3 de Maio de 2026 archive

A parentalidade do “copy-paste” IA

Há uma nova modalidade de parentalidade em Portugal, a parentalidade “copy-paste”. Os mesmos pais que durante anos transformaram os trabalhos de casa numa extensão do seu ego académico descobriram agora a inteligência artificial e, de repente, a educação tornou-se uma competição de produtividade artificial.

O problema nunca foram os TPC. O problema foram sempre os adultos.

Há décadas que muitos pais confundem acompanhar com controlar, ajudar com substituir, orientar com fabricar sucesso escolar à força. O filho tinha um cartaz para fazer? Lá aparecia a mãe designer gráfica às duas da manhã com uma cartolina digna de uma campanha eleitoral. O miúdo tinha uma composição? Entrava em cena o pai frustrado com vocação literária para escrever “pela criança”. O objetivo nunca foi aprender. Foi impressionar a professora, alimentar a ilusão da excelência e garantir a medalha invisível do “bom encarregado de educação”.

Agora, com a inteligência artificial, a fraude ganhou velocidade de fibra ótica.

Há pais que se indignam com os miúdos “colados ao telemóvel”, mas são os primeiros a pedir à inteligência artificial que faça resumos, fichas de leitura e reflexões “com linguagem de 8.º ano”. Tudo em nome da eficiência. Tudo para poupar tempo. Tudo porque, no fundo, já ninguém suporta o processo de aprender, só interessa o resultado embalado, limpo e pronto a entregar.

E depois admiramo-nos de termos adolescentes incapazes de escrever três parágrafos sem recorrer a um prompt.

O mais irónico é ver adultos que cresceram a dizer “na minha altura é que era difícil” transformarem-se nos principais sabotadores da autonomia dos filhos. Querem crianças resilientes, mas removem qualquer obstáculo. Querem jovens criativos, mas entregam-lhes respostas pré-fabricadas. Querem espírito crítico, mas treinam-nos para delegar pensamento numa máquina.

Há um medo quase patológico do erro. O erro tornou-se uma vergonha familiar. Uma nota menos boa já não é vista como parte do crescimento, é encarada como falha de gestão parental. Então corrige-se tudo, optimiza-se tudo, automatiza-se tudo. E o aluno? O aluno desaparece no meio da ansiedade performativa dos adultos.

A inteligência artificial não é o vilão desta história. É apenas o espelho. Expõe uma geração de pais obcecada com desempenho, aparência e validação escolar. Uma geração que fala muito de saúde mental, mas coloca crianças de 11 anos a viver sob lógica de currículo de LinkedIn.

A escola tem, evidentemente, responsabilidade. Continua presa a modelos de avaliação repetitivos, burocráticos e fáceis de manipular. Mas a verdade inconveniente é esta, muitos pais não querem filhos que aprendam. Querem filhos que pareçam aprender. É diferente.

E talvez seja esse o maior desastre educativo contemporâneo, estamos a criar alunos treinados para entregar, mas não para pensar.

Depois um dia chegam à universidade, ao mercado de trabalho ou simplesmente à vida real, esse lugar cruel onde não há prompts para coragem, autonomia ou carácter, e percebe-se o vazio.

Mas nessa altura já será tarde para perguntar à inteligência artificial como se educa um ser humano.

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“Diz-me o teu body count e eu direi a todos que és uma galdéria”… – Paula Dias

A expressão “body count” costuma ser usada para designar o número de parceiros sexuais que alguém teve até um certo momento e é frequentemente utilizada por jovens nas denominadas redes sociais…

Neste momento, entre os jovens que se encontram a frequentar o Ensino Secundário, parece que existe um comportamento muito em voga, que não poderá ser ignorado, sobretudo pelos seus contornos iminentemente sexistas, machistas e misóginos:

– Os rapazes perguntam frequentemente às raparigas qual é o seu “body count” e, em função da resposta obtida, avaliam o grau de “galderice” destas últimas Esse julgamento é quase sempre feito de modo explícito e público, sendo, muitas vezes,disseminado na própria comunidade escolar e partilhado nas redes sociais, junto de diferentes grupos virtuais Obviamenteque tudo isto se passa sem o consentimento das visadas…

Por outras palavras, a partir da resposta dada a tal pergunta, muitas vezes, os rapazes aproveitam para tecer, de forma leviana, juízos discricionários e para qualificar de formadepreciativa o carácter dessas raparigas, na maior parte dos casos, fazendo uso de uma linguagem obscena, ofensiva e lesiva…

– Não raras vezes, as raparigas que caem na armadilha de responder a tal pergunta acabam julgadas e humilhadas na “praça pública”, leia-se na própria escola e nas redes sociais, sem nada poderem fazer para contrariar as calúnias, a devassada sua vida privada e até os eventuais boatos, entretanto,propalados contra si

Rapazes com um “body count” considerado como elevado costumam ser vistos como pretensos “garanhões” e são frequentemente enaltecidos e elogiados na comunidade masculina; já as raparigas em situação semelhante costumam ser vistas como “galdérias”, iminentes “prostitutas”, no seio da mesma comunidade…

Por esta visão, eivada de preconceito e de discriminação quando se compara o estatuto masculino com o feminino, um homem pode e deve ter o maior número possível de parceiras sexuais, mas as mulheres devem permanecer castas, inocentes e puras Ou, pelo menos, algumas mulheres, já que outras, obviamente, nunca o poderão ser, por fazerem parte do rol de parceiras sexuais de certos homens Absurdo, não é?

Obviamente que as raparigas visadas por estas avaliaçõesabjectas raramente as denunciam junto de adultos, porventura receosas de o problema poder assumir proporções ainda maiores e de, por essa via, ser dado conhecimento do mesmo aos respectivos progenitores

Lamentavelmente, em muitos contextos familiares não há espaço para qualquer diálogo construtivo, muito menos para a abordagem de eventuais aspectos relacionados com a sexualidade dos jovens, sejam eles rapazes ou raparigas

Esse é, aliás, um tema, frequentemente, encarado como “assunto tabu”, tal é a relutância em se falar acerca dele no seio de muitas famílias… Sim, em pleno Século XXI ainda acontece isso e com uma frequência verdadeiramente assustadora, mesmo nas famílias mais “insuspeitas”

O principal efeito dessa omissão traduz-se, amiúde, por um acentuado grau de desinformação sobre sexualidade apresentado por muitos jovens, ainda que isso não impeça muitos deles de ter uma vida sexual activa, frequentemente “às escondidas” dos respectivos progenitores… Como se adivinha, as consequências do anterior fazem-se sentir, por vezes, de forma dramática…

Para as raparigas visadas por estas avaliações, o resultado mais óbvio acaba por ser verem-se sozinhas no confronto com julgamentos alheios, proferidos por agressores com uma notóriaimaturidade emocional, incapazes de mostrar empatia e de prever as consequências dos seus actos…

A crueldade destes julgamentos denuncia também a ausência do sentimento de culpa, ao mesmo tempo que evidencia desrespeito pelos direitos do outro…

Resumindo, as raparigas são vistas como meros objectos sexuais, como “troféus” exibidos perante terceiros, mas, em simultâneo, julgadas como “galdérias”… Absurdo, não é?

Numa altura em que crescem os crimes de natureza sexual ocorridos em contexto escolar, conforme atestado peloRelatório Anual de Segurança Interna, referente ao ano de 2025, o comportamento anteriormente descrito não poderá deixar de suscitar a todos os agentes educativos preocupação e inquietude:

– “Os crimes sexuais entre jovens têm aumentado em Portugal, segundo o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI). Em 2025, o crime de violação atingiu o valor mais alto dos últimos dez anos, sendo que um quinto dos arguidos tem entre 16 e 20 anos. As situações ocorrem, sobretudo, em contexto escolar e estão associadas ao impacto das redes sociais.” (SIC Notícias, em 13 de Abril de 2026).

Previsivelmente, a prática do “body count” eleva o risco de se desenvolverem percepções distorcidas e tóxicas da sexualidade;fomenta as dificuldades ao nível do estabelecimento de vínculos afectivos saudáveis, de que é exemplo a violência no namoro; eincrementa a ocorrência de crimes de natureza sexual, entre eles, o assédio sexual a raparigas

E isso pode ter consequências imprevisíveis para todos os envolvidos nestes actos, em particular para as raparigas visadas por estas hediondas e, quase sempre, traumáticas avaliações

Não estamos perante uma inofensiva brincadeira entre jovens…

Estamos perante agressões de cariz sexual. Estamos perante agressores. E estamos perante vítimas…

E as vítimas, sejam quem forem, não podem ser silenciadas, nem tidas como culpadas.

Pelo menos, em termos de mentalidade, ainda estamos a “anos-luz” do cumprimento da Convenção da ONU sobre a eliminação de todas as formas de discriminação contra as mulheres”, de resto, ratificada por Portugal em 1980…

Sarcasticamente: quarenta e seis anos talvez sejam pouco tempo… Deve ser isso…  

Paula Dias

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