Um cogumelo atómico em plena selva amazónica mesmo à nossa frente e todo ele vida e os átomos não de urânio mas hidrogénio, dois, e oxigénio, um, aos milhares de milhões e o cogumelo não explode mas chove por inteiro numa questão de minutos até finalmente desaparecer como se nunca tivesse existido. Até vir o próximo. É uma questão de segundos. A selva amazónica produz o seu próprio clima de tão densa, assim como densa é a humidade, sente-se, empurra-se com as mãos e com a pele, bebe-se com a boca, basta abrir a boca e a chuva, repentina, errática, tão inevitável como o dia e a noite, a vida e a morte, o sol e a lua, tu e eu. Está à nossa volta, omnipresente, omnisciente. Na Amazónia os rios correm nos céus e trazem consigo todos os dias mais água do que o Amazonas inteiro, cerca de 20 mil milhões de metros cúbicos em comparação com os 17 mil milhões de metros cúbicos a desaguar no Oceano Atlântico. Tal só é possível porque cada árvore capta água até 60 metros de profundidade, libertando 1 metro cúbico de água por dia para a atmosfera. Agora multipliquem isto por 600 mil milhões de árvores e o resultado é um cenário de nuvens em constante formação, quais gigantescos dirigíveis a pairar para sempre num conto infantil. O rio Cauaburi serpenteia entre meandros e braços de rio em pleno território Yanomami, não, um rio não, uma artéria a caminho do Pico da Neblina lá ao fundo e tudo o resto é a Amazónia verde perdida muito para lá do horizonte, muito, muito para lá destes olhos e de tudo quanto a vista alcança. Uma vista tão imensa como todos estes braços abertos à procura de abraçar aquele que seria o 3° ou 4° maior país do mundo, isto se a Amazónia fosse um país, mais ou menos toda a União Europeia e portanto não um país mas um continente espraiado por 9 países entre Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela. A Amazónia de Sebastião Salgado, em exposição no Science Museum de Londres não é só imperdível, é vasta, é infinita, é um Deus vivo e o Amazonas o seu embaixador cujos mais de 1100 afluentes trazem consigo 20% da água doce da Terra. Nestes termos, nem sequer é preciso ter a floresta diante de nós, bastam os números para apreender a sua importância, inversamente proporcional à nossa insignificância. A insignificância do homem branco perante as mais de 400 tribos de pares em comunhão com a floresta há milhões de anos nesta Pandora, uma Pandora ainda hoje por descobrir e dentro da qual tribos há tão ignorantes da nossa presença como feliz é a sua existência. Long may it last. Xingu, Awá-Guajá, Zo’é, Suruwahá, Ashaninka, Korubo, Yanomami, Macuxi, Yawanawá, Marubo. Sim, são tribos da Amazónia. Dir-se-ia estarmos a falar de espécies alienígenas ou então da flora e fauna locais quando os nomes são tão estranhos como estranha é a floresta amazónica. Mas não estamos. A título de exemplo, os Ashaninka não são os Ashaninka ou não tivessem na sua origem a mesma origem dos Incas e portanto são Incas e estão aqui à nossa frente. Ainda. 10 tribos, apenas 10 tribos retratadas a negativo mas todas as tribos e a mensagem uníssona: a destruição das suas terras, não, da sua floresta, não, do seu mundo, o único mundo que alguma vez conheceram, é fruto do bicho-homem à procura de ouro e ferro mas também terras de pasto e madeira, cortando árvores e abrindo caminho a estradas, camiões, milhares de bichos-homens mais as suas doenças e vícios, em tudo ignorantes da natureza que os susteve e sustém. E, no entanto, incapazes de parar com este haraquiri formidável, como se para nos salvarmos de uma doença estranha decidíssemos extirpar todas as veias do corpo. Para as tribos indígenas, cortar uma árvore ou matar um animal sem outro propósito que não a ganância faz tanto sentido como jogar à roleta russa: é uma questão de tempo. Assim como é uma questão de tempo até que um milhão de índios se vejam expropriados, exilados, expulsos das suas terras ao qual acrescentamos o assassinato de representantes tribais e o genocídio de populações inteiras à queima-roupa, os incêndios sem princípio nem fim nem porquê, as epidemias, as temperaturas extremas no Verão, a falta cada vez maior de água na estação das chuvas. Tudo depende da vontade do governo brasileiro e Bolsonaro à sua cabeça. Por isso a sua luta, mensagem e voz, a mesma de cada um dos líderes tribais, mensagem essa reproduzida em cada árvore da floresta amazónica: A Terra é, até hoje, o único mundo capaz de conter, e criar, vida, e olhando em redor não há qualquer outro lar, qualquer outra terra, para onde a nossa espécie possa olhar, estender os braços e migrar à procura de outra vida que não esta. A sua destruição não é senão o condenar da nossa espécie à extinção certa. Se assim for o nosso desejo, a estrada já está aberta por entre as árvores: basta percorrê-la. Mas se porventura nos perdermos e se porventura nos ocorrer este medo súbito e este desejo súbito de querer voltar para trás, tal não será possível sem a ajuda de quem conhece a floresta, e com a floresta a Mãe Gaia, como a palma da mão: Xingu, Awá-Guajá, Zo’é, Suruwahá, Ashaninka, Korubo, Yanomami, Macuxi, Yawanawá, Marubo. Amazónia, exposição fotográfica de Sebastião Salgado, está patente no Science Museum de Londres até Março de 2022. Perdê-la é perder a Amazónia.