Rui Cardoso

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Uma rápida análise aos resultados dos últimos 10 anos do Ensino Secundário

Com base na análise crítica dos dados do Ensino Secundário, o cenário que se desenha é de uma evolução notável nos últimos dez anos, que está agora sob ameaça. A notícia de que as taxas de conclusão sofreram uma ligeira baixa, quebrando uma tendência positiva de sete anos, serve como um forte sinal de alerta. É inegável o sucesso a longo prazo: os Cursos Científico-Humanísticos (CCH) registaram um avanço de 22 pontos percentuais, enquanto os Cursos Profissionais (CP) evoluíram em 17 pontos percentuais nas taxas de conclusão. Este crescimento consolidado mostra que o sistema tem sido eficaz em qualificar mais jovens e reduzir o abandono escolar. Contudo, esta recente inversão sugere que fatores críticos estão a sobrepor-se aos ganhos alcançados. Os dirigentes escolares apontam o dedo a quatro problemas estruturais que penalizam o sucesso: a escassez crónica de professores, que desestabiliza o ensino e a qualidade das aulas; o modelo de exames, que gera pressão excessiva e pode desviar o foco da aprendizagem integral para o treino de provas; o modelo de financiamento, que pode ser insuficiente para dotar as escolas dos recursos necessários para responder à diversidade de necessidades; e a falta de apoios adequados aos alunos dos cursos profissionais, comprometendo o potencial de uma via essencial para a qualificação. Para reverter esta quebra e retomar a trajetória de sucesso, o foco da política educativa deve ser a estabilização urgente do corpo docente e o reforço da sustentabilidade das vias profissionalizantes, garantindo que os ganhos da última década não sejam perdidos por inação face a estas fragilidades crónicas.

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É impressionante como os professores entendem aquilo que explicam…

Escrever sobre o amor é sempre arriscado, porque, como diria Clóvis de Barros, rindo daquela gargalhada filosófica que ilumina as próprias palavras, o amor é uma coisa muito séria para ser levada demasiado a sério. E, como diria outro alguém que conheço, com aquele olhar de quem enrola ironia e ternura na mesma frase, o amor dos professores pelos alunos é tão real, que chega a doer quando se tenta explicá-lo. Mas avancemos, porque três senhores antigos decidiram meter-se nesta conversa: Platão, Aristóteles e Cristo.

Platão acreditava no amor como uma escada, que começa no particular e sobe até ao universal. Para ele, amar é elevar. O professor platónico olha para o aluno e não vê apenas a pessoa que ali está, vê o que ela pode vir a ser. É uma espécie de arquitecto do invisível, que tenta convencer o estudante de que aprender é transformar o mundo de dentro para fora. Só que, na sala de aula real, o aluno está mais interessado no telemóvel do que na Ideia do Belo. É aqui que entra o humor. Um professor platónico, fluente em Clóvis de Barros, diria ao aluno que a Ideia do Belo é tudo aquilo que não está no TikTok. E o aluno ri, e ouve durante um segundo. É nesse segundo que o professor consegue ensinar.

Aristóteles, porém, era mais pé-no-chão. O amor é amizade baseada na virtude, dizia ele. Para o professor aristotélico, amar o aluno é fazê-lo crescer na justa medida, nem mais nem menos. O professor torna-se um jardineiro, que não rega em excesso nem rega de menos. Aprende a olhar para cada aluno como quem lê um mapa meteorológico emocional e intelectual. Aristóteles diria que ensinar é formar bons hábitos, e, por isso, o professor precisa de coerência, clareza e, sobretudo, paciência. Muita paciência. Uma paciência tão grande, que até Clóvis de Barros faria uma piada, dizendo que filósofo, que é filósofo, só se irrita depois de argumentar consigo mesmo.

Depois chega Cristo, com aquele tipo de amor que desinstala. Cristo diria que amar é dar-se. Amar os alunos significa acreditar neles, mesmo quando eles não acreditam em si. Significa olhar para o que falha e ver uma possibilidade. Significa não desistir. E isto não tem nada de romântico. Amar assim dói, cansa e exige sacrifício. Mas também é o único tipo de amor que transforma de verdade. O professor cristão, no sentido filosófico e não confessional, olha para cada aluno como alguém digno de respeito e de possibilidade infinita.

O que é, então, que estes três filósofos têm a ensinar aos professores que querem que os alunos amem aprender?

Primeiro, Platão sugere que o professor precisa de inspirar. Não basta ensinar a matéria: é preciso mostrar que aprender é bonito. O professor tem de ser farol, e não lanterna.

Aristóteles acrescenta que é preciso método. Bons hábitos, boas explicações, boas práticas repetidas. O amor ao saber nasce, também, da ordem.

Por fim, Cristo lembra que nenhum método sobrevive sem humanidade. Ensinar é um acto de encontro. E, em cada encontro, há risco e há graça.

Para que os alunos amem aprender, o professor precisa de unir estes três amores: amor que inspira, amor que estrutura e amor que acolhe. Se conseguir isto, mesmo com falhas, tropeços e ironias pelo caminho, o ensino torna-se bom. E, quando o ensino é bom, o aluno aprende; e, quando o aluno aprende, o professor finalmente entende aquilo que sempre soube, mas nunca tinha conseguido explicar.

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O País das Bolhas e a Extinção do Bom Senso

Há quem ainda acredite que as redes sociais vieram aproximar pessoas. A crença é enternecedora, quase tão enternecedora como imaginar que uma caminhada de quinze minutos resolve os estragos de um almoço inteiro de fast food. A realidade que preferimos ignorar é que estas plataformas não fortaleceram os laços sociais e eliminaram muito do que nos fazia comunidade. Roubaram-nos a convivência, a aprendizagem partilhada, o confronto saudável de ideias e a construção lenta e paciente do viver em conjunto.

Troca-se a rua pela timeline, o café pelo feed e a conversa pela notificação. Onde existiam relações, há agora perfis. Onde se debatiam ideias, escrevem-se comentários que parecem mais munições do que argumentos. Onde havia gente de carne e osso, há avatares inflamáveis que se movem como se estivessem acima de qualquer limite. Na crença confortável de que o anonimato nos absolve, agimos como se tudo fosse permitido.

A convivência real, aquela em que aprendíamos uns com os outros, foi dissolvida como se fosse incompatível com o mundo digital. A aprendizagem entre vizinhos, entre amigos, entre gerações, deu lugar a especialistas improvisados que surgem depois de meia dúzia de vídeos e de uma thread mal articulada. A humildade intelectual desapareceu e cedeu espaço ao imediatismo opinativo que dispensa reflexão.

O crescimento pessoal enquanto seres humanos sociáveis ficou reduzido a quase nada. Tornámo-nos uma espécie orgulhosamente solitária, cada um fechado na sua própria bolha digital onde a certeza absoluta reina com autoridade. A comunidade deixou de ser referência e elevou-se o indivíduo isolado, sempre à procura de validação através de um gesto tão vazio como um like.

Chamamos a isto interação. Chamamos também amizade a coleções de desconhecidos que nunca ouviram a nossa voz e debate a trocas de insultos temperadas com dramatismo e emoticons. A sociologia que nos ajudava a compreender a vida em grupo foi empurrada para um canto enquanto as bolhas digitais nos oferecem o conforto enganador de um mundo onde todos pensam como nós.

Perdemos a essência do viver comum e, ainda por cima, acreditamos que ganhámos alguma coisa em troca. Confundimos opinião com pensamento, reação com reflexão e publicação com experiência de vida. As redes sociais não ampliaram o nosso mundo, limitaram-no ao reflexo de nós próprios. E, como sempre, ficamos encantados com o espelho.

O que as redes sociais realmente nos tiraram não foi apenas tempo, atenção ou serenidade. Tiraram-nos a capacidade de existir como sociedade. Enquanto continuarmos convencidos de que um ecrã substitui um rosto, caminharemos juntos rumo a uma solidão partilhada, a mais irónica herança da tecnologia que prometeu unir-nos.

No final, resta-nos a possibilidade de colocar um filtro por cima de tudo, como se isso pudesse disfarçar o vazio onde antes existia vida em comum.

Para as crianças na Austrália, as redes sociais vão ser proibidas, não seria de começar por seguir o exemplo para criarmos uma sociedade mais próxima e saudável?

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Adesão à Greve Geral? Sim, sem qualquer dúvida!

As Greves são uma chatice, pois são, todos o sabemos… E todos já fomos afectados por muitas Greves, nos mais variados sectores…

Uma Greve é uma forma de protesto que geralmente só é accionada quando se esgotam outras acções reivindicativas, porventura mais “benignas”, mas que não obtiveram os efeitos esperados… Ninguém, certamente, fará Greve por mero prazer…

Quando se trata da convocatória para uma Greve Geral, como a do próximo dia 11 de Dezembro, subscrita pelas duas maiores confederações sindicais do país, UGT e CGTP, então é porque a coisa ficou séria…

E qual é o problema grave, impossível de ser ignorado, que levou à união sindical e à convocatória de uma Greve Geral?

A resposta à pergunta anterior é, com certeza, conhecida de todos:

– As alterações ao Código do Trabalho, propostas pelo actual Governo.

Os Sindicatos são muitas vezes acusados de terem a sua acçãoreivindicativa condicionada por determinadas agendas e fretes partidários, ou seja, nem sempre se têm mostrado capazes de evidenciar o exigível distanciamento partidário…

Essa incapacidade tem, de resto, contribuído para uma certa descredibilização das próprias estruturas sindicais, muitas vezes criticadas pela ausência de independência partidária, o que tem vindo a minar a confiança nessas instituições

Contudo, no caso presente, saúda-se a convergência alcançada entre a UGT e a CGTP, uma vez que a proposta de alterações ao Código do Trabalho, concebida pelo actual Governo, se constitui, de facto, e em toda a linha, como um verdadeiro atropelo àqueles que trabalham por conta de outrem, tanto no sector público como no privado

Face a tal proposta, justifica-se plenamente a convocação desta Greve Geral.

Se as intenções do Governo não forem contrariadas, teremos um conjunto de medidas que, em nome da flexibilização da legislação laboral, acabarão por: aumentar a precariedade;atentar contra o exercício da parentalidade, conjugado com o trabalho assalariado; e abolir os efeitos de qualquer grevefutura, entre outros…

A propósito desta Greve, há uns dias, o 1º Ministro, Luís Montenegro, veio a público perorar que, a bem da economia do país, esperava dos trabalhadores uma flexibilidade muito maior, o que traduzido de forma sarcástica será mais ou menos isto:

– Espera-se que os trabalhadores não barafustem e que agradeçam por ser despedidos, mostrando, assim, uma imensurável flexibilidade, compreensão e aceitação das medidas propostas pelo Governo…

Por outro lado, afirmar, em simultâneo, que somos muito democratas e que reconhecemos o direito à Greve, mas não aceitar os seus possíveis efeitos, é como considerar, por exemplo, que os Médicos têm direito à Greve, mas que, e ainda assim, se espera que assegurem a realização de todas as consultas, ou outros actos médicos, agendados para o dia em que adiram a determinada paralisação… Ou seja, trata-se de um incontornável absurdo, pleno de contradições e incoerências…

Se a actual proposta do Governo for aprovada na Assembleia da República, a pretendida “regulação do direito à Greve” acabará por significar a imposição de serviços mínimos a torto e a direito, em praticamente todos os sectores…

Na verdade, o que se pretende será o esvaziamento dos efeitos de qualquer Greve, o que, na prática, corresponderá a aboli-la…

Estaremos dispostos a aceitar o anterior?

Claro que para muitos, a Greve ideal seria aquela que não causaria qualquer constrangimento ou perturbação no país…

Mas, nem aqui, nem noutro qualquer lugar do mundo, é possível assumir lutas ou protestos concretos e consequentes sem que existam potenciais “prejudicados” ou “lesados”… E é assim em todas as lutas, independentemente da sua natureza: existirão, inevitavelmente, alguns “danos colaterais”… Mas se não existissem consequências visíveis, que sentido faria decretar uma Greve?

Parece que as políticas liberais/neoliberais estão a tomar conta do actual Governo, o que pouco ou nada terá a ver com a ideologia Social-Democrata, historicamente alicerçada no Socialismo Democrático, inequivocamente de Centro-Esquerda

Este Governo está a tornar-se numa monumental decepção, que levará, certamente, muitas pessoas a aderir à Greve Geral do próximo dia 11 de Dezembro.

Sem qualquer reserva, eu serei uma dessas pessoas.

Acreditar, em certo momento, num Partido Político, pretensamente fundado na SocialDemocracia, que acabou por constituir Governo, não é o mesmo que, a posteriori,aceitar a implementação de políticas liberais ou neoliberaispor esse mesmo Partido

Onde está a coerência entre o teor das propostas agora apresentadas pelo Governo, relativas a alterações (significativas) no Código do Trabalho, a ideologia Social-Democrata e o próprio Programa Eleitoral Aliança Democrática 2025?

Adesão à Greve Geral? Sim, sem qualquer dúvida!

Para aqueles que procuram justificar a sua censura à paralisação agendada para o próximo dia 11 de Dezembro, rotulando-a comouma Greve de Comunistas” ou de “perigosos Esquerdistas”, direi apenas isto:

Quem não luta pelo futuro que quer, tem que aceitar o futuro que vier.

(Roubado da Internet, de autor desconhecido).

Depois não se queixem, é aguentar e cara alegre…

Paula Dias 

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Em relação à Greve Geral de dia 11

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Professores recebem horas extra com retroativos desde 2018

Ministério instruiu escolas a corrigir forma de cálculo. Professor a meio da carreira que faça duas horas extraordinárias por semana recebe mais 915,48 euros este ano, segundo cálculos do CM.

Professores recebem horas extra com retroativos desde 2018

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O Admirável Mundo Novo dos Concursos de Professores, Agora em Modo Municipal

Há ideias que parecem ter sido concebidas numa tarde particularmente longa de reunião, quando já ninguém distingue um decreto de uma receita de bacalhau. A mais recente maravilha política, que andam a espalhar, é a possibilidade de entregar às autarquias a contratação de professores, tudo isto num país que ainda tenta perceber o que significa realmente o Decreto-Lei 32-A, essa novela jurídica que prometia justiça nos concursos, mas que acaba por produzir um aroma ligeiramente agridoce de desigualdade.

Imaginar câmaras municipais a gerir concursos de professores é quase tão reconfortante como pedir a um gato para tomar conta de um aquário. Tecnicamente possível, sim, mas o desfecho faz qualquer pessoa, com dois neurónios ativos, suar. O problema é que os concursos docentes, já de si um ritual burocrático de desespero, cairiam num caos tão denso que nem com GPS se encontraria a saída.

O Decreto-Lei 32-A foi pensado para trazer transparência e equidade, mas, agora, querer-se-ia acrescentar um novo elemento, a criatividade municipal, que é como despejar gasolina sobre uma fogueira e dizer, com ar muito sério, que tudo vai correr bem. Basta olhar para o histórico, porque em Portugal os concursos são tão sensíveis como a porcelana chinesa, mas colocados nas mãos das autarquias, correm o risco de se transformar num jogo de cadeiras para adultos desesperados.

Comecemos pelas desigualdades regionais, que já existem e agradecem qualquer oportunidade para crescer com entusiasmo. Um município oferece melhores condições, outro município oferece uma planta em cima da secretária. Resultado, migrações internas forçadas.

Depois temos o festival da influência local. Em teoria, tudo seria rigoroso, transparente, algorítmico. Na prática, haveria sempre o primo do cunhado do vereador que gostaria de dar aulas de História, mesmo que a última vez em que abriu um livro tenha sido pouco antes de nascer.

E claro, a instabilidade anual permaneceria firme e hirta, porque se há coisa que este país venera é a capacidade de manter um professor a saltar de escola em escola como se estivesse numa gincana. Agora, com concursos municipais, teríamos professores que não mudariam só de escola, mudariam de concelho, de freguesia, de presidente de câmara e de prioridades políticas conforme a cor partidária que estivesse mais bem humorada naquele mandato.

Mas o verdadeiro apogeu deste plano residia numa ironia deliciosa. Passar a contratação para as autarquias seria vendido como uma medida de proximidade, eficácia e modernização. O que não se diria é que abriria a porta a um labirinto burocrático com 308 entradas e zero saídas, onde cada município teria o seu mini decreto, a sua interpretação criativa das regras, o seu método original de avaliar mérito… E tudo isto com a serenidade habitual de quem nunca teve de preencher uma plataforma concursal em Portugal.

No fim de contas, entregar às câmaras a contratação de professores seria a versão educativa do velho ditado português, em equipa que já está complicada, mexe-se mais um bocadinho para ver se piora. Mas haverá sempre quem garanta que é um avanço extraordinário, uma revolução sensata, uma modernização inadiável. A verdade, porém, é cristalina, o que hoje é confuso tornar-se-ia incompreensível, o que hoje causa ansiedade, tornar-se-ia pânico e o que hoje é mau, tornar-se-ia verdadeiramente pior.

E o pior de tudo é que, no fim, os professores lá estariam, resilientes, cansados, armados de paciência e ironia, a tentar ensinar crianças com o mesmo empenho de sempre. Porque se há classe que aguenta tudo, até ideias destas, é a classe docente. O país sabe disso, e talvez por isso continue a testar os seus limites com uma paixão quase poética.

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2.027 professores sem habilitação denunciados ao Tribunal de Contas

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A inversão do ónus da prova transforma o professor em réu – Alberto Veronesi

 

Vivemos tempos estranhos. O professor entrou na sala de aula e tornou-se suspeito até prova em contrário. Basta uma queixa, muitas vezes anónima, e lá vai ele ter de se explicar, de se defender, de provar que não fez o que o acusam de ter feito. A lógica virou do avesso. Já não é quem acusa que tem de fundamentar a acusação, é o acusado que tem de demonstrar a sua inocência. E isto, convenhamos, é uma brutalidade jurídica.

A inversão do ónus da prova transforma o professor em réu

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NOTA INFORMATIVA Nº 12 / IGeFE / 2025 – Prestação de serviço docente extraordinário

 

NOTA INFORMATIVA Nº 12 / IGeFE / 2025 – Prestação de serviço docente extraordinário

 

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Espero que todos os professores sejam um exemplo de educação e expliquem – Raquel Varela

Espero que todos os professores sejam um exemplo de educação e expliquem, em qualquer grau de ensino, o que são direitos sociais, civis e políticos, e porque está a ser convocada uma greve geral. Isso chama-se cidadania, a conquista de ser cidadão pleno. Claro, podem não fazê-lo em nome da “isenção”, abdicar da sua liberdade de cátedra – prevista em todos os graus de ensino – e continuar a ensinar o programa do Governo para a cidadania que inclui “literacia financeira” (como ser culpado por não conseguir viver com o salário mínimo) ou “empreendedorismo” (porque é que cada um é culpado pelo próprio desemprego). Assim, em vez de um programa que explica e responde às questões sociais de milhões de portugueses, à realidade objectiva, darão o programa escolar do Governo, “isento”, da IL, AD, Chega e claro PS. A escola é um lugar de conhecimento objectivo, mas não de neutralidade ética.

Quando se alega a isenção – que a extrema direita adora – acaba-se a dar o programa que a extrema direita adora. Tenho um familiar a estudar na Universidade de Barcelona, recebeu emails de vários professores a explicar um dia que não ia haver aulas porque eles tinham aderido à greve pela Palestina. Este é o momento de explicar que a greve foi colocada sob a alçada do código penal em 1849 mas que, sempre ilegal, até ao século XX, nunca deixaram de existir greves e cada vez mais. Talvez porque não tenha deixado de existir exploração. E ambos – repressão legislativa de Estado e exploração – são conceitos científicos. Ao contrário de literacia financeira e empreendedorismo, que são comunicação para justificar a desigualdade social, e a luta de uma classe, a da burguesia. Este lutam com a sua classe, explicando que não há já luta de classes, proibindo imigrantes de fazerem greve (são ilegais) e ilegalizam de facto a greve (no pacote laboral), e não chamam a isto a sua luta de classe burguesa, chamam “modernização”. Aí está outra aula de cidadania – na verdade disciplina que não devia existir, deve ser dado em história e filosofia – o que é a modernidade, com o seu séquito de crises, guerras e revoluções.

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434 bibliotecas até parece muito, mas são migalhas para pombos

O Ministro da Educação anunciou com pompa e circunstância a criação de mais 434 bibliotecas escolares até 2026 e o país inteiro parece ter decidido bater palmas como se tivesse acabado de testemunhar uma revolução educativa. A verdade é bem menos épica. Em Portugal existem cerca de 4 700 escolas do 1.º ciclo, espalhadas pelos 308 concelhos do país, e perante estes números as tais 434 bibliotecas são pouco mais do que um aperitivo mal servido.

O anúncio promete beneficiar 50 mil alunos. Parece impressionante até nos lembrarmos de que estamos a falar de um universo muito maior de crianças que continuam em escolas onde a biblioteca é um conceito distante, quase mítico. Se estas 434 novas bibliotecas fossem um passo decisivo, eu seria o primeiro a celebrar, mas quando fazem cócegas à superfície do problema não consigo evitar soltar uma gargalhada amarga.

O mais curioso é ver a velocidade com que toda a gente se apressa a elogiar o feito. Dá a sensação de que basta acenar com umas prateleiras novas e uns livros plastificados para que o país entre em modo festa. A estratégia é velha: dar pouco, apresentar como muito e esperar que o público aplauda obedientemente. E, pelos vistos, funciona. Os portugueses continuam a agradecer migalhas com entusiasmo, tal como os pombos que correm atrás de quem lhes atira meia dúzia de grãos de milho.

Claro que 434 bibliotecas são melhores do que zero. Ninguém discute isso. O problema é quando transformamos um gesto mínimo numa epopeia nacional. Quando olhamos para a realidade, percebemos que isto não é um grande investimento nem uma mudança estrutural. É apenas mais um anúncio reluzente para encher manchetes e distrair-nos do facto de que milhares de escolas continuam sem os recursos essenciais para promover hábitos de leitura dignos.

Em suma, celebramos como se nos tivessem oferecido um banquete quando, na verdade, mal nos deram um prato de amostras. E o mais triste é que ainda agradecemos.

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Educação em estado terminal. Sintomas de uma biosfera pedagógica em colapso – José Afirmou Baptista

O planeta geme. As veias secam. Secam rios, glaciares, aquíferos. Mas num ápice viram a agulha e transbordam, num desequilíbrio que já não é episódico, mas sistémico. As florestas ardem, os polos desfazem-se em lágrimas geladas, as espécies migram ou desaparecem. O clima enlouqueceu, está tonto. E com ele, tudo o que dependia da estabilidade para florescer. A Terra, que durante milénios foi berço e abrigo, tornou-se um campo de sobrevivência. O seu colapso não é apenas físico, é simbólico, ético, civilizacional. E como todo o organismo em crise, os sintomas espalham-se para os seus sistemas vitais. A educação não escapa. Com ela se evapora e extingue esse órgão sensível que é a cultura. Outrora clareira de abrigo no meio da selva social, a escola tornou-se um terreno instável, onde se multiplicam os sinais de colapso, de doença. O chão já não é firme. As raízes da vocação apodrecem em silêncio, sufocadas por camadas de burocracia e desilusão. O degelo começou há décadas. Primeiro, derreteram-se os vínculos entre gerações, e desapareceram os mestres que transmitiam saberes com a maior delicadeza. Depois, vieram as políticas de contenção, os cortes, os silêncios. A memória pedagógica escorreu pelos corredores como água sem destino, deixando apenas placas de gelo fino onde antes havia chão fértil. Incêndios emocionais devastam os corpos docentes. O burnout alastra como fogo em pinhal seco, alimentado por calendários insensatos e exigências que não reconhecem o humano. Há professores que ardem por dentro, sem que ninguém repare, porque o fumo da exaustão é invisível nos relatórios da burocracia. As enxurradas levam os mais jovens, os mais criativos, os mais inquietos. Fuga em massa. A escola já não os segura. A cada ano, mais uma leva de talentos é arrastada para longe, como se a vocação fosse incompatível com a sobrevivência. Formamo-los para os ver partir. Ficam os resistentes, os que aprenderam a respirar em ambientes tóxicos saturados. A temperatura nas salas sobe. Não por falta de ar condicionado, mas pela tensão acumulada. Relações tóxicas, hierarquias opacas, falta de escuta. O clima pedagógico tornou-se irrespirável. Já não há primavera nas reuniões, nem verão nas aprendizagens. Só um inverno prolongado, onde cada aula é uma travessia na escuridão. E há os deslocados. Os professores nómadas, que percorrem quilómetros entre escolas, como aves migratórias sem estação. Não criam laços, não deixam sementes. São corpos em trânsito, vozes que ecoam no tempo frio e desaparecem no calor do verão. A escola sem rosto, sem alma, sem continuidade. A sociedade e a cidade espalham a desordem e a confusão onde devia haver harmonia. O ódio e o crime vêm ao almoço e ao jantar, como atrações entre a publicidade das televisões. Os clubes e os partidos são os mestres do ódio. Juntamente com as guerras. Tudo com vastos painéis de especialistas que não deixam espaço para o diálogo em família. A biosfera educativa está em colapso. E como em qualquer ecossistema sem equilíbrio, quem mais sofre são os mais frágeis: os alunos. Sentem o cheiro do incêndio, o frio do degelo, o susto da enxurrada. Mas não sabem nomear. Ninguém lhes dá ouvidos

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04-12-2025 | diário as beiras

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Professores do 1 Ciclo vão poder usufruir de formação em Didática da Leitura e Escrita

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Ministro da Educação anuncia mais 434 bibliotecas escolares

É de informar que isto já está em andamento nas escolas.

 

Fernando Alexandre garante que até final de 2026 haverá 50 mil alunos de 1.º ciclo que terão biblioteca nas escolas, num investimento de mais de 3 milhões de euros

Ministro da Educação anuncia mais 434 bibliotecas escolares

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A paixão pelas Bibliotecas

O Ministério da Educação, Ciência e Inovação apresenta hoje um conjunto de medidas para o reforço da Leitura no 1.º Ciclo do Ensino Básico, designadamente:
 Expandir a Rede de Bibliotecas Escolares (RBE) no 1.º Ciclo;
 Implementar o Programa de Ensino, Didática e Aprendizagem da Leitura;
 Aplicar novamente o Diagnóstico de Fluência Leitora no 2.º ano em 2025/2026 em todas as escolas;
 Fornecer a escolas e professores materiais adicionais para o Diagnóstico de Fluência Leitora.
A Leitura é a base de uma boa aprendizagem e é determinante para o sucesso escolar dos alunos, sendo ainda fundamental para a construção de competências e para estimular o pensamento crítico e a curiosidade.

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Concurso Externo Extraordinário 2025/2026 – Aperfeiçoamento da Candidatura

 

Aplicação eletrónica disponível entre o dia 3 de dezembro e as 23:59 horas do dia 5 de dezembro de 2025 (hora de Portugal continental) para efetuar o Aperfeiçoamento da candidatura ao Concurso Externo Extraordinário 2025/2026, destinado a Educadores de Infância e a Professores dos Ensinos Básico e Secundário.

FAQ – Aperfeiçoamento da Candidatura ao Concurso Externo Extraordinário 2025/2026

SIGRHE – Aperfeiçoamento da Candidatura ao Concurso Externo Extraordinário 2025/2026

 

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Informações-Prova 2025/2026

 

Informação-Prova Geral  – atualizada a 2 de dezembro

 

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“Portugal é dos países onde os professores mais se queixam da indisciplina”, concluiu a OCDE há uma década e repetiu-o este ano em que a idade da reforma volta a aumentar

 

Por Paulo Prudêncio

“Portugal é dos países onde os professores mais se queixam da indisciplina”, concluiu a OCDE há uma década e repetiu-o este ano em que a idade da reforma volta a aumentar

“A indisciplina reina nas salas de aula e coloca Portugal no primeiro lugar do tempo perdido para começar uma aula. Os seus professores são, na Europa, os mais desgastados e os que mais preenchem burocracia inútil. São vítimas de uma organização de trabalho que os adoece, mas são os melhores a adaptar as aulas às necessidades dos alunos.” Estas conclusões têm cerca de uma década.

Ora, a mesma OCDE conclui em 2025 (“reportado por 62,1% dos professores, sendo muito mais alto, 73,6%, entre quem tem 5 ou menos anos de experiência”): “barulho e interrupções: Portugal é dos países onde os professores mais se queixam da indisciplina. A sua maior fonte de stress é o trabalho administrativo. Em nenhum país a taxa é tão alta.”

E o que mais impressiona nestes 10 anos de intervalo, é o silêncio do MECI e o desprezo do mundo político. Quando muito, a direita, que inclui a extremada, finge que acompanha os protestos dos professores quando a esquerda governa e vice-versa. Logo que se passa para governo ou para suporte parlamentar, assume-se a condição de amnésico. Além disso, um manto de mutismo caracteriza as campanhas eleitorais.

Aliás, ser professor tornou-se, há muito, uma gestão do desgaste, da mágoa, da revolta contida e da possibilidade da baixa médica. Acima de tudo, uma sociedade adoeceu quando mais de metade dos professores relata “agressões físicas ou verbais por parte dos alunos”. Apesar de, e como já escrevi, ser injusto generalizar até pela dificuldade dos estudos empíricos: “cada aluno não é um potencial agressor, nem cada professor um provável agredido.”

E o pior é o vigente cruzar de braços. Mas há soluções e sumarie-se duas ou três.

Mude-se radicalmente (e este radical é no mais sensato registo) o trágico, e populista, “estatuto” que fez do encarregado de educação um “cliente que tem sempre razão” na escola, com a habitual alegação indisciplinadora que os miúdos, as crianças-rei, percebem desde cedo: – Se a professora não se portou bem, diz que eu vou à escola.

Este clima é uma das consequências da burocracia, da autocracia desastrosa nos mega-agrupamentos, da avaliação dos professores e do que converteu em “castigo” as horas de redução por idade e tempo de serviço dos seus horários – é até degradante quando a “pena” cai nas mãos de pequenos tiranetes.

Na verdade, recorde-se que a maioria dos professores viu a idade da reforma passar dos 52 (pré-escolar e primeiro ciclo) ou 57 anos de idade (restantes ciclos), para os recentes 66 anos e 11 meses. E como nunca se criaram equipas educativas para leccionar o primeiro ciclo – o professor da turma finge que lecciona todo o currículo e não tem redução de horário com a idade -, infernizou-se os horários dos restantes ciclos – nivelando por baixo e estimulando a divisão da classe – com inutilidades destinadas aos excessos e aos dogmas na avaliação dos alunos, na interdisciplinaridade e nas articulações horizontal e vertical. Como tudo isto se tornou monstruoso sem sistemas de informação modernos e com avaliações externas inspiradas em meados do século XX, a redução transformou-se num “castigo” e num dos principais contributos para o desgaste que dificulta a liderança em ambientes de indisciplina e para a “fuga” ao exercício.

E, claro: se temos anos a fio de ciberbullying e dos algoritmos do ódio (as crianças crescem, desinformam-se e indisciplinam-se num país deslaçado, agressivo e violento), também temos uma maioria política desinteressada em limitar o acesso a redes sociais com o argumento surreal da censura às crianças e jovens. Aliás, veja-se a indiferença da sociedade com a crescente doença silenciosa dos quadros de mérito académico ou de valor até em crianças do primeiro ciclo e pré-adolescentes (no desporto, já se fazem Campeonatos do Mundo para miúdos de 10 a 12 anos de idade). Para além da tensão relacional entre os miúdos após as primeiras publicações e da violação dos direitos fundamentais, a OMS já inclui o bournout precoce na prevenção da saúde pública (e, no mínimo, reflicta-se com Roy Baumeister ou Michael Sandel). E apesar desta pandemia ainda se sustentar na ditadura portuguesa, a obra fundamental “Nenhuma medalha vale a saúde de uma criança”, de Jacques Personne, descreve a tragédia na União Soviética e na RDA. Os quadros e medalhas, equiparados à exploração do trabalho infantil, destinavam-se à arrepiante promoção de dirigentes, médicos, treinadores, professores e políticos, e, tantas vezes, à “sobrevivência” dos progenitores (e também ao ego).

De facto, e em síntese, a prevalecente imaturidade pedagógica, que estimula a indisciplina nas salas de aula, espelha-se em gritantes irresponsabilidades da seguinte família: publicitar informação crítica, e detalhada, sobre as formas de ciberbullying no mesmo espaço escolar onde se divulga quadros de mérito.

Nota: por falar em silêncio e mutismo, registe-se o apagão mediático quase generalizado da seguinte notícia do Público de 24 de Novembro de 2025: “Tolentino de Mendonça partilha Prémio Eduardo Lourenço com a “classe dos professores em crise”. O cardeal e poeta falou da “precariedade nas condições de trabalho”, da “complexidade sempre maior dos requisitos burocráticos” e de “uma espécie de solidão social” que afectam tantos professores. Diz-se hoje que são uma classe em crise e que perdeu o prestígio social que lhe estava associada. São preocupantes, em muitas partes do mundo, os indicadores do desgaste, desmotivação e burnout entre os professores.(…)”Numa época de acelerada transformação, como a que vivemos, onde se inauguram tantas possibilidades, mas também tantas incógnitas, como o impacto da inteligência artificial, a omnipresença da tecnologia, a crescente incerteza e vulnerabilidade entre os jovens, precisamos de potenciar o papel dos professores como indispensáveis mediadores culturais e humanos.(…)O professor “não é uma profissão do passado, é uma missão indispensável ao futuro”, porque é necessária a existência de “mestres e educadores, não só para encontrar respostas, mas para formular perguntas”.”

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A idade das Educadoras de Infância não conta para nada

As educadoras de infância deste país avançam para os 66 anos a trabalhar como quem sobe uma colina íngreme carregando às costas vinte e cinco pequenas forças da natureza entre os três e os cinco anos. A cada manhã entram na sala como heroínas silenciosas, mas o corpo já não acompanha a coragem e a cabeça já não caminha à velocidade de um tablet de última geração. Espera-se delas um vigor atlético que nem atletas profissionais mantêm aos cinquenta, quanto mais na casa dos sessenta, e ainda se exige que sorriam com graça enquanto equilibram choros, birras, recortes, plasticinas, reuniões, relatórios, legislação mutante e plataformas digitais que mudam mais depressa do que os cabelos ficam brancos. Diz-se que envelhecer é um privilégio, mas tentar acompanhar vinte e cinco mini-furacões quando o corpo protesta em todas as articulações ultrapassa o privilégio e entra diretamente na categoria de teste de resistência absurda.

É curioso como o sistema educativo finge não ver o óbvio: a partir de certa idade, por mais boa vontade que haja, a reciclagem tecnológica torna-se uma gincana digna de reality show. As novas metodologias chegam embrulhadas em jargões pedagógicos que parecem ter sido escritos por um algoritmo histérico, e muitos esperam que estas profissionais as dominem com a naturalidade com que uma criança domina um ecrã táctil. Mas a verdade é que há um limite biológico, emocional e cognitivo que não desaparece com formações obrigatórias ou com manuais de inovação. Fingir o contrário é apenas uma maneira elegante de não admitir que estamos a pedir o impossível.

Permitir que estas educadoras se reformem mais cedo não seria um luxo nem um capricho, mas um ato elementar de lucidez. Ganharíamos todos: elas recuperariam o direito a envelhecer com dignidade, o sistema deixaria de se apoiar na exaustão disfarçada de vocação e as crianças teriam quem as acompanhasse com energia genuína em vez de esforço hercúleo. Mas continuamos a tratar o desgaste como se fosse parte natural da profissão, uma espécie de taxa inevitável, como se fosse perfeitamente razoável esperar que alguém com mais de seis décadas de vida acompanhe o ritmo de vinte e cinco seres humanos cuja energia desafia as leis da física.

No fundo, empurrar estas profissionais até aos 66 é uma forma particularmente refinada de sarcasmo institucional: exige-se-lhes o impossível, finge-se que é perfeitamente normal e ainda se aplaude como se fosse prova de resiliência nacional. Talvez um dia o país perceba que manter educadoras exaustas em serviço não é poupança, é teimosia disfarçada de gestão. E até lá, elas continuam, heroicas e cansadas, a segurar com as próprias mãos um sistema que insiste em fazer de conta que não está a desmoronar.

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Luc Julia diz que não tem a certeza que queira falar com o seu frigorífico – Paulo Prudêncio

Há muito que se percebeu que a sociedade que aí vem informatizará tudo o que for para informatizar, automatizará tudo o que for para automatizar e que as aplicações digitais usadas para controle e vigilância serão usadas para controle e vigilância. É o nível 4 da transição digital. O nível 5, que será longo e incerto, inclui a inteligência artificial (IA) e a robotização (já usei estes argumentos noutros textos).

Luc Julia diz que não tem a certeza que queira falar com o seu frigorífico

E escute-se um dos criadores da Siri (“a Siri é um assistente virtual da Apple que ajuda a realizar tarefas com comandos de voz: fazer chamadas, enviar mensagens, definir lembretes, procurar informações na internet e controlar dispositivos domésticos inteligentes”. Para interagir com a Siri, pode-se, portanto, falar ou digitar os comandos. A Siri foi criada pela SRI International e adquirida pela Apple em 2010).

Um dos criadores da Siri, Luc Julia, e a exemplo de outros criadores deste universo que se afastam com mais ou menos humor, diz que não tem a certeza que queira falar com o seu frigorífico e afastou-se. Além disso, os dissidentes são muito críticos dos algoritmos que varrem instantaneamente toda a internet e produzem (IA-Generativa) informação sem distinguir o que é verdadeiro ou falso. Agrava-se porque o algoritmo privilegia, na exibição aos utilizadores de todas as idades, os conteúdos que geram ódio e irritação, e que viciam, e que têm privilegiado os políticos que banalizam o mal, as mentiras constantes e a violência.

No universo escolar, também é muito questionável que se queira falar com um robô como se fosse um professor que ensina e ajuda a formar a personalidade (as redes sociais, tão caras à demagogia estridente, já o estão a fazer, até com as crianças e pre-adolescentes, há quase uma década, mas o intelectualismo vintage estava tão inebriado com as tecnologia que nada via).

 

 

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A “excelência” não é coerência…..

 

Uma das coisas mais divertidas nas contradições ideológicas das escolas é ver os que defendem que os alunos “excelentes” devem ter as notas exibidas ao mundo”para seu bem” (e elas não são obtidas com comparação), em quadros de emulação, que, ao mesmo tempo, acham que as notas dos “excelentes professores” devem ser altamente secretas….

E, nem com a Comissão Nacional de Proteção de Dados, a dizer que as devem entregar aos outros avaliados, o fazem…..

E dizem e teimam, contra a lei e pareceres feitos por Juízes Conselheiros do Supremo Trinunal Administrativo, que não devem ser publicadas, divulgadas, ou sequer comunicadas, aos que são puxados para baixo por esses “ilustres profissionais” terem excelente ou muito bom.

Os argumentos peregrinos para exibir quadros de mérito dos alunos não justificariam fazer quadros de mérito dos “celentes” docentes do percentil?

Eu gostava de saber quem são os excelentes professores da minha escola e, por exemplo, se, entre eles estão os que apoiaram o plágio do diretor anterior, em apatia na participação nos órgãos.

Como alguém pode ter 10 na sua avaliação (ou excelente), que implica nota alta no item participação, a atuar anos com comportamentos que levaram à dissolução dos órgãos em que (não) agiu?

A nota dos alunos não é privada (mas só a eles diz respeito porque não afeta outros), mas a dos professores, que lha atribuem (que afeta a de outros por comparação em quotas com efeitos na carreira e salário), é secreta.

Não é, mas as escolas incumprem a lei.

O desvalor de menores de idade é público, o de adultos responsáveis é secreto e impenetrável, até para reclamar ou recorrer na defesa de direitos.

E nem se comunica a quem tem prejuízo com ela…..

Os quadros de mérito supostamente são coisa boa, mas para os professores, que defendem tal coisa, o “mérito” é segredo….

Portugal medíocre no seu melhor…..

Há excelências que pensam tão mal….

Luís Sottomaior Braga

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Estamos a criar monstros, em vez de seres humanos?

É praticamente impossível não se ficar atordoado com notícias como as que vieram a público nos últimos dias, dando conta de certos actos bárbaros, ilustrativos da bestialidade humana,completamente desprovida de empatia pelo outro:

Onze elementos dos Bombeiros Voluntários do Fundão estão acusados de várias agressões, entre as quais, violação sexualcolectiva e coacção sexual. Essas agressões, gravadas porcâmaras de vigilância e pelos próprios agressores, terão sido perpetradas contra um jovem de dezanove anos de idade da mesma corporação. Alegadamente, um dos agressores desempenhava inclusive o cargo de “Chefe” na citada instituição;

Dez militares da GNR e um agente da PSP estão acusados de exploração/escravização de imigrantes. Segundo um relatório publicado pela Polícia Judiciária em 25 de Novembro passado:

Em causa está uma organização criminosa que controlava centenas de trabalhadores estrangeiros, a maioria em situação irregular em Portugal.

Através de empresas de trabalho temporário, criadas para o efeito, aproveitava-se da vulnerabilidade dos mesmos, explorando-os, cobrando alojamentos e alimentação e mantendo-os sob coação através de ameaças, havendo mesmo vários episódios de ofensas à integridade física.

Ao longo de vários meses, a PJ realizou inúmeras diligências investigatórias que permitiram obter indícios e elementos incriminatórios, bem como traçar o quadro geral do funcionamento deste grupo violento, de estilo mafioso.”

Tanto no primeiro caso, como no segundo, dominam a maldade, a crueldade, a violência e as agressões, praticadas contra seres humanos em situação de incapacidade de defesa e/ou de fragilidade, o que torna a cobardia e o sadismo destes agressores em algo absolutamente monstruoso e repugnante.

No caso dos bombeiros do Fundão, e ao que tudo indica, a maldade e a crueldade terão sido praticadas de forma gratuita,para gáudio e divertimento dos agressores.

No caso dos militares da GNR e do agente da PSP, terão sido praticadas, sobretudo, com o objectivo de enriquecimento ilícito, à custa da escravização de seres humanos.

Em ambos os casos, os alegados agressores não são crianças ou jovens, eventualmente sem noção das consequências ou da gravidade dos actos praticados. São adultos. Adultos.

São adultos, em quem, à partida, se deveria poder confiar e com responsabilidades sociais acrescidas, uns enquanto bombeiros, os outros enquanto agentes de autoridade.

Estes dois acontecimentos, onde estão bem espelhadas a monstruosidade e a perversidade de alguns pretensos seres humanos, não pode deixar de nos preocupar, mas, tambémenvergonhar, a todos, enquanto cidadãos, enquanto agentes educativos e enquanto mães ou pais…

No sentido anterior, não podemos ignorar nem escamotear nenhuma das bárbaras agressões recentemente conhecidas, sob pena de nos tornarmos potenciais cúmplices, coniventes com manifestações de abominável violência.

Admitindo que, em ambos os casos, alguns dos alegados agressores possam ser pais, que exemplo estarão a dar aos seus próprios filhos?

Como conseguirão encarar os seus próprios filhos?

Subjugar, agredir e/ou humilhar costuma ser típico de criaturas monstruosas, más, cruéis, selvagens, que não são dignas de serem apelidadas de “humanas”.

Há que ter a coragem e a frontalidade de reconhecer a existência de tais criaturas e de defender que tudo deverá ser feito para as erradicar do mundo onde vivemos, desde logo, afastando-as, para sempre, de todas as funções públicas ou de interesse público que exerciam e punindo-as legalmente por todos os crimes praticados.

Convirá não esquecer que a credibilidade e a idoneidade das instituições onde militam os acusados também dependem do anterior.

O pior que poderá acontecer a estas vítimas é serem duplamente penalizadas:

– Penalizadas por a sua dignidade ter sido vilipendiada e penalizadas por não verem a Justiça ser aplicada…

Da dor já ninguém as poderá livrar, mas que, pelo menos, consigam ver punidos os seus brutais agressores…

Não podemos deixar que o mal triunfe, não podemos deixar que o mesmo se “normalize”. Não é possível ficar em silêncio perante tamanhas aberrações comportamentais, opostas à racionalidade e à humanidade.

Hoje as vítimas são as que se conhecem, amanhã poderemos ser nós ou algum dos nossos… O mal não acontece só aos outros…

Afinal, o “homem das cavernas” não desapareceu. Anda por aí e pode revelar-se nas mais variadas circunstâncias…

A civilização ainda não conseguiu anular a perversidade e a maldade patentes em algumas mentes ditas “humanas”…

Afinal, a natureza humana nem sempre é naturalmente boa, como defendia Rousseau:O homem nasce bom, a sociedade é que o corrompe”…

Ainda que todos os acusados possam gozar do princípio jurídico da presunção de inocência, à luz do que já se conhece, torna-se praticamente impossível acreditar que nestes dois episódiospossam existir efectivos “inocentes”…

Inocentes só mesmo as vítimas…

A “normalidade” não pode ser isto…

Estamos a criar monstros, em vez de seres humanos?

Paula Dias 

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O Desgaste Oculto e o Engano da Idade Cronológica na Reforma dos Professores

A discussão sobre o aumento da idade legal para a reforma tem ignorado um factor crucial e cientificamente comprovado a idade biológica da população que trabalha. Enquanto os critérios actuais se baseiam estritamente na esperança média de vida e na consequente idade cronológica o corpo humano está a apresentar um envelhecimento acelerado em comparação com os anos que celebramos o que torna o adiamento contínuo da reforma insustentável e injusto.

O caso dos professores serve como um exemplo paradigmático deste desfasamento. Estes profissionais estão sujeitos a um stress cognitivo e emocional elevado ao longo de décadas de serviço que se manifesta não só em problemas de saúde mental mas também num desgaste físico evidente. A idade biológica destes indivíduos muitas vezes ultrapassa significativamente a idade cronológica devido a fatores como as longas horas de trabalho a correção noturna de testes o esforço vocal constante e o ambiente de trabalho por vezes exigente. Forçar um professor a prolongar o seu tempo de serviço apenas porque a idade cronológica legal aumentou ignora a realidade da sua capacidade funcional e o esgotamento acumulado.

Estudos recentes na área da epigenética utilizando ferramentas como os relógios epigenéticos têm demonstrado que o ritmo a que as células envelhecem é altamente variável. Estes relógios que medem a metilação do ADN um marcador molecular do envelhecimento fornecem uma estimativa mais precisa da idade biológica de um indivíduo do que o simples número de aniversários. A investigação aponta para o facto de que fatores como o stress crónico a exposição ambiental e o estilo de vida aceleram este relógio biológico. O prolongamento da vida útil da população não significa necessariamente um aumento de anos saudáveis. Viver mais tempo com mais doenças e menor capacidade funcional é o que a ciência está a indicar para muitos profissionais. Por exemplo artigos científicos demonstram que altos níveis de stress ocupacional têm um impacto negativo direto nos biomarcadores de envelhecimento celular.

Defender que a idade da reforma deve ser revista tendo como referência a diminuição da idade biológica em vez do aumento da idade cronológica é uma questão de justiça social e racionalidade económica. Manter trabalhadores altamente desgastados em funções por mais tempo conduz a uma diminuição da produtividade a um aumento do absentismo e a custos significativos para o Serviço Nacional de Saúde devido ao agravamento de doenças crónicas. A lei deveria reconhecer o desgaste diferenciado de cada profissão e de cada indivíduo. A introdução de um Fator de Desgaste Biológico no cálculo da idade de acesso à reforma seria um mecanismo justo que permitiria a reforma antecipada sem penalização para aqueles cujo corpo já atingiu um nível de envelhecimento biológico que compromete a sua qualidade de vida e capacidade de trabalho. A reforma deve ser uma recompensa pelo serviço prestado e pelo desgaste inerente não um alvo móvel ditado por uma estatística cega.

Venham mais uns anos… Quem tem, hoje, 50 anos, se fizer uma simulação simples no site da CGA, descobrirá que só se poderá reformar aos 68,5 anos… por agora!

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Às vezes esqueces-te todos os dias do porquê de ser professor – João André Costa

 

Por ser Sexta-feira à tarde e à Sexta-feira à tarde a Directora pega na pastinha e vai para casa toda laroca à hora de almoço.

Diz ser o seu dia livre, o dia de ir ao mercado e, por conseguinte, a sua mera presença na escola é em si um grande e excelso favor pelo qual o povo e os súbditos devem estar eternamente agradecidos, incluindo o Luís.

O Luís ao fim do dia por sua conta e sozinho de vigia à paragem de autocarro e a razão é simples quando se quer garantir um fim-de-semana com um mínimo de paz, a começar logo pela Sexta-feira.

O contrário mais a sua ausência de plantão à paragem de autocarro não é senão o catalisador para a pancadaria geral da populaça estudantil, resultado directo da aridez vocabular quando as emoções estão à flor da pele.

E com a pancadaria e pela pancadaria a certeza de ficar para trás a trabalhar na escola até às tantas enquanto se separam alunos e contendas mais os primeiros-socorros da praxe e os telefonemas para os pais imediatamente acusatórios da falta de vigilância da escola e a culpa é do Luís.

E, portanto, lá vai o Luís feito emplastro para a paragem de autocarro, uma delas pelo menos, até porque os alunos não moram todos no mesmo lugar e essa é a ordem natural das coisas.

O pior é tentar explicar isto à Directora já em casa de pantufas e vinho branco na mão, e não literalmente na mão caso contrário era para sorver mas no copo e o copo na mão, enquanto vê as tardes da Tânia e a vida é bela.

Isto porque a porrada pode mesmo ser o verbo do dia, ou da tarde, na outra paragem distante de oitocentos metros e a obrigação do Luís é a de ser omnipresente ou então partir-se em dois enquanto corre de uma paragem para a outra com a mesma celeridade das mensagens de texto enviadas para o telemóvel da Directora.

Hoje a missão do Luís é simples: garantir a ida para casa de dois alunos desavindos em autocarros separados e já lá vem o primeiro cachopo a atravessar a estrada a caminho da paragem mais distante.

O segundo aluno ainda está na escola e tudo estaria bem caso o Luís soubesse de cor onde cada aluno mora e como o primeiro já vai a caminho, o Luís indica por telefone à Luísa na escola estar o caminho não apenas livre mas seguro.

Sete minutos depois chega o segundo cachopo e o galo do Luís ao vê-lo atravessar a mesma estrada em direção à paragem mais distante.

E o Luís no seu encalço enquanto no telemóvel chovem ameaças e condenações e a certeza de um processo disciplinar na Segunda-feira.

A culpa é do Luís e o Luís devia saber de cor cada morada, cada rua, cada porta, a cor de cada casa e se tem um cão ou um gato.

E sim, o fim-de-semana inevitavelmente perdido enquanto o Luís deita os bofes pela boca mesmo a tempo de chegar à outra paragem onde os dois rapazes não só estão juntos como se preparam para entrar no mesmo autocarro daqui por dois minutos.

A ordem no telefone é só uma e aqui vai o Luís para dentro do autocarro a caminho da Picheleira.

Mas o autocarro está à pinha e o Luís não tem onde se agarrar, a porta não fecha, o motorista tenta uma, duas, três vezes, o Luís empurra uma, duas, três caneladas e o Luís aos pulinhos de dor para fora do autocarro mesmo a tempo de ver fechar as portas e o Luís para trás a chuchar de dedo na boca.

E agora explicar isto à Directora? De paralítico do cérebro para baixo, a Directora chamou-lhe de tudo entre raios, relâmpagos e trovões, e não só os raios, relâmpagos e trovões do lado de lá do telefone mas deste lado também numa daquelas bátegas de água impossíveis, e como o Luís não trouxe o guarda-chuva a certeza é só uma e esta é, definitivamente, uma Sexta-feira memorável.

E se a vontade de chegar ao fim da semana já era pouca, ainda para mais quando se tem o emprego de pai e a catraiada toda em casa à espera, agora é zero.

A pancadaria a bordo do autocarro foi épica, rapidamente alastrando-se pelo bairro da Picheleira fora mais os bombeiros, policia e jornalistas e a tromba do Luís no Pasquim da Manhã do dia seguinte: “Professor tresloucado incita batalha campal”.

O Luís acorda de repente, ainda a suar e como de costume a suar quando o Luís se esquece de tirar as meias.

E quando o Luís se esquece de tirar as meias, a noite é como o dia e recheada de pesadelos.

O Luís pega no jornal.

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Projeto C.A.F.E. – Procedimento concursal 2026 – Listas definitivas

 

Publicação das Listas Definitivas dos candidatos admitidos, selecionados e excluídos ao Procedimento Concursal com vista à constituição de uma bolsa anual de docentes para o exercício de funções no Projeto C.A.F.E. em Timor-Leste, em 2026.

Listas Definitivas dos candidatos admitidos, selecionados e excluídos – Projeto C.A.F.E. em Timor-Leste em 2026

 

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Um cidadão forma-se em casa através do exemplo dos pais

Desde há muitos anos que se repete a ideia de que a escola é responsável por formar cidadãos, mas a verdade é bem mais simples e muito menos confortável. A educação não começa no portão da escola e muito menos termina nos horários letivos. Começa em casa, entre rotinas apressadas, conversas à mesa e atitudes que as crianças absorvem antes mesmo de perceberem o significado das palavras. São esses pequenos gestos que moldam a pessoa que irão ser muito antes de aprenderem as capitais da Europa ou o ciclo da água.

A escola esforça-se, cria projetos, promove campanhas e inventa formas de explicar civismo, empatia e respeito. No entanto, o que uma criança vê em casa supera qualquer manual ou projeto. Uma criança que cresce a observar boas atitudes acabará por entender a importância do diálogo. Uma criança que presencia gritos como método de resolução de conflitos aprende a gritar ainda antes de saber argumentar. Uma criança que vê portas a serem fechadas com violência acabará por crescer com a mesma incapacidade de lidar com frustrações. Não é magia, é repetição.

Muitos pais continuam a acreditar que basta deixarem os filhos na escola para que esta corrija o que não se faz em casa. Como se o simples facto de a frequentar fosse garantia de se tornar uma boa pessoa. A escola faz o que pode e, por vezes, tenta fazer o que não pode. Mas nenhum professor consegue desfazer em algumas horas diárias o que se constrói em anos e anos de rotinas familiares de todo o tipo.

Os adultos que hoje criticam o mundo e a vida que levam raramente percebem que grande parte dos seus comportamentos são reflexos diretos da infância que tiveram. Repetem relações falhadas, atitudes destrutivas, vícios herdados e padrões de vida que lhes estão colados à pele. Crescem à espera que o futuro seja diferente, mas continuam a percorrer os mesmos caminhos que os pais lhes mostraram e nada fazem para o alterar.

Se queremos realmente uma sociedade mais justa e humana, a mudança não começa na escola. Começa no seio familiar. É aí que se aprende a partilhar, a pedir desculpa, a ouvir, a esperar, a cuidar e a respeitar. É aí que se forma o carácter. A escola pode reforçar valores e ensinar a viver em comunidade, mas não substitui o exemplo diário dos pais. A cidadania nasce muito antes de se aprender a conjugar verbos ou a resolver equações, vem do berço.

Chegou o momento de muitos pais reconhecerem que o futuro dos filhos depende menos do que eles exigem à escola e mais do que fazem em casa. Se quiserem filhos adultos diferentes daqueles que hoje criticam, terão de começar por ser diferentes enquanto pais. Porque o verdadeiro ciclo que vale a pena quebrar é o que transforma erros antigos em heranças inevitáveis.

A sociedade constrói-se com professores dedicados, sim, mas sobretudo com famílias que assumem a sua parte do trabalho de educar os seus filhos dentro de padrões de aceitáveis pela sociedade e para a sociedade. É na soma desses dois mundos que se forma um cidadão capaz de pensar, sentir e agir com consciência e bom senso. E é essa responsabilidade partilhada que decide o tipo de pessoas que deixamos para o futuro.

 

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Reserva de Recrutamento 21 2025/2026

Publicitação das listas definitivas de Colocação, Não Colocação, Retirados e Listas de Colocação Administrativa – 21.ª Reserva de Recrutamento 2025/2026.

Aplicação da aceitação disponível das 0:00 horas de sexta-feira, dia 28 de novembro, até às 23:59 horas de terça-feira, dia 2 de dezembro de 2025 (hora de Portugal continental).

SIGRHE – Aceitação da colocação pelo candidato

Listas – Reserva de Recrutamento nº21 – 2025/2026

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Grupo de professores de Escola Portuguesa de Díli em greve

 

“O não cumprimento da legislação por parte da tutela relativamente ao pagamento do subsídio de instalação [ao qual consideramos ter direito] levou a esta paralisação”, referem os professores em nota.

Grupo de professores de Escola Portuguesa de Díli em greve

Um grupo de professores da Escola Portuguesa de Díli realizou esta quinta-feira uma greve para exigir o pagamento de subsídio de instalação, que lhes foi inicialmente atribuído e terão agora de devolver.

“O não cumprimento da legislação por parte da tutela relativamente ao pagamento do subsídio de instalação [ao qual consideramos ter direito] levou a esta paralisação e resulta da necessidade de manifestar preocupação e descontentamento face à situação laboral que nos tem afetado nos últimos meses, bem como defender os direitos e garantias que a legislação portuguesa consagra para os trabalhadores em funções públicas“, referem os professores numa nota à imprensa.

O grupo de 31 professores esteve a dar aulas na Escola Portuguesa de Díli em mobilidade estatuária, tendo terminado funções a 31 de agosto de 2025.

Os professores concorreram ao concurso interno, realizado em julho de 2025, mas o resultado e a respetiva aceitação só aconteceu, quando já estavam de férias em Portugal.

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O Peso do Silêncio e da Cumplicidade na Escola – José Pereira da Silva

 

O poder, quando é mal usado, tem um sabor frio. Não se mede pelo que se constrói, mas pelo que destrói: reputações, confiança e dignidade. Há quem o use para ferir, manipular a verdade, para tornar a mentira realidade. Pergunto-me muitas vezes que prazer encontra quem segue esse caminho… Que ganho há em tentar esmagar um colega, em distorcer o que é evidente, em humilhar e dominar?
E depois estão os que observam. Que veem, sabem, mas escolhem não agir. Alguns passam ao lado, indiferentes, como se nada lhes dissesse respeito. Outros, pior ainda, decidem apoiar quem abusa, ajudando a perpetuar injustiças, compactuando com mentiras, colaborando com a perseguição. O silêncio e a cumplicidade transformam-se em armas poderosas, que fortalecem o opressor e prolongam o sofrimento e a injustiça.
Mas nem tudo se perde. No meio do medo, da mentira e da conveniência, há quem resiste, não se curva, não desiste, mesmo quando está só, porque sabe que a verdade e a razão estão do seu lado. A coragem é ausência de medo, é decidir agir, permanecer firme, defender o que é justo, mesmo quando é difícil e não se tem apoio dos pares.
A escola não pode ser apenas um lugar de transmissão de conhecimentos. Deve ser um espaço de valores, de exemplo, de cidadania e de resiliência. Cada gesto, escolha, silêncio, cumplicidade, transmite uma lição invisível, mas real. A responsabilidade é de todos nós: o que toleramos, defendemos, compactuamos, molda o ambiente que deixamos aos que aprendem conosco.
No fim, ser educador é, sobretudo, viver aquilo que se ensina. É ter coragem quando é mais fácil silenciar. É resistir quando tudo parece inclinar-se para o erro. E confiar que, mesmo no meio de injustiças e cumplicidades, a integridade, a verdade e a razão continuam a existir, e que é nelas que reside a esperança de uma escola justa e humana.

José Pereira da Silva

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66 anos e 11 meses é a idade da reforma em 2027

Em 2027, a idade da reforma em Portugal vai subir para 66 anos e 11 meses, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística.

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A escola a tempo inteiro e o país a tempo parcial

Sempre defendi que o modelo pedagógico ideal para o primeiro ciclo era simples. As aulas acontecem de manhã, quando o cérebro das crianças está acordado, pronto para aprender, e a tarde fica reservada para outras actividades (AEC), de preferência com sentido. Mas, em Portugal tem-se uma capacidade espantosa de complicar. Em vez de pensar nas aprendizagens, pensa-se no depósito de crianças. A escola a tempo inteiro não serve as crianças nem os professores, serve sobretudo a logística familiar e uma espécie de repouso social. A escola passa a ser o prolongamento de casa, a incubadora pós-moderna onde as crianças são estacionadas até que alguém as venha recolher ao fim do dia.

O problema é, que continuam a confundir a escola com um abrigo infantil. Como se uma escola pudesse substituir aquilo que se constrói na sala de estar, ao jantar, numa conversa sobre o mundo, ou num não na hora certa. Depois admiram-se quando os resultados não acompanham as elevadas expectativas. Não percebem que não se trata de quantidade de horas, mas da qualidade da relação com o saber e da segurança do ambiente familiar.

Mas se isto fosse, apenas, uma questão pedagógica, seria fácil. A coisa torna-se verdadeiramente surreal quando olhamos para as Atividades de Enriquecimento Curricular. Querem música, dança, karaté, mandarim e robótica, tudo por valores simbólicos, mas depois espantam-se quando não conseguem contratar técnicos. Há quem pense que um profissional da área vai abandonar tudo para ganhar umas horas avulsas que mal dão para pagar o combustível. Municípios e empresas de AEC andam numa caça ao tesouro que, obviamente, não tem frutos. O mercado de trabalho não se rege por voluntariado. Há quem tenha contas para pagar.

E é aqui que entra a ironia do costume. Portugal congratula-se por ter a escola a tempo inteiro, mas esquece-se de que funciona num país a tempo parcial. A exigência é grande, mas a remuneração é pequena. A procura é alta, mas a estabilidade não existe. Depois perguntam por que razão não há técnicos interessados. Talvez porque ninguém consegue viver com salários que parecem calculados por quem nunca fez um orçamento doméstico.

A cereja no topo do bolo é acreditar que tudo isto acontece em nome das crianças. As crianças ficam saturadas, passam dez horas, ou mais, na escola e aprendem menos do que poderiam aprender. Criámos um sistema que serve mais os adultos que os alunos. Um sistema que empurra profissionais para horários impossíveis e famílias para a ilusão de que tudo se resolve com mais tempo na escola.

O país gosta de se convencer de que tem uma educação moderna e virada para o futuro. Mas modernizar não é esticar horários até ao limite e chamar-lhe evolução. Modernizar é respeitar ritmos, contratar com dignidade, evitar que as escolas funcionem como armazéns de crianças e ter a coragem de assumir que a pedagogia não deve ser construída em função das necessidades da agenda dos pais e encarregados de educação.

Enquanto insistirmos na fantasia de escola a tempo inteiro, nos moldes atuais, continuaremos a formar alunos cansados, professores exaustos e técnicos inexistentes. E depois admiramo-nos que o sistema falhe. Talvez seja porque anda a funcionar a tempo inteiro, mas sempre em esforço, e com recursos a tempo parcial.

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Antes de abrir a boca deve-se confirmar qualquer denúncia

Diretora e Associação de Estudantes da Escola Secundária Gil Vicente garantem que a informação veiculada pela deputada do Chega “é falsa”. A deputada diz que recebeu uma “denúncia” de um encarregado de educação.

Escola de Lisboa desmente Rita Matias e a proibição de uma festa de Natal

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Aluna corta-se em vidro partido durante troca de agressões na escola

A frequentar aquele estabelecimento de ensino há cerca de dois meses, a aluna já se terá envolvida noutros desacatos, no final do mês de outubro

Aluna corta-se em vidro partido durante troca de agressões na escola 

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COMUNICADO OFICIAL – Movimento PEV – Professores pela Equidade e Valorização

 

O Movimento PEV vem, por este meio, reafirmar a sua missão, princípios e objetivos, bem como informar a comunidade educativa e a sociedade em geral sobre o trabalho desenvolvido até ao momento em defesa da justiça e da dignidade da carreira docente.

1. Quem somos

O Movimento PEV é um grupo nacional de professores, totalmente independente de sindicatos, partidos políticos ou outras estruturas formais. Surgiu da união de docentes que, desde 2018, têm sido prejudicados pelas ultrapassagens e desigualdades no reposicionamento docente.

A nossa ação assenta em princípios de equidade, transparência, rigor legal, participação democrática e valorização da profissão docente.

2. A razão da nossa luta

Milhares de professores foram afetados por injustiças profundas no reposicionamento na carreira. As regras aplicadas desde 2018 criaram desigualdades, permitindo que professores com menos tempo de serviço ultrapassassem colegas mais antigos.

O Movimento PEV luta por:

Uma lista nacional única de reposicionamento por tempo de serviço;

Eliminação das ultrapassagens entre docentes;

Aplicação uniforme e clara das normas;

Reconhecimento integral do tempo de serviço;

Valorização efetiva da carreira docente.

3. O nosso percurso

Desde a sua criação, em 1 de agosto de 2024, o Movimento PEV tem vindo a crescer de forma contínua, reunindo milhares de professores de todo o país.

Principais marcos:

Organização de 3 concentrações nacionais
A primeira em 6 de setembro de 2024 e a última em 5 de setembro de 2025, frente ao Ministério da Educação;

Entrega de uma petição com mais de 10.000 assinaturas na Assembleia da República que originou projetos de resolução da direita à esquerda e todos aprovados na Assembleia da República;

Recolha e entrega de 24.608 assinaturas para uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos a aguardar discussão na AR e com grande possibilidade de se tornar lei;

Acompanhamento permanente da evolução política, jurídica e institucional do tema;

Mobilização e esclarecimento diário da classe docente.

4. Independência e colaboração

O PEV afirma a sua total independência organizativa. O movimento é composto exclusivamente por professores e coordena-se de forma horizontal, democrática e transparente.

Destacamos o contributo fundamental de vários docentes que têm assegurado a mobilização, esclarecimento e organização interna desde o início. A força do PEV assenta no compromisso, dedicação e sentido de justiça dos seus membros.

5. A nossa visão

O Movimento PEV defende uma carreira docente:

Justa e equitativa;

Respeitada e valorizada;

Livre de interpretações arbitrárias;

Sustentada por políticas educativas que reforcem a autoridade do professor e a qualidade do ensino.

Para além do reposicionamento, o Movimento PEV pretende contribuir para uma discussão séria sobre condições de trabalho, indisciplina, estabilidade profissional e respeito pelo papel do professor na sociedade.

6. Próximos passos

O Movimento PEV continuará a acompanhar todos os desenvolvimentos junto da Assembleia da República, dos partidos políticos e das entidades competentes, até ver o problema resolvido, ser feita justiça.

7. Conclusão

O Movimento PEV representa a união e a determinação de milhares de professores que exigem dignidade, respeito e justiça. A nossa força vem da verdade, da transparência e do compromisso com todos aqueles que foram injustiçados.

🔗 Junta-te ao grupo PEV (escolhe apenas um dos dois):
🟢 Grupo 1: https://chat.whatsapp.com/ET7xPMJZinU0QEVSWlREtg?mode=ac_t
🔵 Grupo 2: https://chat.whatsapp.com/Ebdx9ZdMC4qAwkhDJ0qmcN?mode=ac_t

Continuaremos firmes, unidos e mobilizados.

José Pereira da Silva,
Porta voz do Movimento PEV🫂💪

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Reserva de Recrutamento 20 2025/2026

 

Publicitação das listas definitivas de Colocação, Não Colocação, Retirados e Listas de Colocação Administrativa – 20.ª Reserva de Recrutamento 2025/2026.

Aplicação da aceitação disponível das 0:00 horas de terça-feira, dia 25 de novembro, até às 23:59 horas de quarta-feira, dia 26 de novembro de 2025 (hora de Portugal continental).

SIGRHE – Aceitação da colocação pelo candidato

Listas – Reserva de Recrutamento n.º 20

 

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A escola pública está em queda e o país resignou-se – Paulo Prudêncio

A escola pública está em queda e o país resignou-se (edição impressa)

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Professores queixam-se de perder apoio pelo cálculo das distâncias

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Já que Maomé não vai à montanha…


A notícia é, obviamente, falsa, mas retrata bem o problema.

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Fumar à Porta da Escola: A Arte Nacional da Inoperância Oficial

É de manhã e o cenário começa sempre da mesma forma. Antes de o sino tocar já um pequeno nevoeiro se ergue à porta da escola, não vindo do clima mas dos cigarros que alunos de 13 ou 14 anos seguram com a mesma naturalidade com que deviam segurar um caderno. A imagem está tão banalizada que parece quase uma tradição local, como se fumar à porta da escola fizesse parte do currículo nacional.

Portugal não tem falta de leis sobre o tabaco. Pelo contrário, a legislação é clara e abundante. A chamada Lei do Tabaco, a Lei n.º 37/2007 e respetivas alterações, proíbe fumar não só dentro dos recintos escolares, mas também nos seus espaços exteriores. A venda de tabaco a menores de 18 anos é igualmente proibida. Existem ainda regimes contraordenacionais que preveem coimas tanto para quem vende como para quem permite ou não fiscaliza. No papel, o sistema é sólido. Falta apenas a parte mais simples e difícil: aplicá-lo.

Quando se olha para a realidade, percebe-se que a fiscalização é praticamente inexistente. A pergunta costuma ser quem está a controlar estas situações. A resposta, observando o quotidiano, parece ser ninguém. As autoridades, que poderiam atuar, teimam em manter uma presença discreta, quase ausente, como se tivessem recebido instruções para não perturbar o ritual matinal dos cigarros à porta da escola.

As consequências previstas pela lei, que incluem multas, ações de sensibilização e até alguma responsabilização dos encarregados de educação em casos repetidos, raramente saem do papel. São intenções bem escritas mas pouco praticadas. A sensação geral é de que se criou um entendimento informal: os jovens fumam como se fossem adultos, as autoridades fingem que não veem e todos seguem a vida como se esta normalização não tivesse efeitos reais.

O resultado é a transformação de um comportamento ilegal em rotina quotidiana. Quando um aluno do primeiro ciclo acende um cigarro diante da escola e ninguém intervém, a mensagem transmitida é simples: as regras servem para existir, não necessariamente para ser cumpridas. E assim se educa, ainda que involuntariamente, para a ideia de que a legislação é algo decorativo e de que a autoridade existe mais para ser citada do que para ser exercida.

No fim de tudo, é evidente que há falhas generalizadas, mas a falha maior recai sobre quem tinha meios e dever para agir e optou por não o fazer. Não é a lei que falta, não é o conhecimento do problema que escasseia, nem é a inexistência de queixas que explica o fenómeno. É a ausência de presença, de fiscalização, de prioridade. Enquanto os alunos fumam cigarros, parece que as instituições continuam a fumar tempo.

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