Escolas encerradas e a tentação do nivelamento por baixo
O Governo acabou de proibir todas as aulas não presenciais no ensino básico e secundário. Oficialmente, a medida vigora apenas durante 15 dias, embora quase todos saibam que a suspensão vai durar mais tempo. A proibição de aulas virtuais não vale apenas para o ensino público. O Ministro da Educação avisou: o ensino particular à distância também vai parar; “a interrupção é para todos”.
A decisão não surpreende. Ela está em linha com o preconceito ideológico que nos habituámos a ouvir. Todos assistimos à constante diabolização dos privados na área da saúde. Foi a guerra às PPPs. Hoje, é a alegada falta de colaboração dos hospitais privados no combate à covid-19 e a repetida ameaça da requisição civil. Agora, na educação, a mesma lógica leva a que a proibição de ensino à distância durante a suspensão das aulas presenciais se aplique a todos, públicos e privados.
Todavia, numa ordem constitucional fundada na liberdade, não basta proibir em nome do estado de emergência. Num Estado que reconhece a todos a liberdade de aprender e ensinar e que consagra o direito à criação de escolas privadas, escolas financiadas pelos pais tantas vezes com enorme sacrifício, é proibido proibir sem uma justificação forte, sobretudo porque o ensino à distância não envolve qualquer risco de contaminação.
Não basta, para o efeito, criticar os privados, como faz o ministro da Educação, por estarem sempre a “ziguezaguear para fazer diferente”. É que aquilo que carateriza uma ordem de liberdade é, justamente, a possibilidade de fazer diferente.
Tão-pouco vale argumentar que, afinal, aquilo que o Governo pretende é tão-somente impedir que as aulas à distância substituam as aulas presenciais. A medida aprovada pelo Governo não é essa. A proibição, tal como foi publicitada, é absoluta, interditando qualquer ensino virtual, ponto final.
Restam as razões de igualdade. Desde logo, porque, como o Governo confessa, os prometidos computadores para os alunos mais carenciados não chegaram a tempo e, por isso, enquanto os portáteis estão a caminho, é preciso assegurar a igualdade entre todos os alunos do público e do privado. Ou porque, tendo o Governo recusado teimosamente até há poucos dias um novo fecho das escolas e não se tendo preparado para a terceira vaga, o ensino público não consegue iniciar desde já as aulas virtuais e, por isso, os alunos das escolas privadas, ainda que devidamente apetrechadas para o efeito, não podem ser beneficiados.
Numa sociedade livre, porém, o nivelamento por baixo em nome da igualdade é inaceitável. A criação de igualdade de oportunidades não pode impedir a diferenciação pela positiva construída em liberdade. Construída em liberdade, neste caso, por todos aqueles que, sem qualquer apoio do Estado, apostam na escola privada, suportam os encargos mensais respetivos e preferem as aulas à distância para os seus filhos em vez de umas férias intercalares de inverno impostas pelo Estado.




11 comentários
Passar directamente para o formulário dos comentários,
Só espero que , no próximo ano, também se lembrem dos alunos dos privados quando entregarem os Manuais gratuitamente, ou os PC.
A sorte é que não vão precisar, uma vez que neste momento já estão apetrechados para o E@D ;D
Os privados podem ter aulas online a título de reforço. O que não pode é essas aulas contarem como dias letivos.
Concordo em absoluto com a sua opinião.
Curioso que cada pessoa interpreta o acontecimento em função dos seus interesses pessoais ,diria mesmo, neste caso, comerciais.
Supondo que os alunos sujeitos a exame nacional não deverão ter todos as mesmas oportunidades e condições de trabalho?
O estado que recebe o dinheiro de todos os contribuintes não deverá zelar e redistribuir por todos os estudantes? Se não houver condições para tal… não deverá permitir que haja desigualdades no acesso ao ES.
Neste texto, é evidente uma grande preocupação pela perda de receitas das chorudas mensalidades pagas pelos alunos aos colégios. O negócio está mal para todos os comerciantes e empresários ( também do ensino).
É a distopia educativa socialista .
Concordo totalmente. Este ministro tem ideologia comunista, não deixa os alunos que felizmente até podem continuar a aprender, prefere que ninguém continue as aprendizagens por culpa dele próprio. É agora está à espera, certamente, que os professores usem os seus computadores e net. Os professores que não vêem o seu ordenado aumentar há muito tempo. Aumentam o ordenado mínimo, e muito bem, mas o nosso não. Qualquer dia já sabem qual vai ser o nosso ordenado. Quem paga computadores danificados no ensino à distância do primeiro confinamento? Conheço colegas a quem isso aconteceu.
Rafaela, há a possibilidade de usarem os pc’s e a net da escola.
Os gastos da net e outros deveriam ser deduzidos no IRS
E@D, isso será possível se só alguns professores forem para a escola,, o que é o mais certo, pois o quadro docente é envelhecido e os docentes têm, com razão, receio da covid. Se todos formos lecionar nos computadores da escola, a Internet aguenta? O governo podia dar um subsídio a cada docente para as despesas com Internet, computador e electricidade. Seria o mais justo, pois valorizava a disponibilidade dos professores usarem os seus recursos para o funcionamento das escolas nestes tempos difíceis.
Não há PC+micro+acesso à net? Trabalha-se na escola. «Ai que não dá para todos»? Não mostres a trombeta nas videoconferências, ou já te esqueceste do RGPD? ou o direito à imagem é só para os alunos? Vais ver como a largura de banda aguenta. «Ai que fui fazer as unhas e o cabelo»? Arranja mais que fazer.
Vaca, escolheste bem o teu nick.