Professora a naufragar

 

Acredito que os dedos do meu corpinho devem chegar para contar o número de alunos portugueses que, a priori, gostam de estudar. É que ir para a escola socializar é uma coisa. Estar na sala de aula, primeiro, a aprender a ouvir, segundo, a aprender a esperar e, terceiro, a aprender, é outra completamente diferente. É claro que, depois de lá estarem dentro, até acham piada a isto ou aquilo. Mas são situações pontuais.

Agora, imagine-se, com o confinamento, as intrujices que eles não inventam para não terem aulas. Ainda, por cima e, literalmente, eles não têm de dar a cara!

Por enquanto, cheguei à conclusão de que, na área onde leciono, tirando aqueles que estão presentes durante toda a aula, ou porque são a exceção à regra ou porque a mãe (normalmente é ela) os obriga, os alunos podem ser divididos em grupos:

os atrasados – aqueles que nunca eram pontuais e que, mesmo em casa, continuam a aceder tarde às aulas;

os jogadores alucinados – aqueles que estão a utilizar dois dispositivos eletrónicos em simultâneo  (um fica solitariamente online enquanto o outro é vítima de ultrajantes investidas até que o próximo nível do Fortnite seja atingido), acreditando que o professor não percebe que não estão a acompanhar a aula;

os atletas de salto em comprimento – aqueles que cumprimentam no início e se despedem no final, pois foram esses os momentos em que estiveram na aula;

os incontinentes  – aqueles que se ausentam intermitentemente,  supostamente para irem ao quarto de banho;

os discretos – aqueles que estão sempre lá, quer dizer, não entram, mas  também não saem, para não sabermos se estão ou se não estão;

os esquecidos  – aqueles que estão sempre online, de tal modo que assim continuam muito depois de a aula terminar, porque não estavam lá, claro!

Provavelmente, a pergunta que mais temos feito nestes últimos dias é “Estão m’a ouvir?”/ “Estás m’a ouvir?”, na falsa ilusão de que vai ser “hoje” que os todos os alunos vão efetivamente estar. E também é provável que o feedback mais recorrente que temos ouvido seja “Não sei.”, “Pode repetir a pergunta?”, “Eu estava a ouvir. Só não entendi a pergunta.”, “Eu concordo com ele.” e “Pode repetir? É que fiquei sem net.”. Deveras frustrante.

Ainda assim, insisto em remar contra a maré, fazendo um esforço hercúleo para que os alunos estejam na aula e aprendam qualquer coisinha, quase como quem pede uma esmola, mas, ao meu redor, só vejo inércia, cobardia, desculpas esfarrapadas, a desculpa do “coitadinhos”.

O governo empurra com a barriga os seus deveres até passar a pasta ao próximo e, entretanto, não assume os seus erros e procura um bode expiatório para o que está e estará mal no ensino neste contexto pandémico. Muitos dos pais demitem-se das suas funções e amparam o jogo dos meninos, porque é mais cómodo e, assim, eles já não os chateiam. E alguns diretores de turma, cheios de benevolência (o que até entendo, devido ao contexto familiar e socioeconómico de alguns adolescentes), afirmam, em muitos casos, que, salvo seja, põem a mão no fogo pela veracidade das palavras destes alunos.

Ainda não consegui entender muito bem é porque é que a rede quase nunca falha no início e no fim das aulas, sabem, quando eles dizem “Olá” e “Adeus”, não me marque falta.

Em resumo, sinto-me um navio a naufragar.

Teresa

 

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8 comentários

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    • jose on 17 de Fevereiro de 2021 at 11:54
    • Responder

    Alternativa? Em vez da eterna choradeira.

      • Apache on 17 de Fevereiro de 2021 at 12:48
      • Responder

      Alternativa? Isso não é função de quem trabalha no ministério da educação? Ou é só levar o dinheiro dos meus impostos? A função do professor é ensinar, não é pensar em alternativas.

      • Rui Manuel Fernandes Ferreira on 17 de Fevereiro de 2021 at 16:04
      • Responder

      Onde viu a choradeira no texto “jose”? O texto exprime uma vivência particular daquilo que se está a passar.
      E a choradeira é eterna porquê “jose”? Conhece a Teresa e sabe que ela anda sempre a chorar, é isso?
      Por fim, como gosto eu de ouvir alguém que reside intelectualmente na parte fina do funil dizer: “Alternativa?”
      A resposta é simples e histórica, a gestão efetiva do ensino presencial desde o arranque do ano letivo. Caso tivesse acontecido não se estava hoje em ensino remoto de emergência.

      • KT on 17 de Fevereiro de 2021 at 16:30
      • Responder

      E, já agora, qual a alternativa que o/a jose sugere à Teresa?

    • Maria on 17 de Fevereiro de 2021 at 14:31
    • Responder

    Concordo em tudo mas tudo mesmo que é descrito no texto. É de se perder a cabeça com alunos que são já agora uma imbecilidade, não querem, não se interessam e tentam fazer dos professores uns “tontos” que não se aperceberão do faz de conta dos próprios. Logo, são imbecis, burros e fraudulentos. Mas o ME na figura do Ministro que nem sei se existe, quer mesmo isso… É só pensarmos no atafulhamento de medidas e mais medidas para que os alunos façam alguma coisa. Escusado será dizer que sobra sempre para os mesmos que são os Professores. Só não encontro medidas para a preguiça, a inércia, o sono (porque alguns perdem horas de sono a jogar no telemóvel). Não haverá nada que motive alunos assim… Vão transitando e serão os engºs, advogados e outras classes de amanhã… Que medo!!!!

    • Naufragado on 17 de Fevereiro de 2021 at 16:01
    • Responder

    Muito bom texto e boas verdades!
    Para fazerem m*** com os computadores que paguei com os meus impostos é que não falha a rede!

    Hoje em dia o ensino só serve para propagandas políticas pois á verdade é que nas escolas reina a podridão e o engano. Doa a quem doer, a escola dos nossos dias é uma corrupção pegada!

    • Zé Maluco on 18 de Fevereiro de 2021 at 14:32
    • Responder

    Texto muito intelectual. Pelo que percebi, os professores são contra as aulas à distância. Resta saber, se em contexto pandémico descontrolado (Janeiro…), também eram contra as aulas presenciais. É que se assim for, parece-me mais uma questão de se ser contra tudo e contra todos, seja lá o que for.

      • Rui Manuel Fernandes Ferreira on 18 de Fevereiro de 2021 at 20:58
      • Responder

      Comentário mais medíocre. Duas premissas falsas e um raciocínio a roçar a deficiência.

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