Tanta “Uber-Escola” que já não há professores

 

Tanta “Uber-Escola” que já não há professores

 

A crescente falta de professores é indisfarçável. Tem causas há muito identificadas e importa enquadrar a fuga a ser professor que atinge vários países da Europa; até a exemplar Finlândia, após as “reformas” do Governo (de 2015 a 2019) do “milionário das telecomunicações” Juha Sipilä.

Começar do zero e reescrever as regras do jogo é a conclusão de Shoshana Zuboff (2020), em “A era do capitalismo da vigilância”, no que é acompanhada por muitos investigadores e investidores. E aponta os resultados mais críticos das políticas económicas das últimas cinco décadas que também influenciaram os sistemas educativos: polarização política, alterações climáticas, monopólios que eliminam a concorrência, mercados desregulados, primado absoluto do capital sobre o estado-providência e custos incalculáveis na coesão social e no bem comum.

Contudo, os menos cépticos já percepcionam um momento de inflexão que exige duas possibilidades vitais: armazenamento de energia e organizações da democracia com modelos que não dependam tanto da personalidade de quem as gere.

E se os efeitos do jogo vigente variaram nos países ocidentais, com as democracias do norte da Europa a atenuarem as consequências, já as políticas de desregulação e precarização (que Thatcher e Reagan iniciaram e Clinton, Blair, e Schröder continuaram) anteciparam a revolução na organização do trabalho: para se sobreviver, pode ser-se motorista da Uber, comprador da Glovo e anfitrião do Airbnb.

Em Portugal, a falta estrutural de professores – a mais grave dos 27 países da UE – deveu-se à construção paulatina da escola pública mais “Uber” da Europa que só se “salvaria” numa hipotética, e cada vez mais longínqua, transição do modelo actual para organizações digitais sem turmas nem disciplinas.

E é crucial sublinhar as causas das políticas mais ideológicas que foram extremadas por cá, com graves prejuízos também para alunos e restantes profissionais da educação:

1. Degradação do estatuto da carreira e do sistema remuneratório. Como a Comissão Europeia voltou a reconhecer no mês passado, a precarização dos professores não tem paralelo nas leis do trabalho na Europa (no público nem no privado) com profissionais a contrato durante décadas. Para além disso, o exercício de todos os professores passou a incluir horários ao minuto com mais turmas – e turmas com mais alunos – e um conjunto de procedimentos, repetidos e inúteis, que efectivou a perda de atractividade da profissão;

2. Avaliação de professores, com quotas e vagas, inspirada em modelos individualistas e dilacerantes das atmosferas relacionais que sofreram o primeiro e sério revés nos 35 suicídios do conhecido processo da France Telecom na primeira década do milénio. É fundamental corrigir um sistema que é uma caixa de pandora para as variantes de assédio no ambiente profissional e recuperar a humanista avaliação olhos nos olhos;

3. Escola a tempo inteiro que se transformou em educação a tempo inteiro na escola. Como a OCDE reconheceu no mês passado, só em Portugal o sistema não se centra nas aprendizagens e foi imposto de forma impensada com o mesmo programa na totalidade do país associado à precarização dos professores como guardadores no modelo “Uber”;

4. Modelo autocrático de gestão norteado por interesses divergentes da missão da escola pública, combinado com um modo de agrupar escolas único na Europa que fez terraplanagem da história das organizações e dos mecanismos de cooperação e secundarizou a decisiva gestão de proximidade;

5. Ranking de escolas sempre “em progressão” dado a ausência de dados fundamentais, e, desse modo, eficiente na propaganda comercial com graves prejuízos para a igualdade de oportunidades e para o exercício dos professores.

Posto isto, evidencie-se a incapacidade política dos sucessivos governos na democratização destes instrumentos. A mistura de fuga ao real com inaptidão resultou numa inércia que tornou irrelevante o papel da escola nos debates orçamentais e eleitorais.

A recente aversão dos professores, bem documentada nos espaços de opinião, à Escola Ubuntu (mas podia ser outro projecto e também bem intencionado), é uma reacção cansada e irritada ao efeito mediático de distracção que a inflação de projectos provoca em relação às questões fundamentais. E depois, há uma espécie de entretenimento infernal promovido por personalidades que gravitam na galáxia dos governantes e numa órbita distante das salas de aula.

Em suma, a inundação de projectos (exactamente o que mais originou a crise finlandesa) origina climas de adesão militante ou de revolta contida: escolas que querem agradar ao poder que as avalia e professores avaliados sobrecarregados com as burocracias mil vezes identificadas e outras tantas invisíveis para governantes.

Por outras palavras: “Uber-Escola” para as salas de aula e Escola Ubuntu para o espaço sideral, anunciado com pompa na tradição que nos consome: Urbi et Orbi(ta); encomende-se mais um “Ubuntu-estudo” e crie-se uma “Ubuntu-task-force”.

 

in Público

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5 comentários

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    • Ana Ribeiro on 26 de Novembro de 2021 at 12:21
    • Responder

    Ainda estou a bater palmas – BRAVO!!

    • Moi on 26 de Novembro de 2021 at 15:16
    • Responder

    Muito bom! E nenhum dos candidatos a futuros governantes deste país fala disto!

    • windmic on 26 de Novembro de 2021 at 15:46
    • Responder

    Idem BRAVO!

    (por estas dos “projetos” e muitas outras, é que começo a pensar seriamente em fazer as malas daqui a dois anos…)

    • Nero on 26 de Novembro de 2021 at 20:40
    • Responder

    Subscrevo em dito aquilo que foi escrito…mas e agora?! O que é que se pode fazer? Como lutar contra isto?
    Esta é a grande questão?
    Este é, não tenham dúvidas, o grande problema da nossa sociedade e porventura de todo o mundo “ocidental”.
    O sistema educativo que existir será o responsável pela sociedade que viermos a ter.

    • Luluzinha! on 27 de Novembro de 2021 at 15:24
    • Responder

    Análise magistral!

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