de nascer.
E claro, a instabilidade anual permaneceria firme e hirta, porque se há coisa que este país venera é a capacidade de manter um professor a saltar de escola em escola como se estivesse numa gincana. Agora, com concursos municipais, teríamos professores que não mudariam só de escola, mudariam de concelho, de freguesia, de presidente de câmara e de prioridades políticas conforme a cor partidária que estivesse mais bem humorada naquele mandato.
Mas o verdadeiro apogeu deste plano residia numa ironia deliciosa. Passar a contratação para as autarquias seria vendido como uma medida de proximidade, eficácia e modernização. O que não se diria é que abriria a porta a um labirinto burocrático com 308 entradas e zero saídas, onde cada município teria o seu mini decreto, a sua interpretação criativa das regras, o seu método original de avaliar mérito… E tudo isto com a serenidade habitual de quem nunca teve de preencher uma plataforma concursal em Portugal.
No fim de contas, entregar às câmaras a contratação de professores seria a versão educativa do velho ditado português, em equipa que já está complicada, mexe-se mais um bocadinho para ver se piora. Mas haverá sempre quem garanta que é um avanço extraordinário, uma revolução sensata, uma modernização inadiável. A verdade, porém, é cristalina, o que hoje é confuso tornar-se-ia incompreensível, o que hoje causa ansiedade, tornar-se-ia pânico e o que hoje é mau, tornar-se-ia verdadeiramente pior.
E o pior de tudo é que, no fim, os professores lá estariam, resilientes, cansados, armados de paciência e ironia, a tentar ensinar crianças com o mesmo empenho de sempre. Porque se há classe que aguenta tudo, até ideias destas, é a classe docente. O país sabe disso, e talvez por isso continue a testar os seus limites com uma paixão quase poética.




19 comentários
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Se esta mer da desta proposta for para a frente, é da maneira que saio desta profissão de porcaria.
Chega de ser maltratado e levar com loucuras.
20 anos de merda! Chega disto!
Filhos da PU TA!
Saúdo esta notícia com dois momentos de alegria. Alegria por estar a meses da reforma e poder desligar-se do caos em que está a educação, a outra alegria é que sensatamente os elementos novos da minha família ( de professores na sua maioria) optaram, e bem, por profissões não ligadas à educação, a catástrofe anuncia-se. Num país de padrinhos e madrinhas as ultrapassagens vão escalar.
A admirável cunha que reina neste paisinho agora no ensino, entregue à corja que comanda as autarquias??
Coitados dos professores, mais uma angustia..
Atão dar xecola éi provetoso e dá puderi aos chulos das cambras amigalhaços dos rétores, na éi?
Vivam os varredores das cambras!
Filhos da p utA!
Votaram na laranjada apoiada pelos Chungosos ranhosos e pelos LiberaLOLs (a seita mais anti-professores que há) e agora chorem. Esperem pelo estatuto, ainda vão acabar com 35 horas lectivas, com o extra a ser “pago” em bancos de horas.
Isto só vai acabar quando estes pulhas e os anteriores cabrões forem pendurados em praça pública!
Ridículo!
Agora as câmaras são o remédio para todos os males.
Os concursos dos professores têm que continuar a ser a nível nacional e acrece que também tem que passar a haver concurso para os restantes técnicos, psicólogos, por exemplo.
Já chega de concursos de escolas!
Se vivêssemos num país escandinavo, poderia, talvez, ser uma medida exequível; mas neste país corrupto, historicamente pródigo de nepotismo, seria, muito provavelmente, uma catástrofe. O que seria!
Mas isso existe ou foi uma ideia mirabolante que, uma vez mais, visa atirar o barro à parede? E refere-se, como o texto indica, a contratações ou a todo o universo de concursos? E, tratando-se de contratações, todas as contratações ou contratações específicas? Claro que isso abriria o caminho a uma imensa teia de nepotismo, além de que as câmaras não estão vocacionadas lara isto, em podem dar conta do recado. De qualquer modo, uma vez que o texto soa todos os alarmes não é suficientemente claro, aguarda-se o esclarecimento do autor.
*peço desculpa por várias gralhas (malditos telemóveis), mas creio que se entende tudo.
Pois sim, Jojó, a “gente é muito compreensivas”!
Lá está esta armada aos cucos. Enfim…
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Os atuais concursos são mal organizados, os administrativos das escolas por desconhecimento ou conluio validam candidaturas cujos documentos não comprovam a veracidade. Então basta ver candidatos a concorrer como profissionalizados e uns nem habilitação própria têm. Ultrapassam porque ate o tempo de serviço é inflacionado e lá seguem para o início das listas e muitos já se encontram efetivos. Pasme-se há docentes com mestrado profissionalizante a substituir docentes que se encontram de baixa e descobre-se que nem tem habilitação própria!!!! O que andaram a fazer os serviços e as direcções? Deviam srr penalizados por todas estas negligências porque acabam por prejudicar quem realmente é profissionalizado.
O feudo municipal/diretinraete é ” de longe” mais conveniente e convicnente. Nést ce paá.
Isso é o que fizeram durante anos nas AEC! AEC essas às quais o Ministério da Educação, nunca prestou atenção e continua a não prestar. Trabalhar-se a Recibos Verdes, e em cada Câmara ou Empresa pagarem um valor diferente, para exatamente o mesmo trabalho!
Regional resource gaps already exist; devolving recruitment power to municipalities will only worsen talent flow imbalance. The worries in the article are not unnecessary—worth policymakers’ deep reflection~