Admitindo como verdadeira a anterior afirmação, atribuída a Martin Luther King, porque não é ouvida a Classe Docente?
Não é ouvida porque talvez se tenha acomodado e enclausurado numa espécie de “desânimo aprendido” (Seligman, 1967) e permanente…
Não é ouvida porque, ao invés de agir, talvez se tenha deixado enredar num círculo vicioso de auto–sabotagem, dominado pela vitimização e pela frustração…
Não é ouvida porque, ao invés de agir, espera que outros, miraculosamente, consigam resolver os seus problemas…
Não é ouvida porque as principais organizações sindicais que, expectavelmente, a deveriam representar de forma isenta e coerente parecem, muitas vezes, mais empenhadas em cumprir determinadas agendas partidárias do que em encetar acções de efectiva reivindicação junto da Tutela…
Resumindo, má sorte para quem é Professor em Portugal: ter que contestar, além da Tutela, muitas vezes também, os próprios Sindicatos…
Mas, e apesar de tudo o anterior, será possível:
Continuar a tolerar o cinismo, pretensamente afectuoso, que é o pior dos cinismos, frequentemente evidenciado pela actual Tutela?
Continuar a assistir à hecatombe da Classe Docente, que começou a desenhar-se, sobretudo, a partir de 2005, acabando por aceitar como “novos normais” todos os atropelos contra si cometidos ao longo dos últimos 17 anos?
Fazer ou não fazer greve não pode deixar de ser uma decisão individual…
Apesar disso, uma coisa parece certa no momento actual:
Independentemente dos motivos que possam ser advogados por cada um, optar por não fazer greve no próximo dia 2 de Novembro não deixará de ser, ardilosamente, interpretado e apregoado pela Tutela como um “voto de confiança”, dado por Educadores e Professores…
Decorrente do anterior, a opinião pública será obviamente intoxicada com a ideia de que na Educação tudo está bem, tudo corre bem e que os Professores não têm, afinal, motivos para fazer greve…
Cada um decida se está disposto a agraciar o Ministério da Educação com essa “comenda”…
Por outro lado, se a greve vier a ter uma adesão significativa, convirá, talvez, que os Sindicatos, em respeito pela honestidade intelectual e pelo conhecimento da realidade, que é suposto terem, não aproveitem para “embandeirar em arco”, tentando, por essa via, dissimular e escamotear a descredibilização de que têm vindo a ser alvo nos últimos anos, assim como os motivos que a isso têm conduzido…
Sobretudo pela inacção sindical que tem vindo a ser observada há mais de seis anos, apesar dos sucessivos e graves ataques à dignidade profissional dos Docentes, cometidos pela Tutela durante esse período de tempo, a eventual adesão expressiva à greve não se deverá, por certo, em primeira instância, à confiança depositada nas principais estruturas sindicais ou ao crédito de que possam gozar junto dos seus supostos representados…
As associações sindicais têm a competência legal para declarar greves, mas isso não significará, necessariamente, que quem adira a uma determinada greve deposite uma significativa ou inabalável confiança na estrutura sindical que a convocou…
E, no momento actual, não parece que exista essa prerrogativa, face aos principais Sindicatos…
A crença na ineficácia dos Sindicatos da Educação, traduzida, muitas vezes, pela ideia de que os mesmos não passam de “um mal necessário” é perigosa para a Democracia e não pode deixar de ser combatida, em primeiro lugar, pelos próprios…
Não por palavras, mas por acções idóneas, livres do facciosismo partidário, do apego a agendas partidárias e dos fretes partidários…
A credibilidade dos Sindicatos subordina-se, cada vez mais, à respectiva capacidade de independência partidária, algo que o“velho” Sindicalismo parece ignorar…
Sem independência partidária, também a união da Classe Docente se tornará numa absoluta e inultrapassável quimera…
(Matilde)