A caminho da “digitalização da ignorância”…
O Ministério da Educação parece, cada vez mais, comprometido com a “digitalização da ignorância”…
De forma assumida, o IAVE tem procedido à “regulação” da dificuldade dos Exames, conforme declarações do seu Presidente em 26 de Dezembro de 2020, relativas ao modelo de Exames aplicado em 2020 e ao que se preconizava, nessa data, para o ano de 2021:
“O presidente do Instituto de Avaliação Educativa (Iave), Luís Pereira dos Santos, reconhece que o modelo usado nos exames nacionais do ensino secundário no último ano lectivo contribuiu para que fossem dadas notas demasiado elevadas” (Jornal Público em 26 de Dezembro de 2020)…
Referindo, ainda, na mesma publicação que: “As provas do 9º, 11º e 12º anos vão manter perguntas opcionais, como no ano passado, mas o nível de dificuldade das alternativas será semelhante para evitar classificações acima do normal”.
Como se não bastasse a existência de uma “regulação” que, pelas alegações anteriores, não pode deixar de se considerar como forçada e artificial, realizada anualmente pelo IAVE, relativa ao grau de dificuldade dos Exames e aos respectivos critérios de correcção, parece que teremos também o reforço de um modelo de Exames/Provas centrado em “cruzinhas”…
Comprovando o anterior, em 17 de Novembro de 2022, o Jornal Público noticiou que: “O Ministério da Educação confirmou esta semana que as provas de aferição do 2º, 5º e 8º anos de escolaridade obrigatória vão ser realizadas por todos os alunos em suporte electrónico”…
Ou seja, prevalecerão as Provas inteiramente digitais, ou se se preferir “de cruzinhas”, em que não será exigida aos alunos qualquer produção escrita…
Os Exames Nacionais e Provas de Aferição compostos apenas por questões de escolha múltipla, vulgarmente designados por Testes “de cruzinhas” ou “à americana”, não serão, com certeza, o mais adequado para os alunos, em particular para aqueles que se encontrem abrangidos pela Escolaridade Obrigatória…
Desde logo porque, em termos gerais, esse modelo de avaliação não parece estimular nem incentivar, e muito menos valorizar, o espírito crítico com recurso à capacidade de argumentação escrita…
A argumentação, oral ou escrita, pressupõe a exercitação do pensamento lógico e da capacidade reflexiva. No caso presente, se a argumentação for escrita, tal implicará que esse pensamento seja organizado num discurso coerente, o menos ambíguo possível e linguisticamente correcto…
Consequência do anterior, os Exames e Provas que apenas exijam respostas “de cruzinhas”, permitirão, com maior facilidade, escamotear e dissimular a eventual ausência de conhecimentos dos alunos sobre determinados temas ou a respectiva dificuldade em expor certos pontos de vista, contribuindo assim para a obtenção de resultados potencialmente enganosos e ilusórios…
Mas, e na verdade, talvez seja esse o derradeiro objectivo do Ministério da Educação:
– Pouco importará se os alunos sabem ou não escrever e falar correctamente ou se conseguem ou não reflectir e defender ou contestar determinados argumentos, o que efectivamente parece relevar será a obtenção de elevadas taxas de “sucesso”, ludibriando os próprios alunos, assim como os respectivos pais/encarregados de educação…
Face ao anterior, relativamente aos pais/encarregados de educação, também não pode deixar de se estranhar e de lamentar o silêncio e a inacção das Associações que supostamente os representam…
Incompreensível esse assentimento e essa conivência, perante o facilitismo que tem vindo a ser difundido pelo Ministério da Educação e pelo decorrente incentivo à ablação do pensamento crítico, que previsivelmente tornará os actuais jovens mais permeáveis e susceptíveis à manipulação por terceiros e à crença em falsas proposições…
O Ministério da Educação/DGE (Aprendizagens Essenciais/Cidadania e Desenvolvimento), espera que a escola prepare “os alunos para a vida, para serem cidadãos democráticos, participativos e humanistas”…
Mas, e de forma paradoxal e inconcebível, tudo isso poderá, afinal, resumir-se a um conjunto de “cruzinhas” que, no limite, até poderá corresponder a um número indeterminado de respostas dadas ao acaso ou de forma aleatória…
A facilidade com que a actual Tutela “diz e se desdiz” começa a ser verdadeiramente surreal e confrangedora…
Os Exames Nacionais/Provas de Aferição até poderiam contemplar perguntas de escolha múltipla, mas não deveriam abdicar de também considerar perguntas cujas respostas requeressem a elaboração de um discurso escrito coerente e lógico, idealmente sem vícios do ponto de vista linguístico…
A maior parte dos jovens que “consome” diariamente conteúdos propalados pelas redes de comunicação virtual como o Facebook, o Instagram, o WhatsApp, o Twitter, o TikTok ou o Youtube adopta, frequentemente, uma espécie de “linguagem alternativa”, marcada por um jargão próprio, onde abundam, por exemplo, abreviaturas, estrangeirismos e expressões idiomáticas…
Sem defender a ortodoxia da Língua Portuguesa e sem querer concebê-la como uma realidade rígida e imutável, se o contexto académico não prezar o domínio da mesma, falada e escrita, a interiorização dessa “linguagem alternativa” acabará por conduzir a uma amálgama linguística, sem regras e sem identidade…
Por outro lado, não poderá ignorar-se o número significativo de jovens universitários que apresenta dificuldades notórias, por exemplo, na redacção de documentos, nomeadamente ao nível da correcção ortográfica, o que denota um frágil domínio da Língua Portuguesa…
E nem o facto da Língua Portuguesa ser “muito traiçoeira” (Herman José em “Casino Royal”) poderá servir como justificação de tais dificuldades…
Se os Exames Nacionais/Provas de Aferição servirem apenas para “branquear” um Sistema Educativo obscuro e à deriva, à custa de um “sucesso contrafeito”, ficarão essas avaliações irremediavelmente desvirtuadas e vazias de qualquer sentido ou significado…
A ser dessa forma, restarão à Escola duas funções: por um lado, entreter e, por outro, legitimar a “digitalização da ignorância”…
A “doutrinação”, sob a forma de propaganda, de muitas “Formações Holísticas, Metafísicas e Transcendentais” e de profusos discursos “lírico-melosos”, costumeiramente hipócritas e patéticos, a fazerem lembrar a sensação de ter uma pastilha elástica colada ao sapato num dia tórrido de Verão, vão servindo para ludibriar e mascarar a realidade da maior parte das Escolas Públicas…
Mas dentro dessas escolas há crianças e jovens em processo de desenvolvimento e de formação…
Que modelos de aprendizagem psicossocial são disponibilizados a esses jovens por uma Educação Formal que, ao mascarar a realidade, dificilmente os preparará para a enfrentar?
Será legítimo exigir a esses jovens a responsabilidade e a maturidade esperadas em função da sua idade, quando os exemplos e referências que lhes são apresentados costumam ser maus e vir “de cima”?
“Eu sempre pensei que o objectivo da Educação era aprender a pensar por si mesmo”…
(John Keating, personagem interpretada por Robin Williams, no Filme “O Clube dos Poetas Mortos”)…
O actual Ministério da Educação faz de conta que esse também é um objectivo da Escola que dirige, mas na prática renega aos alunos a capacidade de “pensar por si mesmos”, em particular através da reflexão escrita, que tem vindo a ser desvalorizada e preterida pela própria Tutela…
Os absurdos e as contradições made in Ministério da Educação sucedem-se…
Os resultados obtidos pelos alunos nos Exames Nacionais/Provas de Aferição que ignorem a produção escrita e a reflexão crítica poderão ser considerados como dados significativos e fidedignos na avaliação do próprio Sistema Educativo?
Que valor terão dados estatísticos potencialmente obtidos de forma artificial, duvidosa e enviesada?
E a Escola lá continua a escamotear a realidade e a enganar os jovens, com toda a desfaçatez…
Dando azo ao sarcasmo, também continua o inestimável contributo do Projecto MAIA que, em vez de simplificar a avaliação dos alunos, veio adensar ainda mais algumas trapalhadas e contribuir para a fantasia reinante, fundamentando-se em pressupostos teóricos inconcretizáveis em termos práticos e ignorando as condições humanas e materiais existentes na maioria das escolas…
Dando azo ao sarcasmo, o conforto proporcionado por alguns Gabinetes e a distância que os separa de qualquer escola e, em particular, das salas de aula, poderão ser verdadeiramente enganadores, na medida em que costumam ser péssimos “conselheiros”…
Dando azo ao sarcasmo, a visão “holística, inclusiva, integradora e auto-reflexiva”, defendida pelo Projeto MAIA (Folha 14), o que quer que isso seja, será sempre muito fácil de concretizar quando se está longe de uma sala de aula e se desconhece o funcionamento diário de uma escola…
Dando azo ao sarcasmo, por último, uma pequena referência aos Sindicatos da Educação que recentemente “acordaram para a vida”, depois de terem sido apanhados desprevenidos por uma Manifestação:
“Se não puderem ajudar, atrapalhem. Afinal, o mais importante é participar”…
(Roubado da Internet, de autor desconhecido).
(Paula Dias)