Às vezes esqueces-te todos os dias do porquê de ser professor – João André Costa

 

Por ser Sexta-feira à tarde e à Sexta-feira à tarde a Directora pega na pastinha e vai para casa toda laroca à hora de almoço.

Diz ser o seu dia livre, o dia de ir ao mercado e, por conseguinte, a sua mera presença na escola é em si um grande e excelso favor pelo qual o povo e os súbditos devem estar eternamente agradecidos, incluindo o Luís.

O Luís ao fim do dia por sua conta e sozinho de vigia à paragem de autocarro e a razão é simples quando se quer garantir um fim-de-semana com um mínimo de paz, a começar logo pela Sexta-feira.

O contrário mais a sua ausência de plantão à paragem de autocarro não é senão o catalisador para a pancadaria geral da populaça estudantil, resultado directo da aridez vocabular quando as emoções estão à flor da pele.

E com a pancadaria e pela pancadaria a certeza de ficar para trás a trabalhar na escola até às tantas enquanto se separam alunos e contendas mais os primeiros-socorros da praxe e os telefonemas para os pais imediatamente acusatórios da falta de vigilância da escola e a culpa é do Luís.

E, portanto, lá vai o Luís feito emplastro para a paragem de autocarro, uma delas pelo menos, até porque os alunos não moram todos no mesmo lugar e essa é a ordem natural das coisas.

O pior é tentar explicar isto à Directora já em casa de pantufas e vinho branco na mão, e não literalmente na mão caso contrário era para sorver mas no copo e o copo na mão, enquanto vê as tardes da Tânia e a vida é bela.

Isto porque a porrada pode mesmo ser o verbo do dia, ou da tarde, na outra paragem distante de oitocentos metros e a obrigação do Luís é a de ser omnipresente ou então partir-se em dois enquanto corre de uma paragem para a outra com a mesma celeridade das mensagens de texto enviadas para o telemóvel da Directora.

Hoje a missão do Luís é simples: garantir a ida para casa de dois alunos desavindos em autocarros separados e já lá vem o primeiro cachopo a atravessar a estrada a caminho da paragem mais distante.

O segundo aluno ainda está na escola e tudo estaria bem caso o Luís soubesse de cor onde cada aluno mora e como o primeiro já vai a caminho, o Luís indica por telefone à Luísa na escola estar o caminho não apenas livre mas seguro.

Sete minutos depois chega o segundo cachopo e o galo do Luís ao vê-lo atravessar a mesma estrada em direção à paragem mais distante.

E o Luís no seu encalço enquanto no telemóvel chovem ameaças e condenações e a certeza de um processo disciplinar na Segunda-feira.

A culpa é do Luís e o Luís devia saber de cor cada morada, cada rua, cada porta, a cor de cada casa e se tem um cão ou um gato.

E sim, o fim-de-semana inevitavelmente perdido enquanto o Luís deita os bofes pela boca mesmo a tempo de chegar à outra paragem onde os dois rapazes não só estão juntos como se preparam para entrar no mesmo autocarro daqui por dois minutos.

A ordem no telefone é só uma e aqui vai o Luís para dentro do autocarro a caminho da Picheleira.

Mas o autocarro está à pinha e o Luís não tem onde se agarrar, a porta não fecha, o motorista tenta uma, duas, três vezes, o Luís empurra uma, duas, três caneladas e o Luís aos pulinhos de dor para fora do autocarro mesmo a tempo de ver fechar as portas e o Luís para trás a chuchar de dedo na boca.

E agora explicar isto à Directora? De paralítico do cérebro para baixo, a Directora chamou-lhe de tudo entre raios, relâmpagos e trovões, e não só os raios, relâmpagos e trovões do lado de lá do telefone mas deste lado também numa daquelas bátegas de água impossíveis, e como o Luís não trouxe o guarda-chuva a certeza é só uma e esta é, definitivamente, uma Sexta-feira memorável.

E se a vontade de chegar ao fim da semana já era pouca, ainda para mais quando se tem o emprego de pai e a catraiada toda em casa à espera, agora é zero.

A pancadaria a bordo do autocarro foi épica, rapidamente alastrando-se pelo bairro da Picheleira fora mais os bombeiros, policia e jornalistas e a tromba do Luís no Pasquim da Manhã do dia seguinte: “Professor tresloucado incita batalha campal”.

O Luís acorda de repente, ainda a suar e como de costume a suar quando o Luís se esquece de tirar as meias.

E quando o Luís se esquece de tirar as meias, a noite é como o dia e recheada de pesadelos.

O Luís pega no jornal.

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6 comentários

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    • Fantasma on 29 de Novembro de 2025 at 9:10
    • Responder

    Consegui ler até aparecer “Luís”…
    Mais um texto da treta à volta de Luizinhos e Joãozinhos na escolinha…
    Texto abominável!

    • Mainada on 29 de Novembro de 2025 at 10:32
    • Responder

    Isto é um lamento que não diz respeito à globalidade dos agrupamentos. Deve ser uma TEIP numa zona deprimida e a diretora precisa claramente de férias. Mas acontecem coisas mais comezinhas… Como por exemplo chegar à sala onde os alunos erradamente estiveram durante o intervalo e sentir o cheiro a vapes daqueles frutados. Não dar demasiada importância porque é um disparate lateral, eles não deveriam lá estar no intervalo e tenho uma aula para dar. Ora, o delegado vai contar à DT que o x vapeou durante a aula… Não é difícil de explicar e desmentir, mas enfim… Vou ter que falar com o delegado calmamente e perguntar: “Então, como é que é?”. E menos comezinhos são os gunas do Profissional, mas não há muito a fazer porque até o ministro gosta do Profissional.

    • Docente on 29 de Novembro de 2025 at 11:04
    • Responder

    Um texto a pedir meças ao confronto Ventura e Catarina de tão patético.
    Significará que os problemas maiores não estarão na sala de aula e que a função do docente prolonga-se para fora da escola, quiçá noutro meridiano, e ao fim de semana.

    • Luluzinha! on 29 de Novembro de 2025 at 11:38
    • Responder

    Mas que texto é este? Absolutamente ridículo!

      • Diz o roto ao nu on 29 de Novembro de 2025 at 18:25
      • Responder

      A ridícula de serviço resolveu dar o ar de sua graça. Enxergue-se, faça esse favor a si própria!

    • elvis on 29 de Novembro de 2025 at 15:47
    • Responder

    isto é so dramas da treta…

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