Repristinar os conselhos executivos e revogar os diretores
Repristinação: recolocar em vigor lei antiga, revogando a que a revogou. Espero que os leitores não desesperem por escrever sobre administração educacional. E que não fujam já, porque ainda vou falar de intestinos e de colonoscopias.
Tudo para usar a minha metáfora rebuscada sobre os intestinos e os olhos bonitos, roubada do médico que me faz colonoscopias. Nos diagnósticos salienta sempre a qualidade particular das minhas vísceras examinadas. Poupo detalhes. Ele lamenta-se, com um juízo de muitos anos no ramo: toda a gente aprecia olhos bonitos ou pele macia, mas nada disso se mantém saudável e até bonito, com intestinos desgraçados. Valorizo também muito os intestinos e outras vísceras ocultas de apreciações estéticas. Num país barroco, na minha área profissional, só posso ser solidário com o meu médico.
Os vários agentes educativos (aquilo que o nosso ministro deu agora em chamar, sem saber bem porquê, “comunidades educativas”) pelam-se por boas e longas discussões sobre currículo, flexibilidade, avaliação, abandono ou esse graal do sebastianismo educativo, a excelência e o mérito. Coisas bonitas, estimulantes, facilmente filosofáveis, mesmo com pouco conhecimento efetivo.
A fuga do debate é repentina na gestão e administração das escolas. Coisas aborrecidas e intestinais, como processos de gestão escolar, configuração dos órgãos, democraticidade e participação, transparência, organização territorial, limites de mandatos, equilíbrios e “checks and balances”, descentralização, regionalização, poderes de outros entes públicos não estatais (tema popularizado, no folclore dos debates, pela etiqueta “municipalização”), dualidade eleição/nomeações, requisitos para funções e outros. Salva-se, como se diz na minha terra, por dar “muita parra e pouca uva”, o tema “autonomia das escolas”. Todos são pela autonomia, como todas as misses são pela paz no mundo. Também é tema facilmente filosofável, mesmo sem substância efetiva. Basta lerem os preâmbulos das leis vigentes sobre gestão escolar. Lá terei intestinos fortes, mas tenho pouco estômago para tanta hipocrisia.
Para Kant, autonomia era outro nome para Liberdade. E, claramente, muito proclamada, a autonomia decaiu, nas escolas, no uso cínico. Serve só para coartar a liberdade das escolas e do exercício profissional dos docentes.
As escolas são, cada vez mais, um território sem Lei, com poderes ilimitados de pequenos senhores feudais, sem instâncias de recurso, internas ou hierárquicas. A arbitrariedade é desregrada, mesmo se autoritária.
Essencial para regenerar as escolas é repristinar o Decreto-Lei de autonomia e gestão de 98 e revogar o Decreto-Lei 75/2008 (alterado, mas que vigora na essência). Saía o instrumento de Lurdes Rodrigues para domar professores e que instituiu o caciquismo feudal e repristinava-se o Decreto-Lei 115-A/98 para voltar a Conselhos Executivos e Pedagógicos com perfil participativo. Acabava o “modelo do Senhor Diretor” a estagnar-se, a si e à escola, até 16 anos sem mais limite ou com dois mandatos seguidos, sem nova eleição pelo meio.
Imaginem se, nas autárquicas, os presidentes não fossem a votos e um pseudo-conclave decidisse que nem ia haver eleições ou possibilidade de outros candidatos. Era inconstitucional. Pois era. Mas passa-se nas escolas.
Afirmo sem dúvidas: debater a gestão das escolas é muito mais importante que o “perfil do aluno para o século XXV” ou outros debates populares. O motor do carro e sua afinação são mais importantes que a cor ou tamanho da meta para onde vai correr.
É difícil fazer o consenso entre políticos, que não estudaram realmente as matérias e que acham que sabem, porque fazem analogias às empresas (que não se aplicam) ou se perdem no vago, mas poético, mito da Autonomia (tão bom, como se vê na pandemia, para descarregar problemas incómodos). Um dos mais ilustres investigadores portugueses desta área, o Professor Licínio Lima (da Universidade do Minho) refere que é preciso ver de que Autonomia se está mesmo a falar. Para mim, já não temos realmente “autonomia das escolas”, mas sim “autonomia dos diretores”. O presidente da mais faladora associação dos diretores fala e os jornais dizem “as escolas falaram, na sua autonomia”. Mito e mau trabalho jornalístico, mas que serve ao poder.
E, por isso, venha a repristinação. A lei de 1998 tinha defeitos, mas evitava a tirania subtil de pequenos poderes, que já se instalou. Temos de mudar com urgência: é muita energia gasta sem fruto e muito conhecimento das escolas a ser desperdiçado.




25 comentários
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Concordo plenamente!
Mas nao era preciso meter a colonocospia no texto. Que merda de texto, com isso.
É verdade… mas um governo autocrata d aldrabões também não será um bom exemplo… e não sendo um bom exemplo, este virus bastante contagioso pega-se… trata-se de valores… valores de bolso e de prepotência, muitas vezes, de gente medíocre.
Não há que deixar passar ao esquecimento. Entre os assuntos que mais têm marcado a Educação pela negativa este é, sem sombra de dúvida, o mais preocupante. A cabeça do monstro.
100% de acordo.
São o cancro das escolas.
absolutamente de acordo!
Ora aqui está o busílis de toda a questão!!!! Concordo totalmente! Nada mais democrático, que envolve e responsabiliza, do que os órgãos dirigentes serem eleitos por eleições. As escolas são tudo menos democráticas e vivemos num ambiente em que é preciso ter-se sorte na escola em que se trabalha… muito triste, deprimente, terceiro-mundista!
E a tão proclamada autonomia é dividir para reinar, um saco muito grande e sem fundo para esconder incompetência de todos os intervenientes. Após 32 anos de serviço, é uma vergonha ver ao que se chegou…
Excelente texto! Lúcida análise.
Voltem Conselhos Executivos! Estão perdoados!
👏👏 👏
Bem sabe, caro colega, que se a democracia regressasse às escolas os atuais comissários políticos nem uma dúzia de subscritores para a sua candidatura conseguiriam. Por isso estão mais agarrados a este regime do que Salazar ao fascismo. Aliás, estão para o ME como a PIDE estava para o outro.
Mudança? Infelizmente, só com outro 25 de abril.
As escolas vivem em regime absolutista, ditadura, clientelismo, é preciso mudar e já!
Nas escolas, a democracia fica à porta. Corrupção, mesquinhez, incompetência, ignorância, autoritarismo, ditadura, cinismo, hipocrisia. Tudo o que não presta. O grande modelo criado e fomentado pela grande Lurdes Rodrigues, a tal que só quer avaliação para os outros.
Com o alto patrocínio do BE e PCP.
Os mentirosos do BE comprometeram-se há 7 anos (até por escrito!!!!!) com uma proposta de modelo de gestão democrático… ainda estamos à espera!!!
São iguais ao Chega.
Se não são fascistas são estalinistas. Iguais.
Subscrevo inteiramente. Assiste-se em muitas escolas a uma ditadura mascarada de democracia. São feudos ocupada por gente ao serviço do autoritarismo, dos amigos
Eu também tenho saudades dos tempos em que havia eleições para as direções das escolas.
Este é também um bom tema para encetar uma petição pública, para que o assunto seja discutido na Assembleia da República.
Não se esqueçam que a petição pela eliminação de quotas para acesso aos 5.º e 7.º escalões só surgiu quando a “mostarda” chegou aos diretores…
Luís Braga, pense na petição… não poderemos contar com todos….
Concordo.
Luís Braga, vamos a isso.
Não podemos contar nem com os sindicatos nem com a maioria dos bloggers…vivem no ou à sombra do regime.
Pelo número de comentários na caixa (o mais elevado dos últimos tempos) vê-se como é importante para os professores.
Não posso deixar de aplaudir este artigo e o assunto do mesmo.
É urgente que o modelo de gestão das escolas volte a ser democrático, já que vivemos num país democrático. Órgãos eleitos por toda a comunidade educativa será uma mais-valia para salvar o que resta da educação. Outro aspecto que considero ser uma mais-valia para o sucesso educativo é desvincular as escolas secundárias de agrupamentos. Não funciona. Antes, quando as secundárias estavam à parte, isto tinha influência na mentalidade dos jovens e até dos pais/ encarregados de educação. O passar de uma escola básica para uma secundária (mudança de edifício, mudança de professores, mudança de colegas, mudança de assistentes operacionais) criava na consciência e na mentalidade dos jovens uma responsabilidade e uma atitude perante a escola diferente daquela que existe hoje, pois hoje apenas mudam, nem sempre, de sala de aula (passam da sala 9 para a sala 11), os professores continuam os mesmos (o que é deveras errado) pois existem ideias pré-concebidas sobre o desempenho do aluno no 3.º ciclo que podem não corresponder a um ciclo secundário. Ou seja e resumindo e tal como o próprio nome indica “secundário” deveria de cortar laços de proximidade com o 3.º ciclo, só desta forma é que se consegue uma parte do sucesso educativo e fazer sentir aos alunos que estão mais próximos de um ensino superior ou da vida profissional ativa do que de um ensino básico.
Existe a necessidade de mudança:
– mudança de modelos de gestão;
– mudança de repensar o modelo de agrupamentos;
– mudança para não deixar na mãos dos diretores, alguns que nunca estiveram mais do que 1 ano a frequentar uma sala de aula, questões fundamentais para uma educação a sério, que desconhecem a operacionalização de como levar uma escola a sério, sem medos de pais/ encarregados de educação, sem medo dos alunos, porque quando o medo aperta levantam processos disciplinares a docentes mais experientes e até que sabem mais do que eles;
– mudança para operacionalização de questões éticas.
Só faltou dizer :
– Luís Braga avance com a petição, que muita gente irá assinar. Porque a maioria dos docentes estão cansados de diretores, conselhos gerais,…!!!!!!!!!
Se faltou eu digo, AVANCE Luís Braga.
Eu assino.
Mas uma grande parte (maioritária) dos atuais diretores(as) eram os presidentes do CE!!!! Como é que isso seria uma melhoria????
Hitler também chegou ao poder em eleições…
Quer que faça um desenho, sr comissário político, peço desculpa, sr. Diretor ? Ou deveria dizer sr. kapo?
Sim, mamsm, é verdade, os atuais diretores eram os presidentes do CE. Estamos de acordo, a m_r_a é a mesma. O problema não é esse, é que a m_r_a do diretor tem mais competências e não é colocado pelos professores, percebeu agora?
Na Assembleia da República: https://www.parlamento.pt/sites/COM/Paginas/DetalheNoticia.aspx?BID=12566