Os leitores perdoar-me-ão se deixar a análise aos números de hoje para segundo plano. Porque venho trazer-lhes uma mensagem de esperança que pode salvar muitas centenas ou milhares de vidas — mas exige acção imediata.
Muitos conhecerão de nome Maria Manuel Mota. Investigadora de primeiro plano mundial na área das Biociências e doenças infecciosas, em particular malária. Directora do Instituto de Medicina Molecular, onde trabalham mais de 600 pessoas. Prémio Pessoa em 2013.
Mais importante do que qualquer elemento curricular, a Maria Mota tem na mão uma chave para o problema da falta de testes COVID em Portugal. Conheço-a há muitos anos, falei com ela há pouco. Aqui segue o relato.
Os testes de detecção ao COVID são fabricados essencialmente por duas empresas, a Roche e a Qiagen. Os kits de teste contemplam duas fases: extracção e amplificação por processo PCR, sendo os reagentes bem conhecidos. O problema, claro, já se sabe qual é: nós não produzimos estes reagentes, fomos ao mercado tarde, já não encontramos à venda e agora estamos a racionar (ou a “racionalizar” – neste momento os malabarismos retóricos são o que menos importa) os poucos que temos e a fazer muito, MUITO menos testes do que devemos. A Alemanha, cuja indústria produz os reagentes necessários, faz 500.000 testes por semana. Portugal esta semana fez 17.000. Tendo em conta que a população alemã é 8 vezes maior, temos um nível de testes que é 20% do alemão.
Que entre a Maria Mota.
Há 17 dias, alertada para o problema por dois médicos de Santa Maria, a Maria Mota colcoua a sua equipa no IMM a desenvolver uma alternativa portuguesa ao kit de teste. Foi, num certo sentido, muito simples: em vez de desenvolver um processo a partir do início, a Maria Mota pegou no protocolo publicado pela OMS e pelo CDC americano para os testes ao COVID e adaptou-o à realidade portuguesa. Identificou os reagentes críticos em falta em Portugal para produzir um teste e concebeu alternativas. A alternativa existe em Portugal; a empresa que a produz, a NZY Tech, pode produzi-los em quantidade virtualmente ilimitada para todos os efeitos práticos.
Neste momento a Maria Mota já dispõe de um kit testado, que funciona perfeitamente na identificação quer de casos positivos quer de casos negativos. Há uma semana contactou a DGS por escrito, não tendo ainda obtido resposta. Felizmente para nós tem linha aberta para o Ministro da Ciência, Manuel Heitor, que compreende bem a urgência destes tempos, e que desbloqueou a situação. Obrigado por todos nós, amigo Manuel. Quando os tempos forem outros dar-te-ei um abraço muito apertado.
O kit foi testado e está certificado pelo Instituto Ricardo Jorge no sábado passado. Há dois dias foi validado pelo mesmo Instituto. Está pronto a ser aplicado em quantidades virtualmente ilimitadas. As limitações para a Maria Mota não são de número de testes disponíveis: são de mão de obra humana. O seu IMM tem neste momento capacidade para administrar 300 testes por dia, podendo talvez chegar aos 900 a 1000.
Isto são notícias extraordinárias. Temos um teste português, validado e certificado, que pode começar a produção em massa ONTEM. Podemos abrir centros de testes por todos o País e começar finalmente a política de testes massivos e rastreios sistemáticos recomendada pela OMS, que nunca seguimos. De que estamos à espera?
Dizia-me a Maria Mota que cada dia que passa conta. Se tivéssemos começado há uma semana tínhamos salvo muitas vidas. Já não vamos a tempo. Mas vamos a tempo de salvar muitas mais nas semanas que se avizinham e vão ser terríveis.
Ainda vamos a tempo de salvar milhares de vidas (e estou a medir as palavras). Mas temos de agir JÁ.
Senhores do Governo, do Ministério da Saúde, da DGS, de tudo quanto manda neste País: larguem os vossos papéis e agarrem na Maria Mota. Não interessam agora os vossos erros de avaliação do passado: não cometam agora o maior de todos. Dêem à Maria Mota tudo, TUDO o que ela pedir. E peguem nos kits dela, comecem a produção em massa daqui a uma hora, organizem a abertura urgente postos de teste de emergência nos pavilhões multiusos em todos os concelhos daqui a duas horas. Não queiram ser responsáveis por tudo: mobilizem a sociedade civil. Recrutem voluntários para administrar testes e realizar análises laboratoriais (que demoram 4 a 5 horas) entre estudantes de Medicina e Farmácia. Usem os estádios de futebol, os pavilhões desportivos, façam o que quiserem. Mobilizem as empresas para donativos, as indústrias para produzir, mexam-se. Organizem, não é para isso que servem os Governos? Mas DESPACHEM-SE! Não é para amanhã, é para ONTEM!
Porque cada dia conta, e cada hora perdida hoje representa mais mortos daqui a 15 dias.
Jorge Buescu, 27/3/2020
Retirado do Facebook | Mural de Aida Beirão
PS:
Instituto de Medicina Molecular prepara novos testes para diagnosticar Covid-19 – coronavirus – Jornal de Negócios / 24 de março de 2020

(…)
Continua aqui:
O teste “made in Portugal” que começa esta segunda-feira a ser aplicado nos lares do país – Observador




8 comentários
Passar directamente para o formulário dos comentários,
E nós, funcionários públicos, professores deste país, onde está o nosso altruísmo.., e se prescindíssemos de metade do nosso subsídio de férias, subsídio de alimentação, ou outra quantia qualquer, para ajudarmos diretamente nesta causa? Mas que este movimento solidário parta de nós, professores, e não do governo, isto, sim, será lutar pela nossa dignidade.
Em vez desse comentário, deveria transmitir aos Srºs políticos que, em vez de gastar tanto dinheiro em estádios de futebol, autoestradas para as moscas e na corrupção, investissem mais na saúde, criando espaços preparados para acudir a estas situações.
Pessoas que fazem estes comentários não são inteligentes, mas sim parasitas. E apenas tentam resolver as coisas pelo menor esforço possível.
Ainda ontem deu uma notícia de que o governo tem um excedente orçamental. Ou você não anda atualizado.
É a ele que que lhe compete ajudar, e não o pobre que luta todos os dias para sobreviver.
Já se esqueceu que saímos ainda à pouco tempo de uma grande crise financeira.
Sinceramente…
Gostei muito do que escreveu, de acordo, mas se me permitir acrescentar, em relação aos voluntários para realizar os testes laboratoriais, ninguém melhor que os licenciados em Análises Clínicas e Saúde Pública ou Ciências Biomédicas Laboratoriais. Somos vários os com capacidade para tal e disponibilidade. Faço questão de nos referir neste comentário porque somos constamente esquecidos, e se não o somos, pelo menos é raro sermos referidos quando aquela que é a nossa especialidade, a nossa profissão e responsabilidade é mencionada. Lembrem-se de nós porque já fazemos parte desta luta, e os que ainda não fazem e puderem juntar-se-ão.
Não use a desgraça para fazer publicidade. Isso não é muito profissional.
Notícia RTP – 28/03/2020 -14:22 H
“Portugal conseguiu desenvolver um teste de despistagem que vai começar a ser usado já na próxima segunda-feira. Nasceu no Instituto de Medicina Molecular da Universidade de Lisboa e sem necessidade de recorrer a reagentes importados. Numa fase inicial, deverão ser fabricados 400 testes por dia”.
Ás vezes é melhor ficar calado antes de criticar.
Qual a fonte desse texto? O Jorge Buescu tem algum blogue? Ele publicou esse texto onde? Como sei que foi mesmo ele que o escreveu?
Não existindo referência à publicação, talvez seguir uma fonte fidedigna, opinião num local de referência.
https://www.publico.pt/2020/03/29/ciencia/opiniao/pior-nao-recursos-publicos-nao-usar-1909973?utm_source=headtopics&utm_medium=news&utm_campaign=2020-03-29