Libertem a Escola! – Ana Lúcia Ferreira

 

Libertem a Escola!

O arquétipo da complexidade, aliado à incerteza e imprevisibilidade, mais do que nunca, qualifica a sociedade dos nossos dias. O que é facto é que, no decurso da nossa vida, não somos treinados para conviver com a complexidade e com o risco, no seio de cenários incertos e imprevisíveis.

Esta situação de pandemia em que vivemos, veio demonstrar-nos que nem tudo podemos controlar, mas também que, ainda assim, devemos unir esforços e seguir em frente, despertando em nós sentimentos coletivos.

Talvez esta premissa durhkeimiana seja a pedra basilar de uma civilização,  na medida em que, existindo em sociedade, existimos muito para além de nós próprios. Efetivamente, a consciência coletiva é uma espécie de sistema com vida própria, conducente à coesão, fundamental para que não caiamos num estado de anomia social.

Cada vez mais, perante a complexidade crescente, geradora da incerteza, é necessário agir sobre o risco, envolvendo todos e cada um, através da cooperação e da corresponsabilização que se aprendem desde tenra idade em múltiplos espaços, nomeadamente na escola. Sendo a Educação uma prática social por excelência, a escola, enquanto palco privilegiado de construção do indivíduo, definição da conduta socialmente aceite e meio de mudança social, tem um papel preponderante na construção do individual em prol do coletivo.

Na verdade, a escola é, essencialmente, um espaço de compromissos e desafios, que,no século XXI deverá desempenhar o papel de “moderador”, uma vez que na era da informação massificada, saber selecioná-la assume particular importância. Os professores, enquanto moderadores principais no processo de aprendizagem, revelam-se como absolutamente insubstituíveis na construção de uma escola (mais) democrática e inclusiva, onde se aprenda a questionar e a (re)criar laços de empatia para com o outro, num jogo dialético entre razão e emoção, onde a cooperação seja a palavra de ordem e de acordo com as idiossincrasias de cada um. No entanto, para desenvolver e operacionalizar o trabalho cooperativo é preciso tempo. Tempo que é escasso para as escolas, envoltas em atividades burocráticas impostas por quem manda por direito, mas que não tem cumprido o seu dever – a valorização efetiva da Educação.

Não chega definir o enquadramento legal relativo à autonomia e flexibilidade curricular que  apenas dá margem para uma negociação ao nível da estratégia interna. É necessário apoio efetivo ao nível das políticas educativas, assente num melhor e maior investimento, contrariando o politicamente correto a reboque de impulsos eleitorais descontínuos. A sustentabilidade do investimento, nesta matéria, é uma emergência nacional que implica priorizar, efetivamente, a Educação. Para isso, é de todo importante valorizar devidamente os recursos humanos envolvidos no processo de ensino e aprendizagem, para que possam concretizar a essência da sua função – a formação de cidadãos livres, ativos e conscientes dos princípios de cidadania que em muito contribuem para a coesão e justiça social. Neste sentido, há que escutar a escola, o espaço por excelência de interpretação da vida social, criando espaços de diálogo e percecionar, no terreno, os seus verdadeiros problemas para que se possam enfrentar os múltiplos desafios que o futuro coloca.

Neste momento em que vivemos, é tempo de avaliar o que se sente em espaço escolar e não tanto o que se sabe.

Mudemos, de forma efetiva de paradigma, interagindo dialogicamente, celebrando a diversidade, traduzindo-a em riqueza, evolução e conhecimento, pois só assim estaremos a promover a existência de uma escola de todos e de cada um. Criemos um espaço em que se possa olhar para as disciplinas de modo “indisciplinado”, onde a interdisciplinaridade seja uma realidade, valorizando e potencializando a individualidade, incluindo cada um no seu processo de aprendizagem.

Urge libertar a escola, que se encontra manietada a conteúdos curriculares que pouco mudaram ao longo dos anos e, sobretudo, a metas alicerçadas num sistema de avaliação obsoleto que condicionam todo o processo educativo, sob pena de se continuar, conscientemente, a hipotecar o futuro das gerações vindouras e, consequentemente, o futuro de todos nós.

Urge valorizar a importância do brincar no desenvolvimento psicossocial das crianças e jovens, constituindo um alicerce essencial da cultura humana, para que o mesmo possa ser, efetivamente, potenciado e valorizado no sistema de ensino. O brincar reveste-se de uma importância particular, pois, para além de fomentar o pensamento crítico e reflexivo, contribui para o desenvolvimento de competências socioemocionais e habilidades psicomotoras, promovendo a vinculação social e, naturalmente, a inclusão.

Só assim, a formação integral de cada um e a tão decretada escola inclusiva deixarão de ser uma miragem.

Libertar a escola, para que possa ser um espaço efetivo (e afetivo) de aprendizagem, do saber pensar, do saber saber, do saber fazer, do saber estar e, sobretudo, do saber ser!

 

Link permanente para este artigo: http://www.arlindovsky.net/2021/01/libertem-a-escola-ana-lucia-ferreira/

2 comentários

    • Alecrom on 4 de Janeiro de 2021 at 10:52
    • Responder

    O estrebuchar de quem não consegue passar da maledicência?

    • Roberto Paulo on 4 de Janeiro de 2021 at 17:51
    • Responder

    Realmente, a quem interessa aprender Fernando Pessoa?

    Ocupem essas horas (3? 4?) com «e-jogos», visto que o pião, o prego e a macaca estão arcaicos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Seguir

Recebe os novos artigos no teu email

Junta-te a outros seguidores: