Escrever sobre o amor é sempre arriscado, porque, como diria Clóvis de Barros, rindo daquela gargalhada filosófica que ilumina as próprias palavras, o amor é uma coisa muito séria para ser levada demasiado a sério. E, como diria outro alguém que conheço, com aquele olhar de quem enrola ironia e ternura na mesma frase, o amor dos professores pelos alunos é tão real, que chega a doer quando se tenta explicá-lo. Mas avancemos, porque três senhores antigos decidiram meter-se nesta conversa: Platão, Aristóteles e Cristo.
Platão acreditava no amor como uma escada, que começa no particular e sobe até ao universal. Para ele, amar é elevar. O professor platónico olha para o aluno e não vê apenas a pessoa que ali está, vê o que ela pode vir a ser. É uma espécie de arquitecto do invisível, que tenta convencer o estudante de que aprender é transformar o mundo de dentro para fora. Só que, na sala de aula real, o aluno está mais interessado no telemóvel do que na Ideia do Belo. É aqui que entra o humor. Um professor platónico, fluente em Clóvis de Barros, diria ao aluno que a Ideia do Belo é tudo aquilo que não está no TikTok. E o aluno ri, e ouve durante um segundo. É nesse segundo que o professor consegue ensinar.
Aristóteles, porém, era mais pé-no-chão. O amor é amizade baseada na virtude, dizia ele. Para o professor aristotélico, amar o aluno é fazê-lo crescer na justa medida, nem mais nem menos. O professor torna-se um jardineiro, que não rega em excesso nem rega de menos. Aprende a olhar para cada aluno como quem lê um mapa meteorológico emocional e intelectual. Aristóteles diria que ensinar é formar bons hábitos, e, por isso, o professor precisa de coerência, clareza e, sobretudo, paciência. Muita paciência. Uma paciência tão grande, que até Clóvis de Barros faria uma piada, dizendo que filósofo, que é filósofo, só se irrita depois de argumentar consigo mesmo.
Depois chega Cristo, com aquele tipo de amor que desinstala. Cristo diria que amar é dar-se. Amar os alunos significa acreditar neles, mesmo quando eles não acreditam em si. Significa olhar para o que falha e ver uma possibilidade. Significa não desistir. E isto não tem nada de romântico. Amar assim dói, cansa e exige sacrifício. Mas também é o único tipo de amor que transforma de verdade. O professor cristão, no sentido filosófico e não confessional, olha para cada aluno como alguém digno de respeito e de possibilidade infinita.
O que é, então, que estes três filósofos têm a ensinar aos professores que querem que os alunos amem aprender?
Primeiro, Platão sugere que o professor precisa de inspirar. Não basta ensinar a matéria: é preciso mostrar que aprender é bonito. O professor tem de ser farol, e não lanterna.
Aristóteles acrescenta que é preciso método. Bons hábitos, boas explicações, boas práticas repetidas. O amor ao saber nasce, também, da ordem.
Por fim, Cristo lembra que nenhum método sobrevive sem humanidade. Ensinar é um acto de encontro. E, em cada encontro, há risco e há graça.
Para que os alunos amem aprender, o professor precisa de unir estes três amores: amor que inspira, amor que estrutura e amor que acolhe. Se conseguir isto, mesmo com falhas, tropeços e ironias pelo caminho, o ensino torna-se bom. E, quando o ensino é bom, o aluno aprende; e, quando o aluno aprende, o professor finalmente entende aquilo que sempre soube, mas nunca tinha conseguido explicar.