“Desde o início do 7° Ano, a Ava-Mae tem sido extremamente ofensiva para com os professores e pessoal auxiliar, regularmente recusando-se a cumprir o determinado pelo professor e expressando profanidades em resposta.”
Assim começava por versar a escola da Ava-Mae, aluna ainda no 7° ano e os professores já de cabeça em água e cabelos em pé sem saber o que e como fazer para apaziguar um furacão de metro e meio de altura mas cujo vórtice trazia o fim imediato a todas as aulas por onde passasse.
Mas não só, ou não estivesse a catraia em risco de exclusão em resultado de repetidas agressões sempre que desafiada por um qualquer colega e os dias passados em casa de conta há muito perdida.
Conclusão: em meados de 2020, com a pandemia em modo de pausa e as escolas de novo abertas, recebemos a Ava-Mae por um período de 6 semanas.
O objectivo? Recomeçar do zero e em 45 dias dar à Ava-Mae uma outra escola, uma escola onde as expectativas sobrepõem-se às consequências, uma escola onde a responsabilidade faz as vezes do castigo e a disciplina não é senão o eco da confiança depositada desde o primeiro minuto nos ombros desta pequena grande aluna.
O objectivo? Voltar a acreditar na escola e sorrir ao fim do dia.
Trabalhar diariamente com crianças cujos problemas de comportamento vão literalmente do 0 aos 100 entre dificuldades de aprendizagem, agressividade e desobediência (tudo por esta ordem) significa esta dificuldade imensa para explicar a quem nos rodeia o porquê da insistência em continuar, incansavelmente, a trabalhar com estes pequenos seres mais os seus problemas sem fim.
Simplifiquemos e temos a Ava-Mae de sorriso rasgado no meio do campo de jogos a cada intervalo e hora de almoço a distribuir caneladas por todos os alunos sem destrinça, dó ou piedade pelas canelas dos ditos e futebol para que te quero.
Não obstante, lembrem-se, estávamos em plena pandemia com o distanciamento social como regra de ouro imposta pelas mais altas instâncias.
No entanto, as mais altas instâncias não conheciam a Ava-Mae nem tampouco esta necessidade imensa de contacto.
Talvez assim se explique o porquê de os alunos, todos os alunos, mas não só, professores e pessoal auxiliar por igual, tudo fazerem menos admoestar os golpes sem fim desta pequena reguila que pouco mais pedia para além de um pouco de atenção.
Por não haver outra oportunidade para o contacto físico até Ava-Mae entrar em campo. Por ser permitido, pelo menos em jogo. Por ser possível. Por não ser impossível voltar a ter o toque.
Mesmo se à custa de caneladas. Mesmo se em troca de algumas nódoas negras. E poder voltar a rir.
Sim, à custa de chutos e pontapés. E assim se resumem as necessidades educativas e o significado de trabalhar numa escola de ensino especial.
E acreditem ou não, não fossem estes chutos e pontapés e a alegria contagiante de Ava-Mae e talvez não tivéssemos sobrevivido ao distanciamento social mais a pandemia.
Por já estar mais do que comprovado o estreito abraço da depressão aquando dos confinamentos.
https://www.nature.com/articles/s41562-022-01453-0
https://www.news-medical.net/amp/news/20220530/Increase-in-depression-and-anxiety-rates-in-the-UK-identified-during-COVID-19-lockdowns.aspx
Se findas as 6 semanas a Ava-Mae regressou à escola, a sua marca, literalmente, não foi esquecida, antes trazida na memória, nos braços e nas pernas durante os longos meses seguintes, assim alumiando o caminho enquanto se desenha um sorriso nos lábios.
A Ava-Mae veio visitar-nos há pouco: tem a irmã mais nova, também em risco de exclusão, na nossa escola, por outras 6 semanas. Aquando da sua visita, tive a oportunidade e a felicidade de lhe agradecer. Mas também explicar a importância do seu papel naquele que foi para muitos o período mais difícil das suas vidas.
Para mim, foi.
Se de caminho passaram dois anos e meio, este foi verdadeiramente o primeiro Natal depois de ti, Ava-Mae. O primeiro Natal em que pudemos estar todos juntos outra vez, sorrir outra vez, abraçar outra vez, respirar outra vez, beijar, tocar, abraçar, chorar, recordar, sentir, viver, não temer.
Obrigado por nos fazeres chegar até aqui. Incompreensivelmente à custa de pontapés.
Mas era tudo o que tínhamos e na verdade não doíam nada.
O que doeu foi aprender a gostar de ti e de todas as Ava-Mae deste mundo. E o que dói é ver-vos partir depois de sorrir outra vez ao fim do dia na escola.



