Os Unicórnios são nossos amigos…

 

 No momento presente, o lema que melhor define a actuação do Ministério da Educação parece ser este: Os Unicórnios são nossos amigos…

 A alucinação e o devaneio, numa “dinâmica perpétua e circular” (conceito roubado do Projecto Ubuntu…), parece ter-se instalado definitivamente no Ministério da Educação, fazendo prevalecer a convicção de que o entretenimento continua, agora mais evidente do que nunca, e agora também, previsivelmente, em modo de: “Bora lá, brincar a sermos felizes!”…

 Ainda que o elenco de perguntas possa ser considerado como “minimalista”:

 O que importa o número de alunos por turma?

O que importa a instabilidade profissional que afecta a Classe Docente ou os vícios impactantes da respectiva Carreira?

O que importa a falta de professores nas escolas?

O que importa a burocracia e o entulho de papéis? Ou se o preenchimento infindável de tabelas e de grelhas dominarem qualquer reunião, apesar de não terem qualquer reflexo ou efeito prático e concreto na função de ensinar?

O que importam as condições físicas e materiais das escolas?

O que importa se existirem alunos com fome e entregues a si próprios?

O que importam as “minudências” terrenas e mundanas?

 Nada disso importa… O que importa é “animar a malta” com “Projectos Encantados, Meigos e Afectuosos”, supostamente “cheios de Luz” e, de preferência, em regime de “fast-food”:  “prontos a comer”, à partida muito apelativos e persuasores, mas quase sempre enganadoramente saciantes…

 O Ministério da Educação teima em não querer percepcionar a realidade existente nas escolas e em negá-la obstinadamente, enredado numa espiral de dogmatismo e de afastamento das vivências tangíveis…

 O lema oficial do Ministério da Educação e de muitos Agrupamentos de Escolas bem podia passar a ser: Os Unicórnios são nossos amigos, tal é o grau de irrealismo e de fantasia que por aí grassam… E quando a isso se junta uma certa porção de lamechice, obtém-se um “Conto de Fadas”, mas sem um final feliz e sem que todos vivam felizes para sempre…

 E isto sem querer menosprezar os autênticos “Contos de Fadas” e sem ignorar a sua importância lúdica e o seu papel na compreensão de alguns processos mentais…

 Mas não nos enganemos, a pretensa “Felicidade” vem acompanhada de um “preço” e a estratégia do Ministério da Educação, digna de um ardiloso Maquiavel, não pode deixar de se assinalar:

 Os Projectos mais recentes patrocinados pelo Ministério da Educação, divulgados no passado dia 6 de Novembro, pela voz do Secretário de Estado Adjunto e da Educação (por via da Agência Lusa), na prática, parecem visar a atribuição de mais uma responsabilidade aos professores, que não aparenta ser pequena:

 A responsabilidade pela boa saúde mental dos alunos, nada menos do que isso…

 Pela via anunciada, parece esperar-se que os professores consigam capacitar os alunos ao nível da gestão das emoções, da relação consigo e com os outros, da auto-estima, da confiança e do controlo das atitudes…

 Ou seja, por tais Projectos, a responsabilidade pela aquisição de competências sociais e emocionais por parte dos alunos passa a ser vinculável e imputável aos professores, ainda que isso seja apresentado de forma ligeiramente subreptícia…

 A frequência de uma formação inerente aos Projectos, com algumas horas de duração, capacita, em termos técnicos e científicos, os professores para tal desígnio?

 Ou pretende dar-se aos mesmos a ilusão de que tal é possível, aproveitando para posteriormente os culpabilizar se os resultados obtidos não corresponderem aos desejados?

A formação académica, teórica e prática, necessária e imprescindível para intervir nessas situações deixou de o ser?

 Os Sábios do Ministério da Educação acreditarão convictamente que as dificuldades sócio-emocionais experimentadas por alguns alunos são solucionáveis, recorrendo à implementação de Projectos como os que se avizinham ou que já estão em marcha em algumas escolas?

 Não quero acreditar que seja assim… E tenho dúvidas de que os alunos venham a ser, efectivamente, os principais destinatários destes Projectos…

 Honestamente, não sei se isto é “chico-espertice”, ignorância ou se é mesmo má-fé…

 Cada um decida como entender, mas consciente de que determinadas “Formações Holísticas, Metafísicas ou Transcendentais” pressupõem que terceiros aceitem e assumam uma responsabilidade que, na verdade, não pode ser da sua competência, nem fazer parte das suas atribuições…

 A Educação parece estar com dificuldades em distinguir entre o que é real e o que é imaginário ou fantasia, dominada pelo Pensamento e pelo Poder Mágico, de que são exemplos todos os “Rituais de Papéis” associados à realização de reuniões numa escola ou Projectos apresentados como se fossem uma panaceia miraculosa…

 E os professores parecem estar a caminho de serem transformados em Alquimistas, a quem se exige ser capaz de curar todos os males, agora também os que afectem a saúde mental dos alunos…

Desde que os professores aceitem que tal epíteto lhes seja atribuído, o Ministério não terá quaisquer motivos para se ver obrigado a “descer à Terra”…

 Se o verdadeiro objectivo é “recuperar aprendizagens”, como se atinge tal fim sem que aos professores seja concedido o tempo e a serenidade necessários para ensinar?

 Nessa pretensa recuperação, que cabimento têm as absurdas e insanas tarefas burocráticas, o actual número de alunos por turma ou a falta acentuada de professores em algumas Disciplinas?

 Ou “recuperar aprendizagens” não passa de um pretexto para justificar a tomada de decisões irrealistas, com possíveis finalidades duvidosas e obscuras?

 Quanto custa ao erário público a implementação destes Projectos e que valoração é esperada na relação custo-benefício?

 Cada um tem o direito de acreditar no que quiser, inclusive em Unicórnios, mas quando a Fantasia se torna no pensamento oficial, algo de muito errado está a acontecer…

  

(Matilde)

 

 

 

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5 comentários

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    • Maria do Rosário Pereira Emídio on 14 de Novembro de 2021 at 12:58
    • Responder

    Muita lucidez. Parabéns à Matilde, que escreve sempre de forma tão acutilante, colocando “o dedo na ferida”! É pena a classe docente estar tão entorpecida e incapaz de reagir, talvez por consequência do cansaço e da desmotivação, com origem diversa, tal como enunciado no texto. Este é um tempo de reflexão, nomeadamente sobre como concretizar o exercício da democracia participada, recordando os efeitos de maiorias absolutas na situação dos professores e os perigos dos discursos populistas no passado histórico da europa, evitando o absentismo nas eleições.

    • Graça Ventura Brás on 14 de Novembro de 2021 at 13:19
    • Responder

    Que ataque de loucura, Matilde! E eu acompanho cada palavra porque estou igualmente louca.
    Como podem os professores aceitar a responsabilidade de resolver situações, que deveriam saber, à partida, que precisam de uma intervenção prolongada, estável, da família, de especialistas, de terapeutas… de todo um conjunto de coadjuvantes que levarão ao sucesso desejado?
    Mas não! Cegos pelo paleio socialista (nunca vi tamanho poder ilusionista!) aderem de livre vontade a mais uma tarefa digna de Hércules. Força! Ainda bem que estou de saída deste mundo. Sim, eu sei. Estou insana.

    • windmic on 14 de Novembro de 2021 at 19:15
    • Responder

    [Por estas e por outras é que pretendo sair deste mundo profissional de hipocrisia fútil e improdutiva e mudar de ares, mesmo que tenha que atirar para o lixo 30 anos de serviço. Antes uma pensão de treta que acabar num hospício.]

    • Pirilau on 14 de Novembro de 2021 at 19:38
    • Responder

    A escola já há várias décadas que deixou de ser o local de eleição para ensinar e aprender, tornando-se num autêntico albergue espanhol, onde cabem todos os delírios, toda a ignorância, todas as palhaçadas e toda a banha de cobra. Em suma, a escola tornou-se num sítio não recomendável.
    Mas não pensem que a loucura vai ficar por aqui. Não faltará muito para lá colocarem cartomantes, quirólogos, astrólogos, espíritas e mães de santo.

    • unicórnio dissidente on 14 de Novembro de 2021 at 20:49
    • Responder

    Muitos parabéns pela excelente denúncia crítica.
    Felizmente já me falta pouco para entrar em modo “p… que os p…” pois a reforma já espreita ao fundo do túnel.
    Não sei o que seria de mim ter de aguentar por muito tempo esta corja de alucinados que domina o ME e que se acha o máximo, o supra sumo da competência, um farol de iluminados a apontar o caminho, mostrando que todos estávamos errados até aqui, só eles é que sabem.

    Se no tempo da outra alucinada MLR para passarmos a ser avaliadores externos (à força) bastou a frequência de uma ou duas acções de formação de vão de escada, para estes seus fiéis herdeiros não será necessário muito mais para ser psicoterapeuta ocupacional de toda a população escolar.

    É por demais lamentável que o primeiro ministro Costa delegue irresponsavelmente os destinos da educação do país em gente que em vez de contribuir para resolver os problemas os agrava ainda mais.
    Assim como me entristece muito o acriticismo e a passividade dos meus colegas.
    Lembrem-se que não há políticas que sejam capazes de se impor perante tomadas de posição colectivas.
    Façam poupanças a contar com um mês de paralisação, nem que tenham de andar a sopa, para se fazerem respeitar.

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