Professor, colega, sindicaliza-te – João André Costa

 

À chegada perguntaram-me se já fazia parte de um sindicato. A resposta foi a de um surpreso “não”: ainda mal começara a trabalhar e os meus dias no Reino Unido contavam-se pelos dedos de um par de mãos.
Para além do mais, e já se sabe, não deves fazer parte de um sindicato quando fazer parte de um sindicato é não só proibido, é também mal visto, o que irão os outros dizer, e equivalente a ter um alvo nas costas.
E na precariedade de quem trabalha dia a dia a fazer substituições em escolas, porquê incomodar as chefias?
Porque sim, retorquiram, porque lá fora, cá fora, ser sindicalizado é a condição de base numa profissão que apesar de em falta está sujeita às vontades sempre ávidas do liberalismo.
E assim, de repente, fazes parte, mesmo se não te sentes parte, mas já és bem-vindo e elemento integrante de uma classe orgulhosa de o ser.
E sim, em momentos de aflição quando por razões difíceis de compreender vi a minha posição profissional questionada e em causa não hesitei em recorrer ao sindicato para aconselhamento profissional, legal, pessoal.
Num mundo onde apesar da pandemia as crises sucedidas em catadupa não são senão a eterna coincidência de quem vê nas mesmas uma oportunidade para cimentar ainda mais a precariedade inerente não apenas à nossa profissão mas à vida, nunca como antes foi tão premente fazer parte de um sindicato.
Sem ter medo de fazer parte de um sindicato. Sem medo de represálias. Porque se fez greve. Porque nos olham de lado. Porque são sempre os mesmos que nos olham de lado, os que decidem, os que podem, os que mandam, os que obedecem às instâncias superiores que se aborrecem sempre que saímos à rua de punho erguido. Porque não somos bem-vindos. Nós, os despojados, banidos, espoliados, desprivilegiados. Temos de trabalhar para viver e, por conseguinte, somos um incómodo, uma chatice.
Quando em Dezembro um pequeno sindicato de 1300 membros levou à rua mais de 30000 professores, a matemática revela o óbvio de pelo menos 28700 professores não sindicalizados no S.T.O.P.
Farão parte de outros sindicatos? Alguns sim, a maioria duvido e as acções falam por si quando não se sai à rua em nome de outras uniões.
Contra o favorecimento, contra o nepotismo, contra a desigualdade, contra a precariedade, em nome dos nossos alunos e da escola, em nome da estabilidade, do reconhecimento, da carreira, do orgulho, da paixão a arder no peito ao fim do dia sempre à procura de respostas em nome dos olhos de uma criança.
Num Inverno de cada vez maior descontentamento, nunca como antes foram tão prementes a união e a força e por conseguinte, colega, professor, amigo, camarada, companheiro de luta, sindicaliza-te, faz-te representar e representa, defende os teus direitos, a greve é um direito, não trabalhar é um direito e ninguém é obrigado a trabalhar agora que os tempos da outra senhora já lá vão.
A greve é por tempo indeterminado, começa mas não acaba e nenhum trabalhador pode ser substituído quando exerce o seu direito à greve. Caso o façam, urge denunciar a ilegalidade ao sindicato, o mesmo sindicato que é a tua e a nossa voz e por todos fala.
Sim, serás o foco, o centro de todas as atenções e nas televisões a desinformação concomitante dos pais e alunos afectados por igual e nem uma palavra aos professores.
Não esmoreças, não te esqueças de que lado estás, um por todos e todos por um e hoje é mais um primeiro dia do resto da tua vida, o dia em que te juntaste, o dia em que passaste a ser um entre muitos, sindicalizado, aguerrido, de braço erguido na rua por detrás desta muralha de aço.

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4 comentários

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    • Rosa on 2 de Janeiro de 2023 at 15:21
    • Responder

    Os diretores têm a faca e o queijo na mão, fazem o que bem lhe apetece porque colegas com quem trabalhamos passam a mensagem errada a respeito de outros colegas!.. Trabalhei num agrupamento em que a direção chamava professores a pedir informações sobre outros, é feio, muito feio e conforme as perguntas, respondiam o que os diretores queriam ouvir por vezes mentiras. Os interrogados achavam-se os maiores, porque a direção confiava neles. Quando me faziam perguntas a mim a resposta era sempre a mesma, “desculpem, mas as coisas só são reais quando vistas com os próprios olhos”!… Quem tem culpa, todos, a grande falta de cultura e respeito pelo próximo!…

  1. Há coisas ainda mais iníquas. Imaginem a criação de um gabinete para resolver conflitos entre pares ,alunos vs professores,professores e professores,docentes e discentes…E quem está à frente? Uma psicóloga? Não . Uma colega de história (!)? da confiança da direção. Que forma criativa de estar presente e espiar, alimentar a intriga ,a malidicência,o desrespeito,a perseguição…

    • Maria Moreira on 4 de Janeiro de 2023 at 16:12
    • Responder

    Abriu-se a caixa de Pandora. Não devia ser a política a superintender a educação, devia ser a educação a superintender a política. Quando é a política a superintender tudo passa a funcionar como a política e a educação eclipsa-se.

  2. Há pais e mães que vos apoiam nesta luta que no final do dia é de todos. Alguns alunos, mesmo os mais novos, percebem ainda que por vezes com ajuda dos seus pais e mães o que é lutar por um presente e futuro melhores. Também percebem o que é tomar más decisões escudando-se na questão financeira, maus políticos, fraca ideologia.

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