“Viver para a escola”, a vã tentativa de “glorificação” pelo trabalho…

 

“Viver para a escola”, expressão tantas vezes utilizada, por tantos…

O que significa “viver para a escola”?

Significa que alguém absolutamente dedicado, e de forma abnegada, prescinde de ter vida própria em função da escola?

Significa que alguém faz sempre o que lhe mandam, sem nunca questionar ou hesitar, estando disposto a passar horas infinitas dentro e fora da escola, muitas vezes sem um propósito claro ou em tarefas de duvidosa pertinência e eficácia?

Significa que alguém manifesta um comportamento dependente, aditivo e compulsivo em relação ao trabalho? Significa que esse comportamento é um reflexo de ser viciado em trabalho ou, se se preferir, que apresenta características e sintomas compatíveis com a designação de “workaholic”?

 Ser viciado em trabalho surge, quase sempre, como uma necessidade permanente de procurar notoriedade e reconhecimento social, traduzidos pela busca incessante e contínua em ser aceite, respeitado e aprovado pelos outros… Convencer os outros de que se é muito competente importa, e muito…

 Como qualquer comportamento aditivo, esconde, muitas vezes, um défice de inteligência emocional, patente na dificuldade em tolerar afectos e gera, quase sempre, ansiedade e frustração, numa espécie de manifestação da síndrome de abstinência, motivada pela privação, quando, por qualquer motivo, não é possível a dedicação ao trabalho; costuma ser frequente em personalidades narcísicas com um carácter rígido, actuando defensivamente, com o objectivo de camuflar uma realidade interior sublimada e angustiada…

 O vício em trabalho surge, quase sempre, como um refúgio e serve, amiúde, como “desculpa” para evitar o investimento emocional e afectivo na família, nos amigos ou no lazer… No âmago, procura-se a fuga ao investimento nas relações interpessoais…

 “Viver para a escola” também pode ser visto como um vício em trabalho. E pode tornar-se numa espécie de “prisão”, claustrofóbica, “asfixiante” e altamente redutora…

 “Viver para a escola” nunca é uma coisa boa.

Nos tempos que correm, a escola é uma entidade muito pouco humanista. E quem procura o reconhecimento institucional do esforço e do investimento pessoal realizados, dificilmente o terá… Não ter a noção disso, é procurar desilusões e criar expectativas irrealistas, que resultam numa implacável frustração…

 Em qualquer caso, “viver para a escola” parece ser, quase sempre, uma opção voluntária de vida porque, e até prova em contrário, ninguém, à partida, é obrigado a fazer essa escolha…

Decorrem daí duas alternativas: ou se assume explicitamente que se vive para a escola e que se está disposto a aceitar todas as vicissitudes daí decorrentes e, sendo assim, não há lugar para a validação de vitimizações, lamentos ou queixas; ou se rejeita liminarmente a possibilidade de tal acontecer, assumindo que há vida para além da escola e que não se abdica dessa prerrogativa…

 Há quem goste de fazer alarde de que “vive para a escola”, parecendo procurar a “glorificação” e o reconhecimento social pelo trabalho. Esses costumam, com alguma ufania, anunciar o seu imenso sacrifício pessoal, atirando-o aos outros como se fosse uma “Medalha por Bravura” exibida na lapela, destinada a atestar a incondicional e irrefutável dedicação a essa causa…

Mas, na escola, só abraça essa causa quem quer e se alguém o faz é por vontade própria. E não será certamente por ingenuidade… Portanto, nessas circunstâncias, não parece válida a existência de feitos heróicos alcançados à custa de sacrifícios pessoais, tornando vã a tentativa de fazer parecer o contrário…

E há Director@s assim? Há… E também há aspirantes a determinados cargos assim… E também há quem mantenha cargos por ser assim…

 Por absurdo que pareça, muitos dos que afirmam “viver para a escola” tendem a considerar que os outros também devem partilhar desse desígnio e alguns chegam mesmo a ver isso como uma obrigação. A explicitação desse desejo aparece, por vezes, sob a forma de afirmações deste género: “se eu vivo para a escola, tu também deves viver!” ou “se eu vivo para a escola, espero que tu também vivas”…

Enfim, mentes patologicamente narcísicas, incapazes de se descentrarem da sua obsessão pelo trabalho e do “culto” da própria personalidade…

Desempenhar funções de forma responsável, diligente, disponível e estabelecer um compromisso com o serviço atribuído, não é o mesmo que “viver para a escola”. Em relação à primeira estão todos obrigados, mas em relação à segunda só está quem quer e quem manifesta essa vontade…

 De uma forma ou de outra, é escusado acalentar ilusões: não há profissionais de educação insubstituíveis, sejam eles docentes ou não docentes, afirmem ou não “viver para a escola”…

Apesar de alguns parecerem ter dificuldade em aceitar e em reconhecer essa inevitabilidade, todos, num determinado momento, podem ser descartáveis, transitórios, efémeros… Em última análise, os únicos impreteríveis serão sempre os alunos…

 Metaforicamente, a escola actual parece uma caixa de maçãs calibradas e normalizadas, todas com muito brilho e apelativas em termos estéticos, mas sem qualquer atractivo em termos de sabor… A escola actual é enganadora e vive de aparências…

E, nesse contexto, ainda se compreende menos a vontade de alguém em “viver para a escola”. Nesse contexto, só “vive para a escola” quem não tem ou quem não quer ter outra coisa para fazer…

 A bem da saúde mental e física, de forma a evitar o esgotamento físico e psicológico, é preciso conseguir “desligar” e procurar o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal… E também é preciso ser corajoso e conseguir, em determinados momentos, dizer “Não!”… 

 Há Vida para além da escola. Tem que haver Vida para além da escola…

 E o modo como cada um gere a sua liberdade de escolha entre assumir que quer “viver para a escola”; permitir que o “obriguem” a “viver para a escola”; ou rejeitar cabalmente “viver para a escola”, depende apenas de si próprio…

 Convém, no entanto, ter em atenção que: “Se não sabes para onde queres ir, qualquer caminho serve”… (afirmação do Gato de Cheshire dirigida à Alice em Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll).

 E, no final, apetece mesmo afirmar: “Get a life!”…

 

(Matilde)

 

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13 comentários

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    • O que falta on 20 de Fevereiro de 2021 at 15:02
    • Responder

    Concordo com a sua opinião.

    Estou cansado destas aves cada vez menos raras que existem no mundo das escolas.

    Também existem aquelas aves, também cada vez menos raras, que são as melhores e as maiores, contudo, é só da boca para fora, pois a realidade é bem diferente.

    Há também aquelas aves cada vez menos raras que não fazem um corno mas participam numas actividades da treta, ou tiram umas fotos ou são amigas de quem interessa ou… A estas aves cada vez menos raras, tudo é tolerado.

    É este o antro que se tornou a escola, pois acredito que é transversal a todas.

    • Atento on 20 de Fevereiro de 2021 at 15:52
    • Responder

    “E há Director@s assim? Há…”
    Tenha dó!!!!
    Os diretor@s vivem para o tacho, os suplementos, as vigarices e agora tb as vacinas. Escola, qual escola?!?!?

    • Roberto Paulo on 20 de Fevereiro de 2021 at 16:34
    • Responder

    Por que razão pessoas anónimas escrevem em casas que não as suas testamentos que constituem colagens de autoria alheia? Necessidade de reconhecimento? Validação social? Personalidade que se contempla nas águas cristalinas? Premência de aborrecer os outros com a sua sapiência reprodutiva?

    • Matilde on 20 de Fevereiro de 2021 at 18:44
    • Responder

    “Eppur si muove”…

    • Alecrom on 20 de Fevereiro de 2021 at 18:47
    • Responder

    Já eu…
    vivo da escola, lol.
    Quékeide fazer!?!?!

    A minha vida é a escola
    Nasci com esta vocação
    Abre a mente estarola
    Docência é missão

      • Meiaidade on 5 de Março de 2021 at 0:17
      • Responder

      Professor não é missão. É PROFISSÃO!!!!!!!!!!

    • Joaquim on 20 de Fevereiro de 2021 at 22:26
    • Responder

    Que tristeza de DIRETORES(AS) existem nas
    nossas escolas….
    Podem viver sossegados quando não conseguiram defender a vida dos seus professores… Tendo eles morrido por Covid-19???
    Será que conseguem dormir??? Podiam ter feito algo… Dizer a verdade aquando das múltiplas infecções que tinham entre alunos e comunidade… E ter batido o pé para qye as escolas fechassem!!!

      • Filipe on 20 de Fevereiro de 2021 at 23:15
      • Responder

      Salazar dormiu sempre descansado.
      Você ainda não percebeu que as escolas são regimes totalitários, porra!
      Ocultaram, mentiram e continuam a fazê-lo em relação às infeções na comunidade escolar.
      Eles, diretor@s, só se preocupam em lamber as botas do dono, para manter os tachos, que este lhes garante, através deste salazarento regime, vitaliciamente.
      Querem lá saber dos professores, se morrerem uns quantos são danos colaterais.
      Acordem, de vez. Vejam o número de professores mortos pela pandemia…mas que só são notícia em surdina….

      • Profs have no name on 20 de Fevereiro de 2021 at 23:25
      • Responder

      “Bater o pé para fechar as escolas”?????
      Então este traste, que furou a fila para ser vacinado, e o Lima não defenderam a manutenção das escolas abertas, no auge da 3.ª vaga, com mais de 10000 infetados dia?!
      Bateram o pé para manter as escolas abertas e infetar muitos zecos, que eles não saíam dos gabinetes.
      Não se informa, sr professor, não lê notícias?

    • Joaquim on 20 de Fevereiro de 2021 at 22:44
    • Responder

    Estou totalmente de acordo com a Matilde.
    Infelizmente a classe de diretores… Deixa muito a desejar. Deviam defender os seus… Evitar que se infetassem nas suas salas de aula… E reportar todos os casos de infetados para que se podessem ter evitado mortes. Conseguem dormir descansados????

    • Rui Manuel Fernandes Ferreira on 20 de Fevereiro de 2021 at 22:57
    • Responder

    Ora aqui está outro bom texto. “Get a life”… and LG (life is good).
    Encontro rapidamente e sem esforço nomes para as características, na minha escola e nas que passei.
    1. Gosto deveras do narcísico, “se eu vivo para a escola, tu também deves viver!”, sempre solícitos, mas apenas para se fazer aquilo que eles querem que se faça, adotando, quase sempre, procedimentos informais, a meio caminho entre o nepotismo e a corrupção;
    2. Também há os que trabalham muito, o problema é quando trabalham mal, tal como aparece no livro “Entre a Cortina e a Vidraça” de Alexandre O’Neill, “Quando o burocrata trabalha é pior do que quando destrabalha”.
    Parabéns Matilde.

    • Filipa Salom Lopes on 21 de Fevereiro de 2021 at 12:12
    • Responder

    Parabéns. Todos deviamos de ler, professores e não professores. Tive um emprego durante oito anos antes de voltar para a área do ensino e era tanto isso.. Porque razão achámos que dizer “não” é o mesmo que não sermos bons profissionais… Porque devemos de viver para o trabalho?! Porque razão deve o trabalho estar primeiro que os nossos filhos, que o nosso tempo ( merecedor) de pausa ?! Tudo é uma aprendizagem e é difícil mudar, mas viver em equílibrio é sempre melhor… Obrigada pelo artigo, fez-me refetir uma vez mais. E espero neste emprego agora como professora não cometer os erros do passado.

    • Meiaidade on 5 de Março de 2021 at 0:25
    • Responder

    Identifico-me com a colega Matilde. Gostava de a conhecer pessoalmente porque eu sou sempre uma ave rara nas escolas por não ter tempo para o extra horário, o “bonito” na fotografia. Enfim… o pior é quando esses viciados na escolinha arrastam os outros e os levam à doença. Sim, isso acontece!

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