Estamos a criar monstros, em vez de seres humanos?

É praticamente impossível não se ficar atordoado com notícias como as que vieram a público nos últimos dias, dando conta de certos actos bárbaros, ilustrativos da bestialidade humana,completamente desprovida de empatia pelo outro:

Onze elementos dos Bombeiros Voluntários do Fundão estão acusados de várias agressões, entre as quais, violação sexualcolectiva e coacção sexual. Essas agressões, gravadas porcâmaras de vigilância e pelos próprios agressores, terão sido perpetradas contra um jovem de dezanove anos de idade da mesma corporação. Alegadamente, um dos agressores desempenhava inclusive o cargo de “Chefe” na citada instituição;

Dez militares da GNR e um agente da PSP estão acusados de exploração/escravização de imigrantes. Segundo um relatório publicado pela Polícia Judiciária em 25 de Novembro passado:

Em causa está uma organização criminosa que controlava centenas de trabalhadores estrangeiros, a maioria em situação irregular em Portugal.

Através de empresas de trabalho temporário, criadas para o efeito, aproveitava-se da vulnerabilidade dos mesmos, explorando-os, cobrando alojamentos e alimentação e mantendo-os sob coação através de ameaças, havendo mesmo vários episódios de ofensas à integridade física.

Ao longo de vários meses, a PJ realizou inúmeras diligências investigatórias que permitiram obter indícios e elementos incriminatórios, bem como traçar o quadro geral do funcionamento deste grupo violento, de estilo mafioso.”

Tanto no primeiro caso, como no segundo, dominam a maldade, a crueldade, a violência e as agressões, praticadas contra seres humanos em situação de incapacidade de defesa e/ou de fragilidade, o que torna a cobardia e o sadismo destes agressores em algo absolutamente monstruoso e repugnante.

No caso dos bombeiros do Fundão, e ao que tudo indica, a maldade e a crueldade terão sido praticadas de forma gratuita,para gáudio e divertimento dos agressores.

No caso dos militares da GNR e do agente da PSP, terão sido praticadas, sobretudo, com o objectivo de enriquecimento ilícito, à custa da escravização de seres humanos.

Em ambos os casos, os alegados agressores não são crianças ou jovens, eventualmente sem noção das consequências ou da gravidade dos actos praticados. São adultos. Adultos.

São adultos, em quem, à partida, se deveria poder confiar e com responsabilidades sociais acrescidas, uns enquanto bombeiros, os outros enquanto agentes de autoridade.

Estes dois acontecimentos, onde estão bem espelhadas a monstruosidade e a perversidade de alguns pretensos seres humanos, não pode deixar de nos preocupar, mas, tambémenvergonhar, a todos, enquanto cidadãos, enquanto agentes educativos e enquanto mães ou pais…

No sentido anterior, não podemos ignorar nem escamotear nenhuma das bárbaras agressões recentemente conhecidas, sob pena de nos tornarmos potenciais cúmplices, coniventes com manifestações de abominável violência.

Admitindo que, em ambos os casos, alguns dos alegados agressores possam ser pais, que exemplo estarão a dar aos seus próprios filhos?

Como conseguirão encarar os seus próprios filhos?

Subjugar, agredir e/ou humilhar costuma ser típico de criaturas monstruosas, más, cruéis, selvagens, que não são dignas de serem apelidadas de “humanas”.

Há que ter a coragem e a frontalidade de reconhecer a existência de tais criaturas e de defender que tudo deverá ser feito para as erradicar do mundo onde vivemos, desde logo, afastando-as, para sempre, de todas as funções públicas ou de interesse público que exerciam e punindo-as legalmente por todos os crimes praticados.

Convirá não esquecer que a credibilidade e a idoneidade das instituições onde militam os acusados também dependem do anterior.

O pior que poderá acontecer a estas vítimas é serem duplamente penalizadas:

– Penalizadas por a sua dignidade ter sido vilipendiada e penalizadas por não verem a Justiça ser aplicada…

Da dor já ninguém as poderá livrar, mas que, pelo menos, consigam ver punidos os seus brutais agressores…

Não podemos deixar que o mal triunfe, não podemos deixar que o mesmo se “normalize”. Não é possível ficar em silêncio perante tamanhas aberrações comportamentais, opostas à racionalidade e à humanidade.

Hoje as vítimas são as que se conhecem, amanhã poderemos ser nós ou algum dos nossos… O mal não acontece só aos outros…

Afinal, o “homem das cavernas” não desapareceu. Anda por aí e pode revelar-se nas mais variadas circunstâncias…

A civilização ainda não conseguiu anular a perversidade e a maldade patentes em algumas mentes ditas “humanas”…

Afinal, a natureza humana nem sempre é naturalmente boa, como defendia Rousseau:O homem nasce bom, a sociedade é que o corrompe”…

Ainda que todos os acusados possam gozar do princípio jurídico da presunção de inocência, à luz do que já se conhece, torna-se praticamente impossível acreditar que nestes dois episódiospossam existir efectivos “inocentes”…

Inocentes só mesmo as vítimas…

A “normalidade” não pode ser isto…

Estamos a criar monstros, em vez de seres humanos?

Paula Dias 

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10 comentários

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    • Doutor Fausto on 30 de Novembro de 2025 at 10:45
    • Responder

    Tem toda a razão, se é que isto serve alguma causa.
    Quando a Sra. Dra. Juíza(?) os liberta com a possibilidade de voltarem a exercer as suas funções, está a passar a mensagem de que tudo não passou de um engano casuístico e que podem retornar às suas actividades hediondas. E é este tipo de gente que é a garantia da proteção das populações…

    • Ainda não tinha visto😞 on 30 de Novembro de 2025 at 11:06
    • Responder

    Este texto sintetiza o que muitos de nós pensam e que fomos comentando aqui e acolá. Mas que ainda ninguém se tinha atrevido a colocar em texto. A boca no trombone!
    Obrigada, Paula, pela sua indignação. Que é a nossa.
    Uma quantidade de HORRORES que se cometeram no nosso país por portugueses . Não foram imigrantes, Sr. Ventura e Carlos moedas.
    Tanta insegurança, tanta insegurança na vossa boca suja e afinal ela anda escondida nos quartéis de bombeiros e nas corporações policiais!

    Hannah Arendt criou a ideia da “banalidade do mal” a partir da “psicologia”que observou nos que o praticaram nos campos de concentração. Para eles era normal praticarem no. Era legítimo.
    O mal entrou nestas corporações, bombeiros e GNR e PSP, também como uma prática normal e que lhes pareceu legitima.
    Para além das punições que vão ter. Que espero sejam bem fortes. A prisão neste caso é pouca perante o sofrimento que causaram., o ministério da administração interna devia interrogar se sobre o que andam a fazer os bombeiros nos seus quartéis ( que cultura têm) e sobre a formação das polícias que os leva a cometer estes horrores.
    Isto é um verdadeiro escândalo de horrores!

    • Ainda não tinha visto😞 on 30 de Novembro de 2025 at 11:26
    • Responder

    O país devia estar de luto.
    Mas os governantes a isto, dizem nada!

  1. Parabéns pelo texto, Paula.

    Só para acrescentar outra “monstruosidade”.
    A monstruosidade do Ministério Público, ou dos tribunais. Não sei como foi no caso dos bombeiros, mas sei como está a ser no caso dos imigrantes e dos GNR e PSP. Outra monstruosidade.

    • Luís Miguel Cravo on 30 de Novembro de 2025 at 14:04
    • Responder

    Sim! A resposta cabal é sim! Não é um fenómeno mensurável mas, seguramente, desde há 25 anos, sensivelmente, que este país é uma “colónia” de criação de monstros…. A animosidade contra o imigrante, contra o Outro, a falta de capacidade crítica, interventiva, argumentativa é gritante! Temos, ns Assembleia da República, um zoológico desde que um partido ilegal há alguns anos, é, ao que parece, a Oposição. Cada vez que o líder daquilo abre a boca é fácil perceber com a Educação falhou em Portugal. Os professores (Na generalidad) perderam todo o arcabouço de referências culturais/ intelectuais para os alunos. São fantoches que cumprem o que lhes mandam. Agora, para agravar aquilo que a Paula tão bem descreve, é a a tal da inteligência artificial. Uma maravilha! Junte-de a isto as aulas da “escola virtual”, as aulas intensas de gramática a Português (Os professores não percebem o quão obtusos são quando se conversa com os alunos que perguntam “para que raio serve aquilo?”), as avaliações com cruzes e espacinhos, as brincadeiras de muitas actividades completamente improfícuas…..e temos um belo caldinho feito de aspirantes a monstros. Um assassina a mãe a tiro. Não há problema…. até ao dia em que for numa escola. Os professores demitiram-se da sua missão e arrumaram as botas. Por isso, deixei de trabalhar com esta gente fez 2 anos em Setembro! É um alívio muito grande!
    Sim, Paula, é um país vergonhoso e já comentado na imprensa Internacional à custa disso. Parabéns, professores.

    • LT on 30 de Novembro de 2025 at 15:07
    • Responder

    Os bombeiros e os polícias sempre foram conetados com rusticidade. Já vem de tempos de outra senhora. Na altura provinham do vício do alcool e do analfabetismo. Agora a proveniência pouco mudou mas exibem ostensivamente essa rusticidade sob a capa de uma missão de bem que não compreendem nem têm interiorizada. Era de esperar que,atendendo à elevação da escolaridade que entretanto ocorreu no país, os comportamentos tivessem melhorado. Infelizmente não! O ninho é maléfico, os genes grutescos estão lá, mas os vícios ficaram mais diversificados devido à banalização de conteúdos de mal nas redes e nas televisões, mas também devido ao mau exemplo dos governantes, dos corruptos e dos populistas, tal como devido à desautorização dos professores e secundarizacão da escola, da formação e perda de referências que antes eram dadas na configuração religiosa católica hipócrita, mas existente. Hoje temos monstros e vale tudo. A humanidade desumanizou-se e o grotesco tornou-se moda juntamente com o acto de não trabalhar e não valorizar o trabalho. Regressaram os tempos de analfabetismo global, de selva e com eles de escravatura!

    • Juca on 30 de Novembro de 2025 at 22:24
    • Responder

    Mais um texto da dondoca de serviço.Gente humana prolífica em violência?Que inaudito…

      • Mustang Horse on 1 de Dezembro de 2025 at 8:24
      • Responder

      Mais um comentário do imbecil de serviço. Gente imbecil prolífica em nicknames? Que inaudito… Que corajoso este imbecil de serviço! Get a life, pá!

    • maria alves on 2 de Dezembro de 2025 at 10:50
    • Responder

    Subscrevo tudo o que escreve, Paula.
    Urge travar o mal. Urge que os políticos, a justiça, os professores, os líderes de todos os serviços se insurjam, defendam as vítimas e punam, a tal ponto, que deixe de compensar ter, sequer, vontade de tirar prazer, ou dinheiro, do mal que praticam.
    Se tais comportamentos brutais existem é porque foram ignorados, não foram detectados, nem travados, nunca, no percurso de vida desses perturbados mentais, á solta.
    Nas escolas, sempre que um professor identifica nos alunos estes agressores sádicos é repudiado, porque afinal “as crianças são todas inocentes”. Daí o aumento da violência escolar nos últimos anos, que só não é maior porque os diretores a escondem, sob pena de ficarem mal vistos pelos senhores das DGAES que dizem: “Releve, colega!”.

    • Barry on 6 de Dezembro de 2025 at 17:20
    • Responder

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