Pela saúde da escola pública – Miguel Guedes

 

Pela saúde da escola pública

No momento em que a escola pública é alvo dos maiores ataques, pela ganância e cobiça de quem desvaloriza o seu valor fundador como semente de democracia, igualdade e progresso, é impossível não estabelecer paralelismos com os ataques ao SNS e à dificuldade que tem havido em racionalizar e garantir a progressão na carreira dos seus profissionais, em número e qualidade, valores maiores e garante de uma resposta capaz, de confiança e certezas. É a saúde da educação pública que está em causa, numa luta que promete fazer parar o país antes que ele se perca em actividades extracurriculares à História fora de aulas. Nunca a escola pública correu tantos perigos, nunca teve tantos algozes capacitados, ao virar da esquina do Parlamento, para a enfraquecer e destruir.

É ao poder político que compete dar o sinal que entende a algumas das legítimas reivindicações dos professores e comunidade escolar. Numa economia assolada pela espiral inflacionista, com a perda do poder de compra dos salários e pensões abaixo da inflacção, um mercado especulativo e disfuncional na habitação que justifica a criação (e bem) de um ministério, a subida das taxas de juro que prometem entregar casas das famílias aos bancos, com os fenómenos de demagogia e assalto ao sector público que germinam e proliferam, as legítimas greves no sector da educação devem ser proporcionais ao dano que, inevitavelmente, causarão a centenas de milhares de crianças e jovens que, após meses de covid à distância, irão mesmo ficar sem aulas, comprometendo a recuperação do seu percurso escolar e a dinâmica das famílias que, em tempo normal de trabalho, não as conseguirão reter em casa com acompanhamento.

A “municipalização” dos concursos poderá ser uma questão ultrapassável e eivada de preconceito e maus entendimentos. Mas décadas de subinvestimento nas escolas e nos seus profissionais, que culminam nos últimos anos de acrescidas dificuldades e congelamento do tempo de serviço e progressão nas carreiras, são verdades absolutas que resistem, indesmentíveis, à prova de todas as boas intenções. Uma actualização equilibrada e progressiva de vencimentos, uma avaliação de desempenho decente (que não seja autolimitada por “numerus clausus” e “ratios” completamente alheios à avaliação), uma nova equação para a “norma-travão” que, por inadequação à realidade, tem afastado docentes da vinculação e estabilidade, limitações ao excesso de burocracia e maiores garantias de respeito pelo papel dos professores nas escolas, terão de ser imperativos para a manutenção dos laços de estabilidade mínima entre aqueles que elegeram uma maioria absoluta pela ilusão de estabilidade e segurança que estes nove meses de permanente gestação executiva tudo têm feito para ilidir. Uma greve geral prolongada na educação pode ser dinamite no fim de um inverno rigoroso para o Governo. Competirá a António Costa perceber o momento.

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2023/01/pela-saude-da-escola-publica-miguel-guedes/

3 comentários

  1. Este tipo… parece que finalmente alguém lhe explicou as coisas.
    Podia escrever melhorzinho.
    Precisa de compreender que as câmaras são clubes de oligarcas e que as escolas têm de ser livres para ensinar com isenção.
    O que os partidos querem é tachos por intermédio das câmaras abarbatando as escolas também.

    • Lucinda on 7 de Janeiro de 2023 at 14:13
    • Responder

    Perfeito. E viva o tacho, seja lá onde for!

  2. “Com a verdade me enganas!…”

    Colegas, “acordai!”…
    o Ministro não está a mentir, está, sim, a omitir a verdade, pois não serão /seriam as CM diretamente a fazer as contratação dos professores, mas sim as CIM (Comunidade Intermunicipais) , essas entidades “pardas”, que são o lado mais obscuro das Cm , senão reparem: estas entidades o que são? São a gaiola dourada dos presidentes de CM que já atingiram o limite de mandatos e não têm, ainda, idade para a reforma nem outros lugares políticos para ocupar. Sim, porque raros são os que regressam a uma vida fora da política, pois custa-lhes largar os tachos e mordomias.
    A municipalização da educação é o pior que pode acontecer aos professores, mas também à educação e, em suma, à sociedade. Nós, professores, não mais seremos livres, pois um professor que não tem liberdade de pensamento, não passa de mera “correia de transmissão” de uma corrente ideológica e/ou política. Ora, sem espírito crítico e reflexivo, como pode um professor ser professor, “espicaçar os seus alunos” despertar neles o gosto pelo debate e confronto de opiniões? Como pode uma sociedade evoluir, se o pensamento único dominar a formação de mentalidades e a partidarite (que já hoje vigora em todas as instituições) se instalar nas escolas?
    Por isso, colegas, agora é o momento de intensificar a luta, pois o governo está fragilizado com os “casos e casinhos” e a opinião pública, maioritariamente, reconhece que temos razão… Por favor, não baixemos os braços! E sim, se possível, agregar os alunos, os EE e o pessoal não docente a esta luta.

Deixe um comentário

Your email address will not be published.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Discover more from Blog DeAr Lindo

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading