Carta aberta dos professores desconfinados à força

 

Carta aberta dos professores desconfinados à força, ao ministro em funcões da Educação
Ex. mo Senhor Secretário de Estado da Educação Doutor João Costa
As cartas abertas são normalmente documentos muito longos, cheios de considerandos. Esta vai ser curta. E centrada em perguntas que urge que o Governo responda.
Todos sabemos que o ministro da educação formal tem nula capacidade de ação política e, tendo sido desmentido em público pelo Primeiro Ministro, não teve a percepção do que isso significa na dimensão pública do exercício do poder.
O “ministro em funções” é assim V. Exa., como é visível há anos.
Os considerandos não fazem falta para que conheça o problema que V. Exa. domina bem.
A lei, que o governo de que faz parte, publicou e impôs e que vincula todos os trabalhadores, diz que os meios para o teletrabalho, obrigatório em virtude do confinamento obrigatório, são fornecidos pelo empregador.
O ministério da educação não está a cumprir, tal lei em relação aos professores, que estão a ser coagidos a ceder os seus equipamentos, para poder trabalhar e ficar em casa, sem que o ministério peça o seu consentimento, como a lei exige ou sequer compense tal uso coativo.
A coação concretiza-se na imposição, para um trabalho que pode ser feito em teletrabalho, da deslocação ao local de trabalho.
Sentados em salas de aula, em frente a câmaras e equipamentos decrépitos, os professores sem computador vão realizar “teletrabalho no local de trabalho”, um absurdo linguístico, além de um absurdo sanitário.
Ficam então as perguntas que exigem resposta:
1. Se o melhor para a saúde é ficar em casa, porque manda o ministério da educação centenas de trabalhadores seus, dito de forma simples, “apanhar covid”, só porque não tem para ceder, ou se recusam a ceder, gratuitamente computadores e outros equipamentos para ficarem em casa a trabalhar?
2.São os professores cidadãos de segunda?
3.E tanta preocupação com a desigualdade e, no caso dos professores com filhos (ou que só têm recursos para 1 computador para a família toda, para continuarem a trabalhar) porque é que o seu “patrão” não cumpre a lei e não lhes entrega material para trabalhar, para que não tenham de escolher entre o estudo dos filhos e o trabalho?
A pandemia coloca muitas questões ao futuro. Neste caso resumem-se em mais quatro e bem simples, que no meio da confusão noticiosa o Governo tenta ocultar, porque talvez as respostas nos digam muito sobre o estado a que deixamos como comunidade política, chegar o pais:
1. Porque não cumpre o Governo a lei que fez para os privados e restante setor público?
2. São os professores trabalhadores de segunda, para quem “ficar em casa” não interessa, porque a sua saúde vale menos que a dos outros cidadãos?
3. Se algum dos professores desconfinados à força aparecer doente com covid quem assume a responsabilidade? Ou, como em tudo o resto, a culpa vai ser dos próprios?
4. Porque é que o governo coage os professores a uma exceção ao confinamento obrigatório?
Aguardando as respostas, com alguma expetativa, como é normal em quem é obrigado, sem necessidade e contra a lei geral, a arriscar a saúde no meio de uma pandemia global,
Apresentamos a V. Exa. os mais respeitosos cumprimentos.
Um grupo de professores desconfinados à força

 

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10 comentários

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    • Ricardo Pereira on 4 de Fevereiro de 2021 at 14:25
    • Responder

    Email do senhor Doutor João Costa gabinete.seaedu@medu.gov.pt

    • lena on 4 de Fevereiro de 2021 at 16:08
    • Responder

    o governo multa empresas que nao estao em teletrabalho e tem coondicoes para o estar

    o governo multa as escolas?

    • Manuel Silva on 4 de Fevereiro de 2021 at 16:20
    • Responder

    Ao grupo de professores desconfinados à força (não quiseram assinar a carta, curioso manter-se no anonimato…mas é fácil perceber).
    As vossas reivindicações não vos correram de feição “não disponibilizarei o meu computador pessoal para as aulas online…o governo terá se me pedir consentimento e quiçá restituir até o prejuízo causado, pelo uso indevido de um bem privado.” O Ministro esqueceu-se de tal obséquio e Vossas excelências são “obrigadas a desconfinar”…correndo o risco de serem “apanhadas pelo bicho”.
    Ora, não envergonhem mais a classe docente, ou pelo menos a grande parte, que não se revê nessas atitudes medíocres…é por isso que aos olhos da generalidade da população o descrédito da classe docente tem aumentado.
    Já pensaram se todos os pais que tem 2 ou mais filhos no escalão A, por isso não tem acesso a equipamentos emprestados/fornecidos pela escola, também fizessem uma “birrinha” dessas! Exigir ao Estado equipamentos para todos os alunos, sem exceções!
    Milhares de famílias disponibilizam os seus bens pessoais para que os filhos possam ter aulas online e, à conta do confinamento, já comprei 2 computadores em 2ª mão, para garantir que os meus filhos consigam passar esta etapa o melhor possível…por acaso eu até pude comprar os equipamentos, haverá com certeza muitas famílias que não o poderão fazer.
    Agora, falarei da minha própria experiência que deverá ser similar a centenas ou milhares de portugueses, estou em teletrabalho uso os meus equipamentos pessoas e, tal como vocês, não fui obrigado porque me deram alternativa: consistia era fazer horário em espelho…sair de casa muito cedo, ou regressar muito tarde, por isso fiz a opção de trabalhar a partir de casa e tomar conta dos meus filhos. E vocês não fizeram também a Vossa opção? Bom senso precisa-se!

    • salsera on 4 de Fevereiro de 2021 at 16:49
    • Responder

    Manuel Silva, é professor? Não é, como se constatou. Quem é o senhor para falar em nome dos professores se nem é docente???Uma coisa é os pais, encarregados de educação terem ou não condições para o ensino à distância (sabemos que há vários encarregados de educação que se estão a dar ao luxo de não aceitar os equipamentos que foram cedidos , porque são para devolver no final do ano letivo!!) Outra, é haver uma lei que foi aprovada pelo governo em relação ao teletrabalho, mas que, pelos vistos não se aplica aos professores!!

    O senhor tomou a decisão de trabalhar a partir de casa, a usar os seus equipamentos…Parece que a sua empresa ou está a violar a lei ou o senhor está a omitir em que termos fez o acordo com a sua empresa.

    Lutar pelos direitos não são birras, mas uma lição de cidadania que o senhor pelos vistos desconhece.

    Uma professora a trabalhar a partir de casa, e mais uma vez a usar os seus equipamentos.

    • Fátima on 4 de Fevereiro de 2021 at 18:43
    • Responder

    Acresce dizer, e os professores de educação especial, que a lei do E&D obriga a ir para a escola por causa dos alunos de medidas seletivas e adicionais!!! Estes serão imunes?!

    • Pedro Lopes on 4 de Fevereiro de 2021 at 18:57
    • Responder

    É uma vergonha (já pré-covid) não existirem portáteis (1 para cada professor) nas escolas. Diria que é uma ferramenta bem mais importante que o manual adoptado da disciplina e, por isso, à semelhança de muitas outras profissões deveria ser uma ferramenta paga pelo Ministério da Educação e disponibilizada a todos os professores. Disso não tenho dúvida.

    Agora, a questão que se coloca, é que há muitos colegas na minha situação que, passo a explicar e, já sei que alguns colegas não vão gostar de ler !

    Com o ensino remoto, poupo cerca de 25 horas mensais em viagens acrescido de cerca de 150€ para combustível e portagens. Neste sentido, estou-me nas tintas para o uso do meu PC pessoal e da minha net.

    Repito, mesmo sem COVID já devíamos ter portáteis há muito tempo.

      • pretor on 4 de Fevereiro de 2021 at 19:42
      • Responder

      Quanto vais gastar a mais em aquecimento?
      E em água?luz?gás? Se não chegar aos 150€ fica lá perto.
      E se vivesses perto da escola , indo a pé? Já não tinhas argumento?

      Essa do €€€ gastos em gasolina é só parvo.

      PC para professores deveria ser inerente. Seja em hardware, seja em complemento salarial seja em bônus no IRS.

    • Pedro Lopes on 4 de Fevereiro de 2021 at 20:10
    • Responder

    É o que é… Parvo para ti! Compreendo em parte a tua análise. Para mim, parvoíce é verificar que a maioria dos professores, mesmo sem condições, não fizeram greve!
    Por exemplo, na última que teve lugar em novembro tive a sensação que fui o único a aderir no País! Isso é que ser parvoíce para mim.
    Muita saúde para todos.

      • Alberto Miranda on 5 de Fevereiro de 2021 at 13:48
      • Responder

      Tem razão colega. Sou o único no meu agrupamento que faz greve às reuniões que não estão contempladas no horário docente.

      • salsera on 12 de Fevereiro de 2021 at 18:47
      • Responder

      Tem toda a razão colega…Também eu me sinto sempre sozinha a fazer as greves – na última fui a única da minha escola que fiz.
      Temos vários problemas hoje em dia, mas alguns já não são de agora. Começaram no tempo da troika, em que a ideia que passava era que os professores, e todos os que mantinham o trabalho, se deviam sentir agradecidos por isso, e não andar a pensar em reivindicações ou revoltas, quando muitos perderam o trabalho. Isto chama-se nivelar por baixo.

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