Desabafo do Filho de Uma Professora

DESABAFO DO FILHO DE UMA PROFESSORA

 

A minha mãe foi colocada no distrito de Bragança, sendo residente em Braga, tinha eu apenas um ano.
Assim decorreram três anos, só a via aos fins de semana. Só chegava a saber que eu tinha estado doente quando já estava bom.

Não havia opção, tinha de garantir o trabalho e o sustento.

Passou por viagens assustadoras: atravessar a Serra do Marão quando não se via, sequer, as luzes dos carros da frente; ficou retida pela neve… (e que alegria quando ficava retida por cá).

Nos anos seguintes foi sendo colocada mais perto, é verdade, mas não tão perto assim, nem as viagens eram mais fáceis: percorria cento e tal quilómetros diários para que, pelo menos, pudesse regressar a uma casa a que pudesse chamar lar.

Na altura, ainda adolescente, não compreendia, mas agora vejo: ela chegava a casa e não adormecia… Creio que, simplesmente, desmaiava.

Conheceu muitos “apeadeiros”. Em muitos deles foi insultada, humilhada com palavras como “minorca”, “badalhoca”…

Sempre foi uma pessoa de fibra, guerreira. Hoje já não lhe sinto a força e o brilho de outrora.

Embora o tente disfarçar na minha presença, vejo dor. Agora já não só uma dor de alma, mas dor física também, porque a idade não perdoa e a saúde escasseia.

No entanto, continua a dizer-me: “Filho, tu e os meus pupilos são a razão por que me levanto todos os dias”.
Sinto revolta quando observo o que se está a passar.

Pergunto: até quando vão sugar quem já não pode ser sugado?

Quantos desafios absurdos ainda tem que enfrentar com quase três décadas de ensino?

Deixem os professores fazer aquilo que melhor sabem: ensinar!

 

Rafael Xavier

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10 comentários

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    • Paulo on 5 de Janeiro de 2023 at 15:33
    • Responder

    Sem palavras ,
    Um abraço

    • Mic on 5 de Janeiro de 2023 at 17:01
    • Responder

    “Deixem os professores fazer aquilo que melhor sabem: ensinar!”

    Obrigado.

    • Luluzinha! on 5 de Janeiro de 2023 at 19:05
    • Responder

    Sem a mínima paciência para este tipo de discurso de choradinho doméstico pautado por um sentimentalismo personalizado de trazer por casa. Enfim…

      • ApacheDraco on 5 de Janeiro de 2023 at 19:09
      • Responder

      O luluzinha a tua sorte é eu ser uma pessoa educada, caso contrário…
      Enfim…

      • J.P. F. on 6 de Janeiro de 2023 at 8:58
      • Responder

      Olá, socialista!

    • Rosa on 5 de Janeiro de 2023 at 20:19
    • Responder

    Que Deus acompanhe os filhos dos professores!…
    Só Deus sabe a falta que lhe faz um beijo , um abraço e uma palavra ao ouvido todas as manhãs,”comportar bem”!….
    Que Deus abra os corações rancorosos, como os de quem fazem determinados comentários!….

  1. Luluzinha, triste realidade o da ignorância…

  2. Deixo a este jovem filho de professor um abraço e carinho pois como ele, são muitos os que sentem uma revolta e um amargo de não terem tido a mãe ou o pai quando mais precisavam. Foram apoiados, educados e orientados através do telefone, foram aconchegados numa videochamada. Isto só acontece com a nossa classe, esta obrigatoriedade de deslocamento sem necessidade profissional, é uma barbaridade! Ainda se dizem a favor da família! Só se for a deles…

    • J.P. F. on 6 de Janeiro de 2023 at 8:57
    • Responder

    No título está “desabado” em vez de “desabafo”.
    Sobre o texto, não tenham dúvidas: os sucessivos governos do pós 25 de Abril olharam sempre para os professores como uma massa de gente dócil, que aceita tudo sem refilar. E tinham razão.
    Agora, os governos PS têm um plano mais ambicioso: tornar o ensino público mais uma agência de emprego para membros do partido, como acontece, por exemplo, com a Protecção Civil.
    A breve trecho teremos apenas boys como professores e o currículo será como já se vê em certos países: “inclusividade”, “igualdade de género”, “aquecimento global” e outras vacuidades doutrinárias para formar cidadãos formatados, dependentes do Estado Social… e votantes no PS.
    Reparem que NENHUM membro do governo põe os filhos na escola pública.

    • Zulmiro on 6 de Janeiro de 2023 at 22:56
    • Responder

    Desculpe a minha frieza Rafael, mas se a sua mãe foi colocada em Bragança é porque concorreu para lá e porque lhe permitiram fazê-lo – digo eu… Também sou professor e até já fiquei colocado bem mais longe de casa, mas ponderei muito bem antes de concorrer para tão longe e antes de aceitar a colocação.

    O concurso de professores em Portugal Continental, apesar dos seus defeitos, é o mais justo da função pública e espero que continue assim.

    Se a sua mãe resolvesse concorrer este ano para os Açores, que ainda é mais longe do que Bragança, provavelmente não obteria colocação porque, na lista de graduação, ficaria dezenas de lugares abaixo de muitas pessoas com menos formação e experiência, só por ser de Braga ou não ter estudado na Universidade dos Açores ou ainda por nunca ter beneficiado de uma bolsa de estudo paga pelo Governo Regional. Acharia isso justo? Eu não! No entanto, o anterior governo regional, liderado pelo socialista ultra-nacionalista Carlos César, aprovou essa geringonça concursal para ganhar votos no arquipélago. Imagine que faziam nos distrito do Continente e que a sua mãe até nem tinha vagas no distrito de Braga mas jamais teria hipótese de ficar colocada numa escola de Ponte de Lima ou de Santo Tirso porque não era residente nos distritos dessas escolas. Ou que até queria mesmo migrar para Alentejo ou Algarve.

    Agora, se me disser que a sua mãe, como professora, deveria ganhar mais dinheiro por mês, aí eu concordo plenamente.

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