Elogios de Crocodilo

Por estas e por outras em breve darei início a uma petição sobre este assunto. Fica aqui texto do Mário Silva para publicação no blogue.

 

Estava com o papel na mão com olhar circunspecto e exclamou:

– “bem, com sorte, o 9º escalão será o topo da carreira!…”

Mas a exclamação vinha carregada de desilusão, em vez de regozijo, já que chegar ao 9º e 10º escalão é agora para uma minoria pequenina. A sua vizinha retorquiu: “ainda tens hipótese de chegar ao 9º mas para mim o topo será o 6º escalão!…”

Ambas seguravam o documento com o registo da classificação da ADD, e em ambas estava escrito no cabeçalho respetivo de cada uma:

– “Classificação- 8,7 e 8; Menção- Bom. Nota: atribuída menção de Bom por inexistência de quota”.

E qual era o escalão em estavam quando foram avaliadas? Uma no 6º e a outra no 4º. Nesse momento compreendi a angústia horrível que assaltou aquelas professoras: iam ser atiradas para a longa lista de espera da progressão para o 7º escalão e 5º escalão. E a agravar essa angústia, tinham tido aulas observadas com classificação de 9…!

Mas porque é que uma afirmou que o 9º seria o topo da carreira na melhor das hipóteses, em vez do 10º, e a outra o 6º escalão?

Porque a que está no 6º escalão tem 55 anos, e na hipótese mais otimista, se ficar 4 anos na lista, irá progredir com 59 anos para o 7º escalão, depois com 63 anos a entrar no 8º e 67 anos para entrar no 9º. Se quiser entrar no 10º escalão, terá de trabalhar até aos 71 anos!… E querendo usufruir do 10º, trabalhará até aos 75 ou mais…!

A que está no 4º escalão com 52 anos, se na hipótese mais otimista, ficar 4 anos na lista, irá progredir com 56 anos para o 5º escalão, depois com 58 anos a entrar no 6º e 62 anos para entrar no 7º. Se tiver sorte e não ficar na lista de espera, aos 66 anos está a entrar no 8º, 70 anos no 9º e 74 anos no 10º. Querendo usufruir do 10º, trabalhará até 79-80 anos…!

Quem acha  exequível com 70 e tal anos lecionar no ensino básico e secundário?

Na versão pior, em que se fica mais de 4 anos na lista,  a que está no 6º escalão no máximo chegará ao 8º escalão com mais de 63 anos e a do 4º escalão ficará pelo 6º/7º escalão com 60 e tal anos…

Ou seja, não têm tempo de vida útil laboral para chegar ao 10º escalão (e provavelmente, nem ao 9º).

Aliás, é fácil de fazer as contas até para casos com menos idade e mais frequentes: um docente que tenha agora 52 anos de idade e tenha conseguido entrar no 6º escalão, não tem esse tempo de vida útil laboral para chegar ao topo da carreira. As contas são simples, mesmo pressupondo que é um(a) sortudo(a) que não fica na lista de espera de vaga para o 7º escalão: aos 56 anos entra no 7º, aos 60 entra no 8º, aos 64 entra no 9º; vai trabalhar até aos 68 para poder entrar no 10º e depois se quer usufruir do salário do 10º continua para além dos 70 anos…!

A maioria gigantesca dos docentes estão nesta situação desde que em 2018 se retomou a progressão na carreira, e confrontam-se com injustiças insuportáveis:

– docentes com o mesmo tempo de serviço e mesma idade, em que um está no 9º escalão e o outro no 6º;

– docente com menos tempo de serviço que o outro e está um escalão acima;

– docente que ao abrigo do reposicionamento ultrapassou outros com mais tempo de serviço;

– docentes com aulas observadas com classificação de Excelente e é atribuída menção de Bom por inexistência de quota, enquanto outro com avaliação exclusivamente interna teve quota para Muito Bom, não tendo de ficar na lista do 4º ou 6º escalão.

– docente na Madeira e nos Açores não está sujeito a abertura de vaga para subir ao 5º e 7º escalão (portanto, havendo professores portugueses de 1ª categoria e outros de 3ª categoria…).

A angústia horrível é porque se confrontam com uma condenação definitiva da perda de qualidade financeira e consequente perda de qualidade de vida, com a agravante de no futuro serem tremendamente penalizados no valor da pensão de reforma, que provavelmente os colocará numa classe de pré-pobreza na velhice. Esta situação desmotiva totalmente o docente, criando um estado psico-emocional de desânimo, que poderá se refletir no seu desempenho profissional, afetando inevitavelmente os alunos, cujos efeitos não se verão a curto prazo (amanhã, daqui a uma semana ou mês) mas daqui a uns anos. Como o cientista António Damásio demonstrou, a produtividade intelectual está condicionada pela inteligência emocional, e esta é seriamente comprometida quando se instala o desânimo no individuo. Por isso, é nojenta a hipocrisia da comunicação do Diretor-Geral dos Estabelecimentos Escolares enviada às escolas por causa da interrupção forçada, em que afirma “Contamos, como sempre, com o elevado profissionalismo e sentido de missão dos profissionais da educação”. A estratégia maquiavélica do ME foi sempre usar os alunos como reféns emocionais contra as reivindicações justas dos docentes e estes não tomam posições mais duras porque não conseguem prejudicar os alunos. Acrescentando que também não existe corporativismo, que neste caso seria fundamental, então está criado o ‘caldo’ para a destruição da carreira de 75%-80% dos docentes, ficando reservada à minoria a passagem da barreira do 6º escalão e chegada ao 10º escalão. Se querem contar com esse elevado profissionalismo de forma genuína, então não destruam a vida financeira dos profissionais, esperando que sejam missionários, porque a missão não contribui para a qualidade de vida material necessária a um bom desempenho.

Na proposta de alteração do ECD em 2008, a carreira era dividida em 2 classes de docentes: os titulares e os professores(zecos). Esta proposta foi uma das causas de guerra feroz com o malfadado governo socialista dessa época, porque só os titulares é que podiam progredir para além do 8º escalão, sendo uma minoria a que conseguiria fazer isso; a gigantesca maioria dos outros aposentava-se no máximo no 8º escalão. Os sindicatos reivindicaram uma vitória essa propostas não ter ficado no ECD, mas o governo espertalhão, criou um mecanismo que na prática manteve a proposta: as quotas e vagas. E assim, não existe no ECD a nomenclatura de titular, mas, ironicamente, na prática só uma minoria é que pode progredir para além do 8º escalão…

Um motivo importante para que se tivesse instalado esta injustiça tremenda, é a estrutura da carreira, que está deformada desde a sua criação: uma progressão vertical remuneratória sem distinção funcional, em que a idade e tempo de serviço é que são os parâmetros distintivos. Isto leva a que, no mesmo grupo de recrutamento, haja 2 docentes que lecionem os mesmos níveis de ensino, executem rigorosamente a mesma função, mas um tem um salário €300 líquidos mais elevado que o outro…! Não é respeitado o principio de “trabalho igual, salário igual” que tanto se reivindica, mais frequentemente na diferença entre homens e mulheres. A progressão na carreira não se fundamenta na distinção funcional mas na idade e tempo de serviço; a situação manteve-se durante décadas pacificamente porque se baseava no principio “Hoje tu, amanhã eu”, isto é, o docente mais novo sabia que, desde que cumprisse o seu dever com profissionalismo, iria progredindo até ao topo da carreira, tal como aconteceu com o seu colega mais velho; e portanto, “hoje ganho menos €300 líquidos do que tu mas no futuro sou eu que os vou ganhar”. Com a criação das quotas e vagas no 4º e 6º escalão, gera-se uma situação muito desconfortável: executar a mesma função, com idade aproximada, mas haver uma diferença salarial de centenas de euros; isto é um ingrediente para gerar sentimento de injustiça e conflitualidade, que cresce porque o principio “ganha mais, tem de trabalhar mais” começa a ser exigido pelos que ganham menos.

É demasiado evidente que a estrutura da ADD e da carreira foi criada exclusivamente para impedir que 75%-80% dos docentes progridam para além do 6º escalão, podendo existir a eventualidade de alguns conseguirem chegar ao 7º ou 8º escalão no momento da aposentação. Inevitavelmente ocorrerá o desânimo e desmotivação, com repercussão no processo de ensino-aprendizagem.

As ações que devem ser executadas para eliminar esta situação execrável são conhecidas: recuperação dos 6 anos de trabalho que não foram reconhecidos, a eliminação das vagas para o 5º e 7º escalão e/ou a eliminação das quotas da menção de mérito Excelente e Muito Bom.

Com este cenário atual, que não se vislumbra ser alterado, porque vai existir sempre uma crise económica ou uma pandemia ou uma catástrofe que justificará não aumentar o orçamento, todas aquelas declarações públicas dos governantes e seus apaniguados de incentivo em relação aos docentes, soam a ‘elogios de crocodilo’…

Link permanente para este artigo: http://www.arlindovsky.net/2021/01/elogios-de-crocodilo/

17 comentários

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    • António on 23 de Janeiro de 2021 at 20:54
    • Responder

    Acrescentar:

    Avaliadores externos terão que estar posicionados em escalão “igual ou superior” aos avaliados, diz o normativo.

    No entanto, apesar de serem de Agrupamentos diferentes e não concorrerem entre si, nas mesmas quotas para as menções internas de Muito Bom e Excelente, são OPOSITORES DIRETOS às vagas de acesso aos 5.º e 6.º escalões.

    Isto está a acontecer, NÃO PODE, no âmbito do CPA, mas ninguém fala nisto.

    Avaliadores externos, posicionados nos 4.º ou 6.º escalões não poderão observar aulas de avaliados posicionados nesses mesmos escalões.

    • Ana on 23 de Janeiro de 2021 at 21:55
    • Responder

    ” … docentes com aulas observadas com classificação de Excelente e é atribuída menção de Bom por inexistência de quota, enquanto outro com avaliação exclusivamente interna teve quota para Muito Bom, não tendo de ficar na lista do 4º ou 6º escalão” … ora explique lá melhor como é que o com avaliação exclusivamente interna e Mto Bom progride e o com aulas observadas e excelente não progride, por falta de cota??? É que enquanto houver cotas de Excelente e Mto Bom são sempre atribuídas aos com avaliação externa , que têm prioridade nas cotas em relação aos de avaliação interna!!

      • Fernando, el peligroso de kas verdades. on 24 de Janeiro de 2021 at 0:17
      • Responder

      Ó Ana, isso é fácil. É em 2 escolas, diferentes que isso pode acontecer. Na mesma, não!

        • Maria on 24 de Janeiro de 2021 at 0:40
        • Responder

        Se houvesse mais homens no ensino e não este enorme mulherio (a maioria a viver à custa dos maridos) , já tudo isto tinha mudado….a maioria das professoras só precisa do ordenamento para as roupinhas….são os maridos ( médicos, advogados, gestores) quem sustenta a casa e os filhos.
        É uma pena que seja assim, mas é, infelizmente, a verdade. Eu ando nisto há 40 anos e sei bem do que falo!

          • Anabela Ferreira Sá Santos on 25 de Janeiro de 2021 at 20:15

          Concordo! Nunca vi uma classe tão submissa e sem valores de abril.

    • maria on 23 de Janeiro de 2021 at 22:10
    • Responder

    “– docente na Madeira e nos Açores não está sujeito a abertura de vaga para subir ao 5º e 7º escalão (portanto, havendo professores portugueses de 1ª categoria e outros de 3ª categoria…).”-propaganda enganosa tudo pura mentira, pelo menos na Madeira, tive Bom no 6º escalão ,que na teoria não há quotas para passar para o 7º escalão, deveria passar em janeiro de 2020, estamos em janeiro de 2021 e continuo no 6º….

      • maria on 24 de Janeiro de 2021 at 11:18
      • Responder

      Uma “outra ” maria escreveu aqui um comentário que – ainda – não foi publicado. Que passa ?

    • Fernando, el peligroso de kas verdades. on 24 de Janeiro de 2021 at 0:22
    • Responder

    Estamos perante um texto palhaço!
    Os catedráticos só podem ser alguns. Nas universidades poucos chegam ao topo.
    O problema é que há Babás que chegaram a catedráticas no básico, por culpa do Guterres que deu aqueles cursos manhosos. Esse Guterres devia ser julgado oelos crimes cometidos nesta matéria das Babás.

    • SapinhoVerde on 24 de Janeiro de 2021 at 8:16
    • Responder

    Para trabalho igual salário igual. Se um professor tem x anos de serviço mas não está nos quadros, e outro tem os mesmos x anos de serviço mas está nos quadros o salário é diferente. Acabemos com esta discrepância.
    Depois e mesmo dentro dos contratados existe diferença, para a mesma função e horas o ordenado é diferente conforme se trate de grupo de recrutamento ou “TECNICO AFILHADO” (Também conhecido por técnico especializado). Acabe-se de uma vez por todos com os técnicos afilhados e tudo por Grupo de Recrutamento.
    Os afilhados têm muito bom ou excelente, os que se preocupam em trabalhar apenas têm bom. Não sou dos que compram bolos do que fazem festas e outras coisas tais…, por isso e apesar de ser sempre pelo menos muito bom, sempre fui para o bom por causa das quotas (que na realidade foi por falta de festarolas e bolekos …)
    As quotas para os efetivos é um motivo de exclusão … quem não sabe fazer bolos e festarolas é que não progride, mas quem trabalha e faz as coisas é que se lixa.

    • maria on 24 de Janeiro de 2021 at 10:11
    • Responder

    Ainda não descortinaram as aberrações que a abjecta Carreira Única ,única no mundo ,criou ? Não sabem que a “carreira” trata por igual o que é gritantemente desigual? Não repararam ainda que, entre docentes com idades iguais ou aproximadas, os que têm escassíssimas habilitações e vida flauteada estão escandalosamente posicionados em escalões superiores, deixando os que trabalham, que têm responsabilidades e estudaram a sério a “ver navios” ?
    Façam um pequeno exercício : 1- vejam, no vosso agrupamento ou escola, em que lugar se encontram os “professores ” de trabalhos manuais, os instrutores de ginástica, as babás, os agentes técnicos e contabeleiros, os que vigiam crianças deficientes e outros da mesma estirpe ; 2- comparem-nos com os que possuem um curso universitário (pré – Bolonha) e trabalham no duro, incluindo em casa ao fim de semana. Que tal?
    Depois, como o dinheiro não estica, temos esta insuportável “inversão de valores” .

      • Lucas on 24 de Janeiro de 2021 at 12:41
      • Responder

      Escusas de gritar que isso já não se muda… Anda para a frente.
      Já enjoada.

        • maria on 24 de Janeiro de 2021 at 14:19
        • Responder

        Lucas
        Embora com o maior enjoo e desprezo, não posso “andar para a frente ” . Nunca é de mais ( não demais) denunciar tamanha aberração!

      • gin on 24 de Janeiro de 2021 at 15:32
      • Responder

      maria dou-te 10 a 0 em educação…por isso baixa a bolinha e deixa-te estar no 4º escalão que já é mt pra ti, pelo que leio! Achas-te melhor que as babás?! Aliás, eu aqui com o meu major em física quântica nem te devia responder porque nem mereces resposta fundamentada sequer!

        • Fernando, el peligroso de kas verdades. on 24 de Janeiro de 2021 at 16:04
        • Responder

        Olha mais uma Babá a enfiar a carapuça!

      • Alves on 24 de Janeiro de 2021 at 16:34
      • Responder

      Tanta léria, mas pareces uma miséria (na escrita da Língua Portuguesa).

      Ao menos, devias saber escrever e colocar a pontuação no sítio certo, com coerência. Analfabeta, sem tempero!

      Queres chegar ao 10.º? Trepa. É o que fazem as macacas.

        • Fernando, el peligroso de kas verdades. on 24 de Janeiro de 2021 at 23:21
        • Responder

        Ó Alves, explica lá isso melhor:
        As macacas dão a macaca para subir?
        É pá, isso deve ser do baril lá nos teus lados.

    • Maria on 28 de Janeiro de 2021 at 14:10
    • Responder

    Deixem lá os escalões e mais escalões, porque já há cerca de dezoito anos ou mais que há gente contratada e que não sobe de escalão, o que no mínimo é injusto. Começa logo na barbaridade do tamanho, geograficamente falando, dos QZP s para qualquer contratado que sonhe pertencer a um quadro. Depois, há a hipótese de um contratado sair do índice 167 para o 188 mas caso seja colocado com horário completo e anual perfazendo 1461 dias (4 anos) (artigo 43º do Decreto-lei nº 132/2012). Pasme-se, quem tem 6 mil e tal dias continua no índice 167 porque não teve a sorte de conseguir horário completo e anual e ser reconduzido. Para o legislador valem mais 1461 dias do que 6 mil e tal após a profissionalização. Acho que andamos todos a dormir e não há uma Ordem do Professores que os defenda. Há sindicatos, demasiados direi, que vão dizendo qualquer coisinha conforme as conveniências.

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