Um ministro e uma corte bem paga a propagar fantasias

 

É impossível ficarmos alheios à barbárie exposta pela guerra que domina o mundo e ao tratamento que a comunicação social lhe dispensa. Excepção feita à situação do SNS, rareiam outras notícias e, sobretudo, análises sobre os problemas relevantes para a vida interna do país, designadamente no que à Educação respeita.
Do que vou lendo, vendo e ouvindo, do atrevimento e leveza parcial de muitos comentaristas recém-chegados às nossas televisões, qual turba opinativa difusora de mais ódio, concluo que, quando os fenómenos são abordados sem conhecimento das suas particularidades, ou com propositado desprezo pela sua génese, o resultado é criar novas conflituosidades, que só mascaram os factos e lhes acentuam a já de si pesada dramaticidade.
Nesta coluna escrevo sobre o que conheço e é observável, enquanto os responsáveis pela política educativa persistem na propagação de profecias e mentiras, lançando lama sobre tudo o que lhes não serve os desígnios.
Esta gente logrou um controlo narrativo da opinião pública, em modo fast food educacional, que vem alterando a percepção do que de importante acontece na Educação. Não a olham como bem prioritário, motor de igualdade e estabilidade social e de desenvolvimento do país, muito menos como expressão de identidade nacional.
Este longo introito serve para retomar, explicando-a, a alusão que fiz no meu último artigo, sem a detalhar, a uns “artistas” que recentemente concluíram que o encerramento das escolas durante a pandemia gerou uma melhoria espontânea na aprendizagem dos alunos.
O IAVE, num recente documento oficial (Relatório do Estudo Diagnóstico das Aprendizagens), escreveu, preto no branco, que:
– 58,7% dos alunos do 6º ano e 56,1% dos do 9º ano não são capazes de responder às mais básicas solicitações de literacia da leitura (dito de modo menos sofisticado: a maioria não entende nada do que lê, por mais básico que seja o texto).
– 64,5% dos alunos do 9º ano são incapazes de resolver problemas elementares de Matemática.
– 68,5% dos alunos do 6º ano e 83,5% dos do 9º não conseguem responder a questões, por mais simples que sejam, no domínio daquilo que a novilíngua designa por “literacia científica”.
Cruzando o que o IAVE ora diz com o que disse em relatório idêntico de 2021, o retrocesso das aprendizagens é inquestionável e consequência óbvia do fecho das escolas durante a pandemia, independentemente de outras variáveis anteriores.
Apesar destes factos, o ministro João Costa (inicialmente, porque depois foi obrigado a corrigir a manipulação que tentou) e prosélitos sem decoro promoveram a ideia absurda, louca, de que as aprendizagens dos alunos teriam melhorado … com o fecho das escolas. Fizeram-no referindo um outro fantasioso estudo, este da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), vindo a lume uns dias antes do relatório do IAVE.
Perguntará o leitor: como é possível que duas instituições, ambas tuteladas pelo Ministério da Educação, digam uma coisa e o seu contrário, com escassos dias de intervalo? A resposta é simples: as conclusões do IAVE resultam de provas objectivas, prestadas pelos alunos, para medir conhecimentos adquiridos; as conclusões da DGEEC resultam das notas dadas pelos professores durante a pandemia, culminando um processo anterior da responsabilidade de João Costa, que sumariamente assim se pode caracterizar:
– Conveniente revogação de todos os programas então vigentes e sua substituição pela fraude das “aprendizagens essenciais”, inenarrável via aberta para que todos passem, saibam o que souberem.
– Correlata destruição do currículo nacional, hoje reduzido a um indigente desprezo pelo valor intrínseco do conhecimento.
– Supressão de todos os instrumentos de avaliação, com o fim, conseguido, de impor as passagens de ano praticamente obrigatórias e fabricar resultados de sucesso.
– Legislação vigente que determina que as reprovações, em anos intermédios dos ciclos de escolaridade, só pode acontecer “a título excepcional”.
Não sendo futurologista, muito menos adivinho, arrisco prever a intensificação da manipulação da opinião pública por parte de João Costa e seguidores, como indicia o um obsceno aumento de 1237% das despesas do Ministério da Educação, em 2024, para pagar estudos, pareceres e consultadorias.

In “Público” de 8.11.23

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9 comentários

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    • Sara on 8 de Novembro de 2023 at 9:08
    • Responder

    Infelizmente, a comunicação social é controlada pelo governo quer por subsídios quer por promessas de “tachos”. A classe dos professores é a mais fácil de menosprezar devido a desunião da classe e ao ressentimento da população. Com o que se passa nas escolas é fácil dividir a sociedade em duas classes, em que a maioria não serão oficialmente iletrados, mas sim na prática. Serão facilmente manipulados para “servir” apenas o interesse de uma minoria gananciosa

      • Mirtha on 8 de Novembro de 2023 at 9:58
      • Responder

      A comunicação social não só é controlada pelos governos, mas principalmente, por este SISTEMA pseudodemocrático que por sua vez, é controlada pelos Verdadeiros Donos do Mundo Ocidentalizado, Donos do Dinheiro! Donos do Dinheiro, donos do SISTEMA. Os políticos só são os seus “Braços Direito executores”.

    • Este texto é de quem? on 8 de Novembro de 2023 at 10:10
    • Responder

    Este texto do Público é de quem?
    Não tem autor. Ou estou a ver mal?

    • Mic on 8 de Novembro de 2023 at 11:32
    • Responder

    O que se passa nas escolas resume-se a uma nova espécie de “passagens administrativas” dos anos 70. Passamos a vida a ser obrigados a transitar alunos que deveriam ter reprovado por terem ultrapassado o limite legal de faltas ou que estão carregados de efetivas negativas.

    • Para a minha escola não vos contratava! on 8 de Novembro de 2023 at 12:47
    • Responder

    Estou farto destes comentários deslocados.
    Nunca mais estudaram educação?
    Os alunos não devem chumbar. Devem ser ajudados com apoios a prosseguir os seus estudos e aprendizagens.
    E colocados no ano, nível, de acordo com a sua idade. Como fazem muitos países europeus. A começar aqui na prima Espanha.
    Dão muito mais avançados que nós em todos os tipos de educação.
    O dinheiro que se gasta em reprovações deve ser encaminhado para ajudar os alunos Para além da falta de auto estima e danos psicológicos que as reprovações geram. Há alunos que colaram a sua personalidade a isso e nunca mais quiseram nada com escolas. Nem em adultos!
    Parece que os professores também não estudaram psicologia.
    Estudaram foi pouco e o pouco que estudaram já se esqueceram.
    Atualizem se velhos do Restelo!
    Haja paciência. Para vos aturar nas escolas e aqui nos vossos comentários.
    Parecem uns professores do séc XIX .
    Para a minha escola não vos contratava, safa!.

      • Mirtha on 8 de Novembro de 2023 at 19:17
      • Responder

      Concordo plenamente c vc… Desde há muito que andasse a formar gente que sai com canudos, ou sem valor algum para arranjar um trabalho adequado ao pouquinho que estudaram, ou então com níveis de conhecimentos mínimos, mas que o cartão do partido ou da cunha lhe colocam em postos de trabalho que fazem com que este país faça que anda, ou ande na cauda da europa… terceiro-mundista. Os bem formados em boas universidades ou emigram ou têm acesso aos poucos bons trabalhos que são uma raridade nesta amostra de país.
      País que nasce torto… nunca se endireita!!! (tem sobrevivido à custa de galinhas d ovos d ouro)

      • Mirtha on 8 de Novembro de 2023 at 19:29
      • Responder

      As suas palavras parecem um copy & paste da cartilha do ministério. Faz lembrar a cartilha dos suxialista/comuna que tão bem tem afundado este portugal dos pequenitos… Vcs adoram essas pobres ideologias ilusórias

      • Péssima piada on 8 de Novembro de 2023 at 23:00
      • Responder

      “…danos psicológicos que as reprovações geram.”

      Háháháháháháháháháháháhá!

      Só pode ser piada. Os milhares e milhares de antigos alunos cheios de danos psicológicos porque chumbaram.

      Isto só pode ser mesmo uma piada de péssimo gosto.

      O que fala é uma microscópica minoria que precisa, isso sim, de apoio psicológico e pedagógico para melhorar a autoestima e a organização no estudo.

      A maioria dos alunos têm é de perceber que precisa de estudar e trabalhar.

      • Sem dificuldades não há superação e crescimento on 9 de Novembro de 2023 at 12:22
      • Responder

      Adorava que quem defende fim dos chumbos e de exames fosse alvo de cirurgia por um cirurgião que nunca fez provas nem lidou com as suas próprias falhas, que fosse alvo de um julgamento por um juiz do mesmo teor, de um polícia, de um professor e de um gestor laboral do mesmo perfil. Nos decisores políticos há muito se vê a displicência pelo outro.

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