O presente Ano Lectivo iniciou-se com uma “mensagem de Fé” do Governo, corroborada e subscrita pela maioria d@s Director@s: as escolas estavam muito bem preparadas para enfrentar a pandemia e o ambiente que se vivia dentro das mesmas era de absoluta e inabalável serenidade e tranquilidade…
Muitas palavras de coragem e valentia proferidas por quem, afinal, não saía dos respectivos Gabinetes, nem abdicava do conforto proporcionado pelos mesmos…
Em Setembro passado, já se faziam ouvir vários anúncios e avisos, nomeadamente da OMS e de muitos epidemiologistas, sobre uma muito provável segunda vaga de contágios, porventura mais forte e com efeitos mais devastadores do que a primeira.
Perante isso, o que fez o Governo Português? Ignorou tais advertências e mandou o Ministério da Educação emitir um conjunto de medidas sobre o funcionamento das escolas que, grosso modo, contrariaram ou violaram praticamente todas as normas e regras sanitárias instituídas e vigentes em todos os outros organismos públicos ou noutras entidades com a função de atendimento ao público…
Ou seja, as escolas estiveram cerca de 5 meses a funcionar em evidente incumprimento, quando comparadas com os restantes serviços públicos… A impossibilidade, objectiva, de distanciamento físico entre alunos dentro das salas de aula foi disso o mais flagrante exemplo… Perante tais atropelos, promovidos pelo próprio Ministério da Educação, que deliberações foram expedidas pel@s Director@s? Quant@s Director@s se insurgiram contra essa realidade e quant@s exigiram ao Ministério da Educação a sua alteração ou a sua revogação?
Depois tivemos um Natal como se não existisse pandemia, com o assentimento e o Alto patrocínio do próprio Governo… Alguns, não poucos, avisaram e alertaram para as consequências futuras e nefastas de um Natal nessas condições, mas o Governo, persistindo na sua acção errática, também não os ouviu… E a (falsa) sensação de confiança e de segurança, incutidas pelo próprio Governo aos seus concidadãos, teve afinal os resultados que agora conhecemos…
No presente, temos as escolas fechadas, não por genuína vontade do Governo, mas por força dos números trágicos de infectados e de óbitos a que chegámos e por força das inúmeras pressões, vindas sobretudo da comunidade científica…
Para o período de tempo relativo ao encerramento das escolas, o Governo, inesperadamente, ou talvez não, abdicou do E@D e considerou esse interregno como “férias escolares”. E porquê? Porque durante os últimos 6 meses, não conseguiu apetrechar as escolas com um número suficiente de computadores, de forma a disponibilizá-los a todos quantos deles precisariam, nem conseguiu concretizar qualquer plano digital…
Na véspera de ser decretado o encerramento das escolas, chegou a algumas delas a indicação de um conjunto de formalidades a cumprir, nomeadamente a declaração de consentimento informado, no sentido de se realizarem testes rápidos de rastreamento de covid a alunos e a pessoal docente e não docente…
No mínimo, parece uma acção despropositada e a destempo por parte do Governo…
Se existisse a convicta intenção de realizar esses testes nas escolas, a altura mais apropriada e pertinente para que tal se concretizasse deveria ter sido logo a partir do passado mês de Setembro. E se tal tivesse sido feito atempadamente, e de forma regular em cada escola, talvez se tivesse conseguido evitar, agora, o fecho das escolas…
Mas, não. A opção escolhida pelo Governo foi a mais fácil, mas também a mais ardilosa: ir mascarando, com a conivência e a cumplicidade de muit@s Director@s, o número real de contágios em cada escola e omitir, perante a opinião pública, e até ao último instante, a situação de calamidade que se foi acentuando em todas as escolas do país, ao longo do 1º Período Lectivo…
Nos próximos tempos, adivinha-se o regresso do E@D. Os profissionais de Educação estarão dispostos a utilizar, mais uma vez, os seus meios tecnológicos para poderem trabalhar?
A classe docente não tem conseguido, nos últimos anos, demonstrar a capacidade de união nem de firmeza e esse é talvez o seu maior desafio no futuro mais próximo… Mas, e para ter sucesso, a atitude de firmeza não pode ser demonstrada, em cada escola, apenas por uma ou duas “ovelhas negras” que se rebelaram e resolveram ser consequentes, corajosas e, sobretudo, desviantes… As escolas não lidam bem com “ovelhas negras” e quando surge alguma costuma ser apontada e, até mesmo, banida pelas restantes, todas tão alvas como a neve… A lã das ovelhas brancas é muito mais fácil de tingir com os pigmentos pretendidos, sendo, por isso, as predilectas d@s Director@s…
E se não existirem tantas “ovelhas negras” quantas as necessárias para deixarem de o ser, continuará tudo na mesma: submissão, silêncio, resignação e acomodação ao ritual…
Se isto servir de alento para alguém, não nos esqueçamos que Fernão Capelo Gaivota (Richard Bach) também foi afastado e proscrito pelo seu bando por ser diferente e não comungar dos mesmos objectivos, mas conseguiu, ainda assim, ou talvez por isso, aprender a voar muito mais e muito melhor do que qualquer outra gaivota…
Por todos os motivos anteriormente apontados, o encerramento das escolas é uma derrota inequívoca para o Governo, apesar de haver quem, deliberadamente, queira confundir o Governo com o País… Trata-se, obviamente, de uma tentativa de desculpabilizar e de escamotear os erros crassos do Governo na gestão da pandemia, generalizando o fracasso, estendendo-o e disseminando-o por todos os cidadãos… Mas quem toma decisões e detém o poder executivo em termos nacionais não é o cidadão comum, mas antes os membros do Governo, em particular o 1º Ministro… Algum desses membros se demitiu, assumindo a respectiva responsabilidade política pelos erros cometidos?
O País está refém de um Governo que se tem mostrado incapaz de antecipar e de prever consequências, centrando-se quase sempre numa perspectiva meramente remediativa e em medidas tomadas a jusante dos problemas; que persiste repetidamente nos mesmos erros, esperando sempre que a desgraça aconteça para só depois intervir; e que não tem a humildade de ouvir, preferindo ignorar e persistir na sua obstinação… O Bem comum é desprezado, o que importa são os desígnios políticos, contra tudo e contra todos, se for preciso…
Lamentavelmente, quase 47 anos de regime democrático parecem não ter sido ainda suficientes para que alguns conseguissem compreender o significado do principal âmago da Democracia: “um governo do povo, pelo povo e para o povo” (Abraham Lincoln)…
De obstinação em obstinação, de incompetência em incompetência, chegámos ao momento, absolutamente vergonhoso e hediondo, em que Portugal ocupa o lugar de pior país do Mundo, em termos de taxa de infecções e de mortalidade por milhão de habitantes…
Nessas circunstâncias, dá-se espaço e argumentos àqueles que sabem muito bem como aproveitar e capitalizar o descontentamento geral para fazer passar uma mensagem populista, eivada de radicalismo anti-democrático e de intolerância… O discurso é quase sempre simples e directo; repete-se continuamente aquilo que alguns querem ouvir; e cria-se uma espécie de novo “ópio do Povo”…
E a resposta aos extremismos ideológicos, intrinsecamente pautados pelo dogmatismo e pelo fanatismo, não pode deixar de ser esta: “devemos reivindicar em nome da tolerância, o direito de não tolerar o intolerante” (Karl Popper).
Nunca, como agora, fizeram tanto sentido estas palavras de José Régio: “Não sei para onde vou, sei que não vou por aí!”…
Nota: Este texto corresponde a uma tentativa, mais ou menos desesperada, de sublimar determinados impropérios que vieram ao pensamento, transformando-os em algo um pouco menos ofensivo…
(Matilde)