Pela saúde da escola pública
No momento em que a escola pública é alvo dos maiores ataques, pela ganância e cobiça de quem desvaloriza o seu valor fundador como semente de democracia, igualdade e progresso, é impossível não estabelecer paralelismos com os ataques ao SNS e à dificuldade que tem havido em racionalizar e garantir a progressão na carreira dos seus profissionais, em número e qualidade, valores maiores e garante de uma resposta capaz, de confiança e certezas. É a saúde da educação pública que está em causa, numa luta que promete fazer parar o país antes que ele se perca em actividades extracurriculares à História fora de aulas. Nunca a escola pública correu tantos perigos, nunca teve tantos algozes capacitados, ao virar da esquina do Parlamento, para a enfraquecer e destruir.
É ao poder político que compete dar o sinal que entende a algumas das legítimas reivindicações dos professores e comunidade escolar. Numa economia assolada pela espiral inflacionista, com a perda do poder de compra dos salários e pensões abaixo da inflacção, um mercado especulativo e disfuncional na habitação que justifica a criação (e bem) de um ministério, a subida das taxas de juro que prometem entregar casas das famílias aos bancos, com os fenómenos de demagogia e assalto ao sector público que germinam e proliferam, as legítimas greves no sector da educação devem ser proporcionais ao dano que, inevitavelmente, causarão a centenas de milhares de crianças e jovens que, após meses de covid à distância, irão mesmo ficar sem aulas, comprometendo a recuperação do seu percurso escolar e a dinâmica das famílias que, em tempo normal de trabalho, não as conseguirão reter em casa com acompanhamento.
A “municipalização” dos concursos poderá ser uma questão ultrapassável e eivada de preconceito e maus entendimentos. Mas décadas de subinvestimento nas escolas e nos seus profissionais, que culminam nos últimos anos de acrescidas dificuldades e congelamento do tempo de serviço e progressão nas carreiras, são verdades absolutas que resistem, indesmentíveis, à prova de todas as boas intenções. Uma actualização equilibrada e progressiva de vencimentos, uma avaliação de desempenho decente (que não seja autolimitada por “numerus clausus” e “ratios” completamente alheios à avaliação), uma nova equação para a “norma-travão” que, por inadequação à realidade, tem afastado docentes da vinculação e estabilidade, limitações ao excesso de burocracia e maiores garantias de respeito pelo papel dos professores nas escolas, terão de ser imperativos para a manutenção dos laços de estabilidade mínima entre aqueles que elegeram uma maioria absoluta pela ilusão de estabilidade e segurança que estes nove meses de permanente gestação executiva tudo têm feito para ilidir. Uma greve geral prolongada na educação pode ser dinamite no fim de um inverno rigoroso para o Governo. Competirá a António Costa perceber o momento.




3 comentários
Este tipo… parece que finalmente alguém lhe explicou as coisas.
Podia escrever melhorzinho.
Precisa de compreender que as câmaras são clubes de oligarcas e que as escolas têm de ser livres para ensinar com isenção.
O que os partidos querem é tachos por intermédio das câmaras abarbatando as escolas também.
Perfeito. E viva o tacho, seja lá onde for!
“Com a verdade me enganas!…”
Colegas, “acordai!”…
o Ministro não está a mentir, está, sim, a omitir a verdade, pois não serão /seriam as CM diretamente a fazer as contratação dos professores, mas sim as CIM (Comunidade Intermunicipais) , essas entidades “pardas”, que são o lado mais obscuro das Cm , senão reparem: estas entidades o que são? São a gaiola dourada dos presidentes de CM que já atingiram o limite de mandatos e não têm, ainda, idade para a reforma nem outros lugares políticos para ocupar. Sim, porque raros são os que regressam a uma vida fora da política, pois custa-lhes largar os tachos e mordomias.
A municipalização da educação é o pior que pode acontecer aos professores, mas também à educação e, em suma, à sociedade. Nós, professores, não mais seremos livres, pois um professor que não tem liberdade de pensamento, não passa de mera “correia de transmissão” de uma corrente ideológica e/ou política. Ora, sem espírito crítico e reflexivo, como pode um professor ser professor, “espicaçar os seus alunos” despertar neles o gosto pelo debate e confronto de opiniões? Como pode uma sociedade evoluir, se o pensamento único dominar a formação de mentalidades e a partidarite (que já hoje vigora em todas as instituições) se instalar nas escolas?
Por isso, colegas, agora é o momento de intensificar a luta, pois o governo está fragilizado com os “casos e casinhos” e a opinião pública, maioritariamente, reconhece que temos razão… Por favor, não baixemos os braços! E sim, se possível, agregar os alunos, os EE e o pessoal não docente a esta luta.