Sempre defendi que o modelo pedagógico ideal para o primeiro ciclo era simples. As aulas acontecem de manhã, quando o cérebro das crianças está acordado, pronto para aprender, e a tarde fica reservada para outras actividades (AEC), de preferência com sentido. Mas, em Portugal tem-se uma capacidade espantosa de complicar. Em vez de pensar nas aprendizagens, pensa-se no depósito de crianças. A escola a tempo inteiro não serve as crianças nem os professores, serve sobretudo a logística familiar e uma espécie de repouso social. A escola passa a ser o prolongamento de casa, a incubadora pós-moderna onde as crianças são estacionadas até que alguém as venha recolher ao fim do dia.
O problema é, que continuam a confundir a escola com um abrigo infantil. Como se uma escola pudesse substituir aquilo que se constrói na sala de estar, ao jantar, numa conversa sobre o mundo, ou num não na hora certa. Depois admiram-se quando os resultados não acompanham as elevadas expectativas. Não percebem que não se trata de quantidade de horas, mas da qualidade da relação com o saber e da segurança do ambiente familiar.
Mas se isto fosse, apenas, uma questão pedagógica, seria fácil. A coisa torna-se verdadeiramente surreal quando olhamos para as Atividades de Enriquecimento Curricular. Querem música, dança, karaté, mandarim e robótica, tudo por valores simbólicos, mas depois espantam-se quando não conseguem contratar técnicos. Há quem pense que um profissional da área vai abandonar tudo para ganhar umas horas avulsas que mal dão para pagar o combustível. Municípios e empresas de AEC andam numa caça ao tesouro que, obviamente, não tem frutos. O mercado de trabalho não se rege por voluntariado. Há quem tenha contas para pagar.
E é aqui que entra a ironia do costume. Portugal congratula-se por ter a escola a tempo inteiro, mas esquece-se de que funciona num país a tempo parcial. A exigência é grande, mas a remuneração é pequena. A procura é alta, mas a estabilidade não existe. Depois perguntam por que razão não há técnicos interessados. Talvez porque ninguém consegue viver com salários que parecem calculados por quem nunca fez um orçamento doméstico.
A cereja no topo do bolo é acreditar que tudo isto acontece em nome das crianças. As crianças ficam saturadas, passam dez horas, ou mais, na escola e aprendem menos do que poderiam aprender. Criámos um sistema que serve mais os adultos que os alunos. Um sistema que empurra profissionais para horários impossíveis e famílias para a ilusão de que tudo se resolve com mais tempo na escola.
O país gosta de se convencer de que tem uma educação moderna e virada para o futuro. Mas modernizar não é esticar horários até ao limite e chamar-lhe evolução. Modernizar é respeitar ritmos, contratar com dignidade, evitar que as escolas funcionem como armazéns de crianças e ter a coragem de assumir que a pedagogia não deve ser construída em função das necessidades da agenda dos pais e encarregados de educação.
Enquanto insistirmos na fantasia de escola a tempo inteiro, nos moldes atuais, continuaremos a formar alunos cansados, professores exaustos e técnicos inexistentes. E depois admiramo-nos que o sistema falhe. Talvez seja porque anda a funcionar a tempo inteiro, mas sempre em esforço, e com recursos a tempo parcial.




11 comentários
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P**ta que pariu esta sociedade de treta que acha que a escola é o depósito dos alunos.
Ao longo dos anos, fui ficando cada vez mais certa de uma coisa: as crianças passam horas a mais na escola. Quem vive o dia a dia de um agrupamento vê isto sem filtros. Ao fim da tarde, muitos já nem têm energia para aprender, para brincar ou simplesmente para estar uns com os outros.
Misturámos tudo no mesmo espaço: sala de aula, acolhimento, AEC, prolongamento… A escola passou a ser resposta para tudo, porque (quase) tudo o que está à volta colapsou ou deixou de dar resposta. E quando uma criança passa o dia inteiro no mesmo sítio, com as mesmas pessoas, é natural que os conflitos cresçam, que o comportamento se desregule e que o cansaço se torne regra.
Mas há outra parte da equação que quase ninguém gosta de discutir: isto também acontece porque a organização do trabalho em Portugal continua presa à ideia de que trabalhar muitas horas é sinónimo de produtividade. Não é. Trabalhar muito não é trabalhar bem. E é esta lógica que empurra as famílias para horários impossíveis e que transfere para a escola aquilo que deveria caber ao espaço familiar.
Para mim, faz sentido que as manhãs sejam dedicadas às aprendizagens essenciais e que as tardes tenham atividades com equilíbrio e não como um prolongamento interminável. A escola tem de voltar a ser escola. E as famílias precisam de recuperar o seu papel e o seu tempo.
Maravilhoso texto. Partilho cada palavra, cada opinião dada, cada parágrafo.
Tudo verdade.
Os professores andam cansados, esgotados psicologicamente com a inclusão, diversidade, exploração, incompreensão,…
ÓH! Reforma que és uma miragem…
Bem haja
Idem…
👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻
Infelizmente, até as escolas Secundárias são depósitos…e locais para ficar enquanto os pais não estão em casa…enfim…
Esta invenção da MLR da escola a tempo Inteiro também deve ter vindo do Chile como o modelo de avaliação de professores.
Mas os netos dela provavelmente não os põe na escola todo o dia, como o modelo de avaliação de professores também não o aplicou no ISCTE onde é reitora.
Coitadas das nossas crianças. Ao final do dia parecem zombies.
Mas o problema está no facto da escola em Portugal servir o patronato. O capitalismo, o lucro empresarial exige que os pais estejam sempre disponíveis para trabalhar mais e mais. As crianças sobram.
Veja o que a nova lei do trabalho traz. Mais disponibilidade a custo zero e precariedade.
A CIP esfrega as mãos de contente. Que se lixem as nossas crianças.
Muito bem. Argumentação sólida, assertiva e que, infelizmente, espelha a realidade portuguesa de escolas-depósito.
A isto chama-se superior interesse das crianças… é não é?
Superior interesse do lucro e do capitalismo.
Neste modelo económico, as crianças não contam. Nem os pais.
As pessoas são sacrificadas. Money, money. Consumo. Consumo. A roda gigantesca nunca pára. Nem de noite nem de dia.
Título maravilhoso! E já diz tudo…nem era preciso o texto!