4 de Maio de 2026 archive

Concurso Pessoal Docente 2026/2027 Madeira

Concursos de pessoal docente para o ano escolar 2026/2027

 

 

Informação relativamente aos concursos interno, de afetação aos quadros de zona pedagógica, mobilidade interna, contratação inicial e de reserva de recrutamento30-04-2026 Direção Regional de Administração Escolar

 

INFORMAÇÃO

Os concursos de pessoal docente para o ano escolar 2026/2027 têm início no dia 4 de maio de 2026.

Mais se informa que os respetivos formulários de inscrição apenas estarão disponíveis a partir dessa data, não sendo possível a sua submissão em momento anterior.

 

Manual de utilização – Agir;

 

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A cultura de escola é o mais importante

Há uma certa obsessão nacional por rankings, tabelas, médias e comparações entre ensino público e privado, como se a educação fosse um campeonato de futebol onde no fim se levanta um troféu e se declara um vencedor. E depois aparece um estudo destes, quase com ar de quem pede desculpa pelo incómodo, a lembrar o óbvio: o fator mais determinante no sucesso escolar não é o nome da escola no portão. São os pais.

Mais concretamente: a escolaridade dos pais.

De repente, aquela narrativa confortável, “se o meu filho estiver naquele colégio vai ter mais sucesso”, começa a perder força. Não desaparece, claro. Mas encolhe. Porque, quando se compara o comparável, quando se colocam lado a lado alunos com contextos familiares semelhantes, a vantagem do privado evapora-se com uma elegância quase cruel.

E agora? A culpa é de quem?

A resposta fácil seria dizer: “então está tudo explicado, fechem o debate”. Mas não está. Porque há aqui uma nuance que interessa, e muito.

Os pais contam. Contam muito. Contam no vocabulário que usam à mesa, na forma como encaram a escola, na exigência (ou ausência dela), no valor que atribuem ao esforço. Tudo isso molda uma criança muito antes da primeira ficha de avaliação.

Mas se ficarmos por aqui, estamos a fazer batota.

Porque a escola não é um espaço neutro onde entram crianças “já feitas” e saem com uma nota final. A escola também é uma cultura. E essa cultura pesa, às vezes mais do que queremos admitir..

É aqui que o debate devia estar.

A cultura de escola das famílias.

Uma cultura de escola consegue, até certo ponto, contrariar desvantagens de partida. Não faz milagres, convém não cair nesse romantismo, mas cria condições para que mais alunos tenham hipótese de chegar mais longe.

Uma má cultura de escola faz o contrário, nivela por baixo, desresponsabiliza, transforma potencial em mediocridade instalada.

E depois há o elefante na sala.

Se sabemos que a escolaridade dos pais é determinante, o que estamos a fazer enquanto sociedade para quebrar esse ciclo? Muito pouco, aparentemente. Continuamos a discutir onde se aprende melhor, em vez de discutir como garantir que todos chegam à escola com condições minimamente semelhantes.

Porque enquanto isso não acontecer, o sistema continuará a reproduzir desigualdades com uma eficiência quase exemplar.

O estudo não vem dizer que as escolas são irrelevantes. Vem dizer que não são omnipotentes.

E talvez isso incomode. Porque obriga a repartir responsabilidades, algo que nunca é particularmente popular.

Os pais contam. Muito.

Mas a cultura de escola, essa coisa invisível que não entra nos rankings, pode ser a diferença entre confirmar destinos ou começar a mudá-los.

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Criança invisual de 6 anos agredida por sete colegas…

Há episódios que nos deviam envergonhar enquanto sociedade. Este é um deles. Não pela excecionalidade, que seria reconfortante, mas precisamente pelo incómodo de suspeitarmos que não é assim tão raro quanto gostaríamos de acreditar.

Sete crianças. Sete. Entre os cinco e os sete anos. Contra uma criança invisual, caída no chão, a pedir ajuda. E o mais perturbador nem é a violência em si, é a normalidade com que ela parece surgir. Como se fosse apenas mais um recreio, mais um intervalo, mais um dia.

E é aqui que começam as perguntas fáceis. As que se atiram à escola como se fosse um saco de pancada conveniente.

A escola é responsável pela educação dos agressores?

Não. E sim. E não outra vez.

A escola não substitui os pais. Nunca substituiu. Nunca substituirá. A ideia de que um estabelecimento de ensino deve ensinar matemática de manhã e valores humanos à tarde é confortável, mas profundamente preguiçosa. A base, aquilo que distingue uma criança que agride de uma que ajuda, começa muito antes de atravessar o portão da escola.

Mas também é verdade que a escola não pode lavar as mãos. Não é apenas um espaço de transmissão de conteúdos, é um espaço de convivência. E quando essa convivência falha de forma tão gritante, não estamos perante um azar, estamos perante uma falha sistémica. Supervisão insuficiente, desatenção, rotinas que não funcionam. Não há como dourar isto.

E a falta de valores, é da escola?

Outra vez: não. Mas também não é totalmente alheia.

Os valores não se ensinam com cartazes coloridos no corredor ou com uma aula ocasional sobre “cidadania”. Ensinam-se pelo exemplo. Pela consistência. Pela repetição diária de limites claros. E isso começa em casa.

Portanto, sim, a educação é dada pelos pais.

E convém dizê-lo sem rodeios, porque há uma certa relutância moderna em responsabilizar quem de facto tem responsabilidade. Crianças de cinco ou seis anos não “inventam” este tipo de comportamento do nada. Não organizam violência coletiva espontaneamente como se fosse um jogo inocente. Absorvem. Reproduzem. Testam limites que, muitas vezes, nunca lhes foram verdadeiramente impostos.

Os pais devem ser responsabilizados?

Devem. Não juridicamente, talvez, isso é outra discussão, mas moral e socialmente, sem dúvida. A ideia de que os pais são meros espectadores do crescimento dos filhos é uma das ficções mais perigosas do nosso tempo.

E sim, esta é a geração que está a ser criada. Não no sentido fatalista de “está tudo perdido”, mas no sentido muito concreto de que aquilo que vemos nas escolas é um reflexo direto do que se passa fora delas.

Depois há a questão incómoda do tempo.

Pais exaustos, horários impossíveis, vidas em modo sobrevivência. Tudo isso é real. Tudo isso pesa. Mas também é verdade que a ausência, física ou emocional, cria vazios. E os vazios são preenchidos. Pela internet, pelos pares, pelo acaso. Nem sempre da melhor forma.

A falta de tempo não explica tudo. Mas ajuda a explicar muita coisa.

E depois chegamos ao sistema.

O Estatuto do Aluno deve ser revisto? Provavelmente sim. Não porque devamos cair numa lógica punitiva cega, mas porque o atual modelo muitas vezes transmite uma mensagem perigosa, a de que as consequências são lentas, diluídas, quase simbólicas.

Os procedimentos devem ser mais rápidos e eficazes? Sem dúvida. Quando a resposta a um episódio destes se arrasta em burocracia, o que se ensina, implicitamente, é que a gravidade dos atos não corresponde à rapidez das consequências.

E isso também educa. Mal, mas educa.

No meio disto tudo, há um detalhe que devia ser central e acaba por ser quase nota de rodapé: duas crianças tentaram ajudar.

Duas.

Num cenário de sete agressores e vários adultos ausentes por minutos que pareceram eternos, houve quem, com seis anos, tenha percebido o que estava certo.

Talvez seja por aí que ainda se segura alguma esperança. Não na ilusão de que a escola resolve tudo. Nem na fantasia de que os pais são sempre irrepreensíveis. Mas na evidência de que, mesmo num contexto falhado, ainda há quem saiba distinguir o essencial.

O problema é que, para cada uma dessas crianças, parece haver várias que ainda não aprenderam. E isso, goste-se ou não, começa muito antes da campainha tocar para a aula.

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Há uma tensão a crescer nas escolas – Alfredo Leite

Há uma tensão a crescer nas escolas: professores a gerir comportamento todos os dias, pais a lidar com culpa todos os dias, e ambos com a sensação persistente de que estão a falhar.

O desalinhamento entre três sistemas que deveriam funcionar como um só: o cérebro da criança, a casa e a escola, é a causa desta tensão.

O cérebro da criança atual está a ser moldado por estímulos rápidos, recompensas imediatas e baixa exigência de espera.

Quando esse aluno entra numa sala que exige atenção sustentada, linguagem estruturada e tolerância à frustração, o choque é inevitável. O comportamento é o sintoma de uma adaptação anterior.

Os professores estão a tentar ensinar num ambiente que já não corresponde ao treino prévio dos alunos. E fazem-no com uma pressão crescente para manter a aula funcional, garantir resultados e ainda responder emocionalmente a cada aluno.

Haverá  excesso de exigência num sistema que não foi redesenhado?

Os pais, por outro lado, estão presos entre dois modelos contraditórios. Um modelo antigo, baseado em controlo e obediência, e um modelo recente, muitas vezes mal interpretado, baseado numa ideia vaga de liberdade e validação emocional.

No meio disto, aparece a culpa. Culpa por não estar mais presente. Culpa por usar ecrãs. Culpa por não saber exatamente o que fazer.

O resultado é previsível: a escola pede estrutura, a casa tenta compensar com flexibilidade, e a criança aprende a viver entre dois códigos que não comunicam.

O desenvolvimento da criança depende da coerência entre os contextos em que vive. Quando esses contextos entram em conflito, o impacto é imediato no comportamento e na aprendizagem.

Continuamos a falar como se a escola pudesse resolver isto sozinha. Não pode. Não porque não queira, mas porque não controla as variáveis essenciais fora do seu espaço.

Imagine um aluno não espera pela sua vez, interrompe constantemente e abandona tarefas ao primeiro erro. O professor intervém, estrutura, orienta. Mas se fora da escola esse aluno vive num ambiente onde tudo é imediato, onde não há treino de espera nem de frustração, a intervenção escolar é sempre parcial.

Ao mesmo tempo, há pais que tentam, genuinamente, fazer diferente. Querem dialogar, querem compreender, querem evitar os erros do passado. Mas sem referências claras, acabam muitas vezes por evitar o confronto necessário. E isso não reduz o problema. Adia-o.

Á auto-regulação é um recurso que se treina e se esgota. Uma criança que não é treinada para esperar, insistir e lidar com desconforto não desenvolve essa capacidade espontaneamente.

O que isto exige não é mais pressão sobre professores nem mais culpa sobre pais. Exige alinhamento.

Alinhamento em três níveis práticos

Primeiro, linguagem comum
A criança não pode ouvir uma coisa na escola e outra completamente diferente em casa. Regras básicas, como esperar, ouvir e terminar tarefas, têm de ter o mesmo significado nos dois contextos.

Segundo, expectativas realistas
Nem tudo é negociável. Nem tudo é emocionalmente confortável. Aprender implica esforço e algum nível de frustração. Quando isto é assumido por ambos os lados, a criança deixa de viver em conflito constante.

Terceiro, relação com intenção
A relação não substitui a exigência. Sustenta-a. Um professor que estabelece uma ligação clara com o aluno aumenta a probabilidade de adesão. Um pai que combina afeto com limites claros reduz a ansiedade da criança.

Alfredo Leite

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