“Por favor, ajudem-me”, este é o grito mudo de socorro de muitas crianças que diariamente se sentam nas nossas salas de aula, nos gabinetes de psicologia e pedopsiquiatria, nos bancos dos tribunais, ou num qualquer banco, mesmo ali ao nosso lado.
Enquanto sociedade irresponsável temos deixado as crianças invisíveis desprotegidas à mercê de monstros. O caso desta menina, a Jéssica, alegadamente raptada, submetida a torturas constantes e assassinada, é só mais um de muitos que vão surgindo por todo o país e que são negligenciados. Crianças deixadas à sua sorte, porque quem deveria fazer alguma coisa, não o faz… porque não há interesse político em as salvar, porque elas não votam, não contam.
Monstros que cometem atrocidades e continuam sempre à solta, porque a justiça quase nunca faz o que lhe compete.
É desalentador saber que nós, enquanto sociedade, nada fizemos para evitar que isto acontecesse.
No fundo, estas crianças, logo à nascença começam a pagar uma pena pela culpa que lhes atribuem por terem vindo ao mundo. A culpa é dos pais que têm os filhos conta a vontade, filhos que aparecem por acidente depois de andarem enrolados uns com os outros e que depressa se tornam num estorvo, numa carga de trabalhos e são obrigadas a cumprir uma pena de maus-tratos só por terem nascido. Teria, alegadamente, sido o caso desta menina que, apenas com um mês de vida, já estava sinalizada.
Mais do que negligência parental, este foi mais um caso grosseiro de negligência social, negligência institucional e humanitária, que permitiram que alegados criminosos espancassem durante seis dias uma criança inocente até à morte e uma mãe não lhe prestasse auxílio prolongando aquele terrível sofrimento.
Contudo, o falhanço foi de todas as instituições que permitiram que este crime monstruoso acontecesse.
O que fez uma ineficaz CPCJ para deixar esta situação arrastar-se até este triste desfecho?
Onde esteve a segurança social que, supostamente, deveria acompanhar de perto famílias como esta?
Para que serve o Ministério Público que quase só se entretém com casos de crime de colarinho branco e esquece tantos outros de maus-tratos infantis e violência doméstica?
E o tribunal de menores para que serve, se é lento e inoperante como no caso dos abusadores e violadores de crianças que saem quase sempre em liberdade?
O que fez a comunidade que não acionou uma simples queixa telefónica ao Instituto de Apoio à Criança?
Onde tem estado toda esta gente – agora tão indignada – que tem assistido ao repetir de tantos casos como este permitindo que continuem a acontecer?
Tantos cúmplices por inoperância e tantos coniventes por deixar que o crime se faça.
Esta é a sociedade falsa com imensos pais que, em vez de educar, conversar e dar atenção aos seus filhos, demitem-se das suas responsabilidades parentais preferindo delegar essa responsabilidade na escola. Um povo que, de tão ocupado que está em cobiçar e avaliar criticamente o desempenho, o vencimento e férias dos professores, não vê nem quer ver o trabalho invisível que estes empreendem, fundamental na vida de imensas crianças e jovens. Esta tal população, que se acha impoluta e no direito de estar constantemente a julgar os docentes, é a responsável por maus-tratos físicos e psicológicos aos seus filhos que, diariamente, as escolas sinalizam e tentam resolver.
O que não faltam são casos em que os professores têm de socorrer de alunos vindos de famílias (de todos os estratos sociais) desestruturadas, com crianças abandonadas dentro das suas próprias casas. Crianças órfãs de pais vivos, abandonadas no seio das suas próprias famílias por pura negligência. Crianças sem acompanhamento é um dos fenómenos cada vez mais comuns nas famílias atuais, perdidas dentro de casa, entregues aos ecrãs de um televisor, um jogo de computador ou à internet do seu telemóvel – isso também é abandono, isso também é negligência parental, isso também são maus-tratos. Pais que, se tivessem de prestar contas a um patrão, seriam imediatamente despedidos por incompetência e irresponsabilidade. Pais que passam mais tempo com frivolidades satisfazendo o vício dos jogos de computador, nas redes socais, a ver em direto reality shows, resmas de novelas ou bola e o compêndio de debates sobre a mesma, do que com os filhos com tempo de qualidade, a acompanhá-los e a dialogar com eles.
Na verdade, muitos deles nunca foram pais, ficaram-se apenas por meros progenitores. Pobres das crianças que têm a infelicidade de nascer no seio destas famílias. Uma negligência que não conhece estatuto social ou económico, raça nem cor. Há muitos animais na natureza que são muito melhores do que os humanos, sacrificando-se pelas crias, arriscando a vida por elas estando sempre por perto para as proteger.
Quantos dos nossos alunos não estão em grande sofrimento psicológico sem que os pais se deem conta disso?
Quantas vezes não são vítimas de violência psicológica dentro do próprio lar?
Quantos não são vítimas indiretas da violência doméstica entre os pais?
Quantos não são armas de arremesso em tantos processos de divórcio, de vingança e de custódia?
Quantos não são vítimas de violência física ou sexual?
Creio que, mais do que a fome do conhecimento, é nas escolas que as crianças vão matar a fome de solidão e «lamber» as suas feridas. Crianças para quem a escola representa o seu último refúgio e o professor, a única pessoa a quem podem recorrer e em quem confiar. Os docentes fazem um trabalho social importantíssimo, colmatando as imensas falhas de uma sociedade malformada e irresponsável, o qual não é publicamente reconhecido. Por isso, o desconsolo dos professores que sentem que deveriam ser mais protegidos, mais apoiados moralmente e com mais recursos para ajudar mais estas crianças e verem reconhecido todo este trabalho pelos pais e pelo ministério da educação, primeiros-ministros e presidentes da república que nunca tiveram uma verdadeira palavra de apreço pelo trabalho relevante que fazem. Têm sempre tempo para elogiar desportistas e nunca o têm para uma palavra de consideração pelo trabalho dos professores… a não ser para os desclassificar e criticar.
Este é o país onde se anda a pagar a peso de ouro juízes que pouco ou nada fazem. Um país onde a justiça é injusta visto a maioria das acusações não darem em nada. Faça-se o que se fizer, quase sempre se sai ilibado ou com pena suspensa. O poder político assim o induz para que as prisões não fiquem demasiado cheias nem deem despesa.
Tanta violência doméstica com filhos e mulher a fugirem só com a roupa do corpo, enquanto o agressor fica em casa, uma vez que, quando a vítima apresenta queixa, é enviada de volta para casa para junto do agressor. Depois, naturalmente, aparecem os números de mulheres maltratadas e assassinadas que representam uma vergonha nacional num país em que se anda com grande orgulho por causa de alguém que vive do pontapé na bola ou a treinar jogadores, mas se esconde para debaixo do tapete a imensa violência familiar que vitimiza os mais fracos.
Se fossem crimes financeiros, já se mexiam, mas como é de violência sobre crianças ou mulheres, ignora-se.
Tal como acontece em muitos outros casos, a autópsia revelou que esta criança morreu vítima de tortura depois de grande e prolongado sofrimento diante dos olhos de uma comunidade que sabia e virou a cara para o lado. Foi ignorada e só se lembram dela depois de morta para aumentar audiências televisivas e vender jornais, alimentar salários de comentadores e dar proveito aos inúteis dos partidos. Usada em vida e usada depois de morta, nada mais. Um povo parasita, mercantilista e farsante que não merece as nossas crianças.
Tantos lamentos, tanta gente a tentar se ilibar das suas responsabilidades, mas, o que é indisfarçável, é que a criança morreu sem auxílio e, como sempre, tudo ficará na mesma na terra da indiferença. Morreu sozinha, abandonada e desprotegida como estão tantas outras crianças neste momento sem que ninguém as vá salvar.
Não me restavam dúvidas de que existem tantas leis, tantos institutos e instituições, tantos organismos, tanta gente, tanta burocracia, tanto dinheiro, tantos «tachos», mas tanta falta de interesse e de capacidade para salvar as nossas crianças.
400 euros foi o preço da vida desta criança de entre tantas outras que aos nossos olhos não valem nada.
Tenho a sensação de que, mesmo com estas descomunais nuvens negras que pairam no céu a caírem sobre as nossas cabeças, esta sociedade hipócrita continuará indiferente a dormir descansada debaixo do seu céu perpetuamente azul.
Esta foi mais uma de muitas crianças que se sentaram ao nosso lado a pedir socorro… e que nós não ouvimos nem fizemos nada.
Carlos Santos