O ditado popular “Só se lembram de Santa Bárbara quando troveja” está bem patente na nossa sociedade. O civismo, a solidariedade, o pôr-se no lugar do outro… ainda tem que ser muito “trabalhado”. Olhamos muito para o nosso umbigo e se uma classe profissional quer um pouco mais, não são poucos os que estão prontos para criticar a pretensão, nem que sejam aqueles que nos salvam a vida ou, muitas vezes substituam a família…
Bem haja a todos os enfermeiros.
Carta aberta de enfermeira exausta
“Porque a minha memória não é curta nem seletiva…Levantem-se agora as vozes dos que nos chamaram selvagens…Levantem-se agora as vozes dos que nos chamaram criminosos e assassinos…
Levante-se agora a voz daquele senhor que, num telejornal, ficou indignado pelos Enfermeiros quererem ser considerados uma profissão de risco, não percebia porquê, alegando que até parecia que pegávamos nos doentes ao colo… E não é que sim?
Posicionamos e transferimos doentes da cama para outros locais, com os nossos braços, com a nossa coluna que vai dando sinal do desgaste após alguns anos.
Levantem-se agora as vozes daqueles que nos chamaram malandros, que só queríamos dinheiro…
Quando recentemente reivindicámos os nossos direitos, fizemo-lo em consciência como só este grupo profissional o sabe fazer. Paramos as cirurgias não urgentes, e nenhum utente morreu por isso.
Não queríamos só dinheiro, se bem que ao fim de 20 anos de profissão, o meu vencimento é igual a um colega que inicia hoje funções, porque mais uma vez, tiraram-nos a hipótese de subir no índice remuneratório, com pontos mal contados e avaliações que não refletem o nosso trabalho.
Nessa altura exigimos melhores condições de trabalho, dotações seguras, diminuição da idade da reforma e subsídio de risco.
Percebem agora porque???
Porque estamos cara a cara todos os dias com situações de risco, com doenças contagiosas, com violência física e verbal.
Agora que é vital que toda a população cumpra o isolamento social, os enfermeiros saem de casa para tratar os infetados. Agora que o risco de morte é premente, os enfermeiros dão a resposta que lhes é solicitada, porque respeitamos as pessoas.
Foram suspensas as férias destes profissionais, para que estejam disponíveis para tratar muitos dos que nos trataram mal.
Fecham as escolas, uma medida correta e tardia, mas quem pode explicar à minha filha que a mãe é enfermeira e como tal não pode ficar em casa com ela durante este período, porque tem de ir tratar dos outros. E dela? Quando é que a mãe pode tratar dela?
Percebem agora porque reivindicamos mais enfermeiros no SNS? Para estarmos aqui para vocês, para tratarmos com segurança a vossa mãe, o vosso avô, os vossos filhos.
Para que quando um de nós fique doente, existam número de profissionais que possam colmatar essas falhas. Para que, quando colegas em que o casal trabalha na área da saúde e um deles terá de ficar em casa, eu não tenha de trabalhar a dobrar, aumentando o risco de erro, exaustão e, p0rra!!! , porque também quero estar com a minha família.
Estes selvagens e criminosos estão na linha da frente desta pandemia, e mais uma vez dão a resposta ao que lhes é solicitado.
Estamos e estaremos sempre pelos doentes, mesmo quando eles não estão por nós.
A todos os Enfermeiros deste país, o meu maior respeito, a minha maior gratidão, o meu maior orgulho, o meu muito obrigada. E que a memória daqueles que agora nos elogiam, não seja curta nem seletiva…”
Fonte: Magazine Lusa




4 comentários
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Todos os Profissionais de Saúde, merecem o meu maior respeito e consideração! Estive sempre de acordo com a vossa luta.
Quero realçar que quando escolhemos uma determinada profissão, sabemos ou deveríamos saber o que implica!
Quero deixar aqui o meu apoio incondicional a todos os médicos, enfermeiros e que nunca, mas NUNCA se esqueçam que existe a categoria de assistentes operacionais na saúde que tão mal remunerados são e tanto dão de si a todos vocês e pacientes!
Há cerca de um ano atrás, cruzei-me por mero acaso, em Lisboa, com a bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, e fiz questão de a cumprimentar, de lhe dar os meus sinceros parabéns pela luta que estavam a desenvolver, apresentar a minha solidariedade e agradecimento enquanto professor e cidadão, dizendo-lhe ainda que os enfermeiros deram um exemplo de luta e de coragem que devia fazer corar de vergonha muitos sindicalistas do pára arranca, do aquece e arrefece, das lutas fofinhas e mansas, que por aí andam à décadas a entreter a classe docente e também muitos professores que só lutam enquanto as férias não chegam, só lutam quando não dói, quando não pesa demasiado na carteira. O fundo de greve que criaram os enfermeiros foi uma pedrada no charco e ainda bem que o fizeram para que pudessem aguentar o tempo que aguentaram. Infelizmente os professores são mais pobrezinhos e sobretudo muito menos unidos, pelo que não sabem e não querem seguir os melhores exemplos, sai mais barato e é bem mais animado descer a Avenida pela 4579579252735827358 vez. E viva a luta!
O meu aplauso e vénia aos enfermeiros, que nunca critiquei, antes pelo contrário e que nunca duvidei do seu sentido de dever e profissionalismo inatacável. Bem hajam!
Falta um h no à, mas isso enfim… é da emoção com que escrevi o texto acima 🙂
Talvez esta crise sirva para as pessoas perceberem que há profissões com características muito próprias que merecem ser tratadas com respeito e devidamente reconhecidas… não podemos continuar, neste país, a maltratar os profissionais de diferentes classes profissionais públicas (e outras) sob pena de não as termos quando delas viermos a precisar. O exemplo deveria vir de cima, mas infelizmente nos últimos anos, enfermeiros, professores, polícias, …, foram usados como arma de arremesso a favor do populismo e demagogia. Acordem e, talvez este país comece a ser melhor.
Alexandre Lourenço (Professor)