Mário Nogueira, líder do maior Sindicato de Professores, resolveu, agora, partir alguns pratos, no sentido literal do termo, sacando de uma estratégia comunicacional inovadora e bem conseguida, no sentido em que, recorrendo ao concreto e às imagens visuais, conseguiu ilustrar bem o caos em que se encontra a Carreira Docente e transmitir eficazmente a mensagem pretendida…
Portanto, e quanto à estratégia recentemente utilizada, concorde-se ou não com a mesma, parece ter surtido os efeitos desejados…
Impõem-se, contudo, algumas questões:
Ninguém, por certo, acreditará que Mário Nogueira, agora, e só agora, tenha sido acometido por uma espécie de “epifania” ou por “um rasgo de clarividência”, que lhe permitiu fazer a exposição conhecida de todos…
O actual Estatuto da Carreira Docente encontra-se em vigor desde 2012 e os principais problemas agora ilustrados por Mário Nogueira ancoram nesse Estatuto há cerca de 10 anos…
– Porque esperou, Mário Nogueira, tanto tempo para ilustrar de forma tão clara os principais problemas que afectam a Carreira Docente?
– Durante os últimos 6 anos, em que o País foi governado pela Geringonça, suportada pelo PS, BE e PCP, por onde andaram a clarividência e as competências comunicacionais de Mário Nogueira, agora à vista de todos?
Os Sindicatos, independentemente da sua natureza, são imprescindíveis em qualquer regime democrático, mas não podem tornar-se reféns de determinadas “agendas políticas” ou deixar que a sua acção seja norteada e dominada por “fretes políticos”, sob pena de perderem a credibilidade e a aceitação que, naturalmente, deveriam suscitar por parte dos seus representados…
O pior que pode acontecer a um Sindicato é deixar de ser visto como legítimo representante de uma classe ou grupo profissional, pelos próprios membros dessa corporação…
No que se refere à actuação dos maiores Sindicatos de Professores ao longo dos últimos 6 anos, fica-se com a sensação de que ou “hibernaram” ou sucumbiram à tentação dos “fretes políticos”…
É inevitável ficar-se com a impressão de que a Fenprof e Mário Nogueira, desde sempre conotados com o PCP, não ousaram confrontar as políticas educativas emanadas pela Geringonça, de forma clarividente e eficaz, sobretudo por o PCP ter sido um dos Partidos Políticos que a suportou…
Ao longo desses 6 anos assistiram-se a várias rondas negociais entre os principais Sindicatos de Professores e o Ministério da Educação, sem que as mesmas tenham gerado efeitos práticos relevantes, apesar de durante esse tempo se ter estado perante um Governo sem maioria absoluta e, por isso, menos forte e mais permeável a reivindicações, pelo menos em termos teóricos…
Infere-se que, ou os Sindicatos não foram capazes de fazer prevalecer os interesses dos seus representados, ou que essas supostas negociações se alicerçaram, afinal, em “coreografias bem encenadas”, dominadas por uma espécie de “pactos de não-agressão” face às políticas educativas da Tutela, pelo menos em termos tácitos…
Se foi assim, não pode deixar de se afirmar o descrédito suscitado por tais encenações, desde logo por se fazer de conta que se reclamava e reivindicava, quando na realidade não se pretendia encetar quaisquer acções efectivamente consequentes ou de ruptura…
Os principais Sindicatos, agora mais do que nunca, precisam desesperadamente de justificar a própria existência e de “fazer prova de vida”, uma vez que, nos últimos anos, se tem vindo a acentuar a descrença dos Professores nessas estruturas representativas da sua Classe Profissional…
A legislatura dos próximos 4 anos será dominada pela maioria absoluta de um Partido Político, pelo que não se antevê grande margem de manobra para aceitar significativas reivindicações sindicais…
Ao que tudo indica, Mário Nogueira, por certo plenamente consciente disso, terá optado por se antecipar a essa inevitabilidade, apresentando a respectiva “prova de vida”, na tentativa de assegurar a própria sobrevivência…
Resta saber se aquilo a que se assistiu deva ser considerado como a mera representação simbólica de uma “prova de vida” ou se significará o início de uma reivindicação genuína que, a concretizar-se, não deixará de pecar por tardia…
Mário Nogueira soube explicar bem o diagnóstico do problema, faltará também saber se agora está ou não disposto a, metaforicamente “partir a loiça”, coisa que não soube ou não quis fazer ao longo dos últimos 6 anos, apesar de todos os motivos já então existentes…
Partir pratos em termos literais não é a mesma coisa que “partir a loiça” em termos metafóricos…
(Matilde)