A entrevista  – Luís Filipe Torgal  

 

Vi e ouvi a entrevista que António Costa deu na RTP (no dia 8 de novembro). Costa foi eficaz na mensagem que propagou e concordei com vários dos argumentos que invocou sobre as graves responsabilidades do PCP e do Bloco de Esquerda, bem como dos restantes partidos com assento parlamentar, no chumbo do orçamento.  

Porém, sou professor e jamais poderei ignorar as políticas educativas turbulentas e incongruentes implementadas pelos governos que presidiu. O seu fantasmagórico Ministro da Educação, que nunca compreendeu e por isso perverteu a magnitude da sua missão. O seu tecnocrático Secretário de Estado da Educação, que desconsiderou e padronizou as dificuldades, complexidades e diversidades enfrentadas pelos professores de sala de aula nos diversos ciclos de ensino. O «eduquês» pós-moderno (os tecnocratas do Ministério da Educação chamaram-lhe «Autonomia e Flexibilidade Curricular») decretado às escolas através de torrentes asfixiantes de leis, portarias e circulares. A agitação dispensável em torno da dicotomia conhecimentos vs. competências no processo educativo, que a maioria dos professores sempre soube, por experiência adquirida, serem conceitos indissociáveis. O modo ardiloso, empírico, experimental, formatado e desgrenhado como propagaram pelas escolas — sobretudo pelas escolas mais ávidas por agradar à tutela e aos seus inspetores — metodologias «lúdicas» e critérios de avaliação «modernistas», os quais estenderam-se, uniformemente, do ensino pré-escolar ao ensino secundário, tratando por igual ciclos educativos e disciplinas que têm exigências, peculiaridades e problemas diferenciados. A desvalorização da aprendizagem do conhecimento científico e a rejeição categórica dos instrumentos clássicos de partilha e avaliação desse conhecimento. O «sucesso educativo» forjado por procedimentos de avaliação ainda mais burocratizados e fantasiosos, mas também pela inclusão capciosa dos alunos com maiores dificuldades de aprendizagem e ainda pela dispensa ou simplificação dos exames. A invenção redundante e, por isso, dispensável da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, que usurpou tempos letivos às disciplinas de História e de Geografia e onde é suposto os professores tratarem, com obscena celeridade, assuntos prolixos, complexos, controversos e melindrosos. O processo labiríntico, kafkiano e desonesto de avaliação de desempenho dos docentes, que penaliza, demasiadas vezes, os melhores, beneficia, amiúde, os piores, e contaminou as escolas com um ambiente tóxico. A prioridade concedida a uma formação de professores escorada somente no dogma contemporâneo da «transição digital» em detrimento da formação científica, que originou a multiplicação de cursos de tecnologia da informação e da comunicação, em muitos casos, desprovidos de interesse prático.  

Vivemos tempos difíceis e, como escreveu Fernando Pessoa, nas vésperas da sua morte, a 30 de novembro de 1935, «Eu não sei o que o amanhã trará». Mas, não tenciono votar, no dia 30 de janeiro de 2022, num partido político que enfatizou, nos seus discursos, a defesa do progresso da escola democrática e inclusiva. Contudo, dirigiu um Ministério da Educação que fez regredir a escola pública, depreciou o conhecimento científico no processo educativo, sobrestimou a formação digital dos professores que trabalham em escolas repletas de salas primitivas (e não «salas do futuro») sem internet e guarnecidas com computadores e projetores obsoletos e danificados, acirrou a indisciplina dos alunos, desconsiderou os problemas das escolas e dos seus alunos e professores durante o confinamento pandémico, burocratizou e abastardou a avaliação dos alunos, perverteu a avaliação dos professores e tornou o seu trabalho menos exultante e mais exasperante.  

Luís Filipe Torgal  

 

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