UMA MÁQUINA DE MATAR PROFESSORES

 

UMA MÁQUINA DE MATAR PROFESSORES

 

Aquela tarde foi crucial. Há anos que os sinais se vinham avolumando. Tudo se tornara, todavia, mais doloroso naquelas semanas, com consequências mais acentuadas, quase irremediáveis. Ao longo do dia, fora oscilando entre a tranquilidade dentro da sala de aula, na presença gratificante dos alunos, e uma perturbação interior sempre que saía desse lugar protegido e acolhedor para outros espaços escolares, onde era obrigado a desenvolver tarefas insanas, de burocrata. Findo o dia, decidi não ir de imediato para casa. Virei à direita, estacionei o carro e entrei no banco do hospital. Fui atendido prontamente por uma médica cujo nome esqueci, mas a quem ficarei eternamente grato. Aplicada uma bateria de exames, tal era o meu estado de saúde, obrigou-me (é esse o termo) a ficar de baixa. Tive de reconhecer. A “escola” estava a dar cabo de mim, ao fim de 25 anos inteiramente dedicados a ela.
Foi muitíssimo difícil assumir a derrota. Ao longo de meses em casa, com tratamento médico e consultas frequentes, tive de reconhecer a minha fragilidade, como vítima de “burnout”, cujas causas conhecia. Vi-me, sobretudo, obrigado a sublinhar que a satisfação e alegria sentida diariamente na sala de aula como professor já não era suficiente para abafar todo o resto. Esse resto não era, aliás, um “resto”. Era, sim, uma avalanche que de súbito caíra sobre mim – e, creio, tem caído sobre centenas ou milhares de docentes cujo brio profissional os tem posto em confronto com um “sistema” que visa destruir o cerne da escola portuguesa, da liberdade de ensino e da aprendizagem sólida e consequente.
Não sei se vale a pena listar as flechas, os tiros e os bombardeamentos que têm sido lançados dos vários organismos do Ministério da Educação contra a dignidade dos professores, contra a solidez e qualidade do conhecimento a construir nos alunos, contra a democracia nas escolas, contra a privacidade, a dignidade e a liberdade das famílias, contra a manutenção de um clima de paz intergeracional nas instituições de ensino, contra os alunos que esperam das salas de aula uma prática consequente, criativa e exigente, contra uma sociedade que deveria ter nas escolas viveiros de cidadãos conhecedores, conscientes e críticos. Tantas têm sido (no último quarto de século) essas munições que seria fastidioso apresentar o seu rol. As consequências estão, todavia, à vista. Três décadas ou quatro depois, voltámos a ter uma grave falta de professores nas escolas portuguesas. E só não há uma debandada geral dos alunos em direcção aos colégios privados que ainda conseguem levar o processo de ensino-aprendizagem a sério porque a generalidade da população portuguesa – mesmo da classe média – não tem dinheiro para pagar as mensalidades exigidas pelas instituições que não recebem apoio do Estado.
A escola pública portuguesa tem sofrido assaltos sucessivos de grupos de pressão que, directa ou indirectamente, se têm instalado nos feios prédios do Aterro lisboeta, à Avenida 24 de Julho. Quem conheça o meio, sabe bem quem o povoa e quem por lá tem influência e é ouvido. As políticas educativas que conseguem impor, graças a eficazes manobras de propaganda, de pressão ou de manipulação, não visam nem alguma vez visaram a qualidade da escola e das aprendizagens. Não querem saber dos alunos nem das famílias nem dos professores. Servem interesses académicos e pessoais, agendas políticas e sociais, estratégias económicas. Pretendem usar a escola como palco, como ferramenta de manipulação ideológica, como caixa multibanco. As técnicas de sedução são exímias. Chegam a cativar muitos docentes, aliciando-os, ludibriando-os, estimulando os seus instintos mais escusos. Sabem recompensá-los. Usam-nos, depois, como armas de arremesso contra os seus colegas que têm a ousadia de pensar pela sua própria cabeça e de afirmar, sem medo, que o rei vai nu, que as “maravilhas fatais” apresentadas em formações e deformações não passam de quinquilharia velha ou sem valor, destinada a enganar meio mundo e a outra metade. A maioria dos professores não é, todavia, parva. Percebe o que está a suceder. Tem percebido. Tem resistido como pode. Essa resistência é conhecida. E detestada por muitos directores, por demasiados colegas, por muitos pais inconscientes e, obviamente, pela tutela do Ministério. Há mais de duas décadas que o assalto vem crescendo.
Ninguém ignora que o assédio moral dentro das escolas é uma realidade constante e reiterada. Quase sempre, subtil. A definição, pescada na Wikipédia (não é preciso ir mais longe), assenta como uma luva no que se passa com muitos docentes portugueses: “a exposição […] a situações humilhantes e constrangedoras, repetitivas e prolongadas […] actos ocorridos durante a jornada de trabalho e no exercício das suas funções […] desestabilizando a relação da vítima com o ambiente de trabalho e a organização […] ameaçando o seu emprego ou degradando o ambiente de trabalho […]”. Com maior ou menor intensidade, é este o dia a dia de muitos professores. Pais envenenados, colegas manipulados ou interesseiros, hierarquias picadas pelo Ministério sujeitam quem quer fazer o seu trabalho honestamente a pressões inimagináveis, a humilhações de que poucos suspeitam. Visam destruir a sua autonomia científica, técnica e pedagógica que, apesar de garantida pelo Estatuto da Carreira Docente, vem sendo dinamitada há muito tempo, com especial intensidade nos últimos seis anos (nos quais têm pontificado os fiéis continuadores da guerrilha promovida com eficácia, entre 2005 e 2009, por uma senhora chamada Maria de Lurdes Rodrigues e seus comparsas). Junte-se a isto a subversão das regras de avaliação do trabalho dos docentes (alvo de um constante tráfico de influências e das mais mirabolantes manobras), o congelamento da sua progressão na carreira, a desconsideração do seu mérito efectivo (em benefício de um lambe-botismo atávico), a intromissão nas suas aulas (que chega ao ponto de impor “coadjuvantes” dentro das salas que, na prática, são muitas vezes vigilantes e bufos), o apagamento ou manipulação do rigor na avaliação e na disciplina – e não serão muitos os resistentes. Quem está perto da reforma, aposenta-se o mais depressa que pode, mesmo com prejuízo na carteira. Quem consegue encontrar uma porta aberta por onde possa fugir, muda de emprego, definitivamente ou durante algum tempo. Outros, infelizmente, não resistem e sofrem graves consequências na sua saúde, nem sempre remediáveis.
Alguém se admira de que os professores escasseiem com este sistemático mecanismo de “assassinato”? Quem se espanta quando, hoje em dia, poucos jovens querem formar-se para exercer a docência nas escolas públicas portuguesas? Só os parvos ou os interesseiros podem mostrar espanto. Só os incautos podem acreditar na hipocrisia daqueles que surgem, agora, muito preocupados (propondo medidas de papelão) quando, na realidade, são eles os responsáveis pela grave situação em que estamos mergulhados. Quem, como eu, se confronta directamente com o nefasto purgatório que é, hoje, a escola pública portuguesa já está à espera de tudo. Como pai e professor, sei do que falo e dolorosamente o escrevo, pois é preciso dar testemunho público, agora mais do que nunca. Seria bom que muitos outros o fizessem, saindo do seu silêncio angustiado ou do alívio das redes sociais e das salas de professores.
Tirei consequências daquele dia em que me vi obrigado a ir ao hospital, aceitando o que os vários médicos me impuseram durante meses e meses. Vi-me obrigado a assumir uma derrota que pôs em causa 25 anos de dedicação aos alunos. Hoje tenho saudades deles. Deles só. Muitos, como eu, voltariam de bom grado ao ensino se a escola voltasse a ser uma escola, deixando de ser um soez campo de batalha ideológico onde só os heróis resistem à estratégia de estupidificação geral que há muito está montada. Não sei o que o futuro nos trará. Não sei o que o futuro me trará quando e se um dia para lá voltar. Só um movimento de 180 graus poderá arrepiar o perigoso caminho que trilhamos. Só assim serão vencidos os “snipers” que vão eliminando os professores, substituindo-os por simulacros baratos sem autonomia, sem ética, sem exigência e sem pensamento próprio.

RUY VENTURA
(escritor e investigador)

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5 comentários

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    • Júlia Braga on 21 de Novembro de 2021 at 13:06
    • Responder

    É isto! Um após outro, vamos desistindo … morrendo como professores!
    Mas os professores deviam ser seres pensantes que desobedecem ao que não faz sentido no reino da burocracia . Conheço poucos , infelizmente!
    Eu só faço e farei o que faz sentido, e mesmo assim sinto uma desilusão enorme! Provavelmente terei consequências, provavelmente a minha avaliação será prejudicada porque não tenho um lindo dossiê carregado de planificações e de evidências . Mas eu quero ter tempo para ver o Mundo, para ler. Ir ao cinema, passear … ser saudável e ter Mundo . Porque quanto mais completa eu for, como ser humana, mais completa serei como professora e mais ricas e interdisciplinares poderão ser as minhas aulas . As minhas aulas são o meu palco, o local onde faço viajar os meus alunos para os diferentes acontecimentos da História, onde os faço pensar como um rei do século XVI ou um soldado da guerra das trincheiras , que os levo até à Grécia, onde exercem a sua cidadania na Eclesia ou até Roma, ou à criação dos EUA ,.,,, são tantas as “viagens”, tantas as questões e , por vezes, sou surpreendida por uma interpretação ou ideia que faz todo o sentido é que nunca me passou pela cabeça. Ensinar foi sempre para mim algo fascinante e pensar nas aulas, poder prepara -las e reajusta -las durante aqueles 50m mágicos enchia – me a alma .
    Entretanto tudo ou quase tudo se esfumou . Como foi possível ? Eu ainda tento dar aulas como gosto e sei , mas tiraram -me horas letivas e deram – me horas para poder mostrar no papel , mas planificações, aquilo que eu vou fazer ( ou digo que faço ) em cada aula . E tenho que registar que competências transmiti que aprendizagens alcançaram , os alunos!Pobres professores que se arrastam pelos corredores, a preencher papelada com nomes sempre sugestivos e de eficácia para além de duvidosa.
    E o que interessa ? Quantas negativas ? Porque ? Que medidas a implementar ? Mais umas papeladas com umas cruzinhas para preencher ( incentivar a participação , acompanhamento mais individualizado,sempre que possível , realização de sínteses, etc etc ) tudo não passa de mais um papel , feito a meio das inúmeras e áridas reuniões dos cerca de 200 alunos que tantos professores têm.
    Para que serve tudo isto? Qual o objetivo ?
    Ah, sim , falta falar das tão temidas inspeções que passam dias a verificar todos esses dossiês e se tudo está registado como é imposto pela tutela .
    E quando há um diretor que tem a capacidade de pensar fora da caixa, que consegue transformar a escola num local onde se aprende e onde se partilham saberes … mais tarde ou mais cedo vai embora, triturado pela máquina burocrata que deixa estes homens cinzentos tranquilos !
    Professora de História

  1. https://youtu.be/FG5Ll0uHHXw

    • Júlia Braga on 21 de Novembro de 2021 at 13:10
    • Responder

    É isto! Um após outro, vamos desistindo … morrendo como professores!
    Mas os professores deviam ser seres pensantes que desobedecem ao que não faz sentido no reino da burocracia . Conheço poucos , infelizmente!
    Eu só faço e farei o que faz sentido, e mesmo assim sinto uma desilusão enorme! Provavelmente terei consequências, provavelmente a minha avaliação será prejudicada porque não tenho um lindo dossiê carregado de planificações e de evidências . Mas eu quero ter tempo para ver o Mundo, para ler. Ir ao cinema, passear … ser saudável e ter Mundo . Porque quanto mais completa eu for, como ser humana, mais completa serei como professora e mais ricas e interdisciplinares poderão ser as minhas aulas . As minhas aulas são o meu palco, o local onde faço viajar os meus alunos para os diferentes acontecimentos da História, onde os faço pensar como um rei do século XVI ou um soldado da guerra das trincheiras , que os levo até à Grécia, onde exercem a sua cidadania na Eclesia ou até Roma, ou à criação dos EUA ,.,,, são tantas as “viagens”, tantas as questões e , por vezes, sou surpreendida por uma interpretação ou ideia que faz todo o sentido é que nunca me passou pela cabeça. Ensinar foi sempre para mim algo fascinante e pensar nas aulas, poder prepara -las e reajusta -las durante aqueles 50m mágicos enchia – me a alma .
    Entretanto tudo ou quase tudo se esfumou . Como foi possível ? Eu ainda tento dar aulas como gosto e sei , mas tiraram -me horas letivas e deram – me horas para poder mostrar no papel , mas planificações, aquilo que eu vou fazer ( ou digo que faço ) em cada aula . E tenho que registar que competências transmiti que aprendizagens alcançaram , os alunos!Pobres professores que se arrastam pelos corredores, a preencher papelada com nomes sempre sugestivos e de eficácia para além de duvidosa.
    E o que interessa ? Quantas negativas ? Porque ? Que medidas a implementar ? Mais umas papeladas com umas cruzinhas para preencher ( incentivar a participação , acompanhamento mais individualizado,sempre que possível , realização de sínteses, etc etc ) tudo não passa de mais um papel , feito a meio das inúmeras e áridas reuniões dos cerca de 200 alunos que tantos professores têm.
    Para que serve tudo isto? Qual o objetivo ?
    Ah, sim , falta falar das tão temidas inspeções que passam dias a verificar todos esses dossiês e se tudo está registado como é imposto pela tutela .
    E quando há um diretor que tem a capacidade de pensar fora da caixa, que consegue transformar a escola num local onde se aprende e onde se partilham saberes … mais tarde ou mais cedo vai embora, triturado pela máquina burocrata que deixa estes homens cinzentos tranquilos !

    • Marie Curie on 23 de Novembro de 2021 at 12:40
    • Responder

    Obrigada Ruy por ter dedicado o seu maltratado tempo a escrever para um buraco sem fundo. Como é evidente as suas palavras valem ouro. O Ruy disse tudo, já muita gente antes do Ruy disse tudo. Mas desde o 25 de abril (porque antes não existia política de educação) que a incompetência e a ignorância dos políticos entregou o Ministério da educação a figuras de segunda, a erros de casting. Fazem-no, porque na sua ignorância e incultura, consideram a educação um assunto menor, um assunto doméstico, para entregar nas mãos de mulheres. Não percebem a realidade gritante de que a educação (sendo a nossa principal fonte de riqueza os recursos humanos) é um setor estratégico mais importante do que as Finanças ou a Economia, por isso, a Educação tem de ser entregue nas mãos de alguém que saiba pensar, com sentido crítico e que valorize a inteligência e o conhecimento científico, os únicos que nos podem fazer superar o hiato histórico de 48 anos de obscurantismo e analfabetismo (quando se dá o 25 de abril temos a mais alta taxa de analfabetismo da Europa). Com a sua impreparação e incultura os políticos passaram por esse hiato como se não fosse nada e numa visão infantil, pensaram ser a solução, empanturrar a escola com a massificação. Em vez de organizarem um choque cultural na sociedade portuguesa, atiraram o problema para dentro dos muros da escola e disseram aos professores: Agora, amanhem-se! Ao mesmo tempo fizeram vista grossa das transformações sociais e das alterações nas famílias. Hoje as mulheres trabalham fora de casa, têm responsabilidades profissionais iguais às dos homens, porventura com maiores exigências e menos compensações, resultado: ninguém educa no seio da família, as crianças e os jovens são entregues na escola em estado virgem, perdeu-se muito do trabalho realizado em família em matéria de socialização primária. Aos professores, sem ferramentas e sem poder para realizar esse educação primária, é-lhes dito: Amanhem-se! sirvam de tábua de choque. Os mesmos políticos incultos e impreparados, porque não sabem pensar pela sua cabeça e separar o trigo do joio, apoiam-se sistematicamente em especialistas para ter opinião sobre as matérias, O problema é que quando procuram especialistas na área da educação, vulneráveis que são, porque incultos, os políticos ficam intimidados com a palavra “ciência” e porque são pseudo-ciências ou “ciências ocultas”, como alguém já chamou, as “ciências” da educação (precisam do título antes se não ninguém as considerava como tal) estas não têm soluções para os problemas, pelo contrário carregam mais problemas sem sentido e sem solução na educação, porque as ciências da educação ainda não conquistaram estatuto epistemológico, não passam de ideologia de calendário, são alimentadas por uma espécie de seita religiosa, com os seus credos, doutrinas, rituais, acólitos e crentes. Existem para ocupar o espaço vazio deixado pelo pensamento crítico e pelo bom senso. Porque não sabem Epistemologia, os políticos incultos e pouco racionais, deixam-se impressionar por este universo mítico, por estes “feiticeiros da tribo”. Não sabem que as verdadeiras ciências estão permanentemente abertas à refutação, sendo um espaço aberto ao pensamento crítico e ao “refreshing”, exatamente o contrário do que acontece com a catequese das “ciências” da educação. Ora, são pessoas configuradas com este pensamento dogmático que pululam nas hierarquias da educação. Por isso, se não aparecer um Marquês de Pombal na educação, com olhar cirúrgico, esta gangrena, nunca se resolverá, com consequências diretas no rendimento do país, no seu desenvolvimento e nos salários dos portugueses. Tudo o que o colega Ruy disse, é sagrado, somado ao que já foi dito inúmeras vezes antes por outros verdadeiros especialistas da área da educação e cujas palavras caíram igualmente em” saco roto”, para mal de todos os portugueses e não apenas dos professores.
    Se acrescentarmos a isso, outras perversões, como um modelo de avaliação de professores indigno, ferramenta de assédio moral, autêntico “Frankenstein sadomasoquista”, congeminado por alguém sem formação moral e com total falta de noção, arbitrário, sem genuínos mecanismos de controle e proteção do avaliado (o que contrasta com a parafernália seguritária da avaliação dos alunos) que contabiliza de forma infame e impudicamente assumida, na avaliação de professor, trabalho de Técnico de Secretariado e de Animador Sociocultural, profissões distintas, para cujos serviços o professor não foi contratado e para os quais não pode nem deve ter perfil.
    Se somarmos a isto o facto da hierarquia de poder nas escolas ser indesejada por quem tem verdadeiro perfil de professor e só ser desejada por quem tem necessidade de exercer poder sobre os outros, por quem tem mentalidade burocrática, falta de cultura democrática e uma autoimagem sobrevalorizada (que me perdoem os colegas, que podem existir, e que exercem estas funções contrariados, em sofrimento e o fazem apenas por sentido de responsabilidade ou por impossibilidade de recusa.)
    Se somarmos a isto que Encarregados de Educação e jovens assistem a este circo romano, todos os dias, e divertidos ou não, é certo e seguro que pensam: profissão de professor na família? nunca.
    Se somarmos a isto uma sociedade que não distingue falso de aparente, que valoriza quem não sabe e desvaloriza quem sabe, que vive da vertigem, do consumo, da competição, da imagem, da superficialidade, do imediato, valoriza o “chicoespertismo”, o alpinismo social, o oportunismo, o arrivismo e desvaloriza o trabalho, a competência, o mérito e o esforço, temos a receita para o desastre que nos será servido, que nos está a ser servido.
    É também verdade que se fosse possível, os alunos abandonariam esta escola pública que está ao “Deus dará”, em troca da miragem da escola privada, não o fariam por amor ao saber, mas por amor às classificações que lhes abrem as portas do sucesso, mas aí enganam-se, porque as escolas privadas têm o direito de admissão e lá só fica quem cumpre minimamente as regras e quem trabalha, porque as escolas privadas, têm uma imagem, uma marca comercial a defender. Os seus dirigentes preservam o seu ganha pão, não são como os “gestores” das escolas públicas que se desrespeitarem os professores, se tratarem os professores como alunos e os alunos como professores, pensam que cumpriram a sua função e salvaram o dia , porque esse é o limite do seu pensamento e atuação. Desenganem-se porém os que pensam que podemos assim extinguir a escola pública, descartá-la por preguiça e falta de coragem moral para arranjar soluções. As escolas privadas vão arranjar os seus professores ao sistema, se o sistema está em degradação, como podem as escolas privadas fazer melhor? assim sendo, o declive espera-nos a todos. Além disso, é perigoso entregar a formação de cidadãos exclusivamente nas mãos do setor privado que não responde direta e publicamente e cujos interesses podem nem sempre ser transparentes. “Não devemos colocar todos os ovos no mesmo cesto”, também temos esse cuidado no setor da saúde.
    É também verdade que se os professores pudessem também fugiriam desta escola pública, muitos entraram antes da destruição da escola pública, e agora sentem-se prisioneiros, é tarde para deitar fora tanto investimento, fazem das “tripas coração” para não fugir. Muitos já não entram para esta profissão, ninguém com a cabeça no sítio, entra voluntariamente na arena do circo romano, assim não precisam de mais tarde pregar para o deserto.

    • Cristina Fernandes on 24 de Novembro de 2021 at 19:31
    • Responder

    Eu tal como o Ruy fui vítima deste sistema que “mata” professores. Tal como ele, um dia entrei em colapso com o sem número de funções vazias e sem substância que a “máquina” despeja aos professores sem qualquer utilidade para a formação crítica dos alunos. Este sistema serve apenas para desancar os professores com tarefas absurdas sem qualquer fundamento. Este sistema não defende o professor nem o aluno e trata os dois como seres inferiores, mentecaptos. ofendendo-os com desrespeito e assédio moral.

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