Voltaremos à telescola?

Voltaremos à Telescola?

Ainda sou do tempo da telescola, muitos de nós, a maioria, lembrar-se-ão de como funcionava. Nunca a frequentei, mas recordo-me de colegas de turma que a frequentaram e seguiram os seus estudos como qualquer outro. Eram outros tempos.

No início, quando a televisão não era o que é hoje, era emitida durante a tarde, primeiro na RTP1 e mais tarde na RTP2. Esta modalidade de ensino arrancou a 6 de janeiro de 1965 para permitir o cumprimento da escolaridade obrigatória o 5.º e 6.º ano. Mais tarde, 1987, com a vulgarização dos leitores de video, passou da televisão para as cassetes de video que eram um dos principais instrumentos do professor que, presencialmente, acompanhava os alunos. A telescola esteve em funcionamento até à entrada do milénio.

A tecnologia evoluiu muito dessa altura. Se perguntarmos a qualquer aluno de hoje se sabe o que é uma cassete de video, poucos saberão de que falamos. Mas todos eles sabem o que é um computador, um smartphone, um tablet, a internet, um browser, um motor de pesquisa, um email, uma rede social… se não todos, a grande maioria e os que não sabem já ouviram alguém falar de tudo isso.

Na quinta-feira passada, todos ninguém se apercebeu que a escola, tal como a conhecemos, estava prestes a mudar, a evoluir para novos campos impensáveis até então. na sexta-feira os professores começaram a aperceber-se que, pelo menos, durante duas semanas a escola ia ser diferente. No sábado e no domingo deram-se conta que tinham de apoiar os seus alunos o melhor que podiam, tinha começado a corrida contra o tempo. Uns de uma forma outros de outra corresponderam ao que lhes estava a ser pedido, não abandonar os seus alunos, mesmo que eles os quisessem abandonar. Na segunda-feira, enviaram emai’s, prometidos na sexta-feira, com fichas e mais fichas de consolidação de aprendizagens, o suficiente para 15 dias. Outros houve que foram mais além, não desmarcaram testes, através de plataformas que já usavam enviaram trabalho para ocuparem os primeiros dias dos seus alunos em casa. Na terça-feira dão-se conta que têm que se preparar para fazer algo mais, começa a corrida às plataformas de ensino. Esta corrida foi de tal forma desenfreada que as próprias plataformas não aguentaram tantos utilizadores.

Neste momento, na infinita procura de evoluir, começa-se a procurar perceber como se poderá utilizar a videoconferência com plataformas como o Zoom ou ClassDojo. Os professores aperceberam-se que tão cedo não voltarão ao ambiente de sala de aula e tentam procurar a melhor solução para transpor esse obstáculo, pelos seus alunos. A maioria, se não todos, não saberá para onde vão, mas sabem que não vão ficar quietos à espera que alguém lhes diga para fazer isto ou aquilo, vão fazer o melhor que sabem com os meios disponíveis que têm ao seu alcance.

Voltemos à tetescola. Durante 30 minutos, um professor dissertava sobre um assunto na televisão, dando exemplos nas disciplinas em que era necessário ou demonstrando como se realizava este ou aquele exercício, nos 30 minutos restantes de aula os alunos exercitavam o que tinham acabado de ouvir através de trabalho pré-preparado e com o acompanhamento do professor presente na sala de aula. Com a tecnologia que temos hoje em dia podemos fazer bem melhor do que nessa altura, mas nada substituirá uma sala de aula com todos os seus intervenientes. O contacto de um olhar, por vezes ensina mais que qualquer palavra.

Um destes dias os professores volatrão às suas salas de aulas que são mais dos alunos que deles.

Professor, colaborador do Blog DeAr Lindo

In Ímpar, Jornal Público

 

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8 comentários

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    • Maria Manuela Fernandes on 20 de Março de 2020 at 12:13
    • Responder

    Eu andei na telescola, mas havia sempre dois ou três professores presenciais, um de ciências, outro de humanidades e um de línguas.

  1. Também andei na telescola, com a presença de uma professora de letras e outra de ciências.
    Eram momentos em que reinava o silêncio e a indisciplina era um termo desconhecido.
    Tive o orgulho de, décadas depois, fazer parte do mesmo conselho de turma numa escola pública da minha professora de ciências, Maria Luísa, no seu último ano a lecionar. Em boa hora foi para a reforma, antes da confusão dos titulares. Deixo registado aqui o meu carinho e saudade de uma professora/colega exemplar.
    É um método apelativo para a tutela, que “mitiga” a despesa com o pessoal docente. Com o argumento do vírus, preparem-se para alterações profundas, em nome do interesse nacional, claro!

    • pretor on 20 de Março de 2020 at 13:14
    • Responder

    A teleescola só é possivel no inicio de um ano letivo. No meio não dá devido á flexibilizacao das escolas e conteúdos.

    Alem de que exige meios tecnicos que levam tempo a formar-se.

    A teleescola nunca dispensou um professor presente numa sala de aula (para orientar) com alunos também lá metidos.

    • Qwe on 20 de Março de 2020 at 13:38
    • Responder

    Subscrevo plenamente.
    Quiçá pouco professor é e gostaria era de ser político.

    • Bons velhos tempos on 20 de Março de 2020 at 14:58
    • Responder

    Também a frequentei.
    A professores tinha apenas o 12º ano.
    É verdade, não havia indisciplina, apenas um ou outro mais rebelde.

    • +PORTUGAL on 20 de Março de 2020 at 15:57
    • Responder

    Se a tele-escola se tornar a norma, os professores já não vão ser necessários. Têm aulas em casa e só vão fazer os exames ou outras provas… que podem ser marcados em dias e horas diferentes, cada escola só vai precisar de meia dúzia de professores.

    Para o ano não vão ser colocados contratados! Professores do quadro vão passar a excedentários! Muitas escolas vão fechar! Os alunos vão ficar em casa, em tele-escola (pela televisão) e internet, acompanhados pelos pais, que não vão receber nada, porque vão estar todos desempregados devido aos despedimentos em massa.

    • Helga on 20 de Março de 2020 at 16:08
    • Responder

    +Portugal pq não te matas?

    • O Martelo de Alpiarça on 20 de Março de 2020 at 21:06
    • Responder

    Boy for the job 🙂
    Poupa lá mais uns milhões ao Tio Costa. A ignorância das massas forma analfabetos profissionais e dá votinhos cor-de-rosa. E depois falam no “tempo do fascismo”. Professores só dão despesa e criam cidadãos esclarecidos. Uma chatice.

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