As doenças hereditárias da Escola Pública
No tempo do Google e da Wikipédia, que oferecem de borla toda a informação de todos os manuais, os alunos, em vez de procurarem a informação que os estimula e desafia pelos seus próprios meios, continuam a ouvir a informação desatualizada pela voz débil de um professor formado num passado distante e sem perspetivas de futuro.
A carreira docente, outra doença hereditária, é um poderoso factor de resistência à mudança. O professor entra, instala-se e torna-se uma peça inamovível do sistema. Pode ser uma peça de alta qualidade ou uma peça defeituosa e ferrugenta. Depois de instalada, fica para toda a vida. Ninguém pode remover as peças defeituosas. Um ministério fraco e um sindicato forte determinam que os bons professores e os maus professores tenham as mesmas funções, os mesmos direitos, o mesmo salário, as mesmas garantias de vida eterna.
Esta acomodação dos professores numa carreira de onde não podem ser removidos é a carreira do mínimo esforço porque no fim do mês quem fez o mínimo tem o mesmo salário de quem fez o máximo. É a carreira da mediocridade que determina a degradação da profissão. O empenho e o profissionalismo dos melhores não são recompensados e o seu entusiasmo vai esmorecendo. A carreira docente não acrescenta qualquer melhoria e é um entrave à qualidade da EP. Será que a EP não funciona sem carreira docente?
Em 1995, numa visita de estudo à Dinamarca, pude observar e conhecer bem as escolas públicas, num modelo de organização descentralizada, autónoma, e que funcionava lindamente com professores sem qualquer vínculo a uma carreira. Conheci e convivi com muitos professores e diretores de escolas, assisti a um Conselho Pedagógico numa escola secundária (Gymnasium), e nunca tive a menor perceção de que os professores estivessem deprimidos por não estarem integrados numa carreira. A valorização e permanência dos professores define-se na escola pelo desempenho diário e pelos resultados do trabalho.
Na Dinamarca, os pais têm um peso muito grande na organização e funcionamento da escola. Sete representantes dos pais, dois professores e dois alunos, eleitos nas respetivas estruturas, compunham o Conselho de Escola na Educação Básica obrigatória. Não existe espaço para o corporativismo docente.
“A origem histórica das escolas na Dinamarca deve-se à iniciativa dos pais que se organizaram nas suas comunidades para resolver o problema da educação dos filhos. A memória coletiva desta origem atribui à escola neste país duas características fundamentais: a responsabilidade dos pais e do poder político local na gestão e administração da escola e uma grande autonomia administrativa e funcional de cada estabelecimento de ensino… A escola contrata e dispensa os professores e o pessoal não docente de acordo com as necessidades de funcionamento” (1).
O corporativismo docente é outra doença crónica que degrada e inquina a organização e funcionamento da EP. Os professores, consciente ou inconscientemente, organizam a escola de acordo com as suas conveniências. Os pais e os alunos são apenas “utentes” sujeitos às regras, orientações, projetos e programas definidos pelos professores, ao calendário e horário dos professores. A EP não é dos pais nem dos alunos, é dos professores, em estrita obediência às decisões do ME. Esta é a diferença entre uma democracia estável e avançada, que decretou a escolaridade obrigatória 150 anos antes de nós, e uma democracia principiante, apenas formal e ainda sem norte. Não há democracia quando os pais não têm o direito de definir nem de interferir na educação dos seus filhos.
Haverá aí alguém com a força e a perícia para libertar a Escola Pública de tantas doenças crónicas e hereditárias? Só o estado poderá fazê-lo quando tiver a educação e a inteligência suficientes para compreender as causas do nosso atraso e de tanta pobreza.
(1) Extrato do Relatório sobre a visita de estudo à Dinamarca em 1995
In Diário as Beiras




12 comentários
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Não posso estar mais em desacordo com este texto. O que posso comprovar é que, no passado, quando a esmagadora maioria dos professores tinha a mesma classificação, havia maior colaboração, maior envolvimento em projetos, boa disposição e motivação para o desenvolvimento das tarefas, enfim, dava gosto ser professor. Desde 2005, e sobretudo após a chegada da ministra que nem o nome se gosta de pronunciar, tudo mudou. E tem vindo a piorar sistematicamente. E vai continuar a piorar. E quem não sabe disto não é professor!
Temos aqui alguém que é defensor não assumido da escola privada tão ao gosto dos ultraliberais e dos seus interesses privados.
Por outro, os países nórdicos tidos referência educativas estão a sofrer as consequências das suas últimas opções educativas. Bastará ler os últimos relatórios do PISA para comparar a evolução dos países em matéria educativa.
E quanto ao primeiro parágrafo do texto, até dá vómitos só de ler. Só um azémola pode ter este tipo de diarreia mental e, pior, apresentá-la publicamente.
As maiores doenças da Escola pública são a indisciplina generalizada, a completa desresponsabilização dos pais na educação do seus filhos, a sensação de impunidade reinante e a desvalorização do saber e da Escola. Todas estas doenças são o fruto de um povinho invejoso, ignorante, vaidoso e com os valores completamente subvertidos!
É exatamente isso, principalmente as 3 primeiras linhas.
Mais uma mente “iluminada” a debitar ignorância e que, muito provavelmente não tem a mínima noção do que será um contexto de sala de aula. Enfim.
Será este um texto encomendado pela Dra Leitão?
Isto cheira a esturro!?…
Mais um a opinar do que não sabe!
Escolas suecas!? a cultura sueca é completamente diferente da portuguesa, não se pode copiar, a postura dos alunos é completamente diferente o pá!
O texto do sr. José, uma opinião legítima num país livre…., mas mistura assuntos,…, uma trapalhada (na minha opinião). Desde logo comparar pais dinamarqueses com portugueses, objetivos políticos,sociais, etc,etc. Um artigo pq foi fazer uma visita?????? parece anedota!!!! concordo completamente com a opinião da MUDANÇA DE ATITUDE a partir da “avaliação” do tempo daquela senhora!
Todos podem ter opinião mas, no mínimo, deverão saber o que estão a opinar. No texto, o primeiro parágrafo é ultrajante para qualquer professor que desempenhe com profissionalismo o seu papel tão importante numa sociedade em que alguns pais se demitem do seu papel de educadores em 1ª linha. Alguns porque não podem outros porque, simplesmente, não querem. Ofende de forma gratuita a classe docente… esquece também que os pais portugueses, de modo geral, não possuem um grau de habilitações que lhes permita serem tão atuantes e terem um “peso” nas deliberações como diz que acontece na Dinamarca. Não estou a pensar nas grandes cidades… Em lugar de visitar a Dinamarca visite o interior do nosso País, o nosso Portugal profundo e esquecido de todos ou de quase todos e depois diga que vão à internet para obterem informação… Enfim…
Santa Ignorância.
Coitado do Professor que lhe ensinou as primeiras letras.
Penso que terá aprendido a pensar no google. SÓ PODE, FALA MUITO E NÃO SABE DE NADA.
Devia de ter andado pelas serras para aprender o que é escola, sacrifício e humildade, pois o autor é que sofre de doença hereditária.
Cumprimentos
Conheço o sistema educativo da Dinamarca. Não vou aqui alongar justificações e explicações, digo apenas que não é bem assim. Está equivocado