Alberto Veronesi no Observador

Desafiando o PSD: a urgência de priorizar e resgatar a educação pública em Portugal

 

O que atrasa as aprendizagens são a indisciplina, as turmas numerosas e de multinível e a falta de recursos humanos de apoio aos alunos necessitados. Desde sempre. Antes, durante e após a pandemia.

Sou professor há quase duas décadas, com experiência na educação em diversos contextos, IPSS, Ensino Privado e Ensino Público. Neste artigo quero abordar um tema de primeira importância para o futuro do nosso país: a educação pública. Mais especificamente, quero abordar a responsabilidade que o PSD, enquanto o maior partido da oposição, tem para com a educação pública em Portugal.

 

Recuando ao ano de 2005, muitos consideram esse período como o início do declínio da escola pública enquanto meio eficaz de ascensão social. Quase 18 anos se passaram desde então, e podemos afirmar, com confiança, que enfrentamos desafios significativos. Esses desafios são o resultado das políticas adotadas ao longo das últimas décadas, políticas que negligenciaram a qualidade da educação e, em vez disso, promoveram a função assistencial das escolas.

Hoje, não importa tanto se os professores são competentes académica e pedagogicamente. Como é exemplo disso o novo diploma que rege o acesso à profissão. Mesmo contra as críticas de todo o sector, o governo avançou. Bem sei que há falta de professores, mas também sabemos todos que não é este o caminho a seguir.

A falta de professores qualificados, os baixos salários, a falta de perspetiva de progressão na carreira e uma cultura de desvalorização da profissão têm contribuído para uma crise sistémica na educação pública, tornando-se cada vez mais difícil atrair e reter bons professores, bem como encorajar jovens talentosos a escolherem o ensino como profissão.

Por esse motivo, é responsabilidade do PSD, como o maior partido da oposição, abordar esses problemas de frente e propor soluções concretas. Isso começa por dignificar a profissão de professor. Foi isso que foi feito quando se deu conta da intenção de reconhecer o tempo de serviço efetivamente trabalhado para a progressão na carreira ou subsidiar os professores deslocados. Mas das medidas urgentes para a educação, essas são as únicas aceitáveis. As outras, caros leitores, são um sinal fortíssimo de que o PSD continua a pensar a educação com os pés.

Criar um modelo de aferição sistemática da aprendizagem dos alunos, para monitorizar, acompanhar e divulgar publicamente a evolução do plano de recuperação das aprendizagens? Mas alguém acredita que passados estes anos o principal problema é a recuperação das aprendizagens pós-pandemia? Quem é professor sabe bem que o que atrasa as aprendizagens são a indisciplina, as turmas numerosas e de multinível e a falta de recursos humanos de apoio aos alunos necessitados. Coisa que acontece desde sempre, antes, durante e após a pandemia.

Alteração do modelo de colocação de docentes, de modo a permitir ter em consideração os fatores, residência e avaliação? Avaliação? Por acaso sabe o PSD como funciona a avaliação nas escolas? Fazer depender a colocação da avaliação é degradar o já ruinoso sistema.

Onde ficou o incentivo à formação académica? Onde ficou a revisão do modelo de gestão, que tanta autocracia tem trazido às escolas? Onde ficou a eliminação das quotas? Onde ficou a mobilidade por doença? Onde ficou a estratégia para recuperar os mais de 20 mil professores que abandonaram a profissão? Onde ficou a proposta de aumentos salariais, sabendo que o valor remuneratório de entrada deveria estar, aos dias de hoje, em pelo menos mais 300€?

Onde ficou a revisão do Decreto-Lei referente à inclusão? Onde ficou a revisão dos currículos que são hoje miseráveis?

O tempo é curto e quis apenas elucidar-vos sobre o desfasamento das nossas propostas, relativamente àquilo que são as prioridades reais, aferidas através de inquérito a mais de 11 mil professores.

O PSD deve liderar a luta por uma educação de qualidade em Portugal, apoiando os professores e a sociedade civil na busca de soluções que promovam o conhecimento, o desenvolvimento intelectual e a equidade na educação pública. A revolta dos professores é uma chamada de atenção para todos nós e é hora de nos unirmos em prol de uma educação de qualidade, custe o que custar.

Portanto, insto o PSD a assumir a responsabilidade que lhe cabe como o maior partido de oposição a liderar o caminho para uma educação pública que prepare os nossos jovens para um futuro melhor e mais promissor. O futuro de Portugal depende disso, e é um desafio que não podemos ignorar.

Deixo por isso duas perguntas para que possamos todos refletir:

  • O PSD reconhece a importância da educação pública e assume o compromisso de a defender e de a fortalecer?
  • O PSD acredita que a educação pública é um direito de todos os cidadãos e que é um investimento no futuro do país?

Se sim, então que saia da bolha em que vive e ouça os professores, aqueles que todos os dias estão nas escolas e contactam com a realidade e não apenas com a estatística.

 

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12 comentários

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    • Agostinho Oliveira on 27 de Novembro de 2023 at 22:02
    • Responder

    Exatamente.

    • Luís Miguel Cravo on 27 de Novembro de 2023 at 22:48
    • Responder

    Caro Alberto Veronesi, é sempre bom lê-lo! Devo ser dos tais, para a estatística, que abandonaram (não sei se para sempre mas, para já, seguramente) a escola. Pedi exoneração. Era professor de quadro há 2 anos. Esperei, com parcimónia, 26 anos. Nos tempos de Nuno Crato cheguei a acumular 5 escolas em 3 cidades diferentes (2015-16). Apercebi – me da falácia que é a “historinha da carocha” da vinculação. Continuei a ganhar o mesmo que ganhava como contratado. Não faço a tal da formação “credenciada” porque sei para o que ela serve: arregimentar massas. Anos a fio, observei e escutei os meus colegas a carpirem desta estandardização dos “stores”, mas todos se empurraram para as fazer para, depois, ganharem mais uma miserabilidade salarial SE existirem cotas para o escalão tal e tal. E SE a avaliação, mais tarde, de um colega qualquer, for aceite pela direcção….. É o história do K, em O Processo, não é? Para além desta degenerescência do Sistema, junte – se-lhe tudo o que elenca, sobretudo no que à qualidade das aprendizagens, currículos e da avaliação diz respeito e não aguentei mais. É aqui que chega o momento de discordar de si quando refere que os professores querem mudança e sentem o contexto que traça…. Pode ser o seu caso, caro Alberto mas, no meu, só tenho trabalhado com professores seguidistas, paus – mandados e a quem a questão da qualidade das aprendizagens ou da exigência não interessa para nada. Quando se escolhem manuais, escolhem o que mais elementos “interactivos” têm, os que dão exercícios mais fáceis (entenda – se, infantis!) e, de preferência, já uns testes com cruzes (porque é assim que se está avaliar uma geração de alunos já há alguns anos!) para não terem muito trabalho! “Mas é o modelo de exame!”, clamam eles. Pois, mas o exame é um aborto. Vejam – se as ciências humanas e o próprio Português (ainda mais grave!) transformado em cruzes em que um aluno que tenha bons argumentos, redija bem e saiba elaborar um comentário crítico é igual ao mesmo aluno que atira para lá com umas cruzes no sítio certo!! Os grandes maniqueus desta fatalidade são os próprios professores, caro Alberto! Lamento. Continuo ligado ao ensino. Os meus alunos são todos de secundário. Do Português, os melhores, só se queixam que passam a vida a repetir gramática. Não há que ler, interpretar, analisar. Há que empinar com regras gramaticais que, em NADA, valorizam o tão afamado aluno do perfil à saída do ensino obrigatório, a maior mentira em educação desde o 25 de Abril! Perante um ensino reduzido a gente mecânica, com mentes mecânicas, logo tacanhas, como podemos afirmar que os professores agitam as bandeiras da exigência, da qualidade e do mérito se, nas escolas, se limitam a cumprir e a obedecer?! Já não falo aqui nas reuniões de avaliação e no milagre da multiplicação dos pães porque, esse caso, seguramente, é bem mais grave. Nem vou abordar a digitalização que tem triturado, literalmente, o papel de referência que o professor deveria ter na sala de aula. Mais uma vez, e sempre, culpa do professor! Direcções eleitas por órgãos colegiais, não vá um Humberto Delgado candidatar-se a uma direcção….Outra! Em suma, caro Alberto, e apesar de ter conhecido um grupo e ter tido o prazer de trabalhar com professores não entregues a esta sangria do ensino, lamento ter de dizer – lhe que a esmagadora maioria dos professores não partilha da sua causa. Mas nunca dirão que não…..

  1. Há uma questão inquietante. Os únicos partidos que eu conheço que defendem os professores e a escola pública, são o pc, o livre e o bloco.
    Porquê insistir no psd?
    Francamente, eu não vejo o mínimo dos mínimos de competências em ninguém do psd. Acredtar neles porquê se até já nos trariam em flagrante?

    Posso estar a interpretar tudo mal, mas penso que não será esse o caminho para salvar a escola pública que tão bem descreveste.

      • Areia on 28 de Novembro de 2023 at 8:05
      • Responder

      Mas o sr CNE e a nova IGE têm berço PCP! A treta do facilitismo pseudo inclusivo MAIA e Flexibilização foi parida por mentes dessas. Quem em nome das minorias (/inclusões/wokes?) tem reduzido a qualidade de ensino têm sido estes mesmos que o estimado colega refere e não se está aqui a defender Chega ou PSD que sabemos bem serem favoráveis ao privado e ao elitismo.
      A democracia a sério exige que o ensino público tenha qualidade e rigor e que não ande a nivelar por baixo tanto aluno capaz que se perde no meio desta salgalhada que temos agora e cujos diplomas legais mais graves foram lançados pela calada do Verão de 2018.
      Não façam de nós parvos!

      1. Eu não pretendi dizer que o pc ou bloco ou livre deveriam ganhar as eleições. Eu só disse que são esses partidos que claramente estão com os professores. Isso são factos.
        Cne e ige terem ou não berço pcp a mim pouco me importa, mas também acho que nao corresponde à verdade. A fenprof tem sócios de todos os gostos políticos.
        Há alguma esquerda lírica, que, francamente, na educação só fazem asneiras, mas o problema é que não vejo ao centro ou à direita quem consiga mostrar ideias que nos ajudem ou me convençam ou que façam melhor.
        No que respeita à Educação, seriamente, não acredito nem na esquerda nem na direita. Sem fatalismos, mas já estou convencido que estamos condenados à mediocridade.

    • está tudo mal on 28 de Novembro de 2023 at 7:58
    • Responder

    Formação para doutrinar?!
    Há formação para professores de qualidade. Só que essa exige trabalho árduo, em especial intelectual. E poucos a realizam.
    Generalizações abusivas e eu, eu e mais eu.

    • EGOS on 28 de Novembro de 2023 at 8:38
    • Responder

    Há um centro esquerda que quer saúde e educação de qualidade. No entanto, o PS só andou ocupado a aforrar os seus, como aconteceu há anos com o PSD.
    A qualidade dos partidos é muito baixa: uns andam fascinadsos com o neoliberalismo, que agora, nos pontos dos vanguardismos, já se considera fora de moda; outros andam em fase transgénero, confusos e a defender o “vale tudo”; outros a tentar apanhar o comboio mais populista e, a maioria, a tratar da “vidinha” sem convicções ou arcaboiço cultural, académico e prático para lidar com a enorme responsabilidade de se disponibilizar para gerir destinos de milhões.

    • P.daSilva on 28 de Novembro de 2023 at 9:09
    • Responder

    Costocracia ou o poder de manipular tansos?
    Em março apoiem os carrascos. Força professor@s!

    • Mic on 28 de Novembro de 2023 at 11:09
    • Responder

    “O que atrasa as aprendizagens são a indisciplina(…)” + a ideia, por parte de alunos e famílias, de que não é necessário estudar/praticar.

    • Zabka on 28 de Novembro de 2023 at 13:26
    • Responder

    O Veronesi como pertence a uma máfia neo-liberal chamada SEDES só engana quem quer.

    • Padre Marc on 28 de Novembro de 2023 at 13:32
    • Responder

    Diz-me onde escreves… muito má companhia no Beobachter infestado de fanáticos anti-escola pública.
    Anda-se a fazer ao tacho (como o Arlindinho) mas vai-lhe sair o tiro pela culatra.

    1. Isto é verdade?

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