A escola e os pais: a relação de amor – Inês Pereira

 

A escola: não conseguimos viver sem ela e não conseguimos viver com ela. Há coisas na escola que nos irritam assim como o portal das finanças; no entanto, não há dia mais feliz do ano do que aquele reencontro em setembro, depois de uma ausência prolongada que tanto nos atormenta e aperta o coração com saudade. Só percebemos o valor das coisas quando elas nos faltam – ou seja, quando a escola nos fecha os portões na cara durante os meses de verão, é quando nos apercebemos quanto a amamos. Mas ela também nos incomoda, também a detestamos. E é nessa altura, quando os maus sentimentos nos invadem e os momentos de desespero tomam conta do juízo e da razão, que nos apetece atirar tudo ao ar e os livros ao lixo, e desistir – trocar a escola por um barco para dar volta ao mundo e levar os miúdos dali para fora (versão divórcio em linguagem escolar). E isto porque a escola sabe ser mesquinha, metediça, autoritária, exigente e fria. Ela não reconhece o nosso valor, o nosso esforço e não perde um minuto para conversar: comunica por email. Querem falar com o professor de matemática? Não dá: envie o email ao diretor de turma. Não gostam da disciplina de Cidadania? Temos pena, é o que há. Deste modo é difícil, e nenhuma relação de amor sobrevive a esta forma de tratamento entre as partes. Ela não dialoga, decide unilateralmente.

A escola acha que sabe aquilo que é melhor para os nossos filhos; pior, acha que nós não sabemos; pior ainda: nós achamos que a escola tem razão. Dramático: se calhar até tem. Como é que eu sei? Porque se assim não fosse, fazíamos todos aquilo que os pais de Famalicão fizeram.

Mas não. E não fazemos porque na dúvida confiamos na escola. Na dúvida, quem sabe é ela, nós somos apenas pais que precisamos da escola para educar os filhos. A quantidade de pais que não faz a mínima ideia dos critérios e das formas de acesso ao ensino superior, quais as ofertas no ensino secundário e pós-secundário, quais as modalidades para conclusão do ensino obrigatório, como calcular as médias, etc., é assustadora. Os filhos precisam da escola para ensinar e também para os encaminhar no seu percurso académico durante e pós ensino obrigatório. Se dependesse da informação disponibilizada pelos pais, a grande maioria dos alunos não sabia a diferença entre as áreas, os cursos EFA e como concluir disciplinas como aluno externo, como anular cadeiras e quando é que vale a pena anular, como ligar o ensino pós secundário ao secundário para que tudo faça sentido, o engano dos testes vocacionais no 9.o ano, etc. Só percebi isto tudo ao fim do terceiro filho.

Para que a relação entre a escola e os pais resulte é preciso que os pais cresçam, participem nas políticas de educação, pensem para além dos seus quintais e lutem pela autonomia das escolas, que é a única forma de poderem ter relações saudáveis e à medida dos interesse dos seus filhos.

Enquanto a ambição for uma solução para todos mas feita à medida do meu filho, teremos Cidadania para todos e amanhã teremos sabe-se lá o quê. Cada pai reclama por um Ministério da Educação só para si – uma ditadurazinha à sua medida – em vez de exigir autonomia das escolas e a famosa e velha liberdade de escolha que lhe resolveria todos os problemas. Porque isto das escolas é como os casamentos – não há relações iguais.

 

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