Ao longo dos últimos anos, a Classe Docente não tem conseguido opor-se, de forma consequente e eficaz, à maior parte dos “atentados” que têm sido perpetrados contra si, por parte de sucessivos Governos, e quanto a isso não parecem existir grandes dúvidas, celeumas ou controvérsias…
A discórdia e a polémica costumam começar quando, a propósito da análise e da crítica a determinadas acções governativas no âmbito da Educação, se envereda pelo maniqueísmo ideológico, assente na concepção dualista de “Direita”/”Esquerda”…
Mas antes de haver “Direita” ou “Esquerda”, há políticas e medidas educativas que podem ser boas ou más, independentemente das ideologias. Fazer depender a avaliação dessa qualidade exclusivamente das convicções ideológicas de cada um, é propiciar o enviesamento e a deturpação desse juízo…
Quando alguém critica determinada política educativa conotada com a “Esquerda” ou com a “Direita”, isso significa que, forçosamente, o primeiro será de “Direita” e que o segundo será de “Esquerda”?
É legítimo e verossímil atribuir a essa crítica uma conotação obrigatoriamente partidária?
Não pode haver críticas ou elogios dirigidos à “Direita” ou à “Esquerda” sem intuitos partidários?
Ao enveredar por tal bipolarização, abrem-se “trincheiras”, extremam-se opiniões, e o foco deixa de estar nas políticas e medidas educativas em si mesmas e passa a centrar-se em argumentos falaciosos, cujo resultado mais comum acaba por ser não as analisar nem as discutir efectivamente…
Ou seja, a questão ideológica aparece, quase sempre, como uma espécie de “encosto”, como uma “falsa questão” ou como uma questão artificial, servindo sobretudo como subterfúgio para evitar a análise e a discussão de determinada política ou medida educativa e, em particular, para não reconhecer e assumir as suas eventuais desvirtudes…
Enquanto a Classe Docente não conseguir abstrair-se de concepções dualistas, de dicotomias artificiais e de categorizações falíveis, não conseguirá ver para além disso e ver-se-á impedida de alcançar consensos que conduzam à tão almejada união e de lutar pelo bem comum…
Enquanto a Classe Docente estiver refém dessa dicotomização e entretida a discuti-la, sem hipótese de chegar a qualquer conclusão unânime, não haverá a menor possibilidade de serem atendidas as suas principais reivindicações porque a divisão e o conflito “auto-fágico” enfraquecem qualquer forma de luta…
De certa forma, “demonizar” ou “santificar” a “Direita” ou a “Esquerda” até pode ajudar a simplificar e a organizar a realidade, mas também acarreta o risco de estereotipar ideologias e seguramente não ajudará a resolver qualquer problema afecto à Escola Pública, muito menos as iniquidades com que se debate a função Docente… Apesar de alguns “crentes fanáticos” das duas ideologias não dispensarem as acusações e os preconceitos recíprocos…
E o mais absurdo das querelas ideológicas parece ser isto: recusar assumir os erros cometidos pela acção governativa da “Direita” ou da “Esquerda” num certo momento, com a justificação de que determinados Governantes, anteriores ou posteriores, de “Direita” ou de “Esquerda”, fizeram pior…
Por essa ordem de ideias, torna-se impossível, num determinado momento, criticar e/ou apontar erros a uma determinada política educativa porque haverá sempre quem possa ter feito pior…
A conclusão, também absurda, a retirar será esta: afinal não há motivos para quaisquer contestações ou reivindicações porque os erros de uns serão sempre desculpáveis, branqueáveis ou anuláveis pelos erros de outros… No limite do paradoxo e do ilógico, e pela premissa anterior, contesta-se o quê, se afinal não existem erros nas políticas educativas?
No momento actual parece que analisar e criticar a política educativa do Governo chefiado por António Costa pode ser considerado como um “sacrilégio” por alguns, que põem em causa a credibilidade dessa crítica, acusando-a de fazer a apologia partidária de “Direita”…
E também parece que não se pode criticar a política educativa do Governo de José Sócrates, sem fazer qualquer referência à de Nuno Crato, enquanto Ministro da Educação do Governo chefiado por Passos Coelho…
Apelando a algum sentido de humor que ainda possa subsistir, sobre o anterior afirmo apenas isto: penitencio-me por não reconhecer o enorme mérito e o inquestionável contributo dado por de Maria de Lurdes Rodrigues e por Tiago Brandão Rodrigues, respectivamente Ministros da Educação de José Sócrates e de António Costa, no sentido do respeito, da valorização e da dignificação da Classe Docente e do prestígio e da excelência da Escola Pública…
A ter sido assim, não haverá, por certo, quaisquer motivos para criticar as políticas educativas do Governo de José Sócrates e de António Costa, comummente conotados com a “Esquerda”…
O mais certo é ter andado muito absorta e distraída, mea culpa, mea culpa, mea culpa…
Quanto a Nuno Crato, confesso que foi penoso e excruciante suportar o seu mandato enquanto Ministro da Educação do Governo chefiado por Passos Coelho…
Agora novamente mais a sério, pelo Histórico de Governos da República Portuguesa, disponível no site oficial do Governo, verifica-se que, desde o 25 de Abril de 1974 até ao momento actual, o país foi gerido por um período de cerca de 22 anos por Partidos Políticos conotados com a “Esquerda” e cerca de 19 anos pelos conotados com a “Direita”, se excluirmos os Governos Constitucionais que estiveram em exercício de funções menos de um ano e cujo 1º Ministro não viu renovado esse mandato e os Governos Provisórios …
Dado que a diferença anterior, cerca de 3 anos, não parece significativa, não pode deixar de se imputar à “Esquerda” e à “Direita” a co-responsabilidade pelo estado caótico e calamitoso em que se encontra a Educação no momento actual…
Por onde tem andado a vontade política, quer da “Esquerda” quer da “Direita”, no sentido da resolução dos muitos problemas que afectam a Escola Pública, há já vários anos?
E, contudo, “gritar” a importância da Educação fica sempre tão bem em qualquer Programa Eleitoral…
Nota final:
As políticas educativas surgem porque existem Partidos Políticos que as originam e que são responsáveis por elas, em cada Legislatura. Não assumir isso e considerar que quando se fala e discute sobre Educação não se pode falar nem discutir sobre Política é um acto de profunda hipocrisia e de negação da realidade…
A isenção não é fazer de conta que não existe qualquer interdependência entre Educação e Política. A isenção é conseguir analisar e discutir as políticas educativas, assumindo e reconhecendo as suas des(virtudes), sem o apego redutor a ideologias, ainda que as convicções políticas de cada um sejam um direito inalienável…
(Matilde)




3 comentários
O governo de Sócrates e Maria de Lurdes Rodrigues foi o grande carrasco dos professores. Maria de Lurdes decapitou a carreira docente. O PS tem sido péssimo para os professores. Dito isto, os governos do PSD não melhoraram nada, pelo contrário, aproveitaram a ferida aberta e remexeram nela, com Nuno Crato a decidir os horários contadas ao minuto. Sendo assim, para nós, estar no poder um governo PS ou PSD vai dar ao mesmo, só mudam as moscas. Resta-nos votar em partidos mais pequenos que podem obrigar os dois “grandes” a dar-nos alguma “migalhinha” , repor-nos algum direito perdido, permitir-nos uma reforma antes da morte por exaustão.
Maria N.
Atenção aos partidos “pequeninos” como o CHEGA, CDS e Iniciativa Liberal. São contra a escola publica.
Oh, cara colega, desses partidos Deus nos livre!
Referia-me aos partidos mais pequenos da esquerda : PCP ,BE,LIVRE e PAN que podem , eventualmente, querer captar votos dos professores e assumir alguma das nossas causas.
NUNCA votaria em partidos que querem acabar com a Escola Pública e com todos os outros serviços públicos do Estado Social. Votar nesses extremistas é suicídio social.