Quando um professor morre, uma parte de seus alunos também parte – Pedro Minassa

Quando um professor morre, uma parte de seus alunos também parte

Um curso pode ser interrompido. Uma aula pode ser interrompida. Um congresso pode ser interrompido. Um teste pode ser interrompido. Mas e quando a vida, motor por trás de tudo isso, é interrompida?

A “indesejada das gentes”, como chamava à morte Manuel Bandeira, é particularmente indesejada quando se trata de professores. Os alunos, no seu trato diário com os verdadeiros mestres, parecem esquecer que a fragilidade da vida não será minimizada pela estatura e pela quase deificação que o mestre é capaz de imprimir no espaço académico.

Entretanto, diante da morte, professores, por mais profetas que possam ser, lamentavelmente sucumbem. Não deveriam, é verdade, já que assumem tão grandiosamente a tarefa de mostrar os caminhos que não mereciam ter os seus próprios interrompidos. Professor não devia morrer, devia ser agraciado com a imortalidade como prémio pela escolha, pela profissão. E será que, por acaso, eles reivindicam algum prémio? Os verdadeiros não. São abnegados por natureza.

Contentam-se em ver seus alunos alçarem voos mais altos que os seus, nem que para isso tenham de ser a catapulta de tantos sonhos alheios. Professor é bicho besta, fica feliz com o êxito do outro, na verdade, só fica feliz se vê superado o seu próprio êxito. Por isso, é a profissão por excelência dos humildes, mas não – como querem fazer valer alguns governantes – dos humilhados.

E assim vamos assistindo aulas, acompanhando cursos, levando a vida como se a perenidade dos ensinamentos dos mestres fosse suficientemente proporcional à da vida. Somos, então, surpreendidos com um último ensinamento que nos é imposto arbitrariamente: nada supera a efemeridade que o tempo impõe à vida, ainda que essa vida seja a de um professor, a um só tempo divinamente humana e humanamente divina. O ensinamento derradeiro, talvez encomendado pelo próprio mestre, é que não há páreo para finitude dos seres que vivem sobre a face da Terra.

Eternizam-se não por ficarem, mas por justamente irem, por partirem com a indubitável certeza de terem ficado nas memórias de seus discípulos. Traçam a linha para o infinito, com a mesma ansiedade de uma primeira aula, mas ao mesmo tempo com a mesma intensidade de um daqueles inesquecíveis encontros com os seus alunos. À maneira de Chico Anysio, digo aos professores que eu não tenho medo que morram, eu tenho é pena que eles tenham de ir.

Quando um professor morre, uma parte de seus alunos também parte. Parte porque partes deles não mais pertencem a eles mesmos, senão ao mestre. Serão força para onde quer que ele tenha ido leccionar. No entanto, a maior partida, porque repartida, é a do próprio mestre, que resta partilhado em cada caderno, cada palavra, cada conselho, cada momento e cada ser iluminado por ele, isto é, cada aluno dele.

In Público

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