Um cidadão forma-se em casa através do exemplo dos pais

Desde há muitos anos que se repete a ideia de que a escola é responsável por formar cidadãos, mas a verdade é bem mais simples e muito menos confortável. A educação não começa no portão da escola e muito menos termina nos horários letivos. Começa em casa, entre rotinas apressadas, conversas à mesa e atitudes que as crianças absorvem antes mesmo de perceberem o significado das palavras. São esses pequenos gestos que moldam a pessoa que irão ser muito antes de aprenderem as capitais da Europa ou o ciclo da água.

A escola esforça-se, cria projetos, promove campanhas e inventa formas de explicar civismo, empatia e respeito. No entanto, o que uma criança vê em casa supera qualquer manual ou projeto. Uma criança que cresce a observar boas atitudes acabará por entender a importância do diálogo. Uma criança que presencia gritos como método de resolução de conflitos aprende a gritar ainda antes de saber argumentar. Uma criança que vê portas a serem fechadas com violência acabará por crescer com a mesma incapacidade de lidar com frustrações. Não é magia, é repetição.

Muitos pais continuam a acreditar que basta deixarem os filhos na escola para que esta corrija o que não se faz em casa. Como se o simples facto de a frequentar fosse garantia de se tornar uma boa pessoa. A escola faz o que pode e, por vezes, tenta fazer o que não pode. Mas nenhum professor consegue desfazer em algumas horas diárias o que se constrói em anos e anos de rotinas familiares de todo o tipo.

Os adultos que hoje criticam o mundo e a vida que levam raramente percebem que grande parte dos seus comportamentos são reflexos diretos da infância que tiveram. Repetem relações falhadas, atitudes destrutivas, vícios herdados e padrões de vida que lhes estão colados à pele. Crescem à espera que o futuro seja diferente, mas continuam a percorrer os mesmos caminhos que os pais lhes mostraram e nada fazem para o alterar.

Se queremos realmente uma sociedade mais justa e humana, a mudança não começa na escola. Começa no seio familiar. É aí que se aprende a partilhar, a pedir desculpa, a ouvir, a esperar, a cuidar e a respeitar. É aí que se forma o carácter. A escola pode reforçar valores e ensinar a viver em comunidade, mas não substitui o exemplo diário dos pais. A cidadania nasce muito antes de se aprender a conjugar verbos ou a resolver equações, vem do berço.

Chegou o momento de muitos pais reconhecerem que o futuro dos filhos depende menos do que eles exigem à escola e mais do que fazem em casa. Se quiserem filhos adultos diferentes daqueles que hoje criticam, terão de começar por ser diferentes enquanto pais. Porque o verdadeiro ciclo que vale a pena quebrar é o que transforma erros antigos em heranças inevitáveis.

A sociedade constrói-se com professores dedicados, sim, mas sobretudo com famílias que assumem a sua parte do trabalho de educar os seus filhos dentro de padrões de aceitáveis pela sociedade e para a sociedade. É na soma desses dois mundos que se forma um cidadão capaz de pensar, sentir e agir com consciência e bom senso. E é essa responsabilidade partilhada que decide o tipo de pessoas que deixamos para o futuro.

 

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3 comentários

    • Dejá vu on 28 de Novembro de 2025 at 12:37
    • Responder

    Foi exatamente isto que os pais se esqueceram de fazer: educar.
    Por isso as nossas aulas viraram um inferno de indisciplina.

    • Mic on 28 de Novembro de 2025 at 16:04
    • Responder

    Pois, chama-se a isso responsabilidade parental (educar), e não responsabilidade escolar (formar)…

    • P. P. on 30 de Novembro de 2025 at 12:17
    • Responder

    Excelente! Excelente! Excelente!

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