Com base na análise crítica dos dados do Ensino Secundário, o cenário que se desenha é de uma evolução notável nos últimos dez anos, que está agora sob ameaça. A notícia de que as taxas de conclusão sofreram uma ligeira baixa, quebrando uma tendência positiva de sete anos, serve como um forte sinal de alerta. É inegável o sucesso a longo prazo: os Cursos Científico-Humanísticos (CCH) registaram um avanço de 22 pontos percentuais, enquanto os Cursos Profissionais (CP) evoluíram em 17 pontos percentuais nas taxas de conclusão. Este crescimento consolidado mostra que o sistema tem sido eficaz em qualificar mais jovens e reduzir o abandono escolar. Contudo, esta recente inversão sugere que fatores críticos estão a sobrepor-se aos ganhos alcançados. Os dirigentes escolares apontam o dedo a quatro problemas estruturais que penalizam o sucesso: a escassez crónica de professores, que desestabiliza o ensino e a qualidade das aulas; o modelo de exames, que gera pressão excessiva e pode desviar o foco da aprendizagem integral para o treino de provas; o modelo de financiamento, que pode ser insuficiente para dotar as escolas dos recursos necessários para responder à diversidade de necessidades; e a falta de apoios adequados aos alunos dos cursos profissionais, comprometendo o potencial de uma via essencial para a qualificação. Para reverter esta quebra e retomar a trajetória de sucesso, o foco da política educativa deve ser a estabilização urgente do corpo docente e o reforço da sustentabilidade das vias profissionalizantes, garantindo que os ganhos da última década não sejam perdidos por inação face a estas fragilidades crónicas.
8 de Dezembro de 2025 archive
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Dez 08 2025
Taxas de conclusão do Secundário descem ao fim de sete anos a melhorar
Taxas de conclusão do Secundário descem ao fim de sete anos a melhorar
As taxas de conclusão no Ensino Secundário baixaram ligeiramente, quebrando uma tendência de melhoria de sete anos. Falta de professores, exames, modelo de financiamento e apoios aos alunos dos cursos profissionais apontados por dirigentes como fatores que penalizam o sucesso escolar.
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Dez 08 2025
O Natal embrulhado no papel errado
O Natal embrulhado no papel errado
O Natal tornou-se um ritual superficial. É uma espécie de teatro anual onde os figurinos são mais importantes que o guião.
Há quem continue a dizer, com ar compenetrado, que o Natal é a época da família, da paz e da união. Repete-se isto com a mesma convicção como se recita uma receita antiga que já ninguém cozinha. Hoje, o Natal é sobretudo uma coreografia de aparências. Mesa farta, fotografias, luzes que piscam, para compensar casas onde quase já não há brilho. Celebramos mais o que se mostra, do que aquilo que se sente. Se o espírito natalício passasse pelas redes sociais, então sim, estaríamos no auge da espiritualidade.
É verdade, muitas famílias perderam a noção do que se festeja. A troca de presentes, tornou-se uma espécie de transação comercial mal disfarçada. Já ninguém pensa no gesto, mas no valor. Na etiqueta da loja. No estatuto da prenda. As crianças ainda acreditam em magia, mas os adultos acreditam, apenas, no talão de troca. O simbolismo evaporou-se, ficou apenas o consumo embalado em papel brilhante.
Houve tempos em que celebrava-se a família. E o curioso é que não foi há séculos, foi há poucas décadas. O significado era outro, mais íntimo, mais humano, mais familiar. Hoje discute-se o preço do bacalhau e a concorrência das rabanadas, como quem discute a bolsa de valores. Fala-se de paz, mas não se pratica. Fala-se de união, mas não se convida quem realmente precisa. Fala-se de amor, desde que não atrapalhe o jantar. Vestem-se roupas novas para impressionar à mesa, mas, por dentro, muitos continuam alinhados com o cinismo que se instalou na vida quotidiana.
E, enquanto isto embrulha as ilusões, esquece-se a parte filosófica da data. O Natal é herdeiro de celebrações muito anteriores ao cristianismo. Antes da história que domina as festividades, os povos ancestrais celebravam o regresso da luz, o solstício de inverno, a sobrevivência num mundo rude. Era a natureza que se honrava, a esperança de novo ciclo, a consciência de fragilidade humana. Hoje, que somos tão modernos, substituímos esse sentido profundo por centros comerciais e por listas de compras intermináveis. Evoluímos tanto que já nem percebemos o que foi perdido.
O Natal tornou-se um ritual superficial e de pouca profundidade. Queremos ceias perfeitas, fotografias perfeitas, famílias que pareçam perfeitas, durante algumas horas. É uma espécie de teatro anual onde os figurinos são mais importantes que o guião. A preocupação com o que está em cima da mesa, ultrapassa quem está sentado à volta dela. E quando isso acontece, nada do que se diz sobre espírito natalício tem validade.
No fundo, este Natal contemporâneo, é um grande paradoxo. Falamos de amor, mas não o praticamos. Falamos de compaixão, mas não a exercemos. Falamos de tradição, mas ficámos, apenas, com os enfeites. O que antes era a celebração da vida e da comunidade, tornou-se numa festa que tenta tapar vazios com objetos e roturas com decorações.
Talvez fosse bom recuperarmos alguma da sabedoria antiga, dos que celebravam a luz, porque dela precisavam, dos que festejavam a união, porque sabiam que sem ela não se sobrevivia ao inverno. Hoje, sobrevivemos a tudo, exceto à falta de sentido que demos a esta data. Por isso, quando dissermos Feliz Natal, talvez devêssemos primeiro perguntar, se ainda sabemos o que isso quer dizer.
Ou se é só mais uma frase embrulhada no papel errado.
Boas Festas…
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Dez 08 2025
É impressionante como os professores entendem aquilo que explicam…
Escrever sobre o amor é sempre arriscado, porque, como diria Clóvis de Barros, rindo daquela gargalhada filosófica que ilumina as próprias palavras, o amor é uma coisa muito séria para ser levada demasiado a sério. E, como diria outro alguém que conheço, com aquele olhar de quem enrola ironia e ternura na mesma frase, o amor dos professores pelos alunos é tão real, que chega a doer quando se tenta explicá-lo. Mas avancemos, porque três senhores antigos decidiram meter-se nesta conversa: Platão, Aristóteles e Cristo.
Platão acreditava no amor como uma escada, que começa no particular e sobe até ao universal. Para ele, amar é elevar. O professor platónico olha para o aluno e não vê apenas a pessoa que ali está, vê o que ela pode vir a ser. É uma espécie de arquitecto do invisível, que tenta convencer o estudante de que aprender é transformar o mundo de dentro para fora. Só que, na sala de aula real, o aluno está mais interessado no telemóvel do que na Ideia do Belo. É aqui que entra o humor. Um professor platónico, fluente em Clóvis de Barros, diria ao aluno que a Ideia do Belo é tudo aquilo que não está no TikTok. E o aluno ri, e ouve durante um segundo. É nesse segundo que o professor consegue ensinar.
Aristóteles, porém, era mais pé-no-chão. O amor é amizade baseada na virtude, dizia ele. Para o professor aristotélico, amar o aluno é fazê-lo crescer na justa medida, nem mais nem menos. O professor torna-se um jardineiro, que não rega em excesso nem rega de menos. Aprende a olhar para cada aluno como quem lê um mapa meteorológico emocional e intelectual. Aristóteles diria que ensinar é formar bons hábitos, e, por isso, o professor precisa de coerência, clareza e, sobretudo, paciência. Muita paciência. Uma paciência tão grande, que até Clóvis de Barros faria uma piada, dizendo que filósofo, que é filósofo, só se irrita depois de argumentar consigo mesmo.
Depois chega Cristo, com aquele tipo de amor que desinstala. Cristo diria que amar é dar-se. Amar os alunos significa acreditar neles, mesmo quando eles não acreditam em si. Significa olhar para o que falha e ver uma possibilidade. Significa não desistir. E isto não tem nada de romântico. Amar assim dói, cansa e exige sacrifício. Mas também é o único tipo de amor que transforma de verdade. O professor cristão, no sentido filosófico e não confessional, olha para cada aluno como alguém digno de respeito e de possibilidade infinita.
O que é, então, que estes três filósofos têm a ensinar aos professores que querem que os alunos amem aprender?
Primeiro, Platão sugere que o professor precisa de inspirar. Não basta ensinar a matéria: é preciso mostrar que aprender é bonito. O professor tem de ser farol, e não lanterna.
Aristóteles acrescenta que é preciso método. Bons hábitos, boas explicações, boas práticas repetidas. O amor ao saber nasce, também, da ordem.
Por fim, Cristo lembra que nenhum método sobrevive sem humanidade. Ensinar é um acto de encontro. E, em cada encontro, há risco e há graça.
Para que os alunos amem aprender, o professor precisa de unir estes três amores: amor que inspira, amor que estrutura e amor que acolhe. Se conseguir isto, mesmo com falhas, tropeços e ironias pelo caminho, o ensino torna-se bom. E, quando o ensino é bom, o aluno aprende; e, quando o aluno aprende, o professor finalmente entende aquilo que sempre soube, mas nunca tinha conseguido explicar.
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Dez 08 2025
O País das Bolhas e a Extinção do Bom Senso
Há quem ainda acredite que as redes sociais vieram aproximar pessoas. A crença é enternecedora, quase tão enternecedora como imaginar que uma caminhada de quinze minutos resolve os estragos de um almoço inteiro de fast food. A realidade que preferimos ignorar é que estas plataformas não fortaleceram os laços sociais e eliminaram muito do que nos fazia comunidade. Roubaram-nos a convivência, a aprendizagem partilhada, o confronto saudável de ideias e a construção lenta e paciente do viver em conjunto.
Troca-se a rua pela timeline, o café pelo feed e a conversa pela notificação. Onde existiam relações, há agora perfis. Onde se debatiam ideias, escrevem-se comentários que parecem mais munições do que argumentos. Onde havia gente de carne e osso, há avatares inflamáveis que se movem como se estivessem acima de qualquer limite. Na crença confortável de que o anonimato nos absolve, agimos como se tudo fosse permitido.
A convivência real, aquela em que aprendíamos uns com os outros, foi dissolvida como se fosse incompatível com o mundo digital. A aprendizagem entre vizinhos, entre amigos, entre gerações, deu lugar a especialistas improvisados que surgem depois de meia dúzia de vídeos e de uma thread mal articulada. A humildade intelectual desapareceu e cedeu espaço ao imediatismo opinativo que dispensa reflexão.
O crescimento pessoal enquanto seres humanos sociáveis ficou reduzido a quase nada. Tornámo-nos uma espécie orgulhosamente solitária, cada um fechado na sua própria bolha digital onde a certeza absoluta reina com autoridade. A comunidade deixou de ser referência e elevou-se o indivíduo isolado, sempre à procura de validação através de um gesto tão vazio como um like.
Chamamos a isto interação. Chamamos também amizade a coleções de desconhecidos que nunca ouviram a nossa voz e debate a trocas de insultos temperadas com dramatismo e emoticons. A sociologia que nos ajudava a compreender a vida em grupo foi empurrada para um canto enquanto as bolhas digitais nos oferecem o conforto enganador de um mundo onde todos pensam como nós.
Perdemos a essência do viver comum e, ainda por cima, acreditamos que ganhámos alguma coisa em troca. Confundimos opinião com pensamento, reação com reflexão e publicação com experiência de vida. As redes sociais não ampliaram o nosso mundo, limitaram-no ao reflexo de nós próprios. E, como sempre, ficamos encantados com o espelho.
O que as redes sociais realmente nos tiraram não foi apenas tempo, atenção ou serenidade. Tiraram-nos a capacidade de existir como sociedade. Enquanto continuarmos convencidos de que um ecrã substitui um rosto, caminharemos juntos rumo a uma solidão partilhada, a mais irónica herança da tecnologia que prometeu unir-nos.
No final, resta-nos a possibilidade de colocar um filtro por cima de tudo, como se isso pudesse disfarçar o vazio onde antes existia vida em comum.
Para as crianças na Austrália, as redes sociais vão ser proibidas, não seria de começar por seguir o exemplo para criarmos uma sociedade mais próxima e saudável?
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