Há quem continue a dizer, com ar compenetrado, que o Natal é a época da família, da paz e da união. Repete-se isto com a mesma convicção como se recita uma receita antiga que já ninguém cozinha. Hoje, o Natal é sobretudo uma coreografia de aparências. Mesa farta, fotografias, luzes que piscam, para compensar casas onde quase já não há brilho. Celebramos mais o que se mostra, do que aquilo que se sente. Se o espírito natalício passasse pelas redes sociais, então sim, estaríamos no auge da espiritualidade.

É verdade, muitas famílias perderam a noção do que se festeja. A troca de presentes, tornou-se uma espécie de transação comercial mal disfarçada. Já ninguém pensa no gesto, mas no valor. Na etiqueta da loja. No estatuto da prenda. As crianças ainda acreditam em magia, mas os adultos acreditam, apenas, no talão de troca. O simbolismo evaporou-se, ficou apenas o consumo embalado em papel brilhante.

Houve tempos em que celebrava-se a família. E o curioso é que não foi há séculos, foi há poucas décadas. O significado era outro, mais íntimo, mais humano, mais familiar. Hoje discute-se o preço do bacalhau e a concorrência das rabanadas, como quem discute a bolsa de valores. Fala-se de paz, mas não se pratica. Fala-se de união, mas não se convida quem realmente precisa. Fala-se de amor, desde que não atrapalhe o jantar. Vestem-se roupas novas para impressionar à mesa, mas, por dentro, muitos continuam alinhados com o cinismo que se instalou na vida quotidiana.

E, enquanto isto embrulha as ilusões, esquece-se a parte filosófica da data. O Natal é herdeiro de celebrações muito anteriores ao cristianismo. Antes da história que domina as festividades, os povos ancestrais celebravam o regresso da luz, o solstício de inverno, a sobrevivência num mundo rude. Era a natureza que se honrava, a esperança de novo ciclo, a consciência de fragilidade humana. Hoje, que somos tão modernos, substituímos esse sentido profundo por centros comerciais e por listas de compras intermináveis. Evoluímos tanto que já nem percebemos o que foi perdido.

O Natal tornou-se um ritual superficial e de pouca profundidade. Queremos ceias perfeitas, fotografias perfeitas, famílias que pareçam perfeitas, durante algumas horas. É uma espécie de teatro anual onde os figurinos são mais importantes que o guião. A preocupação com o que está em cima da mesa, ultrapassa quem está sentado à volta dela. E quando isso acontece, nada do que se diz sobre espírito natalício tem validade.

No fundo, este Natal contemporâneo, é um grande paradoxo. Falamos de amor, mas não o praticamos. Falamos de compaixão, mas não a exercemos. Falamos de tradição, mas ficámos, apenas, com os enfeites. O que antes era a celebração da vida e da comunidade, tornou-se numa festa que tenta tapar vazios com objetos e roturas com decorações.

Talvez fosse bom recuperarmos alguma da sabedoria antiga, dos que celebravam a luz, porque dela precisavam, dos que festejavam a união, porque sabiam que sem ela não se sobrevivia ao inverno. Hoje, sobrevivemos a tudo, exceto à falta de sentido que demos a esta data. Por isso, quando dissermos Feliz Natal, talvez devêssemos primeiro perguntar, se ainda sabemos o que isso quer dizer.

Ou se é só mais uma frase embrulhada no papel errado.

Boas Festas…